O digno adeus de Tsonga
Por José Nilton Dalcim
24 de maio de 2022 às 20:47

A última partida se tornou um fiel espelho do que foi a carreira profissional de Jo-Wilfried Tsonga. Jogou num nível muito alto a maior parte do tempo, deu espetáculo com lances geniais, Suou, vibrou e sorriu até que veio a contusão que acabou com suas chances.

Tsonga pertence à lista daqueles que tiveram o azar de ter nascido na era do Big 4. Provavelmente, teria feito mais do que uma final de Grand Slam ou somaria outros Masters 1000 aos dois que ganhou, já que sempre se mostrou competitivo em todos os pisos. Não por acaso, integra o grupo dos raros que ganharam de Federer, Nadal e Djokovic enquanto líderes do ranking e em torneios de Slam.

Sempre foi um dos meus tenistas prediletos, principalmente quando se dispunha a abusar do jogo de rede, onde sempre deu show. Entre suas atuações emblemáticas, estão a semi de Melbourne contra Nadal e as quartas de Wimbledon frente a Federer. Mas o corpo grande e pesado lhe custava todo tipo de contusões e isso se agravou ao longo da carreira, com paradas cada vez mais frequentes e longas.

Número 5 do ranking por 12 semanas o levou à condição de maior destaque do tênis francês das últimas duas décadas, período em que ganhou 18 torneios e integrou o time campeão da Copa Davis que resgatou a memória dos Quatro Mosqueteiros.

A comemoração entusiasmada nas vitórias e a semelhança com Muhammad Ali o deixaram ainda mais icônico. Tsonga, tal qual Juan Martin del Potro, fará muito falta ao circuito pela competência, dedicação, carisma e comportamento digno, qualidades que cada dia mais são relevantes neste planeta.

Presente de grego – Stefanos Tsitsipas ganhou o lado mais fácil da chave, mas todo mundo sabia que a estreia seria perigosa. Outra vez, Lorenzo Musetti esteve 2 sets à frente e não levou em Paris por absoluta falta de físico. Isso precisa ser revisto. A parte boa foi ver que Stef não perdeu a cabeça.

Russo em pé de guerra – Tal qual ocorreu com Djokovic, Andrey Rublev está procurando uma desclassificação e vai achar. Descontou raiva na bola e ela passou a centímetros da cabeça de um auxiliar de quadra. Depois se controlou e venceu Soonwoo Kwon. O outro russo. o cabeça 2 Daniil Medvedev, mostra aquele forehand pouco convincente para o saibro mas o contundido Facundo Bagnis não fez mais do que seis games e duas quebras de saque.

Nórdicos avançam – Além de Casper Ruud e sua suadíssima vitória sobre Tsonga, o tênis nórdico avançou com Holger Rune, Emil Ruusuvuori e Mikael Ymer. Nada mal. Destaque absoluto para o garoto Rune, que acabou de fazer 19 anos e ganhar Munique. que não deu chance a Denis Shapovalov e pega o suíço Henri Laaksonen.

Festa francesa – A torcida foi demais, tanto na homenagem a Tsonga como no apoio a Gilles Simon e Hugo Gaston, que fizeram milagres para virar o quinto set. Despedindo-se do torneio, o veterano Simon ganhou os últimos quatro games para surpreender Pablo Carreño. Já o canhoto Gaston, rei das deixadinhas, perdia o set final por 0/3 e levou no supertiebreak diante de Alex de Minaur. O não menos veterano Richard Gasquet atropelou, mas Paire, Mannarino, Pouille, Humbert, Rinderknech e Bonzi deram adeus. No feminino, Cornet e Garcia não perderam set.

Badosa e Halep acordam – Enfim, a espanhola Paula Badosa jogou o que se espera dela sobre o saibro e só perdeu dois games da convidada Fiona Ferro. Tomara que embale. Simona Halep levou um susto com a canhota poderosa da juvenil alemã Nastasja Schunk, mas se achou no terceiro set. Mostrou um tênis mais agressivo, porém o saque precisa melhorar.

Americanas seguem – As quatro americanas que figuram como cabeças de chave no feminino estrearam bem. Danielle Collins, Jessica Pegula e Madison Keys se juntaram a Amanda Anisimova. Curiosidade foram os 9 match-points evitados por Qiang Wang antes de enfim Pegula concluir.

Duplas brasileiras – Rafael Matos ganhou seu primeiro jogo de Grand Slam, sinal do bom momento ao lado do espanhol David Hernandez. Já Marcelo Melo, finalista em Lyon no sábado, entrosou bem com o argentino Maximo Gonzalez e vai encarar agora o incansável Feliciano López que joga com Maxime Cressy;

Teste de paciência
Por José Nilton Dalcim
23 de maio de 2022 às 18:52

O placar numérico foi elástico, como deveria ser, mas infiel à exigência que o canhoto baixinho Yoshihito Nishioka impôs ao número 1 do mundo em sua estreia de Roland Garros. A paciência para trocar dezenas de bolas e encarar um adversário que devolvia tudo levou Novak Djokovic a estridentes gritos, que ecoaram com mais força no teto fechado da Philippe Chatrier.

No final das contas, foi um excelente teste para o que pode acontecer lá nas quartas de final diante de outro canhoto raçudo mas muito mais perigoso. O importante para Nole esteve nas variadas alternativas que encontrou no plano técnico-tático, com direito a ace de segundo saque, curtinhas milimétricas, voleios aplicados e paralelas afiadas de backhand. Não menos relevante, dominou as frustrações que esse tipo de adversário impõe.

A expectativa em cima de Rafael Nadal não estava no jogo em si, já que o estilo de Jordan Thompson certamente era incapaz de causar dificuldades, mas quanto às condições físicas do espanhol. Ele não mostrou qualquer limitação, flutuou como de hábito pela terra batida e economizou esforço.

Mas houve algo a se observar. Sua atitude mais ofensiva, forçando o primeiro saque – a ponto de acertar só 51% – e buscando definições, com 27 winners e 21 erros, pode ser um sinal de que Rafa vai tentar mesmo pontos mais curtos. Será preciso no entanto observar as próximas rodadas, quando se espera jogos cada vez mais duros.

Na quarta-feira, Djokovic poderá encarar Alex Molcan, o novo pupilo de Marian Vajda, que só estreará na terça por conta da chuva, enquanto Nadal faz duelo de canhotos com Corentin Moutet, que fez um jogo bem animado com Stan Wawrinka e impediu o reencontro entre campeões de Roland Garros. O suíço não decepcionou pelo empenho e qualidade, está comparativamente muito à frente de Dominic Thiem.

As top 10 vão caindo
Nem acabou a primeira rodada feminina e já são quatro das top 10 eliminadas. Depois de Ons Jabeur e Garbiñe Muguruza, a atual campeã Barbora Krejcikova e Anett Kontaveit se juntaram à lista de baixas, mas a rigor não chega a ser uma enorme surpresa.

Apesar de Krejcikova ter vencido o primeiro set com autoridade, a virada da jovem francesa Diane Perry, que joga com backhand simples e muito estiloso, teve muito a ver com a longa inatividade e da falta de confiança nos pontos grandes. Kontaveit, além do histórico apagado em Paris, só tinha três vitórias desde fevereiro.

A super favorita Iga Swiatek não teve a menor dificuldade contra Lesia Tsurenko e o mesmo se espera diante de Alison Riske. Para melhorar seu lado, Liudmila Samsonova, a única que lhe deu real trabalho nas últimas cinco semanas, nem passou da estreia.

Decepção mesmo para a segunda vitória de Amanda Anisimova em cima de Naomi Osaka, porque o jogo foi de nível bem fraco, cheio de erros e decisões ruins. A japonesa, que havia prometido treinar com seriedade para o saibro, colocou 45% do primeiro saque em quadra e só fez nove winners da base. Ficou devendo muito.

E mais

  • Grandes estreias de Norrie, Cilic e Kecmanovic. O cabeça 17 Opelka caiu para Krajinovic e Cressy, na base do autêntico saque-voleio, teve match-point para marcar 3 a 0 sobre Basilashvili antes que o georgiano virasse.
  • Baez passou em quatro sets por Lajovic e pode dar trabalho a Zverev na segunda rodada, ainda mais se as condições estiverem lentas como as de hoje.
  • Raducanu levou um grande susto devido à atuação inesperada da tcheca Noskova e já se confessa feliz por ter vencido um jogo em Paris.
  • Emoções não faltaram na incrível virada da veterana Kerber sobre Frech. As duas correram muito e a polonesa teve dois match-points com saque a favor no finalzinho. A torcida ficou em peso com a alemã.
  • Azarenka e Andreescu flertaram com a derrota. A canadense esteve 6/3, 3/1 e quebra atrás de Bonaventure, enquanto a bielorrussa viu Bogdan sacar para a vitória no segundo set.
Primeiro samba em Paris
Por José Nilton Dalcim
22 de maio de 2022 às 18:48

Depois de seis anos, o tênis feminino brasileiro voltou a vencer nas chaves de simples de Roland Garros. Na sua volta ao saibro parisiense desde a estreia de 2017, Beatriz Haddad Maia saiu vitoriosa em um jogo em que novamente controlou a cabeça. A última a ganhar em Paris havia sido Teliana Pereira, em 2016.

Bia agora tem vitórias em três diferentes Grand Slam, somando-se às três da Austrália e às duas de Wimbledon. Apenas Maria Esther Bueno e Cláudia Monteiro ganharam até hoje ao menos um jogo em cada Slam ao longo de suas carreiras.

Sua próxima adversária será a estoniana Kaia Kanepi, veterana de 36 anos que esteve duas vezes nas quartas de Paris, mas a última há exatos 10 anos. Gosta de bater firme e comandar os pontos e não à toa 10 de suas 15 vitórias sobre top 10 foram em Slam. Foi exatamente assim hoje contra a instável Garbiñe Muguruza. Quem vencer, deve encarar Coco Gauff.

Se está inconstante, principalmente com o saque a favor e com certa pressa nas definições, Bia mostra outra vez que a cabeça está em dia. Levou 1/6 e esqueceu rapidamente. Explorou muito bem o saque aberto de canhota no lado da vantagem na reta final.

“Tenho feito muitos jogos no terceiro set e isso acaba dando confiança, porque você se sente fisicamente bem e muito competidora”. Bia vai jogar duplas com Anna Danilina, repetindo a parceria de sucesso da Austrália, e mistas ao lado de Bruno Soares.

Ritmo de treino
Alexander Zverev e Carlos Alcaraz venceram em ritmo de treino. Sem jogar desde o título de Madri, o garoto espanhol teve um adversário bem apropriado, o argentino Juan Ignacio Londero, que fez um bom primeiro set. Agora, vem um novo teste diante do compatriota Albert Ramos, canhoto cheio de experiência. Maria Sakkari e Belinda Bencic liquidaram rapidamente suas tarefas.

Primeiras surpresas
Alejandro Davidovich Fokina voltou a ser o reclamão inconformado e. mesmo vencendo fácil o primeiro set, levou virada do bom holandês Tallon Griekspoor, dono de um pesado forehand e que não pensa muito na devolução de saque. Também caiu o cabeça 31 Jenson Brooksby, mas esse não joga nada no saibro e pegou a raposa velha Pablo Cuevas, que o massacrou.

A grande surpresa coube a Magda Linette, que soube reagir depois de um primeiro set em que se rendeu às bolas variadas de Ons Jabeur, uma sensação da temporada de saibro. A tunisiana se perdeu então nos erros – 47 no total – e, mais grave ainda, nos game decisivos dos sets seguintes, como o bisonho smash que antecedeu o match-point.

Sinal de alerta
Apesar do desempenho surpreendente do peruano Juan Pablo Varillas, a estreia de Felix Aliassime foi temerosa. Talvez tenha pesado o fato de nunca ter vencido em Roland Garros. Vamos ver o que acontece contra outro sul-americano, o argentino Ugo Carabelli. Outro que não me agradou foi Diego Schwartzman, com intensos altos e baixos, e se continuar assim pode tropeçar em Jaume Munar.

Fiascos
Dominic Thiem não se achou um minuto sequer diante do versátil Hugo Dellien, totalizando um set vencido em sete partidas desde o retorno. Voltou a falar que precisa de paciência. Garbiñe Muguruza terminou a temporada de saibro com duas vitórias, vem de contusões no ombro e na panturrilha e isso lhe custa confiança. Nem mesmo saindo na frente, a campeã de 2016 conseguiu sustentar o ritmo e por vezes sacou muito mal.

Os novos tempos
Foi inaugurado oficialmente o novo sistema de placar do quinto set em Roland Garros, o único que mantinha o ‘set longo’ no circuito. O argentino Camilo Carabelli surpreendeu o russo Aslan Karatsev, por 6/3, 4/6, 6/4, 3/6 e 7/6, com 10-5 no supertiebreak decisivo. Será assim em todos os Slam a partir de agora.