Nightmare in Rio
Por José Nilton Dalcim
21 de fevereiro de 2018 às 21:31

A chave é bem verdade estava duríssima: apenas adversários muito mais bem classificados e especialistas no piso de saibro. Derrotas portanto eram previsíveis. Duro foi a forma com que ocorreram. Thomaz Bellucci tinha folgada vantagem, Thiago Monteiro chegou ao match-point e Rogério Silva tomou o controle da partida antes de todos deixarem escapar o bom momento e a oportunidade de ouro de brilhar no Rio Open.

É fato inegável que tem sido uma incômoda constante vermos nossos principais tenistas do ranking masculino deixarem escapar vitórias bem encaminhadas. Mas ao mesmo tempo é um exagero colocar isso como uma norma. Levantamento estatístico no site da ATP mostra que Bellucci tem uma carreira consistente, enquanto Monteiro ainda começa a se aventurar entre os grandes e Rogerinho demorou uma década para atingir a elite.

Bellucci tem um percentual digno nos jogos em que saiu vencendo o primeiro set: 75%, ou seja 155 vitórias e 52 derrotas incluindo a terrível virada que levou de Fognini. Rogerinho por seu lado está na casa dos 61%, com 17 em 28. Monteiro tem número bem menos expressivo nesse quesito, mas ainda assim o salto é positivo. Dos 30 jogos que já fez nesse nível em que venceu o primeiro set, confirmou 16, um índice um pouco acima dos 53%.

Mas vamos ver o lado oposto. Quantas viradas eles obtiveram nesse quilate de competição? Bellucci chega perto de 22%, com 45 sucessos. Monteiro já fez oito em 30 partidas em que perdeu o primeiro set, ou seja, quase 27%. Apenas Rogerinho tem retrospecto fraco, beirando os 15% (8 em 53).

Por fim, vale ainda dar uma olhada no aproveitamento desses principais brasileiros em jogos que foram ao terceiro (ou quinto) sets. Bellucci está com pouco menos de 47%, com 76 vencidos e 85 perdidos, enquanto Rogerinho venceu 10 em 23 (43,4) e Monteiro faturou 12 em 28 (42,8%).

Em termos comparativos, vejamos o que fizeram os outros grandes tenistas brasileiros da Era Profissional. Guga venceu 88% dos jogos que cravou o primeiro set, Fernando Meligeni ficou ligeiramente acima de Bellucci (77%) e Luiz Mattar atingiu 83%, embora jogasse muitos torneios no Brasil.

No campo das viradas, Guga superou a marca de 30%, Meligeni fechou com 21% e Mattar, 22%, portanto números muito semelhantes a Bellucci. Por fim, Kuerten teve notáveis 62% em sets decisivos, Mattar atingiu 55% e Meligeni, quase 50%.

Claro que essas estatísticas também servem para explicar por que a atual geração de brasileiros não está mais bem classificada. Se você pegar a maioria dos grandes nomes do circuito atual, é raro encontrar alguém que tenha menos de 80% de vitórias depois de ganhar o primeiro set e isso é muito mais importante do que eventualmente obter uma virada, o que na média está abaixo dos 25%, mesmo para os tops.

Da mesma forma, ganhar o set decisivo é obviamente um argumento importante e os que estão lá em cima do ranking vencem pelo menos 60% deles. A questão pode ter muito de físico, claro, devido ao desgaste, mas o componente emocional, da confiança, é o que tem pegado a nossa moçada.

Contagem regressiva
Por José Nilton Dalcim
18 de fevereiro de 2018 às 21:00

Que momento incrível e inesperado para Roger Federer.

Há 18 meses, discutia-se no circuito se não seria hora de ele pensar na aposentadoria, depois de uma rara contusão séria no joelho e a volta das dores nas costas, que fizeram de 2016 seu primeiro ano desde 2000 sem um único troféu e a saída do top 10 que não acontecia desde 2002.

Nesta segunda-feira, Federer retornará triunfalmente ao topo do ranking, fruto de um período de incrível sucesso e eficiência. Desde o retorno, em janeiro do ano passado, foram 64 vitórias oficiais e apenas cinco derrotas, que geraram oito títulos em nove disputados. A lista inclui três Grand Slam dos quatro que entrou e três Masters dos quatro escolhidos.

Não menos espetacular é ver que Federer terá amanhã 10.105 pontos no ranking com apenas 12 torneios contabilizados dos 18 permitidos. A incrível média é de 842 pontos por campeonato. Para efeito comparativo, seu mais direto adversário pelo posto, Rafael Nadal, somou 9.760 em 17, ou seja, média de 574 pontos e 68% do que o suíço obteve no mesmo período.

Federer ficará na ponta pelo mesmo por quatro semanas até Indian Wells terminar, dia 18 de março. Será difícil se manter ali, porque no Masters da Califórnia ele defende 1.000 pontos pelo título contra apenas 90 de Rafa. O espanhol também tem menos a repetir em Miami, com 600 frente 1.000, e portanto a lógica diz que Nadal irá recuperar a ponta quando começar a fase do saibro europeu, em abril.

O suíço, no entanto, já pode estar com a cabeça em outra façanha espetacular. Depois do 20º troféu de Slam, uma meta que sonhou um dia, e a impensável volta à ponta do ranking cinco anos depois, que talvez sequer tivesse imaginado possível, ele está agora vislumbrando o 100º título.

Faltam apenas três, e já vale uma aposta de onde seria o local mais indicado de o centenário acontecer. Vêm aí a temporada de grama e seus três torneios, o piso veloz de Cincinnati, Xangai e Basileia, o Finals de Londres… Como os deuses do tênis parecem gostar dele, quem sabe um Masters, Halle e o número mágico em Wimbledon? Uau.

Diante de sua excepcional forma e superioridade sobre a maciça maioria dos adversários de momento, não é nada improvável que Federer termine 2018 já bem cima dos 100. E calculando onde e quando poderá superar os 109 de Jimmy Connors.

O Olimpo é de Federer outra vez
Por José Nilton Dalcim
16 de fevereiro de 2018 às 18:32

E Roger Federer será novamente o número 1 do mundo. Na próxima segunda-feira, 275 semanas depois de sua última aparição na ponta do ranking, ele irá escrever seu nome duplamente em mais uma página da história: o mais idoso a atingir a liderança, aos 36 anos e seis meses, superando Serena Williams (34) e Andre Agassi (33) e também do maior período entre as duas passagens pelo 1, con cinco anos e 106 dias. Ao mesmo tempo, aumentará seu recorde para 303 semanas na frente de todos.

Quando Federer ganhou Wimbledon e reassumiu a hegemonia do ranking em 9 de julho de 2012, tudo já parecia uma tarefa notável. Ele acabava de encerrar o longo período – mais de dois anos – em que Rafael Nadal e Novak Djokovic dominaram o circuito, em suas grandes temporadas de 2010 e 2011.

O suíço ficou na ponta por apenas 17 semanas e devolveu a coroa a Nole pouco antes do Finals de Londres e perdeu a chance de terminar uma temporada pela sexta vez como número 1. É difícil dizer, mas provavelmente nem ele imaginava que ainda poderia entrar nesse briga tão seletiva, muito menos depois de completar 35 anos e vindo de uma longa parada por contusão.

É fato que as quedas vertiginosas de Djokovic e Andy Murray deram uma mão importante nessa retomada, embora isso nada tenha a ver com sua atuação impecável no começo de 2017, especialmente no Australian Open, que viria a ser sua maior campanha dentro de seus então 18 troféus de Grand Slam.

No entanto, é bem evidente que, quando Federer está no topo de sua forma física e técnica, competir contra ele se torna um desafio e tanto. Com exceção a Nadal, não houve outro grande adversário no circuito ao longo de 2017, ainda que Juan Martin del Potro e David Goffin tenham interrompido suas campanhas no US Open e Finals, em que a chance de ir ao menos até a decisão era grande.

Federer recupera a liderança de forma incontestável. Com um calendário muito enxuto, em que se deu ao luxo de saltar toda a temporada de saibro, ganhou três dos quatro Slam que disputou em 12 meses. Chegou a brigar com Nadal pela liderança até o finalzinho do calendário, o que já era uma surpresa, e novamente mostrou seu alto espírito competitivo ao decidir ir a Roterdã para recuperar o número 1.

Não entendo aqueles que consideraram isso um oportunismo. Oras, um megacampeão do seu porte só pode se manter na estrada se tiver grandes ambições. É isso o que move tenistas como ele e o próprio Nadal, que para nossa sorte prometem continuar disputando acirradamente a ponta, os Slam e os recordes.