Quem segura o Big 3?
Por José Nilton Dalcim
22 de agosto de 2019 às 19:35

Numa disputa todo pessoal pelo recorde de troféus de Grand Slam, Novak Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer conheceram nesta quinta-feira a chave do US Open e não podem reclamar muito. Principalmente o espanhol. Ele viu Federer ficar no mesmo lado de Nole, o que era certamente a maior interrogação do sorteio desta quinta-feira.

Não se pode dizer que a trajetória de Djokovic seja das mais simples, com possível duelo contra Sam Querrey na segunda rodada, Kevin Anderson ou Stan Wawrinka nas oitavas e reencontro com Daniil Medvedev nas quartas. Mas isso está longe de tirar dele o favoritismo ao título. Ao contrário, jogos progressivamente exigentes são um caminho ideal para quem quer entrar fisicamente em alta e muito focado na reta final de um Grand Slam.

Medvedev seria talvez sua maior barreira, já que Anderson não fez qualquer preparativo devido a contusões e Wawrinka não tem se mostrado competitivo. São os dois nomes mais experientes do quadrante, um com título, outro com final no torneio. Vindo de campanha excepcional, o russo precisa tomar cuidado com Taylor Fritz na terceira fase. Fabio Fognini e Nikoloz Basilashvili são candidatos a enfrentá-lo em eventuais oitavas, ainda que o italiano veja estreia muito perigosa diante do gigante Reilly Opelka.

A menos que esteja novamente mal treinado, Federer vislumbra uma chave excepcionalmente boa para confirmar sua vaga na semi, onde Lucas Pouille surge como possível oponente de terceira rodada; David Goffin, de oitavas; e Kei Nishikori, de quartas. O japonês anda com cotovelo comprometido e também deu sorte, já que Cristian Garin, Borna Coric e Milos Raonic não assustam.

A escalada de Nadal promete ser curiosa, com adversários muito distintos entre si. John Millman, aquele que tirou Federer em 2018 fica no fundo; Thanasi Kokkinakis é grande sacador, o canhoto Fernando Verdasco adora um quinto set. Daí podem vir John Isner ou Marin Cilic, que não estão em bom momento. Karen Khachanov se candidata a adversário de quartas e aí sim me parece um homem capaz de dar problemas ao espanhol. No ano passado, foram quatro duríssimos sets.

O único quadrante sem Big 3 também se tornou o mais atraente de todos, até porque não dá para cravar Stefanos Tsitsipas, Dominic Thiem, Roberto Bautista ou Nick Kyrgios como favoritos. O grego aliás pegou uma sequência daquelas: estreia contra Andrey Rublev, pode ter Gilles Simon, depois Kyrgios para então cruzar com Bautista. Mas o espanhol também tem primeiro jogo chato diante de MIkhail Kukushkin. De qualquer forma, me parece que o sobrevivente deste grupo todo estará nas quartas, já que Thiem, Gael Monfils e Felix Aliassime estão num nível inferior no momento.

Equilíbrio no feminino
Na tentativa de defender seu título e o número 1, Naomi Osaka até que não se saiu mal no sorteio: Carla Suárez, Belinda Bencic, Kiki Bertens são as cabeças mais lógicas na sua trajetória. Quem pegou uma chave complexa foi Simona Halep, que provavelmente tenha de passar por Barbora Strycova, Bianca Andreescu, Sloane Stephens ou Petra Kvitova rumo à semi.

Embaixo, há também boa expectativa de equilíbrio. Ash Barty ficou no quadrante de Angelique Kerber e Serena Williams, enquanto Karolina Pliskova foi colocada no setor de Madison Keys e Elina Svitolina, que podem duelar entre si nas oitavas. Mas também está por ali Venus Williams, jamais descartável.

Serena x Sharapova
O destino brincou na chave feminina, ao colocar o duelo de campeãs entre Serena Williams e Maria Sharapova logo de cara. Será o 22º confronto entre elas, com placar de 19-2 para Serena, que não perde desde 2004. Jamais haviam se cruzado em Flushing Meadows.

Grandes jogos
A primeira rodada masculina tem alguns jogos que poderiam ser finais de ATP 250, como Tsitsipas-Rublev, Aliassime-Shapovalov, Berrettini-Gasquet, Kyrgios-Johnson, Struff-Ruud, Klizan-Cilic, Fognini-Opelka, Fucsovics-Basilashvili, Fritz-López, Kohlschreiber-Pouille, Pella-Carreño ou Jarry-Raonic. Estou prevendo muito quinto set.

No feminino, me parecem especialmente interessantes Azarenka-Sabalenka, Potapova-Gauff, Riske-Muguruza, Konta-Kasatkina e Kerber-Mladenovic.

Monteiro e Menezes: esperança
Embora o piso sintético não seja seu habitat natural, o canhoto cearense Thiago Monteiro escapou dos cabeças na primeira rodada e tem chance real diante do atleta da casa Bradley Klahn, de 28 anos e atual 108 do mundo, a quem o brasileiro venceu no ano passado. Se avançar, Monteiro deve reencontrar Nishikori, para quem caiu em Wimbledon.

A excelente notícia foram as duas vitórias de virada de João Menezes em seu primeiro quali de Grand Slam, o que prova mesmo seu momento de ascensão técnica e emocional. A vaga será decidida contra o indiano Sumit Nagal, de 22 anos e 190º do mundo, a quem mineiro já derrotou duas vezes em três sets, mas no saibro. O campeão pan-americano já embolsou US$ 32 mil e somou 16 pontos (serão US$ 58 mil e 35 pontos se entrar na chave). Ele só tem 8 pontos a repetir até o fim do ano.

Medvedev e Keys correm por fora no US Open
Por José Nilton Dalcim
18 de agosto de 2019 às 22:35

Ninguém em são consciência pode achar que Daniil Medvedev teria algum favoritismo caso cruzasse o Big 3 nas quartas de final do US Open, mas a excepcional sequência de vitórias do russo de 23 anos nas últimas semanas, ainda por cima encarando o terrível verão do Hemisfério Norte, o colocam como a melhor alternativa do momento para uma ‘zebra’ em Flushing Meadows.

Medvedev jogou 18 partidas de simples em 20 dias, tendo ganhado 26 dos 30 sets que disputou. E garante que só sentiu um real problema físico nos últimos dois games da final deste domingo contra David Goffin, quando pela primeira vez veio uma cãibra. O russo chegará a Nova York como quem mais venceu não só na temporada (44) como também na quadra dura (31).

Ao entrar no top 5 do ranking nesta segunda-feira, será o cabeça 5 no US Open, o que indica possível duelo contra um adversário entre 9 e 12 do mundo nas oitavas antes de ter a chance de encarar um dos quatro primeiros do ranking nas quartas. É um caminho motivador para um tenista que tem apenas 11 vitórias em 22 jogos de Grand Slam e uma única vez chegou na quarta rodada, no Australian Open de janeiro.

Medvedev perdeu 3 dos 5 jogos contra Novak Djokovic, incluindo justamnte o de quatro sets em Melbourne; acabou de levar uma surra no primeiro duelo contra Rafael Nadal, na decisão de Montréal; e perdeu as três vezes que cruzou com Roger Federer, uma delas em Miami de março. Mas me parece líquido e certo que chegará cheio de si a Flushing Meadows. Se der sorte na formação da chave, melhor ainda.

Na decisão deste domingo em Cincinnati, fez um primeiro set de altos e baixos contra David Goffin, mostrando-se bem menos agressivo do que na véspera contra Djokovic. Obteve uma quebra, permitiu a reação mas foi muito superior no tiebreak. Aí começou o segundo set já com quebra e caminhou firme até ter 5/4 e saque. Os nervos deram 15-40 a Goffin, o russo destruiu a raquete mas então disparou quatro saques incríveis que só comprovam sua autoconfiança: um segundo serviço a quase 200 km/h no primeiro break-point e depois três aces.

Quem também ganhou direito de correr por fora no US Open foi Madison Keys, com a importante diferença de que ela já decidiu o Slam caseiro dois anos atrás, quando perdeu para Sloane Stephens. Com um estilo bem agressivo, que combinou muito bem com o piso veloz de Cincinnati, Keys sempre tomou a iniciatiava e foi assim que tirou do caminho Simona Halep, Garbine Muguruza, Venus Williams e a surpreendente Svetlana Kuznetova. Na final deste domingo, cravou 45 winners (contra 15), sendo 13 aces.

A tática da norte-americana de 24 anos e agora novamente top 10 do ranking foi bem curiosa, segundo ela própria: “Tentei não pensar demais”. Genial. Este foi seu quinto título da carreira e o mais importante.

Como cabeça 10 no US Open, Keys está em situação um tanto semelhante à de Medvedev, mas que me parece mais complicada. Pode jogar as oitavas contra uma adversária entre 5 e 8 do ranking (e ali estão Svitolina, Kvitova, Bertens e Serena) e então quartas diante de uma top 4 (Osaka, Barty, Pliskova ou Halep). É exatamente o mesmo caminho que Stephens terá de percorrer.

E mais
– Medvedev é primeiro russo a aparecer no top 5 desde Nikolay Davydenko, em 2010. No começo do ano, ocupava a 16ª colocação.
– Ele também está no quinto lugar na corrida por vaga no Finals e a chance aumentou muito: soma 3.605 pontos desde janeiro.
– Agora, são cinco russos a ter vencido Masters, série criada em 1990: Marat Safin (ganhou 5), Davydenko (3), Andrei Chesnokov (2) e Karen Khachanov (1) foram os outros.
– Só com o vice em Montréal e o título em Cincy, Medvedev embolsou US$ 1,64 mi, mais do que os US$ 1,63 mi do ano passado inteiro.
– Goffin diz que seu tênis voltou a reaparecer depois que contratou o sueco Thomas Johansson, logo depois de Indian Wells.
– O ranking da temporada feminina tem Barty com 5.236 pontos, mais de 500 à frente de Halep e a quase 700 de Pliskova.
– Apesar da boa campanha em Cincy, Bruno Soares deixará o top 10 nesta segunda-feira e irá para o 14º lugar. Ele e Mate Pavic são apenas 42º na corrida para Londres.
– A chave do US Open será sorteda na quinta-feira. João Menezes e Rogério Silva estreiam no quali na terça e podem se cruzar se chegarem à rodada final.

Festa russa em Cincinnati continua
Por José Nilton Dalcim
17 de agosto de 2019 às 23:02

Entre tantas surpresas que a temporada 2019 nos tem reservado, a virada de Daniil Medvedev em cima de Novak Djokovic na semifinal de Cincinnati está facilmente entre os resultados menos esperados. De repente, o sérvio perdeu a consistência e a confiança, dando ao russo forças inimagináveis para um final de partida soberbo.

Em sua terceira final em semanas consecutivas, agora com duas vitórias seguidas sobre o número 1 do mundo em pisos bem distintos, Medvedev terá uma nova chance de conquistar seu primeiro troféu de Masters 1000 e, por que não, se tornar a maior ameaça ao Big 3 no tão próximo US Open.

Uma coisa é certa: a temporada verá o terceiro campeão inédito de Masters, já que o outro finalista é o belga David Goffin, que nunca chegou tão longe nesse nível. Quem vencer, se juntará a Dominic Thiem (Indian Wells) e Fabio Fognini (Monte Carlo). Isso iguala 2017 (Alexander Zverev, Grigor Dimitrov e Jack Sock) e 2018 (Juan Martin Del Potro, John Isner e Karen Khachanov).

Assim como fez Nole ao final do jogo, teremos todos de cumprimentar Medvedev por sua resiliência. Foi jogado de um lado para outro no primeiro set, pediu atendimento para dor muscular no braço direito e fez coisas fora do seu padrão para se tornar competitivo, ora com curtinhas, ora com voleios. Cravou até ace de segundo saque. Bastou um vacilo de Djokovic, uma queda repentina de intensidade, para o russo obter a primeira quebra e ganhar vida nova. Dominou o jogo a partir daí com extrema coragem e empenho físico. Incrível.

Estará agora diante de Goffin pela terceira vez na temporada, tendo vencido em sets diretos no Australian Open e perdido um jogo duríssimo na terceira rodada de Wimbledon, em que chegou a liderar por 2 sets a 1. É meu favorito natural ao título, mas tudo indica que terá de jogar o máximo outra vez.

Aos 28 anos, Goffin parece ter se reencontrado e curiosamente não foi sobre o saibro, mas na grama, onde somou 10 vitórias, com vice em Halle e quartas em Wimbledon, o que o levou de volta ao top 20. Não por acaso, Cincinnati também é um piso bem mais veloz e ele tem feito um jogo propositivo. Dominou Richard Gasquet com 27 winners (contra 15) e 14 erros (frente 23).

Semi no ano passado, quando abandonou pela metade a partida contra Federer, Goffin enfim terá chance de conquistar um grande título, algo que escapou no Finals de 2017. Na verdade, ele não ganha um torneio há 22 meses. Possui apenas quatro troféus na carreira em 12 finais anteriores e um único ATP 500, em Tóquio.

Kuznetsova amplia festa russa
A chave feminina também tem um grande destaque russo: a veterana Svetlana Kuznetsova, de 34 anos, dá a volta por cima a uma fase cheia de problemas físicos e é responsável direta pela permanência de Naomi Osaka na liderança do ranking, já que acabou com o sonho de Karolina Pliskova e de Ash Barty. Aliás, sua campanha em Cincinnati inclui três vitórias sobre top 10.

Fato curioso, Sveta teve problemas com visto para entrar nos Estados Unidos e por isso não defendeu o título de Washington e quase encerrou o calendário. De volta ao top 70, enfrentará na decisão a tenista da casa Madison Keys, que também atravessa um ótimo momento e a quem jamais venceu em três duelos. Keys eliminou Simona Halep, Garbine Muguruza e Venus Williams. Precisa do maior título da carreira para retornar ao grupo das 10 melhores. Esta final promete.

E mais
– A semana incrível do tênis russo em Cincinnati teve também a vitória de Andrey Rublev sobre Federer e o duelo tenso e confuso de Khachanov em cima de Nick Kyrgios.
– Medvedev é o tenista com maior número de vitórias na temporada, com 43, uma a mais que Rafael Nadal e três sobre Roger Federer.
– Ele também lidera em triunfos na quadra dura, agora com 30, bem cima das 20 de Bautista Agut e Stefanos Tsitsipas.
– Goffin enfim chega a sua primeira final de Masters depois de quatro tentativas frustradas. Saindo do saibro em junho, era 33º do mundo, sua mais baixa classificação desde 2014.
– Nadal chegará ao US Open como líder do ranking da temporada, 140 pontos à frente de Djokovic, o que é mais um ingrediente saboroso para Nova York.
– Thiago Monteiro irá reaparecer no top 100 na segunda-feira. Conseguiu vaga direta e joga o ATP 250 de Winston antes do US Open, mas a estreia é dura contra o garoto australiano Alexei Popyrin.