Djoko e Federer largam com façanhas
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2020 às 13:38

Um ainda não perdeu em 2020, o outro não havia jogado até agora. Dois dos três maiores campeões que o Australian Open já teve, Novak Djokovic mostrou grande arsenal ainda que tenha cedido um set na estreia, enquanto Roger Federer superou a ‘ferrugem’ com seu tênis costumeiramente vistoso e elegante. Aproveitaram para anotar mais façanhas em suas incríveis carreiras.

Djokovic marcou a 900ª vitória como profissional – e são 82% de sucesso, já que soma apenas 187 derrotas – com pequenos vacilos, que não podem ser considerados um problema para uma primeira rodada. A meu ver, o sérvio de hoje é muito parecido com Federer em seu auge, ou seja, o andamento do jogo depende muito mais dele próprio do que do adversário.

E foi exatamente assim contra Jan-Lennard Stuff. Sem sacar seu melhor, o alemão só conseguiu tirar seu primeiro set nos confrontos diretos quando Djoko baixou a intensidade e fez dois games muito ruins de serviço. Mas a devolução mortal, os voleios apurados e o excepcional contragolpe estavam lá nas horas necessárias e a tarefa foi concluída sem maiores sustos. Agora, vem um adversário teoricamente ainda mais fácil: Tatsuma Ito ou Prajnesh Gunneswaran.

Federer entrou pela 21ª vez consecutiva no Australian Open, desempatando o recorde que dividia com Lleyton Hewitt, e simplificou muito seu trabalho contra Steve Johnson ao quebrar sempre no início dos sets. O suíço explicou na entrevista oficial que as condições parecem mesmo rápidas, mas que as bolas Dunlop, que passaram a ser usadas em 2019, são velozes quando novas e depois mudam. A segunda rodada pode ser bem mais exigente se der Filip Krajinovic diante de Quentin Halys.

Altos e baixos da Next Gen
Stefanos Tsitsipas e Matteo Berrettini fizeram o esperado e superaram seus frágeis adversários sem grandes sustos, usando bem a velocidade do novo piso. O grego só permitiu cinco games, e agora terá um teste mais digno diante do experiente Philipp Kohlschreiber. O italiano ainda não mostrou progresso esperado no seu backhand.

Denis Shapovalov e Borna Coric se despediram cedo. O canhoto canadense teve mesmo o azar de pegar o bom Marton Fucsovics logo de cara e admitiu ter entrado muito nervoso em quadra. Perdeu inúmeras chances, sempre apressado, e mandou duas raquetes para longe. E ainda reclamou da advertência. O húngaro pode ter Dimitrov na terceira e Federer nas oitavas.

Coric não surpreendeu. Não está bem de cabeça e parece perdido taticamente. Foi engolido pelo experiente Sam Querrey, que está no quadrante de Berrettini e Pella. Não dá para reclamar.

Superchave feminina
Serena Williams afirmou que o título em Auckland tirou peso das costas e mostrou isso em estreia muito firme diante da jovem Anastasia Potapova. Também elogiável a exibição da atual vice Petra Kvitova, que só perdeu um game e economiza energia.

A defensora do título Naomi Osaka e a estrela da casa Ashleigh Barty precisaram dominar os nervos. A japonesa deu sinal de que iria dominar facilmente, mas errou mais do que deveria (28 no total) e em momentos importantes. Barty emudeceu o público ao perder um sofrível primeiro set. Depois, se achou, variou o tempo todo e atropelou.

Vale lembrar que essas quatro estão no lado de cima da chave.

Destaques do dia 1
– Número 1 está em disputa apenas no masculino e tem uma única chance de mudar de mãos: Djoko ser campeão e Nadal cair até as quartas. No feminino, o título em Adelaide garantiu Barty no topo.
– Sinner está a dois games de sua primeira vitória em Slam e Opelka, a um set de tirar Fognini com 17 aces cravados e só um break-point permitido.
– Wozniacki iniciou bem a despedida da carreira, que acontecerá em Melbourne. Mas pode ter Dayana Yastremska como próxima adversária.
– Gauff repetiu Wimbledon e eliminou Venus, na maior batalha de gerações dos Slam atuais. A valente juvenil pode pegar Osaka na terceira rodada.
– Devido ao mau tempo de segunda-feira, os 64 jogos normais desta terça-feira serão acrescidos de outros 19 masculinos, oito deles que estavam em andamento, e mais 13 femininos.

Feitos e recordes
– O Big 3 ganhou todos os últimos 12 Slam, desde a conquista do US Open de 2016 por Stan Wawrinka. A maior sequência foi de 18, entre Paris-2005 e Wimbledon-2009. Na atual série, Nadal ganhou 5, Djoko faturou 4 e Federer, 3.
– Serena tem a maior distância entre o primeiro e o último Slam conquistados da Era Aberta: 17 anos. Federer e Nadal vêm atrás, com 14.
– Feliciano López atinge o 72º Slam disputado consecutivo, 5 a mais que Verdasco.

Todo mundo feliz
Por José Nilton Dalcim
16 de janeiro de 2020 às 16:13

Apesar de uma dificuldade maior aqui ou ali, os quatro principais nomes da chave masculina do Australian Open não podem se queixar do sorteio realizado nesta manhã, em Melbourne. Há bons jogos para testar a todos na primeira semana e obviamente esquentar o clima a partir das quartas. Novak Djokovic e Roger Federer ficaram do mesmo lado, deixando Rafael Nadal e Daniil Medvedev no outro. Imagino que todos saíram satisfeitos, até mesmo os organizadores, já que abre a possibilidade de Nadal e Federer lutarem diretamente pelo recorde de Grand Slam na final. Já pensou?

Djokovic ficou a pior estreia entre os grandes favoritos, já que o alemão Jan-Lennard Struff tem um jogo agressivo, mas nem de longe ameaça o favoritismo do sérvio em condições normais. Daí Nole deve embalar, com algum possível trabalho contra o tênis variado de Daniel Evans e pouca dificuldade se pegar Diego Schwartzman, exceto a paciência, ou o amigo Dusan Lajovic.

Claro que a partir daí começa a afunilar e o adversário pode ser então a base firme de Roberto Bautista ou o estiloso Stefanos Tsitsipas. Mas nem eles podem ser dados como certos lá na frente. Bautista tem estreia perigosa contra Feli Lopez e está num grupo dos experientes Benoit Paire e Marin Cilic. O grego não foi tão bem na ATP Cup, defende semi e terá de administrar o emocional. Philipp Kohlschreiber é sempre um perigo, por exemplo.

Sem jogos preparativos para o torneio, Federer é incógnita. Também não se tem certeza ainda qual a velocidade real do piso. Não corre risco na estreia diante de Steve Johnson, mas precisa de cuidado com o sacador Filip Krajinovic e mais ainda em seguida, seja o ascendente Hubert Hurkacz ou o hábil defensor John Millman, aquele do US Open-2018. Ainda assim, tudo indica que o suíço irá adiante para encarar Denis Shapovalov ou Grigor Dimitrov. O canadense, diga-se, não terá vida fácil: Marton Fucsovics e quem sabe Jannik Sinner antes de Dimitrov. E as quartas parecem ainda mais amenas e quase um sonho: Matteo Berrettini ou Fabio Fognini? Guido Pella ou Borna Coric?

A sequência de Nadal é um tanto parecida com a de Djokovic e terá três rodadas mais tranquilas para adquirir ritmo e confiança depois da frustração da ATP Cup. O número 1 estreia diante do habilidoso boliviano Hugo Dellien, pode encarar depois João Sousa ou Federico Delbonis e garantir-se nas oitavas contra o amigo Pablo Carreño. Só então poderá ter um desafio maior diante do desafeto Nick Kyrgios, caso o australiano confirme favoritismo num setor que tem Gilles Simon e Karen Khachanov. Nada mau para o momento.

O austríaco Dominic Thiem aparece como possível barreira para Rafa nas quartas de final. O cabeça 5 estreia diante do canhoto Adrian Mannarino. Sua terceira rodada promete ser dura diante de Kevin Anderson ou Taylor Fritz. Seus oponentes de oitavas mais prováveis são Gael Monfils e Felix Aliassime.

É fundamental ficar de olho em Medvedev. O russo vem de ótimas exibições na ATP Cup e assim é o mais indicado para ir até a semifinal no seu quadrante, o que permitiria reviver a final do US Open diante de Nadal. O instável Frances Tiafoe é seu adversário inicial, Jo-Wilfried Tsonga pode ser o de terceira rodada e John Isner ou Stan Wawrinka, o de oitavas. O outro quadrante tem infinitas possibilidades, mas não dá para apostar em Alexander Zverev. Me parecem mais cotados o russo Andrey Rublev ou o batalhador David Goffin.

Thiago Monteiro não deu sorte e enfrentará pela primeira vez o super-saque de John Isner, algo bem indigesto. Para piorar, Isner embalou e está na semi de Auckland, ganhando mais força. Mas o canhoto cearense fez dois bons jogos no mesmo torneio, ao vencer Cameron Norrie e tirar um set de Benoit Paire. Resta torcer.

Feminino muito mais difícil
Completamente oposta, a chave feminina me pareceu bem desequilibrada. Na parte superior, ficaram nada menos que a número 1 estrela da casa Ashleigh Barty, a atual campeã Naomi Osaka, a perigosíssima Serena Williams e a experiente Petra Kvitova. Pode dar absolutamente qualquer coisa.

Barty tem chance de cruzar com Kvitova, vice de 2019, nas quartas, mesma rodada que teria o reencontro de Osaka e Serena, ou seja promessa de um dia espetacular. A japonesa encara um quadrante exigente, com Sloane Stephens, Sofia Kenin, Coco Gauff ou Venus Williams, que outra vez se pegam logo na estreia.

O lado inferior ficou mais fraco, com Karolina Pliskova, a instável Simona Halep e a imprevisível Elina Svitolina. Talvez valha ficar atento a Aryna Sabalenka nesse lado da chave.

Djokovic takes all
Por José Nilton Dalcim
12 de janeiro de 2020 às 15:39

Magnífico nas simples, decisivo nas duplas. Novak Djokovic completou sua participação 100% eficiente na ATP Cup no melhor estilo possível. Diferente das dificuldades enfrentadas nas duas rodadas que fez em Sydney, seu domingo beirou a perfeição técnica e física. Concentrou-se em cada golpe, game por game, sem gastar energia desnecessária para reclamar ou comemorar. E quando faz isso, é um jogador quase imbatível.

Sua 9ª vitória seguida sobre Rafael Nadal na quadra sintética, uma invencibilidade que vem desde a final do US Open de 2013, selou uma campanha notável na ATP Cup e o consagra definitivamente como o favorito para o Australian Open, onde tentará dentro de oito dias a manutenção do título, o oitavo troféu e um passo a mais em direção ao recorde de Grand Slam.

Era previsível que Nadal começasse o jogo um pouco mais tenso – e olha que Roberto Bautista havia feito ótimo papel ao dar o primeiro ponto em cima de Dusan Lajovic -, e ai a quebra logo no game de abertura foi a deixa perfeita para que o sérvio atropelasse. Encurralou o adversário com fluidez e execução chocantes. Não permitiu brechas, assumiu controle dos pontos, utilizou variação tática magnífica, sufocou o tempo todo. A rigor, o espanhol só teve um game de serviço sem susto.

Mas Rafa é um jogador diferenciado em todos os sentidos e se achou no segundo set, embora eu acredite que ainda poderia ter sido mais agressivo. Sacando melhor e evitando recuar tanto nas trocas, ganhou confiança e teve uma chance real de reagir quando abriu 0-40 no sexto game. Djokovic foi soberbo na defesa dos cinco break-points e o jogo ficou realmente bom.

Pouco depois, seria a vez de o espanhol evitar brilhanemente um 15-40, com voleio e paralela de extrema coragem, e a definição foi ao tiebreak. Aí um ponto decidiu tudo. Um ponto sintomático, diga-se: era 4-4, vieram trocas cuidadosas que deram chance de ataque na paralela aos dois lados, e que acabaria favorecendo aquele que ousou primeiro. A estatística reforça: Djoko terminou com mais do dobro de winners.

Enquanto Nadal frustrou ao preferir não se arriscar mais, Nole assumiu seu papel no jogo de duplas. E outra vez fez a diferença, no saque, na devolução, no voleio. Finalizou muito mais que um domingo exuberante e uma campanha invicta de seis jogos de simples e dois de duplas. Mostrou que, ao contrário de Nadal, ele é o homem a ser mais temido em Melbourne.

Claro que Rafa jamais pode ser subestimado, menos ainda antes do sorteio da chave, que pode ser muito favorável e lhe dar uma sequência capaz de recuperar a confiança e economizar as pernas. As duas derrotas de simples quase seguidas talvez expliquem seu abandono da dupla tão decisiva e, pior, sinalizem que o espanhol ficou abatido a ponto de passar a responsabilidade para a frente, algo raro no seu currículo. Felizmente, há tempo de sobra para o que se chama hoje ‘reagrupar’.

Por fim, como bem destacou TenisBrasil, louve-se a redenção de Viktor Troicki. Herói na conquista da Copa Davis de 2010, ele havia sido o vilão da eliminação sérvia na Copa Davis de 40 dias atrás, quando jogou mal justamente na fundamental partida de duplas contra a Rússia.