Bia recoloca o Brasil no top 20
Por José Nilton Dalcim
13 de agosto de 2022 às 00:29

Com todas suas melhores armas, do saque pesado ao forehand agressivo, da cabeça fria à aplicação tática ferrenha, Beatriz Haddad Maia é a grande sensação do WTA 1000 de Toronto. Ao derrotar a terceira adversária entre as 13 melhores do mundo sucessivamente, a canhota de 26 anos está entre as quatro postulantes ao título. Sem dever absolutamente nada às concorrentes.

Imediatamente após a espetacular virada em cima de Belinda Bencic, começou uma intensa discussão entre os jornalistas especializados sobre o possível top 20 de Bia. A questão básica é se ela teria de descartar 30 ou 50 pontos, que seriam seu 16º pior resultado e dependiam da interpretação da regra sobre os ‘torneios obrigatórios’. Até que Aliny Calejon consultou diretamente a WTA e a entidade confirmou o 20º posto, apenas um ponto à frente da suíça Jil Teichmann.

Dessa forma, Bia continua a fazer história e se tornará a segunda brasileira na Era Profissional a atingir essa nobre lista, atrás somente de Gustavo Kuerten e superando outro canhoto que também fez semi de 1000, Thomaz Bellucci, em 2011. Aliás, a última vez que Guga apareceu como 20º foi exatamente há 18 anos, na lista do dia 16 de agosto de 2004.

E como nada mais é impossível para a canhota paulistana, vale a previsão: subirá para 16º em caso de final em Toronto e atingirá o 14º se ficar com o título. Já pensaram que espetáculo seria entrar no US Open como uma das 16 primeiras cabeças?

Depois de sua campanha incrível na grama britânica, onde derrotou duas campeãs de Wimbledon, a sequência de vitórias no piso duro de Toronto até agora inclui a atual a atual finalista do US Open, a número 1 do mundo que venceu Miami e Indian Wells em março e a campeã olímpica de Tóquio. Em sua gloriosa lista de triunfos marcantes na ainda curta carreira, figuram vencedoras do Australian Open (Sofia Kenin), Roland Garros (Iga Swiatek e Simona Halep) e do US Open (Sloane Stephens).

A reação em cima de Bencic reforça tudo o que dissemos no texto anterior sobre sua maturidade. Não começou bem e foi dominada pela experiente suíça, que inteligentemente optou por devolver mais com slice e assim tirar o ímpeto agressivo da brasileira.

O ponto crucial, a meu ver, foi Bia ter cortado seus erros de forehand a partir do segundo set, o que foi obtido pelo uso de mais topspin nos golpes. Isso aumentou a margem de risco e deu profundidade. Claro que ao mesmo tempo a confiança voltou e o saque passou a fazer estragos, ora muito aberto, ora firme e no centro.

Ainda assim foi um duelo duríssimo contra Bencic, que explorou a paralela de backhand com maestria. O mais notável: na hora do aperto, quem tremeu foi a suíça. Ela pareceu sentir o ataque constante a seu segundo saque e provavelmente não esperava que a adversária chegasse tão bem em tantas bolas defensivas.

E outra vez Bia esbanjou preparo físico e firmeza emocional para vencer um terceiro set. Fez um winner milimétrico para obter a quebra decisiva e fechou a partida com ace no centro, sinais evidentes de toda sua concentração e coragem.

Neste sábado, reencontra Karolina Pliskova, de quem perdeu no Australian Open de 2018, mas surpreendeu em Indian Wells do ano passado. A tcheca bate muito pesado e adora ser agressiva, porém não se mexe bem e raramente mostra um ‘plano B’ se suas bolas ficam descalibradas. A tcheca perdeu o primeiro set e passou apertado pela chinesa Qinwen Zheng, 51º do mundo, que vem jogando cada vez melhor na quadra dura através de combinação elogiável de bom saque e consistência no fundo, com constantes trocas de direção. Por isso mesmo, eu preferia mesmo que Bia cruzasse com Pliskova. Jogo será às 19 horas.

E mais
– Jessica Pegula, cabeça 7, e Simona Halep, a número 15, decidem a outra vaga na final. A romena fez uma bela partida contra Coco Gauff, que ainda tropeça nas horas mais delicadas, e acho que passa sem sustos pela norte-americana.
– Nick Kyrgios sentiu a virilha e não jogou 100%, mas não se pode tirar os elogios a Hubert Hurkacz, que sacou muito, foi extremamente agressivo e usou boas variações. Ele é muito perigoso numa quadra dura e terá o favoritismo natural sobre Casper Ruud, que humilhou Felix Aliassime e fechou o jogo com apenas nove erros.
– Quem está jogando muito mesmo é Pablo Carreño. Ele já tirou Berrettini, Rune e Sinner com golpes muito pesados. Será que enfim chegou sua vez de ganhar um Masters 1000? A barreira para a final é o versátil Daniel Evans, tenista de 1,75m que não tem medo de ir à rede e usa muito bem o slice. Fez grande virada em cima de Tommy Paul.
– Numa quadra que costuma ser veloz, Medvedev pode ter bons desafios em Cincinnati, como Cressy, Dimitrov, Fritz ou até mesmo Kyrgios. No seu lado, ficarma ainda Tsitsipas, Hurkacz e Berrettini. Se russo cair na estreia ou terceira rodada, coloca o número 1 em risco caso Nadal seja campeão.
– Rafa já treina em Cincinnati. Tem possivelmente Bautista nas oitavas, Aliassime ou Sinner nas quartas e quem sabe Alcaraz na semi. Seu único título no torneio foi em 2013.
– Bia estreará contra Ostapenko em Cincinnati, pode ter depois Keys ou Putintseva e há chance de reencontrar Swiatek. A polonesa aguarda Cornet ou Stephens. Primeira rodada terá Serena x Raducanu e Venus x Pliskova.

Maturidade de Bia vem com apuro técnico e mental
Por José Nilton Dalcim
11 de agosto de 2022 às 21:15

Beatriz Haddad Maia conseguiu mais um feito extraordinário na sua carreira e, logo em seu segundo torneio na temporada de verão norte-americano de quadras duras, se tornou apenas a terceira brasileira na Era Profissional a derrotar um número 1 do mundo e a primeira desde que Gustavo Kuerten bateu Roger Federer em maio de 2004. No total, é a quinta vitória desse quilate do tênis nacional, já que Guga venceu também Yevgeny Kafelnikov (1999) e Andre Agassi (2000) e Flávio Saretta bateu o próprio catarinense (2001).

A maturidade em alto nível alcançada por Bia é uma necessária mistura de evolução técnica e apuro mental. E essas duas qualidades foram repetidamente mostradas na partida histórica desta quinta-feira diante da toda poderosa Iga Swiatek. O primeiro saque muitas vezes pertinho dos 190 km/h, o ataque ao segundo serviço que lhe rendeu 56% desses pontos e o trabalho defensivo claramente superior foram recheados pela confiança em momentos chaves, o controle da frustração na perda de 15 de 19 break-points e principalmente a frieza para enfrentar as duras condições climáticas, algo que a própria Swiatek demorou muito mais para resolver.

É essencial também ressaltar a determinação tática da brasileira, que novamente exibiu invejável poder de concentração numa batalha de três horas. Bia fez muito do que eu esperava. Centralizou a bola para tirar ângulos e criou insegurança na poderosa adversária com devoluções agressivas. Além daqueles 56% de sucesso ao devolver o segundo saque, ainda chegou a 36% no nada desprezível primeiro serviço de Swiatek. Bia cedeu três games de saque, é verdade, porém trabalhou com 65% de acerto e 70% de eficiência no geral, números expressivos diante da pressão e da ventania.

A excelente produtividade nesta temporada em partidas que vão ao terceiro set é outro reflexo inconteste de quanto Bia está firme fisicamente e produto direto da capacidade emocional. Ela acredita em si mesma. Desde Madri, venceu 14 dos 15 jogos decididos no último set e sua marca desde janeiro é de 20 em 24. Nessa lista, estão as duas vitórias sobre Maria Sakkari, assim como as de Swiatek e sobre Simona Halep.

O maior resultado de uma tenista nacional em torneios de nível 1000 – mesmo se considerarmos a conversão dos antigos modelos do calendário feminino – dará quase com certeza o 21º lugar do ranking a Bia, já que agora apenas duas jogadoras podem superá-la, mas para isso Yulia Putintseva e Qinwen Zheng terão de ganhar Toronto, o que é um tanto difícil. Se vencer nesta sexta-feira será 19ª. No ranking da temporada, que considera apenas a pontuação somada desde janeiro, a brasileira sobe para 17º.

Bia reenconatra a suíça e campeã olímpica Belinda Bencic, 12ª do mundo no momento, na rodada noturna. Em janeiro, Bencic venceu em Sydney. É uma tenista versátil, que gosta de variar ritmos e não possui golpes espetaculares. Tem um saque um tanto deficiente e pode permitir ataque no segundo serviço, como a brasileira fez tão bem diante de Swiatek. Se jogar bem, Bia tem chance real.

Por fim, vale sempre frisar a conduta irrepreensível de Bia em quadra. Sem comemorações ou destemperos exagerados, encara mesmo as vitórias espetaculares com sobriedade. Cerra o punho de forma até discreta, troca palavras gentis com a oponente, abre sorriso gostoso e dedica o feito ao treinador Rafael Paciaroni ou ao público. Na entrevista oficial, esbanja simpatia.

Resiliência, muito esforço, simplicidade e ambição controlada mas contínua têm sido sua receita de sucesso. Um exemplo.

E mais
– Casper Ruud é cabeça mais alto nas quartas e terá toda a torcida contra no duelo frente a Felix Aliassime. O canadense está sacando muito e despachou bem Cameron Norrie.
– Muito agressivo e com voleios irretocáveis, Nick Kyrgios ganhou o duelo australiano com o amigo Alex de Minaur e agora tenta se vingar de Hubert Hurkacz, para quem perdeu na semi de Halle. Polonês não está afiado e sofreu contra Albert Ramos.
– Mal voltou e Gael Monfils sofre outra contusão, agora no pé direito. Deu lugar nas quartas ao quali Jack Draper, britânico de 20 anos, que enfrenta o embaladíssimo Pablo Carreño. Espanhol atropelou Jannik Sinner com golpes pesadíssimos.
– Quem vencer esse duelo pega Daniel Evans ou Tommy Paul. Não há cabeças na parte inferior da chave.
– Karolina Pliskova teve altos e baixos, tirou Maria Sakkari e segue em grande campanha. Pega agora Qinwen Zheng, que barrou a instável Bianca Andreescu. A vencedora pode ser a adversária de Bia na semi.
– Aos trancos e barrancos, Coco Gauff chega nas quartas e desafia Simona Halep, de quem nunca venceu set em três duelos já feitos sob pisos distintos. Jessica Pegula virou contra Camila Giorgi e é favorita contra Yulia Putintseva.

Resposta perfeita
Por José Nilton Dalcim
10 de agosto de 2022 às 19:31

Apesar de todas as ótimas apresentações e vitórias de gabarito em sua arrancada sobre a grama, vi muita gente questionando a evolução de Beatriz Haddad Maia, a considerar como lampejo passageiro sua sequência positiva e o salto no ranking de simples e duplas.

A resposta veio hoje. Não apenas porque Bia derrotou uma top 15 do tamanho de Leylah Fernandez, dona da casa e finalista do mais recente US Open, mas acima de tudo pela forma com que obteve sua vaga nas oitavas de final do WTA 1000 de Toronto.

Como salientou diversas vezes nas recentes entrevistas, a canhota paulistana sabe que, para ser competitiva num nível tão alto e ter resultados expressivos nos torneios de peso, teria de jogar de forma agressiva do começo ao fim.

Isso foi o que me agradou tanto na vitória desta quarta-feira. Bia se impôs. Forçou saque, devolveu pesado e no fundo, fez incríveis paralelas, cortou o tempo com swing-volleys. E olha que poderia ser mais fácil, caso tivesse confirmado as quebras obtidas no final do primeiro set.

A canadense não jogou tão bem, é fato, talvez pela pressão de estar em casa, talvez pela falta de ritmo, já que Toronto foi seu primeiro torneio desde Roland Garros, quando sentiu incômodo no pé. Acima de tudo, não conseguiu paz diante de uma adversária que atacou sempre.

Não há tempo para comemoração. Bia já volta à quadra nesta quinta-feira para enfrentar nada menos que a polonesa Iga Swiatek, a toda poderosa número 1 do mundo, que venceu neste ano 49 de seus 54 jogos e ergueu seis troféus, alguns muito respeitáveis na quadra dura, como Indian Wells e Miami.

É uma missão quase impossível, ainda que Bia já tenha batido sete top 20 na carreira, quatro somente em 2022. Terá de sacar ainda melhor que hoje, sem dar brechas nos games importantes, e aproveitar o máximo de segundos serviços que Swiatek lhe oferecer.

Nenhuma brasileira bateu uma número 1 na Era Profissional. Aliás, entre homens só Guga Kuerten e Flávio Saretta (contra o próprio catarinense) o fizeram.

E mais

  • Outra atuação de gala de Nick Kyrgios. Perdeu set-points antes do tiebreak do primeiro set, onde jogou muito mal e levou advertência. Porém, acreditem, manteve a cabeça no lugar e virou em cima de Daniil Medvedev para marcar sua segunda vitória sobre um líder do ranking. Sacou muito, devolveu firme em games essenciais e insistiu nos voleios, apesar de alguns erros. Está mesmo muito confiante. Vai enfrentar pela primeira vez Alex de Minaur, que dá muito pouco ponto.
  • E Carlitos Alcaraz decepcionou novamente. Não que Tommy Paul seja fraco, ao contrário fez uma grande partida, muito sólido e versátil. O espanhol no entanto abriu 4/1 no segundo set e teve match-point antes de levar a virada.
  • Pablo Carreño barrou Matteo Berrettini em grande dia, tirou o garoto Holger Rune e será o desafio de Jannik Sinner nas oitavas.
  • Grande volta de Gael Monfils, tendo vencido os três tiebreaks que disputou. Deve ser o adversário de Stefanos Tsitsipas.
  • Estou surpreso com o desempenho de Karolina Pliskova: ótima vitória sobre Barbora Krejcikova e um atropelo em cima de Amanda Anisimova. A instável Maria Sakkari que se cuide.
  • Coco Gauff e Aryna Sabalenka fazem curioso duelo. Quem vencer, pega Simona Halep ou Jil Teichman, que tirou a cabeça 2 Anett Kontaveit.
  • Emma Raducanu e Naomi Osaka nem passaram da estreia. A britânica tem bom arsenal mas continua perdendo para sua insegurança. A japonesa sentiu a perna e nem completou a partida, como também fizeram Paula Badosa e Ons Jabeur.