Nadal é única aposta certa nas oitavas de Madri
Por José Nilton Dalcim
5 de maio de 2021 às 19:09

O saibro de Madri é definitivamente fora do padrão.

Se de um lado permite a John Isner disparar média de 30 aces por jogo, de outro se vê Daniil Medvedev e Alejandro Davidovich permitirem 24 break-points. Num duelo entre dois saibristas espanhóis autênticos, Rafael Nadal e Carlos Alcaraz só disputaram 11 pontos com mais de nove trocas de bola.

Pode acontecer qualquer coisa, e assim favoritismo se torna uma palavra ainda mais temerosa do que o normal. Ao olhar o interessantíssimo quadro de oitavas de final masculinas, onde existe praticamente um tenista da nova geração por partida, Nadal parece ser a única aposta certa.

O pentacampeão, embalado pelo título de Barcelona, não fez mais do que um treino de adaptação diante de Alcaraz. A promessa, no dia de seu 18º aniversário, jogou de forma afobada e imprecisa, tendo ainda o azar de sentir um desconforto muscular lá no terceiro game. Viveu alguns belos momentos e até roubou um game de serviço, mas no geral foi um passeio de Nadal.

Seu adversário é Alexei Popyrin, apenas dois anos mais velho que Alcaraz e que chegou a Madri com três vitórias no saibro no currículo antes de ganhar duas vezes no quali e mais duas na chave principal. E não foi pouca coisa: tirou o experiente Jan-Lennard Struff e o ascendente Jannik Sinner, mesmo com índice apenas razoável de primeiro saque e quatro quebras de serviço permitidas. Porém, já soma 22 aces. Ou seja, gosta de viver perigosamente. E terá de adotar tal tática para equilibrar contra Nadal.

O restante da rodada é uma bela loteria. Claro que Dominic Thiem é superior a Alex de Minaur no saibro, no entanto ainda é cedo para saber se o austríaco recuperou ritmo e confiança. Medvedev foi do céu ao inferno contra Davidovich, com direito a declaração de ódio ao saibro no fim do primeiro set e uma de amor depois de completar a virada, e assim há incertezas de como reagirá ao tênis muito mais sólido de Cristian Garin.

Isner bombardeou Miomir Kecmanovic com 28 aces e fez mais 32 na duríssima vitória sobre Roberto Bautista, jogando três tiebreaks em cinco sets disputados. Andrey Rublev está num momento muito mais positivo. Contra si, o fato de ter sofrido para segurar a cabeça diante de Tommy Paul e isso não é bom sinal quando se imagina que vai enfrentar um adversário que exige conviver com a frustração o tempo todo.

Imperdível ver como Alexander Zverev vai cuidar das bolas baixas de Daniel Evans, um duelo que não acontece há quatro anos. O britânico sempre pinta como ‘zebra’ no saibro e já fez dois jogos bem duros em Madri: quase 3 horas para tirar Jeremy Chardy e outras 2h35 frente John Millman. Também temos de considerar Matteo Berrettini muito favorito sobre Federico Delbonis. O argentino, lembremos, adora um saibro mais veloz e foi brilhante contra Pablo Carreño e Albert Ramos.

Tenista que mais rodou o saibro até agora, Stefanos Tsitsipas atropelou na estreia e só permitiu 54 minutos a Benoit Paire, excelente para economizar energia. Encara Casper Ruud, um saibrista nato a quem falta ainda consistência. Mas estou mesmo curioso para rever Aslan Karatsev depois da virada espetacular que protagonizou diante de Diego Schwartzman. O russo só perdeu seis pontos quando acertou o primeiro serviço nos dois sets finais. Não dá no entanto para menosprezar o poder de fogo e a ousadia de Alexander Bublik, dono de saque poderoso e de jogadas insólitas.

Haverá tênis para todos os gostos nesta quinta-feira em Madri e você tem muitas opções para torcer. Eu particularmente gostaria demais de ver Thiem x Rublev, Tsitsipas x Karatsev, Nadal x Evans e Medvedev x Berrettini nas quartas.

Paris e Wimbledon podem ver luta pelo nº 1
Por José Nilton Dalcim
29 de abril de 2021 às 21:26

Pouco provável em Roland Garros, muito mais palpável em Wimbledon, o tênis masculino poderá ver novamente luta pela liderança do ranking. Em Paris, três jogadores têm chance teórica de tirar o sono de Novak Djokovic. Ainda que não consigam nesta reta final do saibro europeu, campanhas consistentes criarão espaço para buscar o salto na grama.

As contas se baseiam no desempenho dos cinco primeiros colocados nos próximos três grandes torneios sobre o saibro e fundamentalmente no regulamento diferenciado imposto pela ATP desde a pandemia, que ainda garante 50% dos pontos para quem jogou Madri em 2019 e se arriscou em Roma e Paris em 2020.

Existe possibilidade matemática de Rafael Nadal, Daniil Medvedev e Dominic Thiem ameaçarem o número 1 em Roland Garros, mas o bom senso diz que é pequena, porque depende de campanhas medianas de Nole em Roma e em Paris e por um desastre no novo ATP de Belgrado, que ele decidiu jogar e que muito provavelmente terá poucos nomes de peso. Mas não somente isso. Obrigará Nadal e Thiem a campanhas perfeitas ou Medvedev a fazer grandes resultados, algo difícil de se imaginar para quem volta da covid e nunca teve muita simpatia pela terra batida. Stefanos Tsitsipas conseguirá no máximo se aproximar.

Wimbledon no entanto pode ver uma disputa até mesmo acirrada, já que Djokovic defende o título de 2019 e qualquer resultado que não seja uma nova final o fará perder 1.000 pontos. É o torneio em que Nadal foi semi, Medvedev só ganhou duas rodadas e onde Thiem e Tsitsipas sequer passaram da estreia. Ainda assim, esses pretendentes precisam ir bem na reta final do saibro.

Vamos ver um resumo do que cada um desses tenistas tem a defender ou a somar nas semanas que virão:

Novak Djokovic – 11.963 pontos
– Perderá 500 por não ir a Madri e cairá para 11.463.
– Defende título em Roma e assim tem garantidos 500, perdendo 500 se não for à final.
– Jogará o segundo ATP de Belgrado e somará tudo que fizer. Título vale 250 pontos.
– Vice em Roland Garros, perderá 600 pontos se cair até as quartas ou 480 se parar na semi.
O pior que pode acontecer a Djoko é sair do saibro com 10.373 pontos, mas ainda assim fica sob mínimo risco de ser ultrapassado por Nadal (veja abaixo). Essa chance do espanhol terminará se Nole ganhar dois jogos em Belgrado e fizer 90 pontos, o que lhe daria mínimo de 10.453.

Rafael Nadal – 9.810 pontos
– Foi semi em Madri-2019 e portanto pode somar 640
– Campeão em Roma-2019, só pode manter os 1.000 pontos
– Vencedor de Paris em 2020, tenta repetir os 2.000 pontos
Se for 100% nos três torneios, espanhol chegará a 10.450 pontos e terá de torcer contra Djokovic (veja acima) e também para que Medvedev não se saia bem nos três torneios (veja abaixo).

Daniil Medvedev – 9.700
– Perdeu na primeira rodada de Madri, Roma e Paris. Portanto só defende 30 pontos.
– Se fizer semi nos dois Masters e quartas em Roland Garros, saltará para 10.750 pontos e já passa a preocupar, embora de forma pouco expressiva.
– Caso atinja as três semis, somará 1.440 e totalizará 11.110 pontos, e isso obrigaria Djokovic a ganhar Belgrado e repetir o título em Roma ou a final em Paris.

Dominic Thiem – 8.365
Fez semi em Madri (360), caiu na estreia de Roma (10) e foi à final de Paris, tudo em 2019, o que ainda está valendo no ranking.
O máximo que pode totalizar, caso vença os três torneios, são 10.795 pontos. Isso lhe dá esperança, mas vinculada ao desempenho de Djokovic e de Medvedev.

Stefanos Tsitsipas – 7.910
Foi finalista em Madri de 2019 (600), quartas de Roma (360) e semi de Paris (720) no ano passado.
Os três títulos podem levá-lo ao máximo de 10.230 pontos e portanto seu maior sonho seria o número 2, quem sabe aí bem próximo de Djokovic.

Wimbledon
Djokovic não pode somar, com risco de perder 800 pontos caso seja finalista ou 1.000 com qualquer outra campanha. Nadal foi semi e portanto pode acrescentar 480 com final e 1.280 com o título. Uma final em que ele vencesse Djokovic faria com o que espanhol descontasse 2.080 pontos de uma só vez.

Medvedev por seu lado tem a defender 180 de Queen’s e 90 de Wimbledon, o que permite também somar a partir das quartas em Wimbledon (360 menos 270). Thiem e Tsitsipas são os que têm maior vislumbre de lucrar na temporada de grama, já que fizeram apenas 10 pontos em 2019.

O rei ainda manda no saibro
Por José Nilton Dalcim
25 de abril de 2021 às 21:24

Chances para todos os lados. O que não faltaram nesta histórica final de Barcelona foram emoções e reviravoltas, em que jogadas espetaculares se misturaram a alguns erros de pura tensão, e assim era mais do que justo que o vencedor viesse num placar extremamente apertado, depois da disputa de 242 lances ao longo de uma maratona de 3h38 em que o campeão liderou por meros três pontos.

Stefanos Tsitsipas liderou por 4/2 o primeiro set e por 3/1 o segundo, nos momentos em que conseguiu jogar bem com o serviço e sustentar o ataque ao seu backhand, aproveitando as oportunidades que o segundo serviço irregular do adversário lhe proporcionava. Mas nessas duas desvantagens Rafael Nadal mostrou por que é o ‘rei do saibro’, colocando em prática sua capacidade de trabalhar pontos com enorme variedade de ângulos e de se defender com unhas e dentes.

Rafa engatou até cinco games seguidos entre o final do primeiro set e o começo do segundo, dando a impressão que iria dominar. Foi difícil para ele manter um padrão, sinal de que ainda não está seguro na terra batida como nos velhos tempos. Quando Nadal chegou a seus dois match-points, o que concluiria a partida num compacto 6/4 e 6/4, Tsitsipas mostrou como está confiante. O grego também não duvidou em ser agressivo quando se viu 2-4 no tiebreak, ganhou quatro pontos sucessivos e levou a um terceiro set que parecia improvável. Detalhe importante: nesses 13 games, Nadal cometeu meros 10 erros não forçados e o adversário, 12.

Já com 2h30 de esforço, o terceiro set viu sempre Stef mais apertado em seus serviços do que Nadal, mas o irônico destino deu justamente o primeiro break-point ao grego, que era na verdade um match-point.  Ele entrou no ponto, foi logo para o backhand do espanhol, que se livrou da bola com uma paralela sem pretensões, que resvalou na fita. Tsitsipas reclamaria mais tarde que lhe faltou sorte, mas depois reconheceu que poderia ter feito mais. Aliás, deveria ter feito mais no saque seguinte, em que acabou quebrado no quarto break-point diante de um Nadal incrivelmente veloz, forte e determinado, ainda que tivesse 12 anos a mais de peso a carregar.

Depois de evitar o empate e um novo tiebreak, Nadal venceu sua 12ª final em Barcelona e chegou ao 61º troféu sobre o saibro e aos 87 da carreira. O mais importante de tudo, no entanto, é encerrar o jejum de sete meses sem conquistas, deixar para trás a lesão lombar que ainda afeta claramente seu serviço e esfregar no rosto dos céticos que ele ainda é o jogador a ser temido sobre a terra. Mesmo que não jogue seu 100%.

Dou toda a razão a ele quando diz que o título veio no momento perfeito, logo depois da derrota em Monte Carlo e das atuações instáveis de Barcelona. Perder outro duelo para a nova geração seria um tanto frustrante e poderia causar aquela perigosa ansiedade. Agora, Nadal pode jogar mais solto, ainda que me pareça essencial dar um salto de qualidade principalmente em Roma, o último aquecimento de peso para Roland Garros.

Quanto a Tsitsipas, ao invés de lamentar a chance perdida, vale focar na firmeza e resiliência mental e física que demonstrou nestas duas semanas iniciais sobre o saibro. Ele é claro não deve estar no curto rol de favoritos para Roma ou Roland Garros, mas daqui em diante seus adversários entrarão em quadra com respeito muito maior.

O final de semana viu ainda o fim do jejum de títulos de Matteo Berretini, que venceu Belgrado em cima de um bravo Aslan Karatsev, que lutou mais 2h30 e só decepcionou mesmo no tiebreak decisivo em que não ganhou ponto. Já Ashleigh Barty marcou volta vitoriosa ao saibro, obtendo três viradas nas rodadas decisivas de Stuttgart, onde ainda foi campeã de duplas. É o início de sua trajetória para defender Roland Garros lá de 2019, já que no ano passado ela preferiu manter o isolamento em casa e não foi a Paris.