Thiem renasce, Bianca explode
Por José Nilton Dalcim
18 de março de 2019 às 00:35

Um domingo histórico em Indian Wells. Enquanto Dominic Thiem reencontrou a qualidade e confiança que pareciam perdidas após um tenebroso começo de temporada, a adolescente Bianca Andreescu selou uma campanha estelar com uma vitória raçuda e emocionante. O tênis de 2019 continua surpreendente.

Ao vencer Roger Federer pela terceira vez em cinco confrontos, Thiem se tornou o 66º diferente campeão dos Masters, categoria de eventos criada em 1990 e que soma 262 torneios. É o segundo ano seguido que Indian Wells não vê título do Big 3, que somado faturou 13 títulos desde 2004. Nessa série, Ivan Ljubicic, em 2010, e Juan Martin del Potro, no ano passado, eram as exceções.

A conquista do austríaco reforça a chegada de novos ares ao circuito masculino. De Paris-2007 a Madri-2017, o Big 4 ganhou nada menos do que 75 de 86 Masters. Mas desde então veio uma interessante lista de campeões inéditos. Começou com Alexander Zverev (Roma), seguido por Grigor Dimitrov (Cincinnati) e Jack Sock (Paris), indo na temporada seguinte para Del Potro (Indian Wells), John Isner (Miami) e Karen Khachanov (Paris). Vale ressaltar que Zverev ganhou mais dois, em Toronto-2017 e em Madri-2018.

É bem verdade que Thiem já não pode ser considerado um autêntico NextGen, mas erguer seu grande título tão no começo do trabalho com Nicolas Massú é animador. Todos sabemos que o austríaco é um excepcional tenista sobre o saibro, a superfície onde consegue o tempo perfeito para preparar seus potentes golpes de base. Chegar à terra europeia confiante é um sonho.

A partida contra Federer exigiu suas melhores virtudes, desde a execução técnica até a adaptação tática e muito mais ainda do controle emocional, lembrando aquela atuação de gala na derrota para Rafael Nadal no US Open. Golpes nunca faltaram a Thiem, que no começo da carreira tinha um backhand bonito mas instável. O forehand continua sendo seu ganha-pão e foi com ele que conseguiu segurar o suíço no fundo de quadra, optando por um jogo mais ofensivo a partir do segundo set.

Na hora do aperto, especialmente ali no final do jogo, mexeu muito bem as pernas tanto para pegar as deixadinhas – uma muito mal aplicada pelo suíço – como para fugir do backhand e cravar winners. A virada quebrou a série de Federer, que havia conquistado 20 títulos seguido após vencer o primeiro set.

A Federer, cabem pequenas frustrações. Não devolveu tão bem como queria, deixou alguns backhands cruciais na rede e fez duas ou três escolhas inapropriadas. Nada no entanto que tire o brilho de uma partida muito bem disputada ou que o desmotive de ir a Miami. Claro que no final das contas deixou escapar o 101º título da carreira (agora tem 100 em 153 finais) e o 28º Masters. Seu último foi em outubro de 2017, em Xangai.

A final feminina também comprovou a expectativa de um duelo equilibrado e aberto. A agressividade de Andreescu encarou a incrível capacidade defensiva de Angelique Kerber, coisas que os números espelham de forma magnífica: a canadense marcou 44 winners contra 16, mas cometeu 33 erros diante de 10.

Houve oportunidade dos dois lados e Kerber parecia caminhar para um título que não vê desde Wimbledon ao obter a primeira quebra do terceiro set diante de uma adversária fadigada. Aí o treinador veio, deu palavras de incentivo e Bianca parece ter ganhado força extra. Bateu incrivelmente na bola, virou para 5/3 e ainda deu uma chance de reação à alemã, perdendo três match-points, antes de fazer um game de devolução simplesmente notável, pancadaria e ousadia puras. Jogaço.

Todo mundo se lembra que há exatos 12 meses o Premier californiano viu uma surpreendente Naomi Osaka conquistar seu primeiro título da carreira, com estilo aliás um tanto semelhante, o que abriria portas para dois Grand Slam. Não tenho dúvidas de que Andreescu acredita que pode fazer o mesmo.

Os resultados deste domingo deixam a temporada sem qualquer campeão repetido, tanto no masculino como no feminino. Na WTA, já são 13 diferentes vencedoras e na ATP, 19.

Fedal frustra, mas final promete
Por José Nilton Dalcim
16 de março de 2019 às 23:11

Como era mais do que esperado, Rafael Nadal não teve condições físicas para levar a cabo o 39º Fedal, e assim pela primeira vez o maior confronto do tênis moderno não foi realizado. O espanhol tentou bater bola por meia hora no começo da tarde e ficou evidente que o joelho não aguentaria o esforço de encarar Roger Federer. Com astúcia, evitou o perigoso desgaste. Só voltaremos a ver Nadal no saibro, provavelmente a partir de Monte Carlo, e aí veremos se mais uma vez ele conseguirá contornar o joelho e reinar no seu habitat natural.

Apesar da frustração por não revermos o Fedal, a decisão entre Federer e Dominic Thiem tem ingredientes suficientes para Indian Wells ver um grande jogo. Basta olhar o histórico dos confrontos: 2 a 2, com vitórias do austríaco no saibro de Roma mas também sobre a grama de Stuttgart. O suíço levou a melhor nas duas vezes que se cruzaram na quadra dura. No ano passado, na lentidão do Finals, ganhou com placar elástico. De quebra, quem vencer será o número 4 na segunda-feira.

O que faz do austríaco tão perigoso para o suíço? Ele tem um serviço bem pesado, que geralmente Federer só consegue bloquear, e gira muito spin com seus poderosos golpes de base, armas que, se usadas com ângulo, compensam o fato de o suíço jogar tão perto da linha de base. Também não é nada fácil controlar esses spin na subida, por vezes de bate-pronto, e só a genialidade de Federer para achar soluções.

Vindo de um começo de temporada muito tímido, Thiem chegou a Indian Wells com apenas três vitórias em sete jogos e atuações no saibro sul-americano que até seu treinador criticou severamente. Por isso, passou um tanto despercebido quanto tirou Jordan Thompson e Gilles Simon. Causou certa surpresa ao ganhar de Ivo Karlovic com duas quebras de saque e neste sábado foi muito bem na parte defensiva diante de Milos Raonic, mudando constantemente a posição de devolução, algo que pode muito bem repetir contra Federer.

Thiem ainda sonha com seu primeiro grande troféu. Viu duas chances em Masters, ambas no saibro rápido de Madri, mas foi barrado em 2017 por Nadal e na temporada seguinte por Alexander Zverev. Também chegou na final de Roland Garros de 2018 e novamente parou no canhoto espanhol. De seus 11 títulos, os de maior peso são os 500 de Acapulco, piso bem rápido, e no saibro lento do Rio. Sua versatilidade é inegável, tendo troféus também na grama de Stuttgart e no coberto de St. Petersburgo.

Tudo isso não diminui o favoritismo de Federer. Seu histórico no deserto californiano é espetacular e nada antigo: em suas últimas cinco aparições, chegou à final em todas, embora tendo conquistado apenas o troféu de 2017. Seus outros triunfos vieram entre 2004 e 2006 e depois em 2012. Entrará às 19h30 deste domingo com a oportunidade de chegar ao 28º Masters, o primeiro desde Xangai-2017, e já acumular o 101º ATP, colocando o recorde de Jimmy Connors sob risco real.

O domingo também verá uma interessantíssima decisão feminina, marcada para as 17 horas. E pelo segundo ano consecutivo, o Premier de Indian Wells vê uma finalista totalmente inesperada, buscando arrancada na carreira. A adolescente Bianca Andreescu está perto de repetir o feito de Naomi Osaka.

A canadense de 18 anos e tênis muito completo fez duas exibições que eliminam qualquer dúvida sobre seu potencial e maturidade, esmagando Garbine Muguruza e depois controlando Elina Svitolina. Jamais deixou de tomar a iniciativa, ainda que isso lhe custasse erros. Talvez mais importante que os golpes seja sua postura.

Claro que não será fácil encarar a experiência e a qualidade defensiva de Angelique Kerber, ainda mais num duelo inédito. A alemã tem em Indian Wells sua primeira grande campanha dos últimos oito meses e, mesmo aos 31 anos, procura mudar e adquirir um estilo mais ofensivo. Vale muito conferir.

Nadal faz mágica e garante Fedal
Por José Nilton Dalcim
15 de março de 2019 às 22:11

Se em algum momento do século 22 alguém precisar definir Rafael Nadal, pode mostrar o holograma do jogo desta noite em Indian Wells. O canhoto espanhol reuniu suas melhores qualidades para vencer um jogo improvável, em que nunca pareceu à vontade e passou a mostrar dificuldade de locomoção no começo do segundo set. Não economizou esforço, mudou a postura tática, usou sua cabeça tão forte e inigualável, buscou energia onde não havia e deixou o russo Karen Khachanov com cara de tacho.

O 39º Fedal da história, no entanto, corre risco de não acontecer. Haverá certamente horas de incerteza sobre a presença de Nadal, que voltou a sentir o problemático joelho direito. Será preciso desaquecer, baixar a adrenalina, fazer um tratamento noturno severo para ver se ele conseguirá ao menos bater bola antes do jogo, previsto por volta das 16h30 de Brasília. É muito pouco para uma recuperação completa, se é que isso será possível.

Como se sabe, a contusão no joelho causa uma série de limitações ao tenista: o saque – o movimento do canhoto começa com a perna direita -, as bolas baixas, a corrida para frente e consequente brecada, até mesmo o forehand mais exigente, já que a perna direita do canhoto precisa estar à frente para a transferência de peso ideal.

E, convenhamos, Roger Federer está jogando um tênis muito competitivo, o que exigirá ainda mais do espanhol. O suíço não precisou do seu melhor diante da fragilidade do polonês Hubart Hurkacz, ainda que tenha permitido break-points. Estará cheio de confiança depois do 100º título em Dubai e principalmente das cinco vitórias seguidas sobre Nadal, que não domina o adversário desde a semi do Australian Open de 2014.

Fatos curiosos: eles estão sem se cruzar há 17 meses, desde a final de Xangai, já que no ano passado sequer disputaram os mesmos torneios. E jamais houve um abandono, antes ou durante, em qualquer Fedal.

Relembrando de forma curta os números que tanto apimentam aquela que considero a maior rivalidade do tênis profissional:

Nadal tem:
23-15 desde o primeiro duelo, em Miami-2004
12-7 nos duelos de nível M1000
14-10 nas finais disputadas
67-50 em sets no Fedal
11-10 em tiebreaks entre eles
68-65 no total de semifinais já feitas de M1000
49-48 no total de finais já disputadas de M1000

Federer tem:
11-9 sobre a quadra dura contra Nadal
2-1 em duelos feitos em Indian Wells
5-0 nos últimos Fedal
4-0 nas últimas finais contra Rafa
31-0 nos games de serviço nos 3 últimos jogos
368-366 no total de vitórias de M1000

Empate:
4-4 em jogos feitos nos EUA (nunca no US Open)

Inédito:
Jamais houve WO ou abandono em meio ao jogo

Melo – Num dia a se comemorar, o Big 3 jogou seguidamente no estádio principal de Indian Wells, mas Novak Djokovic saiu derrotado. Ele e Fabio Fognini pararam diante de Marcelo Melo e do polonês Lukasz Kubot, numa jogo muito bem disputado e cheio de alternâncias. Depois da contusão e de tantas atuações abaixo do seu nível nesta temporada, o mineiro parece ter recuperado o tênis e a confiança. E na hora certa: Em sua 15ª final de nível Masters, vai atrás do 10º título.

Davis – A Confederação Brasileira surpreendeu de forma positiva, ao chamar de volta Jaime Oncins como capitão do time da Copa Davis. Atleta de conduta irrepreensível, vencedor em simples e duplas, histórico notável em Copa Davis, ele dá o ar de confiabilidade que o grupo necessita neste momento. Claro que seu trabalho não será fácil, principalmente pela falta de tenistas de ponta, mas somos amplos favoritos contra Barbados e assim deveremos tentar de novo o qualificatório de fevereiro.