Bia chegará a Wimbledon como top 20 do ano
Por José Nilton Dalcim
23 de junho de 2022 às 14:32

Quando a fase é positiva, tudo ajuda. Beatriz Haddad Maia não apenas avançou para sua terceira semifinal em semanas sucessivas sobre a traiçoeira grama inglesa, como ainda teve um inesperado (e necessário) dia de descanso, depois que Lesia Tsurenko sentiu o cotovelo direito e nem entrou em quadra.

Mesmo antes do reencontro com Petra Kvitova, a bicampeã de Wimbledon e seu principal ídolo no circuito, Bia já garantiu lugar entre as 20 mais bem pontuadas da temporada 2022, com 1.201 pontos. Poderá ir a 17 ou até 16 se continuar vencendo em Eastbourne. Esse total é tão expressivo que já garante a canhota brasileira entre as top 50 até o final da temporada.

Em termos do ranking de 52 semanas, está certo o pequeno avanço para 28º. Ela vai disputar diretamente com Kvitova, a quem venceu com espetacular atuação há nove dias em Birmingham, o 27º posto e pode até ser 25º caso Camila Giorgi pare de vencer. Um terceiro título colocaria a brasileira no 21º e com enorme chance de ser top 20 após Wimbledon. O Slam não dará pontos, mas irá retirar de algumas concorrentes diretas.

E a sexta-feira promete mais emoções para Bia, já que conheceremos a chave principal de Wimbledon. Como cabeça 23, ela se livra das mais bem classificadas nas primeiras rodadas, porém ainda há adversárias perigosas soltas no sorteio, entre elas nada menos do que a supercampeã Serena Williams e a habilidosa Bianca Andreescu. Também seria ideal ficar o mais longe possível de Iga Swiatek e Ons Jabeur, as duas principais cabeças de chave e, ao que tudo indica, maiores candidatas ao título no momento. Laura Pigossi joga seu primeiro Grand Slam.

A formação da chave masculina também merece a máxima atenção. Quem ficará do lado de Novak Djokovic ou de Rafael Nadal, cada vez mais favoritos? Stefanos Tsitsipas é um perigoso cabeça 4, Carlos Alcaraz aparece como imprevisível cabeça 5 e Matteo Berrettini surge certamente o nome a ser evitado em eventuais quartas de final. Ficar longe de Marin Cilic não é ideia ruim.

A primeira rodada promete alguns adversários indigestos para qualquer dos cabeças, dos quais listaria Oscar Otte, Nick Kyrgios, Andy Murray e Maxime Cressy. O cearense Thiago Monteiro será nosso representante.

E mais

  • Exibições animadoras de Djokovic e Nadal na quarta-feira. O sérvio esmagou Aliassime, que será adversário do espanhol nesta sexta. Ruud, cabeça 3 de Wimbledon, foi batido pelo belga Bergs. 146º. Alcaraz apareceu com proteção no cotovelo e perdeu fácil de Tiafoe.
  • Medvedev não defendeu título em Mallorca e encerra fase de grama com 2.430 pontos à frente de Nadal, a ameaça mais imediata a sua liderança. O russo que se cuide.
  • Decepcionantes atuações de Sinner e Norrie, nova semi de Tsitsipas e enfim bons jogos de Fritz marcam a semana até aqui.
  • Serena retornou nas duplas com Jabeur e não gostei nada de sua movimentação em quadra. Claro que continua batendo forte e sacando bem, mas isso está muito aquém de ser suficiente. Tomara que progrida.
  • Do lado feminino, quem chega a Wimbledon sem empolgação: Badosa, Muguruza e Krejcikova. Também não animaram Sakkari e Kontaveit. E Raducanu é dúvida na questão física.
  • Muito bom ver Rafael Matos na semi de Mallorca, em plena grama. Se for campeão, passará Melo no ranking.
Hora de sonhar alto
Por José Nilton Dalcim
19 de junho de 2022 às 20:13

Beatriz Haddad Maia e sua canhota poderosa já registraram seu lugar entre os maiores tenistas brasileiros da Era Profissional. Tem agora os mesmos dois títulos de WTA de Niege Dias e Teliana Pereira, soma quatro de duplas como Cláudia Monteiro e só perde por um de Patrícia Medrado e atinge o maior ranking entre as meninas, igualando Maria Esther Bueno. Claro que qualquer comparação com Estherzinha é fútil, porém sempre uma referência agradável.

O extremamente animador é que Bia está em franca ascensão. Melhorou muito o físico, mostra golpes bem agressivos e compactos, a confiança cresce a cada semana e grande vitória. A campanha em Birmingham incluiu vitórias sobre duas campeãs de Wimbledon, a de Nottingham marcou outro triunfo em cima de uma top 5. O duelo de força pura e pernas firmes contra Simona Halep encheu os olhos. Fazia tempo que eu não ficava tão nervoso.

Grama obviamente não pode ser o piso predileto, porque praticamente inexiste no Brasil e mesmo em nível internacional está limitada a três ou quatro semanas de competições, então há pouco sentido em se preparar especificamente para isso. No entanto, certos estilos combinam e se adaptam bem com a superfície natural do tênis e esse é o caso desta paulistana de 26 anos e 1,85m. Como relembrou dias atrás, Petra Kvitova sempre foi seu espelho. Que continue assim.

Falta agora campanha de peso num Grand Slam, categoria em que soma seis vitórias porém nunca passou da segunda rodada, incluindo Wimbledon de 2017 e 2019. Depois de tanto sucesso nestas duas últimas semanas, cresce a expectativa não apenas aqui, mas também lá fora. Há muitos analistas falando que vale ficar de olho nela, e concordo plenamente. É hora de sonhar alto.

Como cabeça 24 do Slam londrino, Bia evita cruzar numa eventual terceira rodada com uma das oito principais favoritas, mas a rigor isso não facilita muita coisa porque entre 9 e 16 estão nomes de muito respeito no piso, como Emma Raducanu, Coco Gauff, Jelena Ostapenko, Leylah Fernandez e Belinda Bencic. Abre no entanto chance de cruzar com Garbiñe Muguruza, a quem venceu lá mesmo.

Só precisamos torcer para que venha um sorteio favorável para as duas primeiras partidas porque o equilibrado e imprevisível circuito feminino possui jogadoras bem perigosas que estarão soltas na chave, como Shuai Zhang, Alison van Uytvanck, Clara Tauson e Bianca Andreescu para ficar em poucos exemplos.

Por isso, fica a inevitável pergunta: Bia não deveria dar uma pausa e pular Eastbourne? Além de ter uma estreia duríssima contra Kaia Kanepi, aquela que a venceu batendo tudo em Roland Garros, existe sempre o risco de uma contusão ou sequelas das inevitáveis dores no quadril e coxa que a grama provoca a cada jogo. Se a ideia é manter o embalo e não deixar a parceira na mão, quem sabe entrar somente nas duplas. Bia afirmou neste domingo que não é momento de descanso. Resta respeitar e torcer.

E mais

  • Ainda que os olhos estejam sobre Djokovic e Nadal, Wimbledon ganhou corpo com os resultados dos preparatórios masculinos para a grama. Matteo Berrettini voltou totalmente em forma – e acho que ainda pode jogar melhor -, Hubert Hurkacz fez uma notável campanha em Halle jogando um tênis extremamente competitivo e Nick Kyrgios se mostrou menos fanfarrista e mais focado, o que o torna sempre um grande perigo nesse piso.
  • A decepção por outro lado fica ainda com Stefanos Tsitsipas, ainda que o grego tenha perdido para gente grande como Kyrgios e Andy Murray. Alguém tão versátil, com backhand simples e saque respeitável, tem que fazer mais na grama.
  • Berrettini ganhou quatro de cinco finais que já disputou sobre a grama, com única derrota na final de Wimbledon do ano passado. Hurkacz ergueu o quinto troféu sem jamais ser vice, feito que iguala Alcaraz e Enqvist e fica atrás só de Gulbis e Klizan.
  • Daniil Medvedev, é bom lembrar, perdeu as cinco finais que disputou desde o título do US Open e agora tem 13-12 na carreira.
  • Oscar Otte fez duas semifinais, voleia muito e foi ótima surpresa. Nada bom cruzar com ele nas primeiras rodadas de Wimbledon. Aliás, também estarão soltos na chave Kyrgios, Murray, Bublik, Ivashka, Vesely, Gasquet e Paire.
  • Ótimas atuações de Ons Jabeur em Berlim. Sobe para o terceiro lugar do ranking e pode torcer agora para ficar bem longe de Iga Swiatek na chave. Bencic se machucou e, caso se recupere, é outra que pode sonhar grande. Raducanu, a grande estrela britânica, não jogará Eastbourne e corre contra o tempo para estar inteira até Wimbledon.
Nossa nova rainha da grama
Por José Nilton Dalcim
17 de junho de 2022 às 18:52

Quem diria, o tênis brasileiro voltou a ter uma jogadora de respeito sobre a grama, algo que não acontecia desde os sete troféus de Grand Slam de Maria Esther Bueno. É bem verdade que o piso natural do esporte beirou a extinção a partir da metade dos anos 1970 e hoje o calendário de primeira linha não tem mais do que oito torneios sobre a superfície, que se torna assim um tremendo desafio para qualquer profissional.

Beatriz Haddad Maia se achou na grama e esse sucesso tem muito a ver com a melhoria de sua movimentação, algo essencial no difícil piso. O fato de ser canhota ajuda muito e ela tem sabido explorar isso com o saque. Aliás, por várias vezes nas duas últimas semanas pudemos vê-la forçar bem mais o primeiro serviço do que o habitual, o que também será um aliado quando a quadra dura voltar.

Confiante depois dos títulos em Nottingham, Bia fez três jogos incríveis em Birmingham. Dominou seu ‘espelho’ Petra Kvitova – a bicampeã de Wimbledon que sempre procurou copiar – com grande desenvoltura. Venceu uma partida que parecia perdida contra Magdalena Frech, uma máquina de devolver bolas, e certamente a sorte ajudou quando veio a suspensão no final do terceiro set.

Quando voltou com 2/4 atrás nesta sexta-feira, se impôs do começo ao fim, mesmo quando a polonesa sacou para o jogo. Por fim, viu a experiente Camila Giorgi mostrar as garras e não se abalou. Pouco a pouco, entrou no ritmo e ganhou 12 dos últimos 14 games da italiana, que já fez quartas em Wimbledon. Assombroso.

Mais campeã no caminho
A dureza continua. Outra campeã de Wimbledon, Simona Halep será neste sábado a 18ª adversária de nível top 20 que Bia irá enfrentar na carreira. Até agora, foram cinco vitórias, duas delas nesta notável temporada, ambas sobre Maria Sakkari (3 e 5 do ranking), As outras três vieram contra Karolina Pliskova (3, em 2011); Sloane Stephens, 4 em 2019; e Samantha Stosur, 19 em 2017.

A romena de ótima agilidade, golpes firmes mas segundo saque muito atacável já cruzou o caminho da brasileira outras duas vezes. A primeira foi sobre a grama de Wimbledon, há cinco anos, e o placar foi equilibrado, 7/5 e 6/3. Já no Australian Open de cinco meses atrás, Halep marcou fáceis 6/2 e 6/0.

Com as ótimas atuações em Nottingham e Birmingham, nossa canhota de 26 anos tem agora 15 vitórias em 42 duelos diante de adversárias de nível top 50. Nesta temporada, foram 6 em 14 e Giorgi, 26ª na lista desta semana, foi a segunda de mais alta classificação.

Por falar em ranking, já é possível para Bia sonhar em aparecer como número 30 na segunda-feira. A única barreira para isso é outra romena, Sorana Cirstea, que faz a segunda semi em Birmingham contra Shuai Zhang. A brasileira garante o posto se Cirstea perder neste sábado ou se ambas forem à final, mas aí a campeã levará a melhor. Cirstea já foi 21ª.

Algo bem importante de se observar é que Bia ocupa neste momento o 29º posto no ranking feminino da temporada, com 846 pontos marcados desde janeiro. Com esse total, ela certamente terminará o ano pelo menos entre as 80, o que significa que seu lugar no Australian Open já está garantido. O tênis brasileiro agradece.

Nadal faz as malas
Outra grande notícia desta sexta-feira foi a decisão de Rafael Nadal em viajar segunda-feira para Londres, seguir firme nos treinos e disputar ao menos duas partidas de exibição no Hurlingham Club. Não é exatamente um torneio, mas sim uma porção de jogos. E a lista de participantes está nobre, com Novak Djokovic, Casper Ruud, Carlos Alcaraz e Felix Aliassime. Não se sabe ainda quem testará o campeão da Austrália e de Roland Garros, que não joga um torneio na grama há três anos.

Na entrevista que deu, Rafa conta que as dores não desapareceram, mas estão muito menores. Ele estranhou a falta de sensibilidade no pé esquerdo, porém diz estar se adaptando. O espanhol não quis garantir sua presença em Wimbledon, preferiu afirmar que ‘vai tentar jogar’ e que tudo depende da evolução do tratamento feito com pulsos de radiofrequência.

E mais

  • Ainda é tempo de destacar: com a queda de Djokovic para o terceiro lugar do ranking na segunda-feira, não há qualquer representante do Big 4 entre os dois líderes do ranking pela primeira vez desde 2003.
  • Isso também levará a um fato histórico: será a primeira vez que Wimbledon não terá os dois ponteiros do ranking desde 1974 (o sistema foi criado em agosto de 1973, portando depois do torneio daquele ano).
  • Serena Williams enfim voltará às quadras. Ganhou convite para jogar Eastbourne e Wimbledon, que foi exatamente seu último torneio. Não se sabe quais condições físicas ou técnicas da norte-americana, mas não duvidem que ela jogará na Central, que está comemorando 100 anos de mudança de sede.
  • A ATP soltou o calendário de 2023 e cumpriu a ideia de esticar para 12 dias os Masters de Madri, Roma e Xangai, subindo as chaves para 96 participantes, o que também acontecerá com Canadá e Cincinnati em 2025. A WTA ainda não se pronunciou.
  • Havia a promessa que a ATP liberaria eventos 250 na segunda semana dos Masters para não prejudicar os jogadores de ranking mais próximo do 100, mas pelo menos em 2023 isso não vai acontecer.
  • Uma boa e uma má notícia para Thiago Wild. Ele entrou no quali de Wimbledon, mas o Ministério Público o denunciou por violência doméstica e psicológica contra a ex-namorada Thayane Lima. Ele não cumpriu decisão judicial de pagar pensão e corre risco de pedido de prisão.