Vice com sabor de sucesso
Por José Nilton Dalcim
14 de agosto de 2022 às 21:28

O primeiro troféu de nível 1000 escapou por poucos games, diante de uma adversária de imenso currículo e competência. Beatriz Haddad Maia concluiu sua semana histórica na quadra sintética de Toronto com o espírito lutador e a atitude empolgante que levaram até o Rei Pelé a se declarar seu torcedor. Alcançou com louvor o sucesso e seu desempenho em todos os campos sinaliza que há muita alegria vindo por aí.

Bia me pareceu um tanto tensa em vários momentos da equilibrada partida, mas acima de tudo no primeiro set, o que é absolutamente normal. Muito mais experiente, Simona Halep também estava nervosa e não escondeu isso. E olha que a ex-número 1 por 64 semanas possui dois Grand Slam e disputava sua 42ª final no circuito.

É muito mais produtivo, no entanto, enxergar o que cada uma fez de bom para ser competitiva. Bia aproveitou o começo tenebroso da adversária para abrir 3/0, mas assim que a romena achou seu ritmo e arriscou menos o primeiro saque dominou os seis games seguintes.

Bia mudou radicalmente de postura logo na abertura do segundo set e parou de trocar tanta bola. Foi para cima, raramente batendo duas vezes no mesmo lugar, e se agigantou, mesmo com índice muito baixo de acerto do primeiro saque (46% nesses dois sets).

O começo da série final foi decisivo para o resultado da partida. Halep salvou dois break-points, obteve depois a quebra e viu Bia reagir. Mesmo sacando bem melhor – o aproveitamento subiu para 82% -, veio a quebra definitiva no quarto game. Nesse momento, Halep já havia mudado a tática. Usava bolas mais altas, baixando os erros ao mínimo possível, e se dispunha a correr, o que deixava o trabalho de ataque – e de risco – para a oponente. Deu certo e não houve qualquer chance de recuperação da brasileira.

O resumo da semana é altamente positivo para Bia, e não estou falando em termos de ranking ou de prêmio. Em situações muito distintas e diante de adversárias poderosas, utilizou os mais diferentes recursos para avançar numa chave duríssima. Por vezes foi sólida e paciente, sacou com grande qualidade. Em outras, defendeu-se muito melhor do que jamais fez, buscou contragolpes magníficos e ditou o ritmo do jogo. O físico e a concentração estiveram impecáveis e as escolhas táticas, dela e do time, se mostraram sempre adequadas.

Subiu vários degraus e pode comemorar também o 16º posto do ranking, objetivo que era traçado para depois do US Open. “Evoluir todos os dias é o que me move”. Muito animador ouvir isso.

Batalha recomeça em Cincinnati
Tudo o que se deseja agora é que Bia aproveite o embalo, as experiências adquiridas e a confiança em alta para outro grande desafio, que começa já na terça-feira em Cincinnati. Logo de cara, reencontro com Jelena Ostapenko que é uma luta direta pelo 15º posto do ranking, uma vez que a letã está apenas 24 pontos à frente.

Ostapenko ganhou os dois duelos entre elas, o primeiro na final de Seul em 2017 e o outro na segunda rodada de Miami de 2018, porém obviamente Bia é uma tenista muito superior hoje. Todo mundo conhece o poder de fogo dos golpes de Ostapenko, que ao menos tempo é muito elétrica e pode errar demais. Vejo boa chance.

Em caso de vitória, virá então a vencedora de Madison Keys e Yulia Putintseva, adversárias respeitáveis na quadra dura. A norte-americana aliás ganhou Cincinnati, em 2019, e foi semi do Australian Open em janeiro. E se tudo der certinho, Bia reencontrará Iga Swiatek nas oitavas, a menos que Alizé Cornet tire Sloane Stephens e surpreenda a polonesa de novo, como fez em Wimbledon.

No nível que Bia atingiu, não dá mesmo para esperar jogos fáceis ou adversárias fracas. E isso é justamente o que deve elevar cada vez mais a qualidade do seu jogo. Em entrevista recente a TenisBrasil, seu técnico Rafael Paciaroni enfatizou isso. “O ambiente é decisivo na evolução. Estar treinando, jogando, convivendo com as melhores jogadoras do mundo obrigará Bia a estar o tempo todo buscando sua melhor versão e atenta a novos aprendizados. Novas soluções para novos problemas”. Ele me parece certíssimo.

Em ótima forma, Bia também confirmou presença na chave de duplas, onde voltará a fazer parceria com Anna Danilina. O dueto é o nono colocado no ranking da temporada e busca pontos valiosos em Cincinnati e no US Open para se manter na luta por vaga no Finals.

E mais

  • Este foi o primeiro título de Halep na parceria com o francês Patrick Mouratoglou, ex-técnico de Serena Williams. A romena contou que estava desmotivada e pensando em parar e que o novo treinador lhe deu energia. O 24º troféu da carreira e nono de nível 1000 recolocam Halep no sexto lugar do ranking.
  • Com outra grande atuação, o espanhol Pablo Carreño faturou com justiça um título um tanto improvável no começo da semana. Tirou Berrettini e Sinner, fez uma semi incrível de três horas contra Evans no sábado à noite e por fim reagiu neste domingo em cima de Hubert Hurkacz para se tornar o terceiro novo campeão de Masters 1000 da temporada, ao lado de Fritz e Alcaraz.
  • Hurkacz, tal qual havia acontecido com Alcaraz, perdeu a invencibilidade que tinha em finais na carreira. Ele buscava o sexto título seguido.
  • Aos 18 anos, Coco Gauff será a nova líder do ranking de duplas. Ela ganhou seu segundo 1000 em Toronto ao lado de Jessica Pegula, a mesma parceria que foi à final de Roland Garros. O recorde de idade permanece com Martina Hingis, que liderou as duplas aos 17 (e o de simples, aos 16).
  • Thiago Monteiro levou virada na rodada final do quali de Cincinnati e terá de torcer por duas desistências na chave para entrar de lucky-loser.
Bia joga maior final de um brasileiro em 19 anos
Por José Nilton Dalcim
13 de agosto de 2022 às 23:11

Depois de tirar a número 1 do mundo, a 12ª do ranking e a 13ª colocada, Beatriz Haddad Maia mudou completamente a postura tática e eliminou neste sábado histórico a 14ª do mundo na sua espetacular sucessão de surpresas no WTA 1000 de Toronto.

Dá assim ao tênis brasileiro sua mais importante final de simples desde que Gustavo Kuerten foi vice em Indian Wells em março de 2003. No caso de conquista neste domingo, erguerá o maior troféu individual de um jogador nacional desde que Guga faturou Cincinnati em agosto de 2001. Observem que falei “simples”, porque jamais devemos esquecer os títulos de duplas de Grand Slam que Bruno Soares e Marcelo Melo alcançaram.

A extraordinária campanha em Toronto também garante a canhota paulistana de 26 anos no 16º lugar do ranking, que é a mais alta posição de um brasileiro desde Guga, em março de 2004. O eventual terceiro WTA da carreira na quarta final lhe dará o 14º posto, igual ao de Kuerten em setembro de 2003.

E, acreditem, já dá para sonhar com vaga no WTA Finals. Bia agora é top 10 na temporada, com 1.787 pontos desde janeiro, e poderá sair do Canadá como sétima classificada, com 2.102, deixando para trás a romena Simona Halep, a espanhola Paula Badosa e a suíça Belinda Bencic.

Halep, a quem derrotou na grama britânica dois meses atrás numa atuação magnífica, é a última barreira. A final está marcada para as 14h30 deste domingo. A romena é bicampeã no Canadá, ex-número 1 do ranking, atual 15ª colocada e dona de 23 títulos, entre os quais dois Slam e oito WTA 1000. Antes de Birmingham, havia vencido Bia duas vezes.

Naquele domingo de junho, em que teve de fazer semi atrasada, a brasileira talvez tenha feito sua maior atuação da temporada, já que conseguiu solidez incrível em longas e velozes trocas de bola, em que a profundidade dos golpes foi o elemento essencial. Com exceção ao segundo saque, Halep oferece poucas brechas e isso geralmente exige concentração, consistência, físico e ousadia de suas adversárias.

Bia exibiu tudo isso nesta semana incrível. A semi contra Karolina Pliskova, ex-líder do ranking e finalista de Wimbledon do ano passado, mostrou uma brasileira diferente e, a meu ver, com a postura tática ideal. Fez a tcheca jogar o máximo possível, apostando na sua impaciência e movimentação deficitária, com mistura admirável de bolas muito longas e ótimo desempenho na devolução.

Quando Pliskova calibrou seus ‘foguetes’ da base, o jogo ficou muito mais duro e Bia era penalizada quando suas bolas ficavam mais curtas. Então foi necessário subir o grau de risco e mudar direções. Esteve muito feliz na escolha dos golpes na hora de recuperar a quebra – a tcheca sacava para fechar o segundo set -, e manteve a frieza durante um tiebreak cheio de alternâncias, em que perdeu match-point e salvou set-point antes de concluir nos erros da afobada adversária. Outra exibição de gala.

Embora seja apenas uma referência, também é interessante destacar que Bia se torna apenas a oitava profissional brasileira a superar a casa dos US$ 2 milhões de faturamento bruto, valor que não inclui taxas subtraídas na fonte nem despesas e eventuais comissões. Como finalista, já embolsou US$ 259,100 em Toronto, elevando o total bruto da carreira para US$ 2,18 milhões. Se for campeã, o valor do prêmio subirá para US$ 439.700 e elevará seu total para US$ 2,36 mi.

E mais
– Os dois títulos de Halep no Canadá foram em Montréal, em 2016 e 2018. Com a dura virada em cima de Jessica Pegula, em que fez apenas 11 winners e incríveis 42 erros, a romena volta ao top 10 e pode ser 6ª com o título.
– Depois de perder o primeiro set com postura um tanto passiva, Hubert Hurkacz achou o caminho para reagir em cima de Casper Ruud e fez excelentes subidas à rede. Totalizou 47 winners. Vai tentar o segundo Masters da carreira e pode subir ao oitavo lugar do ranking.
– Pablo Carreño, aos 31 anos, enfim chega a uma final de Masters e pode ser o terceiro da temporada a ganhar seu primeiro 1000, repetindo Fritz e Alcaraz. Fez um grande jogo diante de Daniel Evans e achou irônico o fato de tentar seu maior título justamente na sua ‘pior temporada’. Final será às 17 horas.
– Thiago Monteiro jogou muito bem na primeira rodada do quali de Cincinnati e agora precisa ganhar do suíço Henri Laaksonen. Ele já disputou dois Masters, mas nunca venceu na chave principal.

Bia recoloca o Brasil no top 20
Por José Nilton Dalcim
13 de agosto de 2022 às 00:29

Com todas suas melhores armas, do saque pesado ao forehand agressivo, da cabeça fria à aplicação tática ferrenha, Beatriz Haddad Maia é a grande sensação do WTA 1000 de Toronto. Ao derrotar a terceira adversária entre as 13 melhores do mundo sucessivamente, a canhota de 26 anos está entre as quatro postulantes ao título. Sem dever absolutamente nada às concorrentes.

Imediatamente após a espetacular virada em cima de Belinda Bencic, começou uma intensa discussão entre os jornalistas especializados sobre o possível top 20 de Bia. A questão básica é se ela teria de descartar 30 ou 50 pontos, que seriam seu 16º pior resultado e dependiam da interpretação da regra sobre os ‘torneios obrigatórios’. Até que Aliny Calejon consultou diretamente a WTA e a entidade confirmou o 20º posto, apenas um ponto à frente da suíça Jil Teichmann.

Dessa forma, Bia continua a fazer história e se tornará a segunda brasileira na Era Profissional a atingir essa nobre lista, atrás somente de Gustavo Kuerten e superando outro canhoto que também fez semi de 1000, Thomaz Bellucci, em 2011. Aliás, a última vez que Guga apareceu como 20º foi exatamente há 18 anos, na lista do dia 16 de agosto de 2004.

E como nada mais é impossível para a canhota paulistana, vale a previsão: subirá para 16º em caso de final em Toronto e atingirá o 14º se ficar com o título. Já pensaram que espetáculo seria entrar no US Open como uma das 16 primeiras cabeças?

Depois de sua campanha incrível na grama britânica, onde derrotou duas campeãs de Wimbledon, a sequência de vitórias no piso duro de Toronto até agora inclui a atual a atual finalista do US Open, a número 1 do mundo que venceu Miami e Indian Wells em março e a campeã olímpica de Tóquio. Em sua gloriosa lista de triunfos marcantes na ainda curta carreira, figuram vencedoras do Australian Open (Sofia Kenin), Roland Garros (Iga Swiatek e Simona Halep) e do US Open (Sloane Stephens).

A reação em cima de Bencic reforça tudo o que dissemos no texto anterior sobre sua maturidade. Não começou bem e foi dominada pela experiente suíça, que inteligentemente optou por devolver mais com slice e assim tirar o ímpeto agressivo da brasileira.

O ponto crucial, a meu ver, foi Bia ter cortado seus erros de forehand a partir do segundo set, o que foi obtido pelo uso de mais topspin nos golpes. Isso aumentou a margem de risco e deu profundidade. Claro que ao mesmo tempo a confiança voltou e o saque passou a fazer estragos, ora muito aberto, ora firme e no centro.

Ainda assim foi um duelo duríssimo contra Bencic, que explorou a paralela de backhand com maestria. O mais notável: na hora do aperto, quem tremeu foi a suíça. Ela pareceu sentir o ataque constante a seu segundo saque e provavelmente não esperava que a adversária chegasse tão bem em tantas bolas defensivas.

E outra vez Bia esbanjou preparo físico e firmeza emocional para vencer um terceiro set. Fez um winner milimétrico para obter a quebra decisiva e fechou a partida com ace no centro, sinais evidentes de toda sua concentração e coragem.

Neste sábado, reencontra Karolina Pliskova, de quem perdeu no Australian Open de 2018, mas surpreendeu em Indian Wells do ano passado. A tcheca bate muito pesado e adora ser agressiva, porém não se mexe bem e raramente mostra um ‘plano B’ se suas bolas ficam descalibradas. A tcheca perdeu o primeiro set e passou apertado pela chinesa Qinwen Zheng, 51º do mundo, que vem jogando cada vez melhor na quadra dura através de combinação elogiável de bom saque e consistência no fundo, com constantes trocas de direção. Por isso mesmo, eu preferia mesmo que Bia cruzasse com Pliskova. Jogo será às 19 horas.

E mais
– Jessica Pegula, cabeça 7, e Simona Halep, a número 15, decidem a outra vaga na final. A romena fez uma bela partida contra Coco Gauff, que ainda tropeça nas horas mais delicadas, e acho que passa sem sustos pela norte-americana.
– Nick Kyrgios sentiu a virilha e não jogou 100%, mas não se pode tirar os elogios a Hubert Hurkacz, que sacou muito, foi extremamente agressivo e usou boas variações. Ele é muito perigoso numa quadra dura e terá o favoritismo natural sobre Casper Ruud, que humilhou Felix Aliassime e fechou o jogo com apenas nove erros.
– Quem está jogando muito mesmo é Pablo Carreño. Ele já tirou Berrettini, Rune e Sinner com golpes muito pesados. Será que enfim chegou sua vez de ganhar um Masters 1000? A barreira para a final é o versátil Daniel Evans, tenista de 1,75m que não tem medo de ir à rede e usa muito bem o slice. Fez grande virada em cima de Tommy Paul.
– Numa quadra que costuma ser veloz, Medvedev pode ter bons desafios em Cincinnati, como Cressy, Dimitrov, Fritz ou até mesmo Kyrgios. No seu lado, ficarma ainda Tsitsipas, Hurkacz e Berrettini. Se russo cair na estreia ou terceira rodada, coloca o número 1 em risco caso Nadal seja campeão.
– Rafa já treina em Cincinnati. Tem possivelmente Bautista nas oitavas, Aliassime ou Sinner nas quartas e quem sabe Alcaraz na semi. Seu único título no torneio foi em 2013.
– Bia estreará contra Ostapenko em Cincinnati, pode ter depois Keys ou Putintseva e há chance de reencontrar Swiatek. A polonesa aguarda Cornet ou Stephens. Primeira rodada terá Serena x Raducanu e Venus x Pliskova.