Bia sobe no rol das favoritas
Por José Nilton Dalcim
17 de agosto de 2022 às 21:21

Um piso mais veloz, uma adversária muito firme nas devoluções e um dia irregular determinaram a queda de Beatriz Haddad Maia logo na estreia de Cincinnati, superada em sets diretos pela experiente Jelena Ostapenko. Nada que seja preocupante, principalmente porque 24 horas depois Bia e Anna Danilina retomaram com sucesso a parceria e venceram o forte dueto de Latisha Chan e Samantha Stosur.

Bia, percebam, não foi a única ‘vítima’ entre os tenistas que foram longe em Montréal. A campeã Simona Halep se arrastou na estreia e nem entrou em quadra para a segunda rodada nesta quarta-feira, enquanto Pablo Carreño, Hubert Hurkacz e Daniel Evans nem passaram da estreia. O espanhol venceu o torneio masculino em cima do polonês e o britânico fez semi de simples e final de duplas. É mesmo muito difícil no circuito de hoje se fazer duas semanas exigentes consecutivas.

De olho no US Open, que certamente é o ponto maior desta temporada de quadra dura descoberta, a chance de Bia Haddad aparecer entre as 16 principais favoritas é muito grande. Com a derrota de Ostapenko na rodada seguinte, a canhota brasileira pode até ganhar o 15º posto no ranking e no momento é ameaçada apenas por duas concorrentes: Veronika Kudermetova, que só passa Bia com mais duas vitórias, ou se Madison Keys ou Elena Rybakina chegarem pelo menos na final.

Caso confirme a cabeça 16, Bia terá alguns importantes privilégios. Em primeiro lugar, suas duas primeiras adversárias certamente estarão fora do top 30, ainda que nomes de peso e campeãs como Naomi Osaka, Bianca Andreescu e Sloane Stephens estejam soltas na chave. Depois, ela só poderá cruzar com uma das quatro maiores cabeças em eventuais oitavas, e vamos combinar que Iga Swiatek é a única real preocupação, já que Maria Sakkari e Paula Badosa vão mal e Anett Kontaveit está longe dos melhores dias. Ons Jabeur ainda possui chance de entrar entre as quatro. Com o abandono em Cincy, Halep pode no máximo manter o sexto posto.

Mesmo que acabe como cabeça 17, Bia Haddad ainda será a tenista nacional a ocupar a maior condição de favorita num Grand Slam desde que Gustavo Kuerten figurou como cabeça 14 no US Open de 2003. A última vez que uma brasileira entrou na lista das favoritas em Nova York foi obviamente Maria Esther Bueno, quinta principal inscrita em 1968, quando só oito cabeças eram selecionadas.

Nadal vai ter de treinar mais
O objetivo de Rafael Nadal de jogar Cincinnati para pegar ritmo, após a contusão abdominal sofrida em Wimbledon, caiu por terra. Ele não passou da estreia, viveu altos e baixos naturais para a inatividade e terá agora de decidir: foca o treino nos 10 dias que faltam para o US Open ou arrisca pedir convite para competir mais em Winston-Salem. Se eu fosse ele, jogaria o ATP 250, nem que fosse dupla.

Durante quase três horas, o espanhol cometeu erros muito além do natural, mas ainda assim esteve bem perto de ganhar o primeiro set, o que se mostraria fundamental. Fez uma segunda série bem mais consisnte, em que sacou com determinação e usou bem o forehand, mas sua postura muito recuada abriu caminho para um ousado e bem aplicado Borna Coric, que marcou sua terceira vitória em cinco duelos diante do canhoto de Mallorca.

Ainda um mero 152º do ranking – ficou um ano sem jogar devido à cirurgia no ombro -, Coric estava jogando challengers no saibro italiano antes de ganhar dois jogos no 500 de Hamburgo e aí se arriscar na quadra dura. Antes de Nadal, passou muito bem por Lorenzo Musetti em Cincy e agora terá pela frente Roberto Bautista. É bom vê-lo jogar em alto nível novamente.

E mais

  • O sinal de alerta também soou para Coco Gauff e Nick Kyrgios. Nova número 1 do mundo de duplas, a jovem norte-americana torceu o tornozelo e terá de correr contra o tempo para jogar o US Open. O australiano já havia mostrado limitações em Montréal e andou em quadra nesta quarta-feira contra Taylor Fritz.
  • Ons Jabeur e Anett Kontaveit flertaram com a eliminação, Maria Sakkari, Garbiñe Muguruza e Leylah Fernandez seguem em baixa. Já Karolina Pliskova não tirou o que podia da quadra mais veloz. De novo, muitas surpresas femininas.
  • Na hora certa e numa chave adequada, Emma Raducanu busca a confiança às vésperas de defender o US Open. Passou com clara superioridade por Serena e Azarenka e agora terá um teste importante contra a embalada Jessica Pegula.
  • Daniil Medvedev não brilhou na estreia, mas passou pelo holandês Botic van der Zandschulp e agora só precisa bater Denis Shapovalov para garantir mais quatro semanas no número 1 e o sempre prestigioso posto de cabeça 1 do US Open. Mas como atual campeão em NY, terá de evoluir muito para não ser destronado de vez por Nadal ou Alcaraz.
  • Ben Shelton, conhecido como Big Ben no circuito universitário americano, onde foi campeão, virou sensação em Cincinnati. Aos 19 anos, canhoto de 1,93m, mostrou um tênis muito agressivo e passou por Casper Ruud com sobras. Vai desafiar o também canhoto Cameron Norrie, que enfim ganhou uma de Andy Murray. Ben é filho de Bryan Shelton, top 55 do ranking em 1992.
  • Felix Aliassime e Jannik Sinner fazem o grande duelo da nova geração nas oitavas de Cincinnati. No único confronto, em Madri deste ano, o canadense venceu.
  • Monfils não se recuperou da lesão no pé e está fora do US Open, que deu convites para Thiem, Venus e Kenin.

    Mais tarde, volto para comentar o retorno de Nadal

Vice com sabor de sucesso
Por José Nilton Dalcim
14 de agosto de 2022 às 21:28

O primeiro troféu de nível 1000 escapou por poucos games, diante de uma adversária de imenso currículo e competência. Beatriz Haddad Maia concluiu sua semana histórica na quadra sintética de Toronto com o espírito lutador e a atitude empolgante que levaram até o Rei Pelé a se declarar seu torcedor. Alcançou com louvor o sucesso e seu desempenho em todos os campos sinaliza que há muita alegria vindo por aí.

Bia me pareceu um tanto tensa em vários momentos da equilibrada partida, mas acima de tudo no primeiro set, o que é absolutamente normal. Muito mais experiente, Simona Halep também estava nervosa e não escondeu isso. E olha que a ex-número 1 por 64 semanas possui dois Grand Slam e disputava sua 42ª final no circuito.

É muito mais produtivo, no entanto, enxergar o que cada uma fez de bom para ser competitiva. Bia aproveitou o começo tenebroso da adversária para abrir 3/0, mas assim que a romena achou seu ritmo e arriscou menos o primeiro saque dominou os seis games seguintes.

Bia mudou radicalmente de postura logo na abertura do segundo set e parou de trocar tanta bola. Foi para cima, raramente batendo duas vezes no mesmo lugar, e se agigantou, mesmo com índice muito baixo de acerto do primeiro saque (46% nesses dois sets).

O começo da série final foi decisivo para o resultado da partida. Halep salvou dois break-points, obteve depois a quebra e viu Bia reagir. Mesmo sacando bem melhor – o aproveitamento subiu para 82% -, veio a quebra definitiva no quarto game. Nesse momento, Halep já havia mudado a tática. Usava bolas mais altas, baixando os erros ao mínimo possível, e se dispunha a correr, o que deixava o trabalho de ataque – e de risco – para a oponente. Deu certo e não houve qualquer chance de recuperação da brasileira.

O resumo da semana é altamente positivo para Bia, e não estou falando em termos de ranking ou de prêmio. Em situações muito distintas e diante de adversárias poderosas, utilizou os mais diferentes recursos para avançar numa chave duríssima. Por vezes foi sólida e paciente, sacou com grande qualidade. Em outras, defendeu-se muito melhor do que jamais fez, buscou contragolpes magníficos e ditou o ritmo do jogo. O físico e a concentração estiveram impecáveis e as escolhas táticas, dela e do time, se mostraram sempre adequadas.

Subiu vários degraus e pode comemorar também o 16º posto do ranking, objetivo que era traçado para depois do US Open. “Evoluir todos os dias é o que me move”. Muito animador ouvir isso.

Batalha recomeça em Cincinnati
Tudo o que se deseja agora é que Bia aproveite o embalo, as experiências adquiridas e a confiança em alta para outro grande desafio, que começa já na terça-feira em Cincinnati. Logo de cara, reencontro com Jelena Ostapenko que é uma luta direta pelo 15º posto do ranking, uma vez que a letã está apenas 24 pontos à frente.

Ostapenko ganhou os dois duelos entre elas, o primeiro na final de Seul em 2017 e o outro na segunda rodada de Miami de 2018, porém obviamente Bia é uma tenista muito superior hoje. Todo mundo conhece o poder de fogo dos golpes de Ostapenko, que ao menos tempo é muito elétrica e pode errar demais. Vejo boa chance.

Em caso de vitória, virá então a vencedora de Madison Keys e Yulia Putintseva, adversárias respeitáveis na quadra dura. A norte-americana aliás ganhou Cincinnati, em 2019, e foi semi do Australian Open em janeiro. E se tudo der certinho, Bia reencontrará Iga Swiatek nas oitavas, a menos que Alizé Cornet tire Sloane Stephens e surpreenda a polonesa de novo, como fez em Wimbledon.

No nível que Bia atingiu, não dá mesmo para esperar jogos fáceis ou adversárias fracas. E isso é justamente o que deve elevar cada vez mais a qualidade do seu jogo. Em entrevista recente a TenisBrasil, seu técnico Rafael Paciaroni enfatizou isso. “O ambiente é decisivo na evolução. Estar treinando, jogando, convivendo com as melhores jogadoras do mundo obrigará Bia a estar o tempo todo buscando sua melhor versão e atenta a novos aprendizados. Novas soluções para novos problemas”. Ele me parece certíssimo.

Em ótima forma, Bia também confirmou presença na chave de duplas, onde voltará a fazer parceria com Anna Danilina. O dueto é o nono colocado no ranking da temporada e busca pontos valiosos em Cincinnati e no US Open para se manter na luta por vaga no Finals.

E mais

  • Este foi o primeiro título de Halep na parceria com o francês Patrick Mouratoglou, ex-técnico de Serena Williams. A romena contou que estava desmotivada e pensando em parar e que o novo treinador lhe deu energia. O 24º troféu da carreira e nono de nível 1000 recolocam Halep no sexto lugar do ranking.
  • Com outra grande atuação, o espanhol Pablo Carreño faturou com justiça um título um tanto improvável no começo da semana. Tirou Berrettini e Sinner, fez uma semi incrível de três horas contra Evans no sábado à noite e por fim reagiu neste domingo em cima de Hubert Hurkacz para se tornar o terceiro novo campeão de Masters 1000 da temporada, ao lado de Fritz e Alcaraz.
  • Hurkacz, tal qual havia acontecido com Alcaraz, perdeu a invencibilidade que tinha em finais na carreira. Ele buscava o sexto título seguido.
  • Aos 18 anos, Coco Gauff será a nova líder do ranking de duplas. Ela ganhou seu segundo 1000 em Toronto ao lado de Jessica Pegula, a mesma parceria que foi à final de Roland Garros. O recorde de idade permanece com Martina Hingis, que liderou as duplas aos 17 (e o de simples, aos 16).
  • Thiago Monteiro levou virada na rodada final do quali de Cincinnati e terá de torcer por duas desistências na chave para entrar de lucky-loser.
Bia joga maior final de um brasileiro em 19 anos
Por José Nilton Dalcim
13 de agosto de 2022 às 23:11

Depois de tirar a número 1 do mundo, a 12ª do ranking e a 13ª colocada, Beatriz Haddad Maia mudou completamente a postura tática e eliminou neste sábado histórico a 14ª do mundo na sua espetacular sucessão de surpresas no WTA 1000 de Toronto.

Dá assim ao tênis brasileiro sua mais importante final de simples desde que Gustavo Kuerten foi vice em Indian Wells em março de 2003. No caso de conquista neste domingo, erguerá o maior troféu individual de um jogador nacional desde que Guga faturou Cincinnati em agosto de 2001. Observem que falei “simples”, porque jamais devemos esquecer os títulos de duplas de Grand Slam que Bruno Soares e Marcelo Melo alcançaram.

A extraordinária campanha em Toronto também garante a canhota paulistana de 26 anos no 16º lugar do ranking, que é a mais alta posição de um brasileiro desde Guga, em março de 2004. O eventual terceiro WTA da carreira na quarta final lhe dará o 14º posto, igual ao de Kuerten em setembro de 2003.

E, acreditem, já dá para sonhar com vaga no WTA Finals. Bia agora é top 10 na temporada, com 1.787 pontos desde janeiro, e poderá sair do Canadá como sétima classificada, com 2.102, deixando para trás a romena Simona Halep, a espanhola Paula Badosa e a suíça Belinda Bencic.

Halep, a quem derrotou na grama britânica dois meses atrás numa atuação magnífica, é a última barreira. A final está marcada para as 14h30 deste domingo. A romena é bicampeã no Canadá, ex-número 1 do ranking, atual 15ª colocada e dona de 23 títulos, entre os quais dois Slam e oito WTA 1000. Antes de Birmingham, havia vencido Bia duas vezes.

Naquele domingo de junho, em que teve de fazer semi atrasada, a brasileira talvez tenha feito sua maior atuação da temporada, já que conseguiu solidez incrível em longas e velozes trocas de bola, em que a profundidade dos golpes foi o elemento essencial. Com exceção ao segundo saque, Halep oferece poucas brechas e isso geralmente exige concentração, consistência, físico e ousadia de suas adversárias.

Bia exibiu tudo isso nesta semana incrível. A semi contra Karolina Pliskova, ex-líder do ranking e finalista de Wimbledon do ano passado, mostrou uma brasileira diferente e, a meu ver, com a postura tática ideal. Fez a tcheca jogar o máximo possível, apostando na sua impaciência e movimentação deficitária, com mistura admirável de bolas muito longas e ótimo desempenho na devolução.

Quando Pliskova calibrou seus ‘foguetes’ da base, o jogo ficou muito mais duro e Bia era penalizada quando suas bolas ficavam mais curtas. Então foi necessário subir o grau de risco e mudar direções. Esteve muito feliz na escolha dos golpes na hora de recuperar a quebra – a tcheca sacava para fechar o segundo set -, e manteve a frieza durante um tiebreak cheio de alternâncias, em que perdeu match-point e salvou set-point antes de concluir nos erros da afobada adversária. Outra exibição de gala.

Embora seja apenas uma referência, também é interessante destacar que Bia se torna apenas a oitava profissional brasileira a superar a casa dos US$ 2 milhões de faturamento bruto, valor que não inclui taxas subtraídas na fonte nem despesas e eventuais comissões. Como finalista, já embolsou US$ 259,100 em Toronto, elevando o total bruto da carreira para US$ 2,18 milhões. Se for campeã, o valor do prêmio subirá para US$ 439.700 e elevará seu total para US$ 2,36 mi.

E mais
– Os dois títulos de Halep no Canadá foram em Montréal, em 2016 e 2018. Com a dura virada em cima de Jessica Pegula, em que fez apenas 11 winners e incríveis 42 erros, a romena volta ao top 10 e pode ser 6ª com o título.
– Depois de perder o primeiro set com postura um tanto passiva, Hubert Hurkacz achou o caminho para reagir em cima de Casper Ruud e fez excelentes subidas à rede. Totalizou 47 winners. Vai tentar o segundo Masters da carreira e pode subir ao oitavo lugar do ranking.
– Pablo Carreño, aos 31 anos, enfim chega a uma final de Masters e pode ser o terceiro da temporada a ganhar seu primeiro 1000, repetindo Fritz e Alcaraz. Fez um grande jogo diante de Daniel Evans e achou irônico o fato de tentar seu maior título justamente na sua ‘pior temporada’. Final será às 17 horas.
– Thiago Monteiro jogou muito bem na primeira rodada do quali de Cincinnati e agora precisa ganhar do suíço Henri Laaksonen. Ele já disputou dois Masters, mas nunca venceu na chave principal.