Força espanhola
Por José Nilton Dalcim
17 de janeiro de 2022 às 12:54

Rafael Nadal, Carlos Alcaraz, Pablo Carreño e Paula Badosa. Não foram apenas quatro vitórias, mas agradáveis exibições do sempre poderoso exército espanhol na abertura do Australian Open de 2022. A quadra, que parece um pouco mais lenta do que se mostrou no ano passado, pode ser um aliado fundamental.

É bem verdade que Marcos Giron não mostrou competência para exigir realmente o máximo de Nadal. O campeão de 2009 sacou bem com 84% de pontos vencidos com o primeiro serviço, colocou o adversário para correr e não pensou muito para buscar finalizar os pontos, jogando aliás bem mais perto da linha de base. Totalizou 34 winners e 26 erros, mostra que a ideia parece mesmo forçar. Não deve ter dificuldade diante de Yannick Hanfmann e espera o ‘freguês’ Karen Khachanov.

Quem passou apertado foi o russo Aslan Karatsev, surpreendente semifinalista do ano passado, que não produziu muito com o saque, sentiu a lentidão maior da rodada noturna e foi um verdadeiro kamikaze, com 87 winners – quase 50% de seus pontos na partida – mas também 107 erros, 60% de tudo que Jaume Munar fez nos cinco sets e 4h52 de batalha. É bem possível que um duelo direto com o perigosíssimo Hubert Hurkacz defina quem vai pegar Nadal nas oitavas.

Ainda nesse forte setor da chave, Alexander Zverev jogou para o gasto e nem ele gostou muito da estreia diante do compatriota Daniel Altmaier, que o levou a dois tiebreaks. O aspecto positivo foram as 55 subidas e 39 pontos junto à rede. De qualquer forma, a caminhada é muito favorável: agora vem John Millman, depois Radu Albot ou Aleksandar Vukic e só então Denis Shapovalov ou Reilly Opelka. Dá tempo de sobra para achar seu melhor tênis.

O outro quadrante
Matteo Berrettini diz ter sofrido com dores no estômago e por muito pouco não viu sua tarefa se alongar ainda mais, já que o bom Brandon Nakashima desperdiçou um set-point que lhe daria placar vantajoso de 2 a 1. Outra vez, o destaque do italiano foi o saque, que apareceu nas horas mais importantes: de seus 42 winners, 21 foram aces.

Carlos Alcaraz foi muito bem no primeiro jogo da temporada, não economizou subidas à rede e parece um adversário muito perigoso para o italiano num evento duelo de terceira rodada. E quem sobreviver pode pegar Pablo Carreño, que jogou o básico para avançar em três sets. A surpresa no setor veio com a vitória facílima de Sebastian Korda sobre o canhoto Cameron Norrie, lembrando que o garoto norte-americano passou duas semanas de quarentena por ter contraído covid logo após a chegada a Melbourne.

Quem pode se aproveitar muito bem do buraco aberto pela ausência de Novak Djokovic no topo da chave é o veterano mas sempre prazeroso Gael Monfils. Jogou sério na estreia, tem que tomar cuidado com Alexander Bublik e, se passar, terá Cristian Garin ou Pedro Martinez. É um excelente cenário. No seu quadrante, Lorenzo Sonego aparece como adversário mais gabaritado para duelar com o francês nas oitavas. Monfils não passa da 4ª rodada em Melbourne desde as quartas em 2016, sua única campanha de destaque no Australian Open em 16 participações.

Feminino: Osaka empolga
Ashleigh Barty e Naomi Osaka não encaram oponentes de gabarito, mas deram o recado em seus jogos iniciais do Australian Open: estão muito afiadas. E isso só aumenta a expectativa por eventual duelo direto entre elas ainda nas oitavas de final. Belinda Bencic ainda é o único nome que pode impedir isso, mas a campeã olímpica admitiu que ainda não está plenamente recuperada da infecção por coronavírus.

Osaka me deixou mais empolgado, porque mostrou atitude em quadra e parecia muito alegre após a partida, com direito a brincadeiras na entrevista. Só faltou mesmo calibrar melhor o primeiro saque. Bicampeã do torneio, a japonesa tem vencido um Slam em cada uma das últimas quatro temporadas, todos na quadra dura.

Boa sugestão é ficar de olho em Paula Badosa. Cheia de recursos, soltou-se ao longo da partida e é seríssima candidata a ir até as quartas. Esta foi apenas sua terceira vitória nos Slam sobre quadra dura, mas a evolução é evidente. No seu quadrante, estão nomes de peso, como Barbora Krejcikova, Elina Svitolina e Vika Azarenka.

Pequena decepção com a estreia muito irregular de Maria Sakkari. Não chegou a perder set da veterana e mãe Tatjana Maria, porém pareceu estar com muitas dúvidas táticas. E já caíram duas cabeças: Sofia Kenin corre até o risco de sair do top 100 após perder de Madison Keys e a garota Coco Gauff foi dominada pelas defesas de Qiang Wang.

Djokovic na parede
O líder do ranking desembarcou com recepção calorosa dos fãs em Belgrado. Ele avisou que não vai dar entrevistas, ao menos não tão cedo. Ainda recebeu mais uma notícia pouco animadora: Roland Garros também vai exigir comprovante de vacinação completa, seguindo norma federal baixada nesta segunda-feira. A informação foi dada pela mesma ministra dos esportes Roxana Maracineanu, que há poucos dias alardeou que Djoko estava assegurada no Slam do saibro.

Djokovic tem decisões duras pela frente
Por José Nilton Dalcim
16 de janeiro de 2022 às 09:41

Um acachapante 3 a 0, resultado que de alguma forma me surpreendeu, encerrou a discussão. Novak Djokovic teve seu visto de entrada na Austrália recusado por não estar completamente vacinado contra o coronavírus e com isso já deixou Melbourne neste domingo, impedido de tentar o 10º título no Grand Slam que mais dominou em sua vitoriosa carreira.

Acima de todas as discussões jurídicas e em que pese os absurdos erros cometidos pelos organizadores, Djokovic não merecia mesmo jogar este Australian Open. Para mim, o argumento essencial em toda essa novela é que o sérvio não foi honesto ao requerer uma exceção médica por ter contraído o vírus exatamente um mês antes do torneio.

Todo mundo sabe que não foi esse o motivo de ele não se vacinar. Djoko é um naturalista e tem receio de que a vacina possa causar danos a seu corpo. Até aí, não há nada de errado, é uma visão e decisão pessoais. Mas deveria assumir isso e jamais usar a brecha da pré-infecção para tentar contornar as normas estabelecidas pelo governo australiano. Juridicamente, é aceitável. Moralmente, é um desastre.

Nas alegações do advogado do ministro Alex Hawke na audiência desta madrugada, esse ponto é inquestionável. “Ele poderia ter se vacinado antes (do dia 16 de dezembro)”, observou. “Nesta altura da pandemia, ele poderia ter se vacinado se realmente quisesse”, em outro trecho. Existem dois direitos inalienáveis aqui, sejamos contra ou a favor: o de Djokovic não se vacinar e de o governo australiano exigir vacinação completa para entrar no país, anunciado com muita antecedência aos tenistas.

Sabe-se também que houve graves falhas processuais no requerimento do visto, a maior parte delas provocada pela Tennis Australia. Ninguém irá me tirar a ideia de que houve um conluio entre os organizadores e a equipe de Djokovic. Além de essa regra de exceção – infecção em seis meses prévios – não ser aberta a não residentes australianos, ainda por cima estava fora do prazo legal, mas os organizadores arrumaram um jeito de obter painéis médicos favoráveis e documentar o número 1 para sua entrada em Melbourne. Será extremamente decepcionante se não houver investigação e punição a Craig Tiley.

A retirada de Djokovic do torneio é muito ruim na parte técnica, já que o maior vencedor do Australian Open estaria em plena forma física e técnica para brigar por um novo título e seu 21º troféu de Grand Slam. Aliás, com um sorteio de chave bastante favorável. No entanto, me pergunto como seria o dia a dia do torneio com ele em quadra. Houve inúmeras reações contrárias dos próprios tenistas, a imprensa jamais o deixaria confortável e todas as pesquisas mostravam que ao menos 75% da população eram contra sua permanência no país. Não parece um quadro animador.

Djokovic agora tem decisões importantes a tomar. O impedimento de entrada do governo australiano deixa bem claro que ele terá muitas dificuldades para viajar pelo circuito ao longo dos próximos meses caso mantenha a decisão de não se vacinar, já que todos os países desenvolvidos e as principais potências do tênis têm idêntica exigência da comprovação vacinal completa.

O sofrimento e o desgaste pelos quais passou em Melbourne e a amarga deportação deixam claro que nem o maior tenista da história pode se achar uma exceção às regras.

Consequências imediatas
– O italiano Salvatore Caruso, 150º do mundo e que perdeu na última rodada do quali, ocupará a vaga de Djokovic no topo da chave. O tenista de maior ranking no quadrante que determina um semifinalista é agora Matteo Berrettini.
– Esta será a primeira vez que Rafa Nadal jogará um Grand Slam sem ter a concorrência de Djokovic e de Roger Federer. E também agora é o único a ter vencido o Australian Open entre todos que estão na chave.
– Fica aberta a chance de Daniil Medvedev ou Alexander Zverev chegar ao topo do ranking, mas isso apenas dentro de cinco semanas, quando cairão os 2.000 pontos que Djoko irá perder (o torneio terminou no dia 21 de fevereiro em 2021). De qualquer forma, o russo ou o alemão terão de ganhar o torneio para assumir o número 1.
– O ministro da Imigração, através do advogado, deixou aberta a possibilidade de evitar que a deportação de momento se estenda aos próximos anos. Via de regra, Djoko estaria impedido de receber visto por três anos.

Djokovic conhece caminhada e espera ministro
Por José Nilton Dalcim
13 de janeiro de 2022 às 15:39

Depois de uma tremenda boataria nas redes sociais, as chaves do Australian Open foram sorteadas e Novak Djokovic aparece para defender seu título, buscar o décimo troféu e o 21º Grand Slam. Como tem treinando normalmente e em ritmo acelerado, o sérvio parece pronto ao menos no campo técnico e físico para o desafio. Ele ainda está sob ameaça de deportação, mas o ministro australiano do Interior seguidamente adia pronunciamento e permanece em absoluto silêncio sobre o caso.

Djokovic tem pela frente jogos iniciais que podem ser fisicamente exigentes, mas onde ele é muito superior ao compatriota Miomir Kecmanovic, Tommy Paul ou Lorenzo Sonego. O superfreguês Gael Monfils e o fraco Cristian Garin viriam a seguir, se chegarem tão longe num setor que Alexander Bublik é perigoso. Já nas quartas o possível adversário é bem indefinido, podendo pintar a potência de Matteo Berrettini, a experiência de Pablo Carreño ou a juventude de Carlos Alcaraz. São jogadores de estilos muito diferentes e talvez Carreño seja o nome a se evitar.

Alexander Zverev e Rafael Nadal são os tenistas de peso no segundo quadrante e portanto adversários potenciais de Nole na semi. O caminho não é ruim para Sascha e colocaria Reilly Opelka como o maior obstáculo até as quartas. Já o espanhol pode encarar sequência bem exigente. A estreia contra Marcos Giron e a segunda partida frente a Thanasi Kokkinakis não permitem vacilos. Aí haveria um respiro antes de uma pedreira do tamanho de Hubert Hurkacz ou Aslan Karatsev. Portanto, para chegar em Zverev tudo indica que Rafa terá de estar em forma e confiança máximas.

Finalista do ano passado e o mais recente campeão de Grand Slam, Daniil Medvedev também vislumbra trajeto com poucas armadilhas. O eventual terceiro jogo contra o canhoto Ugo Humbert seria um bom teste, já que o francês jogou muito bem na ATP Cup. No jogo seguinte, podem pintar John Isner ou Diego Schwartzman ou uma ‘zebra’ como Maxime Cressy, porém me parece bem provável que Medvedev chegue nas quartas e aí o quadrante é bem imprevisível. Ali estão Andrey Rublev, Felix Aliassime, Daniel Evans e Marin Cilic, curiosamente quatro jogadores cuja instabilidade emocional é o principal defeito. Como vimos na ATP Cup, Evans e Aliassime mostraram força. Apostaria no britânico.

Por fim, o terceiro quadrante promete qualquer coisa e pode surgir daí um semifinalista inédito de Slam. O principal cabeça é Stefanos Tsitsipas, que não mostrou firmeza em Sydney com um cotovelo ainda preocupante. As oitavas diante de Roberto Bautista ou Taylor Fritz, grandes destaques da ATP Cup, tende a ser decisiva. Quem sobreviver terá boa chance de ir à penúltima rodada, já que o setor anexo tem Jannik Sinner, Casper Ruud, Nikoloz Basilashvili, Alex de Minaur e uma pequena mas não desprezível chance para Andy Murray.

Aliás, Murray protagoniza um dos grandes jogos de primeira rodada, no reencontro da batalha com Basilashvili de dias atrás. Outros jogos iniciais imperdíveis são Norrie x Korda, Nakashima x Berrettini, Opelka x Anderson, Musetti x De Minaur, Schwartzman x Krajinovic, Cressy x Isner e Umbert x Gasquet.

O feminino
Nem começou e a chave feminina já deixa enorme expectativa por um duelo precoce entre Ashleigh Barty e Naomi Osaka em plenas oitavas de final. A menos que joguem muito abaixo, será difícil evitar o confronto. A única que parece ter condições disso é Belinda Bencic. Esse lado superior da chave está bem forte, com presenças também de Maria Sakkari, Ons Jabeur e a imprevisível Jessica Pegula.

Quem sobreviver a isso tudo fará semi com a vencedora do setor que tem Barbora Krejcikova, Elina Svitolina, Vika Azarenka, Sofia Kenin, Coco Gauff e Paula Badosa. Dificílima previsão. A terceira fase pode ter Kenin contra Gauff e Azarenka diante de Svitolina, que decepcionou esta semana.

Aryna Sabalenka foi muito mal nos dois preparatórios de Adelaide, mas teve sorte na formação da chave e ao menos deve ganhar os dois primeiros jogos. No seu setor ficaram as canhotas Angelique Kerber e Leylah Fernandez, que podem duelar na terceira rodada. Parece uma boa janela para Iga Swiatek mostrar que se sente mais à vontade na quadra dura.

O terceiro quadrante é encabeçado por Garbiñe Muguruza, que caiu logo no 500 de Sydney e pode encarar a renovada Simona Halep. Entre as duas está Emma Raducanu quem, vindo de covid, só ganhou um game contra Elena Rybakina e vai pegar Sloane Stephens na estreia. É bem interessante ficar de olho em Anett Kontaveit, que está no seu piso predileto e em alta.

Os brasileiros
Thiago Monteiro encara a habilidade de Benoit Paire em seu retorno ao Melbourne Park. O canhoto cearense fez bons jogos nos dois torneios anteriores, com destaque para um primeiro saque bem agressivo, e sabe que terá de tirar o máximo do forehand do francês. Se passar, deve encarar outra ‘fera’, Grigor Dimitrov.

Bia Haddad também jogou dois preparatórios e aguarda uma qualificada, o que é garantia de ranking mais baixo porém de adversária em pleno ritmo. Se vencer, deve encarar Halep e aí fica pelo menos divertido.

E se…
Houve uma enorme expectativa no início da quinta-feira em Melbourne, quando o Primeiro Ministro fez um discurso sobre a pandemia e o sorteio foi atrasado em 1h15. Parecia que a ‘bomba’ do afastamento de Djokovic iria estourar, mas de novo nada aconteceu, já que o ministro da Imigração diz continuar avaliando o caso. Angustiante. Será que há alguma investigação em andamento? Ninguém sabe, e Nole continua treinando normalmente.

A pergunta óbvia é: o que acontecerá com a chave masculina caso Djokovic seja impedido de competir? A regra diz que, caso a primeira programação ainda não tenha sido divulgada, haverá troca de lugar de alguns cabeças de chave. Rublev subiria para a posição de Djokovic e Bublik ganharia condição de cabeça 33. Se a retirada ocorrer depois da programação, então a primeira linha será ocupada por um lucky-loser.