ATP promete fortalecer Masters, maior calendário e mais prêmio
Por José Nilton Dalcim
21 de setembro de 2021 às 20:10

Documento obtido pelo tradicional diário francês L’Équipe diz que o conselho diretivo da ATP finalmente aprovou, durante o US Open, os estudos para uma reforma no calendário já em 2023. As mudanças mais importantes seriam aumentar a duração dos Masters 1000 para até 12 dias, copiando o que já fazem Miami e Indian Wells. e criar um 10º evento 1000.

Isso faria com que Madri, Roma, Canadá, Cincinnati e Xangai se tornassem mais robustos, ficando com semana normal Monte Carlo e Paris. Ao mesmo tempo, a ATP enfim permitirá que aconteça um ATP 250 na segunda semana dos Masters, o que tornaria o período mais democrático. Quanto ao novo 1000, fala-se em elevar um dos eventos de grama, provavelmente Halle.

O calendário passaria a ter 16 torneios de nível ATP 500, três a mais do que hoje. Não houve proposta para aumento nos 250, mas é bom lembrar que já em 2022 surgirá um novo, o de Dallas, marcado para 6 a 13 de fevereiro.

Para atrair a simpatia dos jogadores e garantir os votos necessários para concretização das modificações, a ATP acena para um expressivo aumento na premiação global da temporada, que passaria a oferecer 22% a mais do que acontece hoje, ou seja, saltaria dos US$ 62,5 milhões atuais para US$ 76 milhões.

O bônus que é dado ao final de cada temporada aos 12 melhores jogadores, hoje de US$ 11,5 milhões, também aumentará. Será de US$ 15.5 milhões já em 2023 e agora premiando os 30 mais bem pontuados. Até 2030, o valor total chegará a US$ 18,4 milhões.

Esse incremento seria bancado principalmente por uma reformulação nos acordos de direitos de TV. Os eventos ganhariam também com a venda de mais ingressos.

A rigor, esta é mais uma resposta da ATP à entidade paralela que Novak Djokovic bancou, a PTPA. Segundo reportagens publicadas na semana passada na imprensa europeia, a nova associação já estaria organizada para atrair patrocinadores e, dado mais importante, contaria com apoio de 80% dos tenistas masculinos e pelo menos 80 das jogadoras.

Segundo o L’Équipe, esse grupo já mostrou sua força e as vozes da PTPA teriam barrado a proposta inicial da ATP, feita durante Wimbledon, o que exigiu novas negociações e enfim o formato aprovado no US Open.

Nessa mesma linha apaziguadora, a ATP se propõe a melhorar a transparência de seus negócios e contratar uma auditoria externa e independente para revisar o fluxo financeiro e os investimentos.

Se confirmadas, são notícias excelentes para o tênis masculino.

O efeito Raducanu
Por José Nilton Dalcim
16 de setembro de 2021 às 20:21

Como era de se esperar, o título histórico e espetacular de Emma Raducanu no US Open, saindo do qualificatório e sem perder set, abalou as estruturas do tênis britânico. Por enquanto, para o bem.

Estimativas iniciais nos principais centros de treinamento da Inglaterra já mostraram uma explosão de procura de crianças pelo tênis. Ainda não se sabe se as meninas serão maioria. Antes de Raducanu, a proporção nas escolas britânicas era de quatro para um em favor dos rapazes.

Emma tem sido tratada como uma digna celebridade do esporte local, com destaque constante na imprensa. Não é comum que uma campeã receba em poucas horas cumprimentos da Rainha e do Primeiro Ministro. O Channel 4 estatal negociou à última hora os direitos para mostrar a final ao vivo e a audiência foi de 9,2 milhões de telespectadores, sendo 48% na faixa entre 16 e 34 anos. Um fenômeno.

Interessante artigo da jornalista Therese Raphael, da Bloomberg, mostrou que Raducanu é um diamante a ser lapidado no plano comercial. Ela entrevistou o ex-presidente da área de mídia da gigante IMG e o executivo se mostrou eufórico.

Ressaltou que o tênis é um esporte internacional e ao mesmo tempo individual, o que maximiza o potencial de um ‘star’. Ao lembrar as peculiaridades de Emma – mãe chinesa, pai romeno, cresceu na Inglaterra e ganhou nos EUA -, os recordes obtidos, sua juventude, o apoio de Tim Henman, a atitude em quadra, ele não pestanejou: “Em 35 anos na indústria esportiva, teria de voltar aos tempos de Tiger Woods para lembrar de algo similar”.

A empolgação despertada por Raducanu em seu país gera discussões constantes em todas as mídias. Qual será seu próximo torneio? Quando vai entrar no top 10? Que impacto terá sobre o circuito feminino? Quantos fãs vai atrair? Quem é seu namorado?

Essa badalação toda já preocupa o chefe executivo da LTA, Scott Lloyd. Entrevistado pelo Canberra Times, ele pede que deem espaço para Emma respirar. “Claro que sua vida virou de cabeça para baixo, mas felizmente ela tem uma família muito bem estruturada por trás”, afirma.

Lloyd se preocupa com a expectativa exagerada que se cria nas costas da jogadora: “Como todo atleta de alto rendimento, Emma terá dificuldades para sustentar o nível e precisará lidar com isso. Conhecemos muito bem sua capacidade física e mental e acredito que ela saberá trabalhar com essas dificuldades”.

Claro que os primeiros fantasmas são as crises existenciais que atacaram jovens como Naomi Osaka ou campeões como Dominic Thiem, que entraram em processo depressivo pela cobrança interna ou externa.

Alheios a isso, agentes já estimam que Raducanu terá capacidade de faturamento na casa dos US$ 100 milhões anuais e ficará bilionária em poucos anos de carreira. Ainda na segunda-feira, segundo o diário The Sun, advogados registraram os termos “Emma” e “Raducanu” como marcas em toda a Grã-Bretanha.

Ao mesmo tempo, a menina de 18 anos aparecia nos mais variados eventos de gala da semana, dava dezenas de entrevistas e recusava incontáveis outras. Enfim, conseguiu voltar para casa e rever os pais nesta quinta-feira. Eles não puderam ir à final porque não conseguiram visto, mais uma história que despertou comoção em torno da tenista.

“Será preciso muito cuidado”, alertou a multicampeã Virginia Wade ao The Telegraph. “Para algumas pessoas, essa popularidade sobe à cabeça ou afeta seu jogo, como aconteceu com Naomi. Irão atrás de Emma como abelhas em volta do mel”.

Medvedev encanta e entristece
Por José Nilton Dalcim
12 de setembro de 2021 às 23:01

Há dois sentimentos antagônicos nesta final de placar inesperado num dos melhores Grand Slam da útlima década. De um lado, é impossível não sentir tristeza pela chance perdida por Novak Djokovic e se comover com suas lágrimas. De outro, há uma satisfação em ver Daniil Medvedev mostrar um tênis tão eficiente e uma cabeça tão boa para erguer um troféu que parecia inevitável, mais cedo ou mais tarde.

Claro que as duas coisas se fundem quando se avalia o que aconteceu neste domingo na Arthur Ashe. O russo entrou com uma tática muito bem definida  e executada, aliás um tanto surpreendente, ao forçar o segundo saque o tempo todo e optar por não dar peso nas trocas de bola. Mas isso funcionou também porque Djokovic sentiu demais o peso da história sobre seus ombros e não conseguiu administrar a parte emocional, o que sempre foi seu forte. Absolutamente justificável, diga-se. O tamanho da dupla façanha – fechar o Slam e chegar ao recorde do 21º troféu – somava toneladas. E isso ficou evidente na expressão sofrida antes mesmo do fim da partida.

Ainda nessa mistura obrigatória de situações, Medvedev teve uma campanha límpida ao longo das duas semanas, auxiliado por adversários pouco categorizados. Dos cabeças, enfrentou apenas Daniel Evans e Felix Aliassime e o único set perdido foi numa distração diante do quali holandês Botic van de Zandschulp. No caminho, nomes como Richard Gasquet e Pablo Andujar. Não é demérito, porque o russo fez o seu papel de forma louvável e repetiu Ivan Lendl e Rafael Nadal como únicos a vencer o US Open com um set perdido em 34 anos.

Djoko, por seu lado, raramente jogou seu melhor. Entrou sempre tenso em quadra, a ponto de perder o set inicial quatro vezes seguidas. O saque afiado, algumas devoluções preciosas e preparo físico impecável foram lhe dando as vitórias. Sua atuação mais vistosa foi na semifinal contra Alexander Zverev, ainda assim levado ao quinto set. A insistência em não comentar sobre a oportunidade histórica de repetir Rod Laver talvez não tenha sido a melhor escolha e me parece que isso se refletiu na hora ‘h’.

Para piorar, Medvedev entrou em quadra muito sóbrio e teve uma atuação brilhante, mesclando ataque e defesa, ousadia e paciência, controle emocional nos poucos momentos de aperto. Enfim se assustou no momento de concluir o título, o que também é plenamente aceitável. Afinal, chegou a sacar sob vaias. Com sua conquista, se tornou o nono diferente campeão do US Open nos últimos 14 anos e o quinto a ganhar em Nova York seu primeiro Slam, como fizeram Del Potro, Murray, Cilic e Thiem. Também relevante é o fato de que se mantém como o único dos 82 adversários de Nole como número 1 do ranking a ter um histórico positivo, agora de 4 a 2.

É o terceiro russo a ser campeão de um Slam. Yevgeny Kafelnikov e Marat Safin têm dois troféus, mas apenas Safin tem uma final a mais que Medvedev. A Rússia não via um campeão de Slam entre os homens desde o mesmo Safin, em 2005.

Não há dúvida que Djokovic jogou a mais importante de suas 1.176 partidas e que sofreu talvez a mais dura das 198 derrotas. O 21º troféu no entanto pode ter sido apenas adiado e tem grande chance de vir talvez já em Melbourne, daqui a quatro meses, já que sempre será um favorito natural por lá. Mas a oportunidade de ‘fechar’ o Grand Slam será muito difícil de acontecer de novo para ele ou para qualquer outro jogador do circuito atual.

De qualquer forma, não há nada que o diminua. Ganhar os três primeiros Slam de uma temporada tem sido algo reservado para muito poucos. Além dele e de Laver, em 62 e 69, apenas Lew Hoad (1958), Don Budhe (1938) e Jack Crawford (1933) fizeram isso. E só Laver e Budge completaram a façanha nos EUA. o sérvio ainda tem o importante diferencial de ter feito isso em três pisos distintos, o que não existia antes de 1978.

Djokovic deixou escapar a maior façanha do tênis profissional, porém nos lembrou que afinal um Goat ainda é um ser humano que duvida, falha e chora.