Djoko assiste à briga de Nadal e Thiem
Por José Nilton Dalcim
24 de setembro de 2020 às 18:20

Quando a fase é boa, tudo dá certo. Novak Djokovic recuperou a confiança com o título em Roma e ainda foi premiado com a ida de Dominic Thiem para a chave de Rafael Nadal no sorteio de Roland Garros, realizado nesta quinta-feira. Melhor ainda, pegou uma chave tranquila e seu possível adversário de semifinal deve vir exausto do quadrante mais enroscado.

Nadal, que não conseguiu achar ritmo ideal nos três jogos que fez em Roma, e Thiem, sem nenhum preparativo no saibro, são ainda assim favoritos óbvios em seus setores, porém encontram maiores desafios e a incógnita da nova bola do torneio.

A parte de cima
A caminha inicial de Djokovic parece absurdamente fácil e nem mesmo o cabeça 29 Herbert Hurkacz, com seu pequeno currículo em Slam, ameaça tirar set. Alguma dificuldade maior pode enfim pintar nas oitavas, com possível duelo com o especialista Cristian Garin, o bom canhoto Ugo Humbert ou Karen Khachanov, caso realmente os golpes mais retos estejam em alta neste Roland Garros de bolas alteradas.

Esse é o mesmo motivo que tende a dar maiores chances a Roberto Bautista ou Pablo Carreño, que se candidatam a um lugar nas quartas junto a Matteo Berrettini. Porém, é fundamental lembrar que essas mesmas bolas sem tanto topspin e com quique mais baixo são perfeitas para Djoko.

Quadrante totalmente imprevisível é o segundo, que contrasta as mais variadas experiências e estilos. Os nomes fortes são Stefanos Tsitsipas e Daniil Medvedev, que não andam empolgando, e isso abre caminho para Denis Shapovalov, Filip Krajinovic e até mesmo Grigor Dimitrov.

Aliás, Medvedev já precisa tomar cuidado com Marton Fucsovics na estreia. Pinta nesse setor um potencial Andrey Rublev x Alejandro Fokina na segunda rodada, ambos no caminho de Medvedev. Será bem interessante se Tsitsipas cruzar com Krajinovic na terceira rodada, mesma fase que Shapovalov enfrentaria Dimitrov. Me parece difícil arriscar num nome como mais forte candidato à eventual semi diante do número 1.

O lado inferior
Nadal também não tem muito a se queixar e só mesmo se estiver muito sem confiança para ter dificuldades com Daniel Evans, Fabio Fognini ou John Isner. O italiano de outrora até tiraria o sono de Rafa, mas Fognini tem feito exibições tenebrosas depois da dupla artroscopia nos tornozelos.

Assim, o espanhol pode mirar as quartas e aí há dois candidatos sérios a seu adversário: o alemão Alexander Zverev e o belga David Goffin. O problema de Goffin é ter de estrear diante do atrevido Jannik Sinner, de cujos golpes pesadíssimos se espera qualquer coisa. Sascha evoluiu no US Open, terá o apoio de David Ferrer e chance de tirar proveito da nova bola.

Claro que a expectativa toda fica em torno do reencontro entre Nadal e Thiem, agora na semi. O austríaco não disputou jogos no saibro e precisa de ritmo, algo pouco provável de ele conseguir diante de Marin Cilic e Reilly Opelka. E daí aparece Casper Ruud, o jovem norueguês que deixou ótima impressão em Roma e continua firme em Hamburgo. As oitavas de Thiem aponta para Stan Wawrinka… mas será que ele passa por Andy Murray?

Fica por fim a expectativa de um duelo entre o austríaco e Diego Schwartzman nas quartas, que sacramentaria um teste real, ainda que Thiem tenha histórico favorável de 6 a 2. O argentino pegou um setor um tanto fraco, mas é relevante tomar cuidado com Borna Coric na terceira rodada. Ali está também Gael Monfils, totalmente perdido nesse retorno do circuito.

E mais
– Thiago Monteiro pode muito bem cruzar o caminho de Medvedev na terceira rodada. Pega Nikoloz Basilashvili, em péssima fase, e depois Marcos Giron ou Quentin Halys. Bem promissor.
– Jo-Wilfried Tsonga e Lucas Pouille já haviam desistido e a eles se somaram de última hora Milos Raonic, Kyle Edmund e Fernando Verdasco.
– Outros jogos imperdíveis de primeira rodada: Bautista x Gasquet, Berrettini x Pospisil, Lajovic x Mager, Shapovalov x Simon e Evans x Nishikori.

No próximo post, vou falar da chave feminina, que perdeu também Belinda Bencic, e das novidades que cercam o torneio de 2020.

Djokovic fica ainda maior
Por José Nilton Dalcim
21 de setembro de 2020 às 19:34

Foi uma segunda-feira dos sonhos para Novak Djokovic. No dia em que superou Pete Sampras na quantidade de semanas na liderança do ranking – 287 contra 286… e contando -, ele também recuperou a hegemonia de troféus de nível Masters e estabeleceu 36 a 35 sobre Rafael Nadal. Como resta apenas mais um no calendário, o de Paris, o máximo que pode acontecer é um empate.

Os feitos de Djokovic crescem a cada semana. Com o quarto título da temporada, ele também chega a 81 na carreira e está apenas a quatro de Nadal, o quarto colocado. Ainda há um bom espaço para os 94 de Ivan Lendl, porém não existe qualquer motivo para se descartar uma conta centenária, como as de Jimmy Connors e de Roger Federer.

Roma passou a ser o torneio onde Djoko mais fez finais na carreira, com 10, duas acima do Australian Open e do US Open e a três do Finals de Londres. Entre os grandes títulos, o penta fica perto dos seis de Miami e atrás dos oito de Melbourne. Como também é cinco vezes vencedor em Wimbledon em seis finais, a versatilidade está mais do que comprovada.

Consciente do seu potencial, Nole foi tão preciso quanto seu backhand ao afirmar que não jogou seu melhor tênis nesta semana, mas que jogou seu melhor tênis quando foi preciso. E isso tem um peso a mais quando sabemos que ele chegou a Roma vindo da decepcionante desclassificação no US Open, precisando muito de uma volta por cima.

Agora, na pior das hipóteses, vai dividir o favoritismo de Roland Garros com Rafael Nadal. O espanhol, mesmo tendo mostrado deficiências, não pode ser ‘secundarizado’ em melhores de cinco sets sobre o saibro. Claro que existe ‘o fator Thiem’ na balança, mas vamos deixar esse assunto para quinta-feira, quando sairá o sorteio do Aberto francês.

A partida decisiva desta segunda-feira contra Diego Schwartzman exigiu novamente de Djoko não apenas adaptação às condições estranhas como cabeça fria. De repente, com um festival de erros e um adversário sólido, já estava 3/0 e saque para o argentino. Quando sentou no intervalo, soltou palavras duras para seu time e isso parece tê-lo motivado para soltar o braço na devolução, o que não vinha fazendo. A partir daí a coisa mudou. Ele recuperou terreno, virou para 4/3 e teve alguma sorte ao salvar um break-point no nono game com duas escolhas erradas de El Peque no jogo de quadradinho.

O clima úmido deixou a quadra muito pesada. Se isso obviamente não favoreceu Djokovic, que não fez tanto estrago com o saque e precisou de cautela para os winners e apostar nas curtinhas, também não ajudou um desgastado Schwartzman. Sem falar que o argentino não é dono de golpes continuamente poderosos. Mas ele fez o que pôde. Saiu com quebra no segundo set, ficou na briga, teve mais dois break-points no quinto game e só então se entregou diante de um Djokovic já bem mais confiante.

Acredito que a campanha, inesperada para o momento que vivia, revitalizará o argentino para Roland Garros. Como provável cabeça 12, não terá de cruzar com os quatro favoritos antes das quartas e isso pode lhe dar uma chance real de nova grande campanha e, quem sabe, outras surpresas.

Halep, sem esforço
Depois de duas tentativas frustradas, Simona Halep ergueu seu primeiro troféu no saibro de Roma. Não foi certamente da forma ideal, já que Karolina Pliskova sentiu a coxa e jogou apenas 32 minutos e nove games.

Com o título de Praga na retomada do circuito, a romena levará para Roland Garros a série invicta de 14 jogos, mas não quer colocar mais pressão que a necessária. Ela será a cabeça 1 com a ausência da atual campeã Ashleigh Barty e tenta recuperar a coroa no saibro francês que foi sua em 2018. Eu apostaria minhas fichas nela.

E mais
– Aos 33 anos e quatro meses, Djokovic se tornou o tenista de maior idade a ganhar Roma.
– Este foi seu terceiro troféu seguido de Masters e lhe dá no momento série de 15 vitórias.
– Seu total de troféus de Masters no saibro é agora de 10, com dois em Monte Carlo e três em Madri.
– O sonho do top 10 também não chegou ainda para Schwartzman e a vaga será ocupada por Denis Shapovalov, que passa a ser o quinto na lista abaixo dos 25 anos e o mais jovem de todos, aos 21 e quatro meses.
– Luísa Stefani subiu nove posições com a semi de Roma e avança para o 33º lugar. Estreia em Estrasburgo nesta terça e tenta embalar para Roland Garros.
– Na condição de principal inscrito no quali de Roland Garros, Thiago Wild viveu um dia ruim e perdeu fácil. João Menezes e Gabi Cé estreiam nesta terça e tentam se juntar a Thiago Monteiro nas chaves de simples.

Djokovic tenta domínio, Peque busca façanha
Por José Nilton Dalcim
20 de setembro de 2020 às 17:40

Na segunda-feira em que se tornará o segundo tenista com maior domínio na liderança do ranking profissional, Novak Djokovic também terá a chance de assumir pela segunda vez a liderança isolada na contabilidade de títulos de Masters 1000.

Para coroar o momento, basta derrotar um velho conhecido, o argentino Diego Schwartzman, a quem superou em todos os quatro duelos já feitos. ‘El Peque’ nunca decidiu um Masters, mas por seu lado terá a chance de um feito para lá de histórico: bater Rafael Nadal e Djokovic num mesmo torneio sobre o saibro. De quebra, chegará enfim ao top 10. Porém, depois de um esforço de 3h10 na semi, a dúvida se ainda terá pernas para tanto.

Quando começou sua grande arrancada no circuito, em 2011, Djokovic tinha apenas 5 Masters contra 18 de Nadal. Finalmente empatou a conta em Indian Wells de 2016, com a 27ª conquista, e superou pela primeira vez duas semanas depois em Miami. Chegou então a abrir 30 a 28 ao final dessa temporada.

O sérvio no entanto viveu um considerável jejum. Entre agosto de 2016 e julho de 2018, não levantou qualquer Masters e aí o espanhol conseguiu inverter, com 33 a 30. Djoko venceria Cincinnati, Xangai e Madri e empataria. Mas por pouco tempo. Roma e Canadá deram os atuais 35 de Rafa, enquanto Nole diminuiu em Paris e igualou tudo novamente no Masters de Flushing Meadows.

Para atingir sua 52ª final desse quilate, o que já é outro recorde, precisou superar um primeiro set irregular, em que o forehand falhou muito mais que o habitual. Enquanto evitou a pressão sobre seu backhand, o garoto Casper Ruud se virou e chegou a ter 5/3 e saque. Os nervos afloraram e Nole adotou cautela cirúrgica nos pontos mais delicados. Ganhou quatro games seguidos, contando com um primeiro saque afiadíssimo na hora certa. O começo do segundo set ainda foi equilibrado, com chances de quebra para os dois lados, até que enfim Ruud claramente ficou mais lento e Djokovic disparou.

Schwartzman fez um duelo incrível diante do canhoto Denis Shapovalov, que foi decidido em mínimos detalhes, O argentino dominava o primeiro set até 5/3, aí se enrolou e quase permitiu reação. O canadense fez talvez a melhor exibição de sua carreira, mesclando extrema paciência e solidez no fundo de quadra com tentativas muito felizes de definição e novamente um magistral jogo de rede.

Levou um quarto set já muito brigado e chegou bem perto da vitória, ao abrir 4/2 no terceiro set. Ainda sacou com 5/4, mas o argentino como sempre lutou à exaustão. No tiebreak, Schwartzman fez 4-2, permitiu empate mas por fim prevaleceu sua consistência. Um jogo memorável.

Halep tem 3ª chance, Pliskova busca o bi
Depois de uma passagem sofrida na quadra sintética norte-americana, Karolina Pliskova reencontrou seu tênis no saibro e ganhou o direito de tentar o bicampeonato de Roma nesta segunda-feira.

Não deve ser fácil. Simona Halep também vem embalada de boas atuações e leva vantagem de 7 a 4 nos confrontos diretos com a tcheca. O que pode pesar para a romena é o fato de ter perdido suas duas finais anteriores no Foro Itálico, ambas para Elina Svitolina.

O grande trunfo de Pliskova diante da compatriota e canhota Marketa Vondrousova consistiu na maior paciência para construir pontos, evitando arriscar muito cedo.

Foi exatamente essa postura abusiva que custou caro a Garbiñe Muguruza, que anotou 35 winners e 27 erros diante de uma Halep bem mais consistente (21 erros e 22 winners). Ainda assim, a partida teve 16 quebras de serviço no total de 29 games.