Canadá promete em dose dupla
Por José Nilton Dalcim
7 de agosto de 2022 às 22:21

Ainda que haja desfalques de peso, os torneios combinados do Canadá, que acontecem tradicionalmente em cidades diferentes, indicam equilíbrio, jogos apertados desde a primeira rodada e, quem sabe, algumas boas surpresas. A largada já acontece às 12 horas desta segunda-feira.

Ao menos nos primeiros dias, os olhares brasileiros estarão sobre Beatriz Haddad Maia, agora elevada à condição de top 30 e por isso com inegável dever de mostrar um tênis de nível mais alto. Ela não foi bem em San Jose, seu primeiro torneio na quadra dura desde março, e vê uma chave difícil em Toronto.

A estreia parece mais factível, ainda que a também canhota Martina Trevisan tenha sido semi de Roland Garros dois meses atrás e esteja só um posto atrás de Bia no ranking. A italiana no entanto tem raros resultados fora do saibro, já que lhe falta um considerável peso de bola, e assim arrisco a dizer que Bia é favorita clara.

Mas daí em diante a coisa aperta, e muito. Se vencer, é muito provável que encare outra canhota, mas agora a dona da casa, super habilidosa e atual vice do US Open, Leylah Fernandez. E no caso de uma bem vinda surpresa, seria a vez de desafiar Iga Swiatek. Nada menos que Serena Williams e Naomi Osaka também estão ali, na expectativa de aproveitar a instabilidade de Belinda Bencic e Garbiñe Muguruza e galgar rodadas.

O torneio feminino do Canadá está mais promissor do que o masculino. Maria Sakkari e Ons Jabeur ficaram no segundo quadrante, onde estão também Daria Kasatkina, que terá de estrear contra Bianca Andreescu, e Amanda Anisimova. Sem falar do duelo tcheco entre Karolina Pliskova e Barbora Krejcikova.

A número 2 do mundo Anett Kontaveit pode enfrentar Simona Halep, depois Coco Gauff ou Aryna Sabalenka, um setor em que a campeã de Wimbledon Elena Rybakina aparece solta. Paula Badosa ficou no quadrante menos concorrido, ainda que figurem ali Emma Raducanu, Jessica Pegula e Petra Kvitova.

Sob pressão, Medvedev é favorito
A chave masculina tem o triste desfalque de Rafael Nadal e Novak Djokovic, além do contundido Alexander Zverev, mas ainda assim pode trazer alguns embates interessantes, entre eles o já aguardado reencontro entre o atual campeão Daniil Medvedev e o embalado mas imprevisível Nick Kyrgios, que poderá acontecer logo na segunda rodada caso o australiano se recupere do desgaste enorme da sufocante Washington, onde fez ‘dobradinha’, e assim supere na terça-feira o ‘baixinho’ Sebastian Baez. Quem avançar, tem chance de cruzar com Hubert Hurkacz, um tenista reconhecidamente competente na quadra dura, mas que foi muito mal nesta semana.

Há uma chance nada desprezível de vermos uma repetição de Los Cabos no piso canadense, porque Felix Aliassime e Cameron Norrie ficaram no mesmo quadrante, com duelo previsto para as quartas, e o vencedor teria Medvedev na semi, sequência semelhante às fases decisivas no México. O número 1 aliás levou o título no sábado e encerrou na hora certa o amargo jejum de cinco vices que acumulava desde o US Open do ano passado. Especialista na quadra dura, o russo defende Canadá e Flushing Meadows e ainda foi semi em Cincinnati, portanto terá uma tarefa muito dura para permanecer na ponta do ranking após o Slam de Nova York.

No extremo oposto, ficou Carlos Alcaraz, que disputará seu primeiro torneio no piso sintético desde a conquista espetacular em Miami. Não resta dúvida de que se apagou um pouco o brilho do fenômeno espanhol desde Madri, sem falar nos dois títulos seguidos que perdeu nas últimas semanas. Seu quadrante reúne nomes respeitáveis como Marin Cilic e depois Andrey Rublev ou Taylor Fritz. A concorrência para a quarta vaga na semi está principalmente entre Stefanos Tsitsipas, Jannik Sinner e Matteo Berrettini, todos também sem sentir a quadra dura desde março. Portanto, está tudo bem aberto neste lado inferior da chave.

Fato curioso, Tsitsipas achou a superfície mais lenta do que esperava, mas Alcaraz considerou rápida demais. Então teremos de aguardar para ver quem está com a razão. A primeira rodada promete jogos imperdíveis, como Fritz diante do tricampeão Andy Murray, a volta de Gael Monfils diante de Pedro Martinez, Berrettini contra o perigoso Pablo Carreño e Diego Schwartzman frente a Alejandro Davidovich.

Observe-se que o Masters 1000 dá US$ 5,3 milhões, o dobro da premiação do WTA 1000.

Como a Itália se tornou o exemplo do tênis
Por José Nilton Dalcim
2 de agosto de 2022 às 19:48

Vinte anos atrás, o tênis italiano era um grande problema, sem jogadores de destaque no circuito, crescimento interno estagnado e uma Federação à beira da falência. A transformação notável em espaço de tempo tão curto já chamou a atenção de potências como Estados Unidos, Espanha e França, interessados em compreender e adaptar o modelo de trabalho e de negócios que levou o tênis ao segundo lugar entre os esportes mais praticados da Itália e proporciona hoje 60 milhões de euros para os dirigentes investirem.

O primeiro degrau para se atingir o sucesso de hoje foi dado em 2001, quando Angelo Binaghi assumiu a presidência da Federação Italiana. A entidade sofria para sobreviver. O número de filiados havia desabado de 185 mil para 129 mil e mais de 700 clubes se retiraram. A modalidade deixou de ser motivadora para os patrocinadores e até mesmo o Aberto de Roma, importante fonte de renda, se via em caos financeiro.

Binaghi decidiu fazer profundas mudanças. Inovou o sistema de classificação de jogadores e a organização das competições, fazendo com que tenistas do mesmo nível jogassem entre si, recuperando a competitividade. Introduziu campeonatos regionais e ofereceu mais serviços aos filiados, investindo pesado em comunicação. Procurou também melhorar as relações com os treinadores particulares e graduou as escolas de tênis em cinco níveis. A ênfase maior foi aos estágios iniciais, as chamadas ‘escola do clube’ e a ‘escola básica’. Atualmente, existem 69 unidades espalhadas pelo país, mas apenas algumas com os estágios mais avançados.

A evolução revista ‘Supertennis’ para um canal de televisão foi a primeira grande sacada na questão comercial. O ambicioso projeto nasceu em 2008 e se voltou a divulgar todos os campeonatos nacionais, agregado a uma distribuidora via satélite. Assim, atinge hoje 95% do território nacional com programação ininterrupta. Com jogos de future, challengers, Copa Davis e depois ATPs e WTAs maiores, o canal atraiu fortes patrocinadores e virou fonte de renda fundamental.

O tênis profissional no entanto continuava seu calvário. Em 2003, a Itália chegou a cair para terceira divisão da Copa Davis, ao perder do Zimbábue; não havia top 20 e ninguém passava das oitavas de um Grand Slam. O único jovem promissor era Filippo Volandri.

Binaghi reconhece que houve também o fator sorte para cobrir essa entressafra, entre eles as campeãs Francesca Schiavone e Flávia Penetta; o aparecimento de Fabio Fognini no masculino, campeão de duplas no Australian Open ao lado de Simone Bolelli em 2015, e pouco depois a semifinal de Marco Cecchinato em Roland Garros de 2018.

O jornalista Vincenzo Martucci, que cobriu tênis por décadas na Gazzetta dello Sport, diz em seu livro ‘Il Rinascimento de Tênis italiano’ que Cecchinato mudou o cenário. “Por um lado, trouxe a Itália de volta ao nível semifinal de um Grand Slam masculino e por outro Marco não representa o modelo do jogador talentoso ou da mais alta qualidade, mas sim o de um jogador construído”. Ele ousa a dizer que essa façanha fez Fognini recuperar a vontade de jogar, que o levaria ao título de Monte Carlo logo depois.

Porém, antes mesmo de ressurgirem nomes de ponta para o tênis italiano, é preciso olhar o lento e decisivo trabalho de prospecção de talentos, que dá outra resposta essencial para o grande momento que a Itália vive hoje. Um dos maiores responsáveis é o mesmo Volandri, que em 2016 foi convidado pelo Conselho Nacional – sim, lá existe um Conselho Nacional – para ser o diretor técnico masculino da Federação, focado nos tenistas de 16 a 24 anos. Ele fincou base no centro de alto rendimento de Tirrenia e, numa entrevista dada ao site local Live Tennis, dá uma aula de como conduzir um trabalho coletivo.

“Nunca substitua o papel do treinador pessoal de um garoto, ele é o ponto de referência do tenista. Se dermos indicações contraditórias às crianças, criaremos confusão”. Volandri diz que é essencial compartilhar ideias e por isso acontecem extensas reuniões com os treinadores. “Somos a universidade que prepara os tenistas para o mundo do trabalho. Fornecemos as melhores ferramentas porque queremos que se tornem independentes. Quando andarem com as próprias pernas, teremos atingido nossa meta”, filosofa.

Ele explica que o primeiro trabalho do Centro é observar grupos de 15 crianças, ver características e possibilidades, como trabalha com seu treinador. Então se planeja um esquema e posteriormente acontecem as avaliações de como isso foi executado, o que deu certo ou errado. “Durante anos foi difícil convencer tenistas e treinadores da bondade do projeto e da oportunidade de compartilhar métodos. Temos um código de conduta. Não falamos diretamente com o garoto, mas com o treinador ou só na presença dele. A palavra de ordem é colaboração, o objetivo é trabalhar em conjunto”.

Volandri enfatiza a importância do extenso calendário profissional de futures e challengers que a Itália conseguiu nos últimos anos. “Tivemos um challenger por semana entre abril e novembro até a pandemia. E um resultado bom de um tenista puxa o outro. É o que vemos acontecer entre (Jannik) Sinner e (Lorenzo) Musetti, que são muito amigos. No entanto, é preciso ver que esse investimento demora muitos anos”.

A maciça maioria dos grandes nomes atuais passou longas temporadas em Tirrenia, como Matteo Berrettini, Lorenzo Sonego, Sinner, Musetti e os promissores Luca Nardi e Giulio Zeppieri. E Volandri ressalta a parceria que se criou com o time particular de cada um. “Levamos um tempo para mostrar que nossa filosofia era de somar e passamos a apoiar também aqueles que estavam fora do centro nacional, tanto em questão econômica como logística, além de compartilhar métodos. Quando Berrettini e Sonego jogavam futures, colocamos preparadores físicos e técnicos para acompanhá-los quando eles não tinham como levar um profissional. Pouco a pouco, fortalecemos a ideia de um grupo de trabalho”.

A Federtennis também colocou à disposição de todos os jogadores especialistas em psicologia esportiva, liderados pelo competente Lorenzo Beltrame, e repassa aos treinadores os vastos estudos estatísticos tão valiosos hoje em dia. “Na transição para o profissional, tática é fundamental. Muitos possuem técnica perfeita, mas erram na forma de administrar e construir um ponto. Essa é a outra importância dos torneios challengers, porque dá a experiência de como gerir uma partida. Claro que não há fórmula garantida para o sucesso, porque há muitos que não estão dispostos à dura vida do tenista profissional. Como vemos, há muita coisa a se encaixar até chegarmos a um padrão vencedor”.

Segundo estudos recentes, 35% da população italiana praticam alguma atividade esportiva e 2 milhões optaram pelo tênis. Desse total, 365 mil são membros da Federtennis, número apenas inferior ao 1 milhão do futebol e superior aos 320 mil do vôlei. Em nível competitivo, há 122 mil tenistas e 13 mil treinadores, o segundo maior contingente do planeta, atrás somente dos EUA. Existem pouco mais de 10 mil quadras, mas Binaghi não está satisfeito. “Queremos que o tênis chegue a todos os municípios, até mesmo os menores, e temos destinado os lucros do Aberto de Roma para financiar a construção de novas quadras. Temos de investir na base para que surjam campeões”.

“A Federtennis saiu da situação dramática no início dos anos 2000, transformando o passivo em um ativo de 12 milhões de euros por ano”, relata Martucci. “O circuito de challenger e futures permite que os jovens ganhem experiência e os mais velhos financiem seu próprio negócio. A Federação deu a si mesma uma imagem de empresa de nível médio e gerou confiança, a ponto de organizar hoje o Next Gen em Milão e o Finals de Turim. Se mantiver a seriedade, o faturamento anual de 60 milhões de euros mudará completamente o tamanho de tudo”.

Musetti sobe a rampa
Por José Nilton Dalcim
24 de julho de 2022 às 22:11

Enfim, Lorenzo Musetti fez jus a seu imenso talento e ganhou um título. E não foi um troféu qualquer, mas sim um ATP 500 e em cima da sensação espanhola Carlos Alcaraz. O saibro de Hamburgo viu a mais jovem final do circuito em exatos 17 anos e há muita chance que este primeiro duelo como profissionais se repita algumas vezes ao longo das próximas temporadas.

Detalhes importantes podem marcar a arrancada definitiva de Musetti. Sua campanha difícil incluiu evitar dois match-points na estreia diante do sérvio Dusan Lajovic, um dia depois de chegar ao torneio com mala extraviada e uma noite mal dormida com crises de vômito. Depois, fez atuações empolgantes diante do espanhol Alejandro Fokina e do argentino Francisco Cerundolo, o que lhe garantia enfim a primeira final da carreira após quatro semis.

Superar Alcaraz exigiu um tênis de alta qualidade, em que soube explorar muito bem seu forehand cheio de spin em cima do lado esquerdo do espanhol. Mostrou ainda muita perna para chegar em bolas difíceis tanto laterais como para a frente, além de ótima mão para curtas, contradeixadas e voleios. Mas mão todo mundo sabe que ‘Lolo’, como é conhecido em seu país, sempre teve de sobra.

O que realmente chamou a atenção foi a parte mental do costumeiramente emotivo italiano. “Tentei não mostrar ao adversário a decepção que estava passando por perder os match-points e ao mesmo tempo procurava me perdoar”, contou Musetti, para explicar a batalha interna que viveu desde que abriu 40-15 com saque a favor no 5/4 no segundo set e pouco depois um incrível 6-3 no tiebreak, mais dois serviços à disposição. Ele se manteve firme no terceiro set e foi sempre aquele que teve mais chances até enfim obter a quebra fatal.

A explicação talvez se encontre no que aconteceu em Roland Garros do ano passado, quando abriu 2 sets a 0 em cima de Novak Djokovic, perdeu-se em quadra e acabou sendo muito criticado por abandonar o quinto set. Musetti ficou abalado com a virada que levou até que por fim optou por ajuda psicológica após os Jogos de Tóquio. “Me sentia mal em quadra e não queria jogar”, contou à época.

Com tenros 20 anos e dono de habilidade um tanto semelhante à do próprio Alcaraz, capazes de alternar força e jeito em lances consecutivos, Musetti pode dar dado o passo essencial rumo à maturidade. Nesta segunda-feira, será 31º do ranking, 20 posições acima de seu recorde pessoal, e portanto candidato a ser cabeça de chave no US Open.

O italiano se torna também o 10ª campeão inédito da temporada masculina, porém só ele e Felix Aliassime venceram torneios acima do nível 250. Os outros foram Kokkinakis, Bublik, Martinez, Rune, Baez, Rijthoven, Cerundolo e Cressy. Todos, observem, com no máximo 25 anos.

Alcaraz por sua vez perde sua primeira final após cinco títulos seguidos, mas poderá comemorar o top 5, deixando Casper Ruud, bicampeão em Gstaad, para trás. É válido observar que esta foi sua terceira derrota seguida para membros da ‘nova geração’, depois de ser batido por Alexander Zverev em Paris e por Jannik Sinner em Wimbledon.

E mais

  • Ernests Gulbis e Martin Klizan são os únicos que venceram as seis primeiras finais de ATP que disputaram. Ambos perderam na sétima.
  • Musetti marcou sua terceira vitória sobre um top 10 em nove tentativas, Schwartzman e Aliassime foram os outros.
  • Alcaraz está agora com 39 vitórias e 6 derrotas na sua ótima temporada. Ele ganhou ao menos um set em todos seus jogos.
  • Houve críticas ao italiano pelo lance em que a bola quicou duas vezes na deixadinha de Alcaraz e que a juíza francesa Aurélie Tourte não viu. Musetti realmente falhou ao não dar o ponto ao adversário. Ele também não escapou de indignação por ter sacado por baixo no primeiro match-point contra Cerundolo.
  • É muito bom ficar de olho no ranking da temporada a partir de agora. Alcaraz está a 1.500 pontos de Nadal, ainda vai tentar 250 em Umag e assim está vivíssimo na luta pelo número 1 ao final deste calendário. Atrás dele, aparece Tsitsipas, com 3.965.
  • Thiago Monteiro alcançará o 67º posto no ranking mesmo sem grande campanha nesta semana e chegará à mais alta classificação.
  • Danielzinho Silva jogará seu segundo ATP após 13 anos com desistências de Ruud e Matteo Berrettini, que eram cabeças 1 e 2 em Kitzbuhel. Parabéns ao canhoto de 34 anos não apenas pela vaga, mas principalmente pela coragem de arriscar o quali.