Nadal ainda procura seu jogo
Por José Nilton Dalcim
22 de abril de 2021 às 18:22

Está longe de ser um drama quando se pensa no objetivo maior lá na frente, mas é evidente que Rafael Nadal vive dificuldades para reencontrar a forma ideal de jogar sobre o saibro. O que não deixa de ser surpreendente.

Em Barcelona, que é um piso teoricamente perfeito para ele por ser mais veloz como explicam seus incríveis 11 títulos, ele fez duas primeiras apresentações um tanto deficitárias, ainda que jamais tenha corrido qualquer risco de derrota.

Ficou muito defensivo diante do bielorrusso de pouco currículo Ilya Ivashka até por fim conseguir impor seu jogo mais sólido e sofreu intensos altos e baixos frente a Kei Nishikori, saindo de um ‘pneu’ para um buraco enorme, que quase lhe custou também uma quebra logo na abertura do terceiro set.

Está bem claro que seu maior problema ainda é o saque. Por vezes, funciona a contento e deixa a quadra aberta para concluir rapidamente o ponto. Mas o índice de acerto do primeiro serviço continua baixo e ainda aparecem as duplas faltas. Isso não seria um tormento se não tirasse também sua confiança no forehand, o golpe mais importante do seu arsenal.

Incomodou vê-lo perder games nesta quinta-feira para um Kei Nishikori que sacou quase metade do jogo a menos de 150 km/h, sinal de que o espanhol ainda está preso nas devoluções. No entanto, mesmo sem ser brilhante. continua muito superior à maioria dos que se aventuram no saibro e assim deve ser diante do também canhoto Cameron Norrie, um jogador de backhand instável. Rafa no entanto terá de melhorar caso cruze com Diego Schwartzman na semi.

O outro lado da chave tem quatro jovens concorrendo à final, o que não deixa de ser ótima notícia. Campeão em Monte Carlo no domingo, Stefanos Tsitsipas tem o favoritismo natural e será desafiado por Felix Aliassime, contra quem tem 3 a 3 nos duelos diretos porém com vitórias nos três últimos. Um excelente teste para ver se o novo pupilo de Toni Nadal pode voltar a jogar bem no saibro.

Não menos interessante será o choque entre Andrey Rublev e Jannik Sinner, basicamente sem histórico. Os dois se enfrentaram no sintético coberto de Viena há seis meses, mas o italiano abandonou antes do quarto game por lesão. O piso um pouco mais veloz tende a favorecer ligeiramente o russo, já que bate mais forte em todos os golpes e nenhum dos dois possui a variação como principal predicado.

Enquanto isso, em Belgrado, Novak Djokovic fez uma ótima estreia diante de um adversário sem jeito para a terra batida e terá pela frente o jovem compatriota Miomir Kecmanovic. Vale a pena observar o garoto de 21 anos, que não é dos mais badalados mas possui um belo tênis. Recomendo ainda o duelo entre Matteo Berrettini e Filip Krajinovic, que podem muito bem decidir aí o finalista do lado inferior da chave.

E para quem gosta de tênis feminino, um prato cheio nas quartas de final de Stuttgart. Ashleigh Barty-Karolina Pliskova e Elina Svitona-Petra Kvitova exibem padrões táticos e técnicos muito distintos. Aryna Sabalenka-Anett Kontaveit e Simona Halep-Ekaterina Alexandrova estão do outro lado da chave.

Os melhores do ano
Por José Nilton Dalcim
18 de abril de 2021 às 21:17

Quem diria, a fase europeia de saibro deu largada com o favoritismo natural dos velhos heróis, mas, ao fim de oito dias de interessantes batalhas e consideráveis surpresas, colocou dois nomes da nova geração no topo do ranking da temporada.

O campeão Stefanos Tsitsipas é agora o tenista mais bem pontuado de 2021, 140 pontos à frente do cada vez mais confiante Andrey Rublev. Deixaram para trás o número 1 do ranking tradicional, Novak Djokovic, que aliás não conseguirá recuperar o posto nem mesmo com o eventual título em Belgrado.

Jogador de muitos recursos, a lista de seis troféus do grego inclui agora o Finals de Londres, na quadra dura coberta, e o Masters de Monte Carlo, no saibro lento e úmido. Seus outros títulos são de nível 250, mas ele já fez outras duas decisões em nível Masters, no saibro rápido de Madri e no sintético mediano do Canadá, sem falar dos vices nos 500 de Barcelona,  Acapulco, Dubai, Pequim e Hamburgo. É um currículo respeitável para seus 22 anos.

É bem verdade que a trajetória da semana no Principado foi menos espetacular do que a de Rublev. AInda assim, teve vitórias impecáveis sobre Aslan Karatsev e Cristian Garin, antes de se favorecer do abandono de Alejandro Davidovich e ver Daniel Evans sem pernas.

Seu ligeiro favoritismo sobre Rublev vinha justamente do esforço muito maior que o russo fez para chegar na final, com  batalhas notáveis em cima de Roberto Bautista e Rafael Nadal antes de dois sets também exigentes frente a Casper Ruud.

Confesso que é um tanto frustrante ver o homem que parou Rafa não levar o título, porque talvez fosse o resultado mais justo. Porém, Rublev não teve jogo de cintura para achar uma forma de segurar Tsitsipas. O grego entrou muito firme e agressivo, dando pouco espaço para o conhecidíssimo adversário – duelam desde os tempos de juvenil – disparar seus poderosos golpes de base. Stef sufocou, variou, se antecipou. E o placar mostra de forma cristalina a diferença entre os dois neste domingo.

Gostei também de ver que os dois confirmaram presença em Barcelona, mostra de que não estão acomodados. E podem se cruzar de novo, mas agora na semi. Em Barcelona, o piso é um pouco mais veloz e exigerá adaptações. O grego pode ter maior dificuldade diante de Denis Shapovalov ou Felix Aliassime e Rublev tem no caminho o mesmo Bautista ou Jannik Sinner.

Se mantiverem o alto padrão de Monte Carlo, Tsitsipas e Rublev terão assim chance de desafiar Nadal na decisão. O espanhol buscará o 12º troféu e a recuperação. Vê no seu setor especialistas como Garin, David Goffin, Diego Schwartzman ou Fabio Fognini, o que tende a exigir o máximo de sua competência.

Djokovic, por sua vez, é o dono da casa em Belgrado e sua missão de manter o amplo favoritismo parece bem menos trabalhosa, ainda que tenha Karatsev numa possível semi e veja Matteo Berretini e o amigo Dusan Lajovic do outro lado da chave.

Por um triz
Surpreendente e animadora campanha das meninas brasileiras na repescagem da antiga Fed Cup, agora chamada de Billie Jean King Cup. Elas tiveram de encarar um piso sintético coberto na Polônia, mas gostaram de ver que a quadra não estava tão veloz assim e com isso tiveram excelentes atuações, principalmente se consideramos que Carol Meligeni e Laura Pigossi estavam jogando no saibro. Cada uma venceu um jogo de simples e a definição foi para as duplas, onde entrou a experiência de Luísa Stefani ao lado de Carol. Venceram com autoridade o primeiro set e lutaram ponto a ponto no terceiro, antes de enfim caírem.

É provável que a presença de Bia Haddad tivesse dado ainda mais volume de jogo ao time brasileiro, que tentava vaga no qualificatório do Grupo Mundial, em fevereiro. Mas a ausência da nossa tenista mais experiente teve seu lado positivo, porque deu espaço para Carol e Pigossi brilharem. Quem acompanhou as partidas pode ver falhas, é claro, mas um incrível espírito de luta e de união. Isso certamente fará muito bem a elas na dura retomada do circuito tradicional, onde ainda tentam furar a faixa de top 200 para aventuras maiores.

P.S.: Peço desculpas pelo atraso na publicação do texto, mas houve instabilidade no servidor até que enfim o texto conseguiu ser publicado.

Rublev garante mais renovação
Por José Nilton Dalcim
16 de abril de 2021 às 18:36

Um dia depois de ser sacudido pela inesperada queda do número 1 do mundo para um adversário de parco currículo no saibro, Monte Carlo assistiu ao domínio do tênis-força do russo Andrey Rublev sobre o multicampeão Rafael Nadal, justamente na mesma lenta quadra principal em que o canhoto espanhol ergueu seus 11 troféus. Foi na verdade a segunda decepção seguida de Rafa no Principado, já que em 2019 parou em dois sets frente ao eventual campeão Fabio Fognini.

Tal qual Novak Djokovic, o cabeça 2 viveu um dia difícil em primeiro lugar por conta de sua própria ineficiência. O saque funcionou muito pouco e isso permitiu que Rublev buscasse sempre o domínio dos pontos com seus espetaculares golpes de base. Pressionado o tempo todo, Nadal cometia erros com o backhand – gráfico da ATP mostra que 65% dos forehands do russo foram cruzados – e ficou à mercê de uma derrota ainda mais acachapante, visto que Rublev ficou pertinho de abrir 6/2, 4/1 com saque.

Curioso é que Rublev, ao invés de festejar o grande feito, preocupou-se em desculpar Nadal, lembrando antes de tudo que o espanhol joga sob enorme pressão no saibro europeu, como se fosse obrigado a vencer tudo e não tivesse o direto a um mau dia. Humilde, o russo admitiu que o adversário não jogou seu melhor, mas deu ênfase à forma com que segurou a cabeça. “Parecia irreal que eu tivesse 6/1, 3/1 e break-point”, disparou. Ele ainda chegou a fazer 4/2, teve bolas confortáveis para manter a vantagem, porém abriu mínima janela para o incansável Rafa e aí perdeu quatro games seguidos e o set. “Não podia mostrar emoções depois de perder o segundo set, e essa foi a chave. Controlei muito bem os nervos nesta semana”, ratificou, com toda a razão.

Para mostrar como o tênis é complexo, Rublev forçou muito mais da base, no entanto saiu com menos winners (23 a 25) e erros (28 a 36). Fato marcante, ganhou 23 dos 39 lances acima de nove trocas. Nadal perdeu sete vezes o serviço e cometeu sete duplas faltas, o que ainda não foi seu recorde pessoal (fez oito em Indian Wells de 2014). E olhem que coisa: Rublev também surpreendeu Roger Federer em Cincinnati dois anos atrás, torneio em que o suíço detém o recorde de sete conquistas. Este foi a terceira vitória do russo sobre um top 3, incluindo Dominic Thiem.

Seu desafio agora é a recuperação física, uma vez que vem de duas notáveis batalhas seguidas de grande tensão, como aconteceu diante de Roberto Bautista na véspera. Enfrentará o também jovem norueguês Casper Ruud, de 22 anos, que tirou Fognini numa atuação firme, em que combinou com muita eficiência o binômio saque-forehand. O italiano vinha bem até ter 40-15 para empatar tudo no 10º game, mas saiu repentinamente de jogo e ficou próximo de levar 4/0 no segundo set. Certamente, deve ter lembrado das incríveis viradas obtidas há dois anos, mas não foi desta vez. Ruud perdeu os três duelos diante de Rublev,

Backhans de uma mão duelam
A outra semifinal de Monte Carlo verá confronto entre backhands de uma mão, coisa pouco comum no saibro lento desde a final entre Federer e Stan Wawrinka de 2014. O grego Stefanos Tsitsipas surge agora como o mais gabaritado dos quatro postulantes ao título – é sua sexta semi de Masters, a terceira seguida que faz no saibro – e certamente estará muito mais inteiro do que o britânico Daniel Evans, que ainda por cima jogará também a semi de duplas.

Um dia depois de tirar Djokovic numa atuação incrível, Evans vacilou ao sacar com 5/4 e permitiu a reação de David Goffin. Aliás, o belga optou justamente pela tática que faltou a Nole, fugindo constantemente do backhand para arriscar paralelas firmes na direita do adversário. Mas Evans achou um jeito de ir mais à rede. Salvou três break-points no 1/1 e mais quatro num crucial 4/4 do terceiro set para dar outro passo.

Também neste caso, valem duas frases. Evans admitiu que sentiu muito mais pressão depois de eliminar Djoko – “estava difícil manter o foco” – e Goffin diz não compreender como o britânico perdeu 10 jogos seguidos no saibro antes do torneio deste ano: “Apenas ele não acredita que pode jogar bem na terra”.

Tsitipas leva todas as vantagens. Além de ter vencido os dois duelos contra Evans, disputou apenas 12 games antes do abandono do espanhol Alejandro Davidovich Fokina, com problema muscular na coxa esquerda.

E mais
– Os Masters 1000 terão um campeão inédito pelo segundo torneio consecutivo, repetindo o início de 2018 em que Delpo levou Indian Wells e Isner ganhou Miami.
– E como se vê, três dos quatro semifinalistas são da nova geração e há chance assim de acontecer como em Miami dias atrás.
– Nadal permanecerá no terceiro lugar do ranking, 360 pontos atrás de Medvedev, mas lutará para recuperar a vice-liderança. Basta conquistar o título de Barcelona na próxima semana, onde é o amplo favorito.
– Rublev assumirá inédito 7º posto do ranking se for à final de Mônaco, rebaixando Federer, e ainda poderá ser sexto em caso de título, superando Zverev.
– O russo também já é o número 2 do ranking da temporada e poderá chegar à liderança se for à final.
– Tsitsipas também pode superar Medvedev e subir para terceiro posto do ano. E se for campeão, também atingirá o número 1.
– Tal qual aconteceu após Miami com Hurkacz e Sinner, o top 20 pode ter mais duas inovações caso Ruud seja finalista e Evans, campeão.