O futuro em boas mãos
Por José Nilton Dalcim
18 de novembro de 2019 às 00:49

A decisão do ATP Finals em emocionante duelo de 2h35 apenas ratificou o que se viu ao longo da semana na arena O2, em Londres. No embate direto contra os três monstros sagrados das quadras, a nova e novíssima gerações exibiram um tênis de grande qualidade, com empenho constante, preparo físico invejável, alternativas táticas, controle emocional. São os ingredientes essenciais para um espetáculo que valha o ingresso, o que é o grande receio dos fãs e analistas quando se imagina o dia em que o Big 4 disser adeus.

Stefanos Tsitsipas com seu backhand de uma mão, cabelos compridos, postura agressiva e muita mão para tentar golpes difíceis causou surpresa não pela exuberância de seu jogo, mas pelo amadurecimento que demonstra semana após semana. Pouco a pouco, deixa de ser marrento e reclamão para se tornar um jogador confiante de sua capacidade, que não se entrega na primeira dificuldade. Enfrentar os grandes parece menos um pesadelo e mais uma motivação.

O grego de 21 anos já havia derrotado Roger Federer em Melbourne, Rafael Nadal em Madri e Novak Djokovic em Xangai – é o mais jovem a obter tamanha façanha -, mas lhe faltava um título de peso real. E provavelmente foi a vitória inédita sobre Daniil Medvedev, logo na estreia deste Finals, a responsável pelo passo adiante dado hoje, ao erguer o quinto troféu mais importante do calendário e logo em sua primeira participação.

Quando começou a temporada, ele havia dito que faria um esforço especial no primeiro semestre para chegar ao top 10. E conseguiu a meta logo em março. Porém, exagerou. Quando chegou a Roland Garros, em junho, já havia disputado 13 torneios. Reconheceu o erro, deu uma parada estratégica após a decepcionante queda de estreia em Wimbledon, um Slam onde apostava muitas fichas, mas a confiança tinha caído muito. Por fim, recuperou-se na fase chinesa, garantindo vaga em Londres, onde entrou quase como coadjuvante do seu grupo.

Não me restam dúvidas de que a evolução de Tsitsipas está intimamente ligada aos conselhos cada vez mais presentes de Patrick Mouratoglou, diminuindo a relação com o pai. Apostolos reconhece que aprendeu técnicas de treinamento e preparação a partir dos 12 anos do filho, momento em que Stef se decidiu pelo tênis. Aos 16, passou a fazer temporadas na academia do técnico de Serena Williams em Paris, mas Mouratoglou só se integrou com frequência ao time nos últimos 12 meses.

Dominic Thiem também merece elogios e atenção. Desde que trocou para Nicolás Massu, seu rendimento sobre a quadra dura cresceu. É bem verdade que ele já tinha título em Acapulco três anos atrás, mas 2019 marcou uma reviravolta. Começou com a campanha incrível em Indian Wells, avançou com Pequim e Viena, culminando nesta semana com vitórias seguidas sobre os dois maiores campeões sobre o piso sintético do tênis profissional. Pela primeira vez, termina uma temporada com maior sucesso no asfalto do que no saibro, e olha que ele faturou Barcelona e foi vice em Roland Garros.

Qualquer um deles poderia ter levado o título neste domingo. Fizeram um duelo apertado no primeiro set, sem quebras, e Thiem pareceu ter relaxado depois do tiebreak. O adversário ao contrário não perdeu a cabeça, disparou no placar e abriu 3/1 no terceiro set, dando a impressão que o gás do austríaco havia acabado. Que nada. O Finals das emoções reservou um final de partida imprevisível, testando nervos e coragem. Depois de errar feio nos primeiros pontos do tiebreak decisivo, Thiem marcou lances incríveis e empatou. Outra vez a cabeça fria de Tsitsipas fez a diferença, o que atesta a essencial transformação do seu vistoso tênis.

Mesmo às vésperas da fase final da Copa Davis, a temporada efetiva acabou. E felizmente com otimismo. O futuro está em mãos competentes.

Novo e inesperado campeão. Outra vez.
Por José Nilton Dalcim
16 de novembro de 2019 às 21:09

O ATP Finals verá um novo campeão em 2019, marcando o terceiro ano consecutivo que nenhum Big 4 conquista o título. Será que os tempos estão definitivamente mudando? Se Dominic Thiem não pode ser chamado de Next Gen, apesar dos seus 26 anos recém completados, Stefanos Tsitsipas se consagra como o grande nome da novíssima geração, com real capacidade de desafiar os monstros sagrados em qualquer piso.

Sua atuação neste sábado contra Roger Federer foi de gala, e isso tem menos a ver com a parte tática e técnica, em que também foi extremamente bem, mas com a parte emocional. Com quase toda a torcida contra, ele se sustentou em momentos delicados, em que poderia ter cedido a erros não forçados e revigorado o suíço. É bem verdade que o Federer de hoje esteve distante daquele que derrotou Novak Djokovic 48 horas antes, com falhas cruciais de forehand.

Stef mereceu com louvor a vitória. Sacou firme quando necessário, mostrou solidez de base impressionante, com um backhand sólido e um forehand agressivo na menor oportunidade. Abriu ângulos na esquerda do adversário ou usou o lado direito para pegar o suíço deslocado. Foi à rede sem afobação.

Esse conjunto de qualidades foi demais para um Federer que em alguns momentos mexeu muito mal as pernas – os dois smashes desperdiçados num único game logo no início e a quebra de zero no segundo set foram frutos diretos disso – e se afobou quando precisou de uma devolução profunda para tentar reagir. Nas duas derrotas deste ano para Tsitsipas, construiu 24 break-points e só aproveitou um.

Fato curioso, a decisão às 15 horas deste domingo envolve dois jogadores que derrotaram Federer neste piso veloz da arena O2, porque foi assim que Dominic começou sua campanha em Londres no último domingo. Aliás, ele logo depois barrou também Novak Djokovic, um esforço que custou atuação ruim diante de Matteo Berrettini. Evoluiu neste sábado contra o amigo Alexander Zverev, mas num nível inferior ao que vinha apresentando.

Thiem é mais experiente, já ganhou quatro dos seis duelos contra Tsitsipas e tem o favoritismo natural. Eu diria no entanto que esse favoritismo é bem tênue, principalmente se Tsitsipas conseguir outra vez se plantar sobre a linha e acelerar os golpes, impedindo que o spin pesado do austríaco tire seu tempo do backhand.

Apesar de inesperada, a decisão deste Finals promete. Para agora e para o futuro.

E mais
– Há outro fato histórico na final deste domingo: a primeira entre dois tenistas com backhand de uma mão desde que Federer ganhou de James Blake, em 2006.
– Thiem recupera o quarto posto do ranking e supera outra vez Daniil Medvedev. O eventual título o deixará a apenas 265 pontos de Federer e um inédito terceiro lugar, meta para 2020 com certeza.
– O austríaco também pode se isolar de Djokovic e ser o único com seis títulos na temporada em 25 torneios disputados. Dado curioso, ele terminará com mais vitórias na dura (26 por enquanto) do que no saibro (23).
– Tsitsipas já tem dois feitos notáveis na temporada: então com 20 anos, é o mais jovem a derrotar os membros do Big 3 e também a bater Nadal sobre o saibro.
– É a sexta final do grego em 2019, com títulos menores em Marselha e Estoril, mas vice em Madri, Dubai e Pequim. Tem 54 vitórias em 2019, cinco a mais do que Thiem.
– Stef também é apenas o terceiro estreante no Finals a atingir direto a última rodada, repetindo Grigor Dimitrov e David Goffin de 2017 (o búlgaro foi o campeão).
– Um jogo tenso, com sete quebras, acabou determinando a queda de Marcelo Melo e do polonês Lukasz Kubot para Pierre Herbert e Nicolas Mahut. A parceria do mineiro não fez mesmo um grande torneio e termina a temporada com apenas um título, mas importantes vices em Indian Wells, Xangai, Halle, Pequim e Viena.
– Uma cerimônia celebrou os tenistas que se aposentaram em 2019 – Radek Stepanek, David Ferrer, Víctor Estrella, Nicolás Almagro, Max Mirnyi, Marcin Matkowski, Mikhail Youzhny e Marcos Baghdatis -, incluindo por fim Tomas Berdych, que decidiu parar a luta contra seus problemas físicos. O vídeo abaixo talvez seja a melhor homenagem ao vice de Wimbledon de 2010 que também foi quarto do ranking numa era muito difícil de sonhar com grandes títulos.

Este Finals merecia um Fedal
Por José Nilton Dalcim
15 de novembro de 2019 às 20:53

Rafael Nadal lutou por quase três horas em outro jogo memorável deste ATP Finals, mas a vitória duríssima sobre Stefanos Tsitsipas não foi o suficiente para levá-lo à semifinal de sábado, onde enfrentaria nada menos do que Roger Federer.

Ainda que não se possa reclamar dos resultados em quadra e da justa classificação do atual campeão Alexander Zverev, impossível não ficar frustrado com a chance perdida, porque este torneio de tanta emoção e qualidade merecia ver um ‘Fedal’, algo que não acontece em Londres desde 2013.

O lamento também é justificável porque Rafa cresceu jogo a jogo, e certamente foi a estreia tão sem ritmo e confiança diante do super-sacador Zverev que acabou comprometendo sua campanha. Neste sábado, ele e Tsitsipas fizeram uma partida de enorme qualidade, bem tático mas que não poupou um grau considerável de risco o tempo todo.

E isso fica claro nos números: 38 a 34 nos winners, 30 a 33 nos erros. Destaque para os 22 pontos marcados por Rafa em 28 subidas à rede, com direitos a lances geniais, e os 85% de lances vencidos ao acertar o primeiro saque. Como pequena recompensa, ele terminará a temporada com 840 pontos de vantagem sobre Novak Djokovic, o que pode permitir a ele manter a liderança com quartas de final em Melbourne, sem considerar por enquanto as campanhas na ainda indecifrável ATP Cup.

16 a 1 para Federer
Único Big 3 a atingir a semifinal, Federer reencontrará Tsitsipas às 11 horas deste sábado. Será o quarto duelo oficial entre eles. Ninguém esquece que Tsitsipas salvou todos os 12 break-points que encarou para surpreender o suíço nas oitavas do Australian Open, em janeiro, poucos dias depois de perder na Copa Hopman. Federer o venceu em fevereiro na histórica final de Dubai, onde chegou ao 100º troféu da carreira, e há poucas semanas na semi da Basileia, ambas vitórias por duplo 6/4. Poderia ter havido um outro confronto no saibro de Roma, mas o suíço desistiu ao término de uma rodada dupla.

Existe um favorito? Federer, não tenho dúvida. A atuação magnífica contra Djokovic, a larga experiência na arena O2 – são 16 semifinais contra a primeira do grego -, o piso mais veloz que tanto gosta se somam ao provável cansaço de Tsitsipas, que jogou 2h52 contra Nadal e claramente perdeu eficiência no saque conforme o jogo se prolongou. Stef não pode ser menosprezado, e o suíço sabe disso. Tem muitos recursos, embora a agressividade seja seu melhor, e neste sábado chegou a ganhar mais pontos longos do o próprio espanhol.

Jogo de amigos
Zverev chegou a Londres um tanto desacreditado e causa um tanto de espanto ao repetir a semi do ano passado. O fato é que o alemão está tirando o máximo do saque nesse piso mais veloz e não tem caído na armadilha das duplas faltas, o que indica uma cabeça melhor. Fez um jogo bem equilibrado contra Medvedev, em que o russo se sobressaiu sempre que alongou os lances, e teve como mérito segurar a quebra obtida logo no game inicial e depois sustentar o saque até o tiebreak, onde o russo falhou na parte mental outra vez.

O desafio às 17 horas deste sábado é contra o amigo Dominic Thiem, um duelo que já teve sete capítulos. O austríaco venceu os três primeiros sobre o saibro, ainda em 2016, e daí em diante houve equilíbrio, com duas vitórias para cada lado. O triunfo de maior peso de Zverev foi na final do ano passado em Madri. Só fizeram dois jogos em piso sintético e rápido, com empate.

Eles não se cruzam há 17 meses, e nesse período é correto dizer que Thiem subiu de nível e Zverev perdeu o rumo. Obviamente, o alemão conhece o caminho: precisa manter a bola funda para forçar o austríaco a jogar mais atrás da linha, mas Thiem pode mesclar muito bem com slices – e os na paralela são valiosos – e curtas. Isso tudo vem depois do saque, e os dois costumam beirar os 220 km/h. O índice de acerto será decisivo.