Lógica restabelecida
Por José Nilton Dalcim
16 de maio de 2021 às 22:13

Um internauta me perguntou lá depois de Monte Carlo se o favoritismo de Rafael Nadal para Roland Garros estaria abalado pelo mau desempenho. E eu disse que, ainda que o espanhol não se saísse bem nas semanas seguintes, bastaria um título em Roma contra Novak Djokovic para recolocar ordem na casa. Rafa nem foi tão mal assim, já que ganhou logo depois Barcelona, mas o quadro pintado foi fielmente reproduzido neste domingo. E a lógica fica restabelecida.

Com evolução gradual a cada jogo em Roma, Nadal chegará a Paris como o grande candidato ao título, ameaçado acima de todos por Djokovic. Bem atrás, Dominic Thiem ainda me parece o homem mais perigoso para os dois e o nome a ser evitado no sorteio da chave. A única mudança, a meu ver, está no fato de que Stefanos Tsitsipas e Alexander Zverev pintam como adversários de respeito, tanto pelo potencial de jogo como pela experiência que somam no circuito. Diria até que Tsitsipas provou que pode incomodar tanto no aspecto físico como técnico, depois de ficar tão perto de derrotar o Big 2 nas últimas semanas em partidas longas e emocionalmente exigentes.

Como bem disse hoje na entrevista oficial, Rafa recuperou o aspecto mais importante do seu jogo, o forehand agressivo, e isso está diretamente relacionado com sua confiança. Ele não falou, mas deveria também ter ressaltado que o saque progrediu muito na final diante de Djokovic, o tirou do aperto em algumas oportunidades e não ofereceu tantas brechas à poderosa devolução sérvia como se temia. As duplas faltas sumiram – curiosamente, afetaram mais Nole – e ele se deu ao luxo de trazer pequeno elemento de surpresa ao forçar o serviço no backhand adversário.

O jogo teve todos os ingredientes, com muito empenho físico e variações inteligentes. Claro que Nadal ficou mais na defensiva, mas procurou não recuar tanto nas trocas de bola. Djokovic tentou permanecer sempre perto da linha e abusar do backhand angulado. O vento atrapalhou um pouco a iniciativa dos dois, tanto na hora do saque como no risco de se buscar as linhas. E as oportunidades se dividiram, embora no começo do terceiro set eu tenha ficado com a impressão que o sérvio estava mais perto da vitória. Talvez fosse mesmo, porém um forehand frouxo no meio da rede lhe tirou a chance de quebra no quinto game. Castigo pior, sacou contra o vento e foi quebrado de zero, com o forehand de Nadal abrindo buracos. O espanhol se agigantou, aguentou firme e fechou a partida, sabendo que não poderia vacilar um segundo sequer. Grande espetáculo.

Djokovic perdeu pela quinta vez seguida no saibro para Rafa e levará o jejum de cinco anos para Roland Garros. Mas não há qualquer motivo para pessimismo. Fez três jogos de excelente nível técnico no fim de semana, garantiu que não estava cansado da maratona do sábado e que  “jogaria mais algumas horas” se fosse possível. E deu um recado sonoro para Nadal e aos outros pretendentes ao trono: “Encontrei meu jogo no saibro”. Já estou ansioso por Paris.

Swiatek sem adversária
A final feminina foi decepcionante em termos de competitividade, já que Karolina Pliskova não jogou nada. No entanto, não tirou o brilho do tênis agressivo da polonesa Iga Swiatek. Como essa menina de 19 anos mistura bem os efeitos. Joga com topspin pesado, troca muito bem as direções e sempre tenta tomar conta dos pontos. Foi assim que assombrou o circuito com o título de Roland Garros sete meses atrás.

‘Bicicleta’ é coisa rara numa final feminina, ainda mais quando a humilhada é uma ex-número 1 do mundo em sua terceira final de Roma. Foi obviamente um dia atípico de Pliskova, que tomou atitude muito decente e prestou os elogios merecidos à campeã. Segundo a WTA, desde 2000 o duplo 6/0 só aconteceu quatro vezes em nível WTA e, em eventos de primeira grandeza do calendário, foi o mais recente desde a surra de Steffi Graf em Natasha Zvereva em Roland Garros de 1988.

Analisando a final de Roma
Por José Nilton Dalcim
16 de maio de 2021 às 12:05

Nadal completa exatos cinco anos sem perder para Djokovic sobre o saibro ao levantar seu 10º troféu no Masters 1000 de Roma, justamente o último lugar onde havia sido batido pelo sérvio, na final de 2016. Sai mais favorito do que nunca para reconquistar Roland Garros e chegar ao 21º Grand Slam. Título também valeu empate por 36 em títulos de Masters 1000 com o próprio Djokovic.
Terceiro set
3-5 –
Final tenso, mas Nadal soube sacar os dois pontos finais no backhand de Djokovic, que curiosamente recuou bem mais do que o normal para tentar manter a bola em quadra.
3-5 –
Djokovic se esforça e consegue evitar um match-point, mas o jogo está nas mãos do espanhol, que só precisa sacar com qualidade.
2-5 –
Nadal foi paciente, não se precipitou e deixou a tarefa de tentar o risco para o adversário. Deu certo. Muito perto do 10º troféu.
2-4 –
Um grande game de Nadal. Começou logo com nova paralela de forehand e manteve a bola funda o tempo todo. Djokovic tentou surpreender e foi à rede no 15-40, mas levou passada cruzada justa.
2-3 –
Djokovic perde uma grande chance de quebra, com um forehand no meio da rede. Nadal tentou de tudo: bola alta, curtinha, lob. O que deu certo no entanto foram dois winners na paralela.
2-2 –
Igualdade segue, assim como as alternativas táticas. Os dois buscaram curtinhas para tirar o adversário da base e Nadal optou por usar o spin mais alto, talvez para ganhar tempo, mas isso não resolve muito diante de um adversário que joga em cima da linha.
1-1 –
Troca franca de golpes da bate também neste segundo game e os dois jogadores jogando em alto nível a cada bola. Nadal desperdiçou uma bola curta para apertar e aí Djokovic empatou.
0-1 –
Nadal começa com o saque e daqui para a frente é preciso ser ainda mais cuidadoso. Game marcado por longas trocas e forehand do espanhol voltando a ser eficiente.
Segundo set

Com a queda vertiginosa do primeiro saque – 61% de acerto e só 50% de pontos vencidos – os winners de Nadal também desabaram (5 contra 9). Os erros foram poucos (9 a 8) porém Djokovic foi muito mais eficiente na hora de decidir os games.
6-1 –
Empate confirmado, Djokovic entra em sua terceira maratona no fim de semana. Vai para o set final com 7 horas de esforço entre sábado e domingo.
5-1 –
Espanhol baixou de nível de vez. Embora ainda tenha brigado e se mexido bem, foi claramente dominado e errou muito lá de trás. Com 1h54 de batalha, terceiro set parece inevitável.
4-1 –
Nadal forçou e chegou a 15-30, mas Djokovic fechou a porta com saque profundo que permitiu definir em seguida e assim confirma a quebra, algo essencial para sua confiança.
3-1 –
Quebra começou com uma deixada impecável, Nadal ajudou com dois erros e aí o backhand do sérvio voltou a fazer diferença, achando aquele ângulo que dificulta tanto ao Nadal.
2-1 –
Desta vez a perda de intensidade do número 1 ficou mais evidente, porém ele achou um jeito de sair da pressão. Salvou break-point e cravou dois saques magníficos (e ambos os lances seguia para definir na rede).
1-1 –
Depois de começar firme com o saque, Djokovic abriu de novo 0-30 mas não foi além, com uma bola boba desperdiçada na rede. De qualquer forma, Nadal continua usando muito bem o primeiro saque. Acertou 84% no primeiro set, um índice excepcional.
Primeiro set

Espanhol saiu atrás, soube reagir rapidamente e achou um jeito de evitar os backhands cruzados do sérvio ao investir mais na paralela. De seus 21 winners neste set, 15 foram com o forehand. Destaque para seu primeiro saque nos pontos importantes.
5-7 –
Nadal começou tenso e permitiu 0-30 com dois erros bobos, mas daí em diante sacou muito bem e chegou ao set-point. Djoko foi frio e ousado para tentar a deixada, mas não evitou a queda.
5-6 –
Dupla falta complica a vida do sérvio, que parecia incomodado com o sol. Muito atento, Nadal mudou mesmo o padrão e atacou a paralela com seu forehand com grande qualidade. Chega à segunda quebra e vai sacar para um importante primeiro set.
5-5 –
Apertado por 15-30, Nadal encaixa ace a 201 km/h e chega à vantagem com outro saque muito bom, que permitiu fugir e disparar o forehand sempre no lado direito do adversário.
5-4 –
Pela primeira vez Djokovic pareceu mais lento de pernas, tendo até desistido de ir atrás de uma curta. O backhand cruzado no entanto continua a render dividendos. Seria momento para Nadal tentar mais a paralela de forehand.
4-4 –
Nadal encarou 15-30 perigosos, com raros dois erros da base, e novamente sacou muito bem, o que facilitou definir na segunda bola.
4-3 –
Backhand ajudou demais Djokovic no game mais disputado e intenso da partida até aqui. Pegou bolas na subida, criou ângulos magníficos e atacou a paralela, evitando um break-point. Ainda assim, sofreu por causa de uma dupla falta e de um Nadal muito empenhado, com direito a uma passada incrível. Voltou a tropeçar na linha alta – um problema e um perigo em Roma neste ano – e ficou muito irritado.
3-3 –
Dois games de serviço sem sustos. Atenção sempre maior para o serviço do espanhol, que anda flutuando mais. Até aqui, parece confiante. Ele claramente mira o backhand do sérvio.
2-2 –
Game duro, mas Nadal sacou muito bem a partir do 30-30.
2-1 –
Grande reação de Nadal e na hora certa. Aprofundou muito bem a bola e usou duas vezes a paralela de forehand para desequilibrar Djokovic.
2-0 –
Nadal começou sacando firme – chegou perto dos 200 km/h -, mas Djoko rapidamente achou a devolução. No primeiro break-point, Nadal achou uma curtinha inesperada. No outro, depois de levar lob magnífico, sacou firme no meio. Como se esperava, Djoko joga de forma mais agressiva diante das bolas curtas do espanhol e isso lhe deu a quebra.
1-0
– Djokovic optou por começar com o saque, o que achei bem interessante, e foi muito bem diante de um Nadal lá no juiz de linha. Sérvio já usou a primeira paralela de backhand.

Novak Djokovic e Rafael Nadal entram em quadra para se enfrentar pela 57ª vez, a mais extensa rivalidade do tênis profissional masculino. Se o sérvio leva vantagem de ter vencido 29 vezes, Nadal não perde dele no saibro desde as quartas de Roma de 2016, tendo dominado os quatro últimos confrontos na superfície, incluindo a devastadora decisão de Roland Garros de sete meses atrás.

Os dois mostraram um grande nível ao longo da semana no Foro Itálico e superaram grandes dificuldades diante da nova geração. Obviamente, cada um conhece demais o adversário e poucas surpresas táticas podem acontecer. Quem sabe, Nadal tente novamente jogar mais perto da linha de base, como fez na véspera.

O ponto crucial é saber se Djokovic se recuperou completamente das 4h56 que passou em quadra no sábado em dois jogos muito duros no físico e no mental, enquanto Nadal jogou apenas 1h32.

Assombroso, Djokovic desafia Nadal
Por José Nilton Dalcim
15 de maio de 2021 às 18:40

Se Rafael Nadal mereceu todos os elogios por sua resiliência nos jogos duros que teve nesta semana em Roma, Novak Djokovic mostrou um nível técnico, mental e físico de deixar qualquer super-homem de queixo caído. Foram quase cinco horas de uma intensidade raramente vista, encarando dois adversários que não economizaram energia e coração para tentar derrubá-lo. Não fosse o desgaste tão superior que sofreu neste sábado, Nole sairia como favorito para levar o título no 57º capítulo do confronto com Rafa.

A virada sobre Stefanos Tsitsipas foi considerada por Nole como seu principal jogo da temporada. Acho mais: foi a partida de melhor qualidade de 2021. Um tanto diferente da véspera, Djokovic entrou em quadra firme, consistente, agressivo, com devoluções impecáveis e muitas opções táticas. O grego no entanto parecia ter resposta para tudo. Sustentou trocas de bola de tirar o fôlego, arriscou backhands incríveis, usou tudo de seu forehand tão ofensivo.

Que bom que Stef entregou um serviço e pudemos ver um terceiro set ainda mais acirrado, cada um tentando empurrar o outro para trás, surpreender com deixada ou um voleio. Tsitsipas não cedia terreno. Fez 2/1, esteve perto de ampliar, cedeu o empate mas imediatamente quebrou de novo e sacou para a vitória. Nem chegou ao match-point porque Djoko tirou da cartola suas devoluções milimétricas. Por fim, usou novamente deixadinhas para sacar com 6/5 e avançar. É um jogo que merece ser revisto para quem aprecia um tênis realmente bem jogado.

Poucas horas depois, o número 1 voltou à quadra e parecia estar fazendo o quarto set do jogo anterior. Continuava firme, sólido, desta vez usando mais o backhand na paralela. Sonego tinha dificuldade para ganhar pontos no saque do sérvio, mas por fim passou a jogar melhor e fez um segundo set de primeira linha. Variou o máximo que pôde, arrancava força da torcida, corria por todos os cantos. E foi premiado pelo único vacilo real de Djokovic no dia, quando sacou para fechar a partida e perdeu dois match-points num momento de tensão evidente. O italiano ainda virou o tiebreak e por muito pouco não abriu o terceiro set com quebra. Só dois games depois enfim se rendeu. Vale lembrar que ele fizera três sets inteiros na manhã contra Andrey Rublev, sua terceira grande vitória do torneio.

Enquanto isso, Nadal jogou 20 games bem mais rápidos, ainda que mereça nota 10 pela forma com que encarou o super-sacador Reilly Opelka. O norte-americano disparou ousados forehands da base no começo da partida e ameaçou tirar o saque do espanhol logo no quarto game, o que seria um problema. Não conseguiu e o espanhol esperou suas chances de quebra, uma em cada set, para uma vitória em que havia pouca margem para erros.

Assim, garantiu sua 12ª final em Roma, uma a mais que Djokovic, e vai atrás do deca enquanto o sérvio quer o hexa. Ou seja, mais uma vez o torneio ficará entre os dois, como acontece desde 2005 com duas exceções. Se Djoko leva 29-27 de vantagem no geral, 16-12 em Masters, 15-12 em finais e 7-6 em finais de Masters, Nadal lidera por 18-7 no saibro, 8-4 em finais no saibro, 5-3 em Roma e 3-2 em finais em Roma. Aliás, não perdeu para o sérvio nos últimos quatro jogos sobre o saibro. A última foi justamente em Roma, há cinco anos.

No feminino, uma luta pelo título também muito interessante. A polonesa Iga Swiatek faz sua maior final desde o surpreendente troféu do ano passado e também ganhou duas vezes no sábado, primeiro uma vitória categórica sobre a bicampeã Elina Svitolina e depois o duelo de jovens contra Coco Gauff. O título no domingo valerá também a chegada ao top 10.

Mas ela terá pela frente alguém que conhece os atalhos do Foro Itálico. Karolina Pliskova  faz a terceira final seguida, tendo vencido em 2019. A tcheca se sente muito à vontade, desde o saque até investidas à rede e foi assim que tirou com justiça Petra Martic. Para melhorar a imprevisibilidade, as duas nunca se cruzaram.