No seu melhor estilo, Murray enfim está de volta
Por José Nilton Dalcim
20 de outubro de 2019 às 22:07

Não foi apenas um título de redenção em cima de um adversário de gabarito indiscutível. Antes de tudo, veio uma conquista no autêntico estilo Andy Murray. Sofrida, suada, arrancada de dentro da alma. Compreensíveis portanto as lágrimas que caíram minutos após a virada em cima de Stan Wawrinka, numa final de ótimo nível e muitas emoções no tradicional ATP da Antuérpia.

Murray não disputava quatro partidas seguidas desde que fez o milagre de atingir as quartas de Wimbledon de dois anos atrás, no exato momento em que percebeu que não daria mais para continuar em quadra com tantas dores no quadril. Fez a primeira cirurgia, tentou a volta um ano depois, mas só jogou seis torneios de simples, arrastando-se várias vezes pela quadra. Quando começou 2019, perdeu na segunda rodada de Brisbane e decidiu em Melbourne que iria se aposentar em Wimbledon. Sugerida a prótese metálica, arriscou nova cirurgia e, cinco meses depois, fez um retorno de sucesso primeiro em duplas. Arriscou nas simples somente em Cincinnati, cauteloso mas com evolução progressiva desde então.

Na Antuérpia, Murray finalmente rompeu a barreira das quatro partidas e colecionou cinco vitórias, sendo quatro em dias sucessivos e as três últimas no terceiro set, apenas a segunda vez que isso aconteceu em seus 46 títulos. A final contra Wawrinka não poderia ser mais emblemática, porque o suíço também estava atrás de seu primeiro título desde as duas cirurgias que fez no joelho em agosto de 2017. Vê-los lutar em nível tão alto por 2h27 foi muito especial para quem admira o tênis.

Claro que o jogo teve altos e baixos. Stan foi muito ofensivo e parecia dono da situação até fazer 6/3 e 3/1. Apareceu então o magistral e conhecido espírito de luta do escocês. Reagiu, salvou dois break-points cruciais no 4/4, levou ao terceiro set e ficou sempre atrás do placar, tendo de recuperar quebras duas vezes seguidas. A recompensa se concretizou com ótimas devoluções que induziram o suíço ao erro no game final. Como já não bastasse o espetáculo técnico que propiciaram, os dois se sentaram lado a lado antes da cerimônia para uma animada conversa.

Ao levantar seu primeiro título desde Dubai, em fevereiro de 2017, quando era o número 1 e não o 243º deste domingo, Murray revelou nervosismo antes do jogo e surpresa com o resultado final. “Não esperava estar nesta posição outra vez. Antes da temporada asiática, avaliei a situação com meu time e afirmei que queria ser competitivo, não ser esmagado em quadra, dar trabalho aos meus adversários. Não pensava em ganhar de Stan ou (Matteo) Berrettini ou quase derrotar (Fabio) Fognini”.

Enquanto Stan voa para a Basileia e tentará em Paris um último esforço para tentar chegar ao Finals, Murray não sabe se arriscará um convite em Bercy. Nesta segunda-feira, ele será o 127º do ranking, a 114 pontos do top 100 e da vaga direta no Australian Open.

Nova geração brilha de novo
Mas o fim de semana também foi da garotada. Denis Shapovalov, que até então amargava sete derrotas em semifinais, superou o trauma e faturou Estocolmo, se tornando o 15º tenista a levantar o primeiro troféu da temporada, o oitavo entre os NextGen e o segundo mais jovem (20), atrás somente de Alex de Minaur (19). O canadense vinha bem até Miami, mas aí perdeu o rumo no saibro e na grama. Reconheceu ter feito calendário errado e que uma parada após Wimbledon se mostrou essencial para reencontrar o prazer de jogar. Elogiou ainda a parceria recente com Mikhail Youhzny.

Em caso, Andrey Rublev comemorou o 22º aniversário erguendo o troféu de Moscou, o segundo título depois de Umag-2017. Recuperado fisicamente e em grande ascensão outra vez, ele entrará no top 25 nesta segunda-feira após somar 19 vitórias nos últimos 25 jogos. E ficou emocionado, já que diz ter passado seus tempos de juvenil vendo o torneio e sonhando em ganhá-lo um dia. Nas seis participações anteriores, jamais tinha vencido uma vez sequer.

WTA Finals definido
Na chance derradeira, Belinda Bencic conseguiu vaga inédita para o WTA Finals, que será disputado dentro de sete dias em Shenzhen. A suíça precisava ir à final em Moscou, porém fez ainda melhor e levou o título, o quarto da carreira. Vale lembrar que a prodígio sofreu com lesões e começou este ano como 54ª, tendo alcançado a semi do US Open e vencido seis duelos contra adversárias top 5 em 2019.

Com a vaga de Bencic, o Finals feminino terá cinco participantes com até 25 anos (Ashleigh Barty, Naomi Osaka, Bianca Andreescu, Bencic e Elina Svitolina). A mais velha será Petra Kvitova, de 29, um a mais que Simona Halep e dois acima de Karolina Pliskova.

Nadal e Federer
Muita festa para Rafael Nadal, que após 14 anos se casou com a namorada de adolescência Maria Francisca Perello, a Xisca. Muitos esportistas foram ao casório, mas o destaque foi o antigo rei Juan Carlos I.

Na Basileia, onde estreia já nesta segunda-feira, Roger Federer revelou que não foi convidado, mas não demonstrou qualquer mágoa. Ele tenta o 10º troféu no ATP caseiro, algo que conquistou este ano também em Halle. A chave no entanto é dura, já que pode cruzar Wawrinka nas quartas e Stefanos Tsitsipas na semi. O cabeça 2 é Sascha Zverev.

O melancólico fim do ‘Slam brasileiro’
Por José Nilton Dalcim
16 de outubro de 2019 às 10:45

Embora seja triste, a notícia de que o Brasil Open como um ATP 250 deixará o calendário internacional em 2020 não surpreende. Nos últimos anos, a dificuldade para manter o torneio só cresceu. Neste 2019, bateu na trave. A liberação de verba incentivada aconteceu em cima da hora, e ainda por muita pressão e persistência da promotora Koch Tavares em Brasília. Com dinheiro contado – muitos dizem que até faltando -, não se contratou atrações e, mesmo com o garoto Felix Auger-Aliassime, repetiu-se o esvaziamento do gigante ginásio do Ibirapuera.

Com contrato de royalties assinado com a verdadeira dona da data, a Octagon britânica, o Brasil Open nasceu em 2001 com a ideia de se tornar o ‘Slam sul-americano’. Embalado pela Era Guga, então número 1 do mundo, e por seu mais forte patrocinador, o Banco do Brasil, optou-se pelo pomposo nome porque pela primeira vez se promoveu um ATP e um WTA no país simultâneos. Nadava-se em dinheiro, e tudo era megalomaníaco na Costa do Sauípe, um resort de luxo também recém lançado, não por acaso de propriedade da Previ, o fundo de pensão do BB.

O torneio feminino durou apenas duas edições, porque as exigências da WTA eram insuportáveis e as principais jogadoras não se motivavam a vir para cá logo depois do US Open. Ou seja, até mesmo Monica Seles sumia diante dos holofotes em cima de Guga, que sempre recebeu um cachê gordo, e merecido, mesmo tendo contrato de representação com a Koch e de patrocínio com o BB. O dinheiro gasto com o WTA se desviou para as quatro centenas de convidados, os shows caríssimos, as festas intermináveis, as mordomias aos jogadores. Revivia-se o que a mesma promotora fizera por uma década em Itaparica.

O problema físico de Guga influenciou diretamente o destino do Brasil Open, mas houve salvação. O torneio trocou de data e de piso ainda em 2004. O fenômeno Rafael Nadal, o campeão olímpico Nicolas Massú, espanhóis de jogo bonito como Nicolas Almagro e Juan Carlos Ferrero e a ascensão de Thomaz Bellucci mantiveram o padrão enquanto deu. Mas sem Guga e com Sauípe perdendo o encanto para os patrocinadores, o enorme custo de organização pesou cada vez mais. Por ironia, a primeira vez que o resort anunciou lucro operacional foi em 2011. O complexo acabou vendido em 2017 com dívida milionária.

Em 2012, optou-se pela mudança do Brasil Open para São Paulo. Radical. Trocar a suntuosidade paradisíaca das praias baianas pela rigidez urbana e o sofrível ginásio do Ibirapuera era evidentemente um risco, talvez não bem calculado. Ainda com dinheiro para contratar estrelas, a volta de Nadal foi talvez o último grande momento do Brasil Open, em 2013. O já multicampeão de Roland Garros reclamou abertamente das condições das quadras e das bolas, houve enorme confusão e perigo com excesso de público na final, com descontrole de credenciais. O Ibirapuera viveu um domingo incrível, mas jamais conseguiu encher de novo com o tênis.

Para complicar, o ATP 500 do Rio entrou em cena para dividir apoiadores. Tentou-se mudar a sede para o clube Pinheiros, com público natural muito mais adequado que lotou as arquibancadas. Porém, o clube exibiu instalações apertadas e, pior de tudo, cobrou aluguel caríssimo para o orçamento agora sufocante da promotora. No desespero, voltou-se ao Ibirapuera em 2018, com nova ajuda do governo estadual, e ainda viu uma final entre Fabio Fognini e Nicolas Jarry. A Koch Tavares, no entanto, jamais se recuperou financeiramente.

A relação entre a promotora brasileira e a Octagon se desgastou de forma natural. O evento não dava lucro há anos e até receber as taxas contratuais estava difícil. Há duas semanas, os britânicos bateram o martelo com a promotora TGA, com apoio da família do ex-top 10 Jaime Fillol, avô de Nicolas Jarry. Com forte e essencial apoio governamental, incluindo aporte financeiro de US$ 500 mil, o evento será sediado no belo Estádio Nacional de Santiago, famoso pelas rodadas de Copa Davis. O Chile havia perdido seu ATP há seis anos.

O futuro do Brasil Open como franquia é incerto. Há meses, já se especulava a mudança do formato ATP para exibições. Para isso no entanto é preciso dinheiro para trazer grandes nomes, um lugar decente e uma data propícia. Há sete anos, a mesma Koch trouxe Roger Federer ao Brasil, num evento de enorme repercussão. Desta vez, nenhuma promotora sequer cogitou aproveitar que ele fará longa turnê pela América do Sul. Os bons tempos definitivamente acabaram.

Insaciável Medvedev
Por José Nilton Dalcim
13 de outubro de 2019 às 22:02

Muitos dizem, com certa razão, que seu jogo não é tão vistoso e atraente, mas o fato é que o russo Daniil Medvedev roubou a cena. Achou um padrão e está cada vez mais difícil alguém competir com ele, principalmente nas quadras sintéticas. Ele conquistou neste domingo o segundo troféu consecutivo de Masters, justamente nos dois pisos mais velozes desse nível no circuito..

O russo de 23 anos desfila números impressionantes. Desde o vice no US Open naquela incrível final em que quase virou em cima de Rafa Nadal, venceu todos os 18 sets que disputou. A sequência desde Wimbledon inclui 29 vitórias em 32 possíveis, e não foram quaisquer triunfos: bateu cinco de oito top 10, entre eles outra vez o líder do ranking.

Aliás, penso que a reação que conseguiu na semi de Cincinnati, quando Djoko parecia caminhar para a vitória com facilidade, tem muito a ver com o momento que Medvedev vive. Ele vinha dos vices para Nick Kyrgios e Nadal, mas daí em diante virou um leão. Destruiu David Goffin na final, fez um US Open incrível e nem deu bola para a polêmica com o público.

A fase é tão boa que ele tem superado com folgas seus momentos de provação. Na final de São Petersburgo, tinha histórico de 0-4 contra Borna Coric e o placar foi um massacre de 72 minutos. Na decisão de Xangai, outro 0-4 diante de Alexander Zverev, e um resultado muito parecido, apenas um game e dois minutos a mais para o adversário.

A frase de Zverev diz tudo: “Hoje ele é outro jogador”. Na final deste domingo com teto fechado, Medvedev atacou o forehand do alemão para ir a 3/0, perdeu consistência e cedeu empate, mas aí viu o adversário cometer as tradicionais duplas faltas sob pressão. Enquanto Zverev se apressou no segundo set, o russo disparou winners.

Com 59 vitórias na temporada, sendo 46 na quadra dura e 22 de nível Masters, o russo já supera Roger Federer no ranking da temporada por 185 pontos, o que significa que irá duelar diretamente pelo terceiro posto daqui para a frente.

E não pensem que Medvedev considera um descanso. Ele entrou na chave de Moscou, onde estreará na segunda rodada e tem Karen Khachanov como principal concorrente, e depois emenda o 500 de Viena e o 1000 de Paris antes de enfim uma semana de preparação para debutar no Finals de Londres.

O apetite desse rapaz parece insaciável.

Bruno reage
Sempre admirador dos pisos mais velozes, Bruno Soares conseguiu enfim um grande resultado ao lado do novo parceiro Mate Pavic, depois que foi abandonado no meio do ano pelo escocês Jamie Murray.

A campanha em Xangai foi excepcional: nenhum set perdido, apenas um serviço quebrado. Tiraram os números 1 colombianos e derrotaram o próprio Jamie. A decisão contra os atuais campeões Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot não teve o equilíbrio esperado.

Soares e Pavic sobem ao 18º lugar no ranking de parcerias, 1.120 pontos atrás da oitava e última vaga para Londres. Difícil, mas eles jogam agora o 250 de Estocolmo e seguem para o 500 de Viena, podendo chegar a Paris com ao menos uma chance matemática de se classificar.

Frases e fatos
– “Todo mundo estava dizendo que precisava de algo novo (no tênis masculino), então dei a eles isso”
– Esta foi a primeira final de Masters 1000 entre dois tenistas com menos de 24 anos desde que Novak Djokovic (22) venceu Gael Monfils (23) em Paris-2009.
– “Sou um tenista melhor do que era no início desta temporada. Tudo melhorou, nunca me senti tão confiante com o saque e me sinto à vontade até nos voleios”.
– Desde o título do russo Nikolay Davydenko na primeira edição de Xangai, em 2009, apenas três jogadores haviam vencido o torneio: Djokovic, Federer e Andy Murray.
– “Se continuar com essa sequência de vitórias, posso pensar no número 1 do ranking em 2020”.
– Bruno tem agora 32 títulos na carreira, sendo 4 de Masters. Melo é recordista em ambos, com 33 troféus e 9 de Masters.