O incrível show de Stef
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2019 às 12:42

O que de melhor se pode esperar de um tenista de alto nível foi mostrado, game a game, pelo ainda garoto Stefanos Tsitsipas. E logo diante de seu ídolo e inspiração, o megacampeão Roger Federer. Saque variado e poderoso, golpes de base extremamente firmes dos dois lados, agressividade constante com direito a excelente trabalho de rede, tudo obviamente calcado em ótimo jogo de pernas. Mas, acima de tudo, concentração absoluta, nervos no lugar e confiança, tudo muito necessário porque afinal de contas Federer jogou muito também.

Um show de Stef, que relembrou seu grande momento em Toronto do ano passado, quando reuniu todas suas armas para derrubar quatro dos então top 10, entre eles Novak Djokovic e Alexander Zverev. Em entrevista na pré-temporada, ele revelou a intensa preparação física a que se submeteu e como encarava sua chance de disparar no ranking neste primeiro semestre. Algo fundamental, agregou Patrick Mouratoglou ao time – treina desde 2017 na academia de Nice – e afastou um pouco a influência do emocional pai.

O duelo de gerações foi espetacular, disputado em alto nível do começo ao fim. Mas é inegável que o grego de 20 anos se mostrou mais sólido na base e, tal qual havia feito na Copa Hopman de semanas atrás, investiu no ataque sobre o backhand do suíço sempre que pôde. Como bem disse o ‘repórter’ John McEnroe pouco depois, é uma dádiva ver um garoto explorando com tanta categoria o jogo de rede.

Federer usou com maestria o saque mas pagou caro por dois break-points cruciais que teve à disposição – os outros 10 foram verdadeiramente evitados por Stef -, o mais importante deles no set-point que lhe daria o segundo set e a vantagem de 2 a 0. Também teve um forehand de meio de quadra jogado para fora no 3/4 do terceiro set, falhas que se mostrariam cruciais porque Tsitsipas atuou sempre de forma brilhante e corajosa nos tiebreaks.

Quem deve ter ficado feliz com o resultado foi Roberto Bautista, que pouco antes ganhou seu terceiro jogo da semana no quinto set, agora em cima do atual vice Marin Cilic. O espanhol – que ergueu as mãos aos céus para comemorar enfim uma ida às quartas de Slam – sempre perdeu para Federer e nunca cruzou com o grego. Mas sabe que vai precisar ser muito firme na base e nas passadas.

A nova geração também brilhou com Frances Tiafoe. Eu já havia chamado a atenção para o tênis cada vez mais completo do norte-americano, que festejou seus 21 anos com notável atuação em cima de Grigor Dimitrov, abusando de seu forehand pesadíssimo, mas fazendo saque-voleio e dando drop shots.

Seu problema para sonhar com a semi se chama Rafael Nadal. O renovado espanhol sufocou um perdido Tomas Berdych e só teve de salvar um set-point já na terceira série, quando enfim o tcheco se soltou. Rafa está batendo muito na bola, desde o novo saque bem direcionado e profundo até um forehand devastador, que se alia a um backhand na subida que surpreende o adversário. Difícil imaginar que Tiafoe terá resposta para tudo isso, mas ao menos ele poderá se inspirar no trabalho de Hércules realizado por Tsitsipas.

Surpresas e sonhos
A chave feminina continua deliciosamente imprevisível. A primeira parte das oitavas de final marcaram a incrível e massacrante vitória de Danielle Collins em cima de Angie Kerber e a virada de Ash Barty em cima de Maria Sharapova.

Collins deu prioridade aos estudos, se formou em Economia e só levou o circuito a sério a partir de 2018, quando jogou o quali do AusOpen e nem passou. Mas iniciou uma rápida caminhada, tendo alcançado já o top 50, com direito a derrotar Venus Williams e ir à semi em Miami. Sempre abusando de seus golpes retos, profundos e precisos, havia tirado Julia Goerges e Caroline Garcia nesta semana antes de massacrar Kerber. Já top 30 do ranking, pega a sempre perigosa Anastasia Pavlyuchenkova, ex-top 15 que barrou Sloane Stephens.

Apoiada pela torcida e por seu estilo cheio de slices, Barty fez um duelo nervoso contra Sharapova, em que a russa se perdeu repentinamente nos erros e viu a australiana fazer 4/0. Aí foi Bart quem tremeu, garantindo um final de jogo emocionante. Em suas primeiras quartas de Slam, encara a experiência da canhota Petra Kvitova, que atropelou sem piedade Amanda Anisimova e ganhou os três duelos feitos contra Barty.

A luta pelo número 1 aliás prossegue. Kvitova é no momento a maior ameaça a Simona Halep, mas Naomi Osaka, Elina Svitolina e Karolina Pliskova continuam com chance.

Completando as oitavas
– Djokovic tem 2 a 0 contra Medvedev em partidas de 2017 e busca marcar ao menos 10 quartas de final em cada Grand Slam. Sérvio fará sua 303ª partida desse nível (261 vitórias) e russo, a 18ª (9 triunfos).
– Zverev jamais venceu um top 20 em partidas de Slam e tem a chance diante de Raonic, a quem venceu no saibro mas perdeu na grama, ambos há dois anos. Alemão nunca havia ido tão longe em Melbourne, canadense fez semi em 2016.
– Duelo inédito entre Nishikori e Carreño, dois jogadores que saíram de 0-2 na estreia deste AusOpen. Vale lembrar o retrospecto em 5 sets: japonês tem 20-6 e Carreño, 4-8.
– Coric e Pouille jamais havia vencido um jogo em Melbourne até este ano. Francês já esteve em duas quartas de Slam (Wimbledon e US Open de 2016). Croata busca maior campanha da carreira e tem 2-0 nos duelos diretos, ambos em quadra dura.
– Serena e Halep fazem grande duelo do dia, que promete ser um ataque-contra-defesa. A heptacampeã tem 8-1 diante da finalista de 2018. Quem vencer, encara Pliskova ou Muguruza. A tcheca tem histórico de 7-2 e está em melhor momento.
– Tudo pode acontecer entre Osaka e Sevastova, que fazem quinto duelo totalmente empatadas. Há duas semanas, japonesa ganhou de virada. Keys tem 2 a 0 sobre Svitolina, que mostrou problemas físicos no jogo anterior.

Djokovic cumpre primeira meta
Por José Nilton Dalcim
19 de janeiro de 2019 às 12:49

A liderança do ranking está garantida e Novak Djokovic fica provavelmente mais leve e solto para buscar seu 15º troféu de Grand Slam. Melhor ainda, o garoto Denis Shapovalov nem de longe assustou, mergulhado numa sucessão de erros bobos e escolhas mal feitas. A reação que conseguiu foi muito mais por total desconcentração do adversário.

Era para ter sido uma surra, quando Djokovic abriu 4/1 no terceiro set. Mas aí ele se incomodou com luzes no fundo de quadra e perdeu cinco games seguidos. Foi fundamental ganhar os dois games apertados na abertura do quarto set, e aí Nole retomou o domínio. O jogo decepcionou por culpa de Shapovalov, que cometeu 57 erros e fez só 21 winners. O próprio Djokovic desacelerou, com 33 falhas e 16 winners.

O próximo desafio é Daniil Medvedev, contra quem tem 2 a 0. O russo de 22 anos não pode ser desprezado e deve exigir muito mais de Nole no fundo de quadra. No entanto, a presença do cabeça 1 na semifinal parece mais do que óbvia, já que o adversário seguinte sairá de Kei Nishikori e Pablo Carreño.

Horas mais tarde, Alexander Zverev economizou pernas e passou facilmente pelo local Alex Bolt, resultado que lhe garantiu a maior campanha em Melbourne e o retorno ao número 3 do ranking. Mas é preciso muito cuidado com Milos Raonic na segunda-feira, um adversário experiente, com semi no torneio e que gosta de um piso rápido. Não à toa, bateu Zverev em Wimbledon (perdeu pouco antes no saibro de Roma).

O grande jogo do dia acabou ficando para o longo duelo de cinco sets entre Lucas Pouille e o pouco conhecido Alexei Popyrin, 19 anos e muitos recursos. O francês parece em sua melhor forma física em anos, talvez fruto do trabalho com Amélie Mauresmo. Mão ele tem de sobra. Por isso, pode pintar um jogaço contra Borna Coric, que caminha sem holofotes mas mostra um primeiro serviço eficiente e subidas oportunas à rede.

Serena desafia Halep
O torneio feminino, que tem mostrado ótimas partidas e várias surpresas, tem outro grande momento marcado ainda nas oitavas de final: Serena Williams volta a enfrentar uma líder do ranking depois de seis anos, desta vez Simona Halep. As duas jogaram muito bem neste sábado. Serena ganhou 8 dos 9 duelos diretos, e isso pode ser motivação para a romena. Quem passar, será certamente favorita diante de Karolina Pliskova ou Garbiñe Muguruza.

No outro quadrante, Naomi Osaka e Elina Svitolina escaparam por pouco de ampliar a lista de ‘zebras’. A campeã do US Open chegou a estar um set e 1/4 atrás antes de arrasar na série decisiva. A ucraniana começou bem, começou a sentir dor no pescoço e viu Shuai Zhang abrir 3/0 e saque no terceiro set. Na torcida, o namorado Gael Monfils sofreu. As duas terão oitavas de final muito exigentes: Osaka pega Anastasija Sevastova e Svitolina cruza com Madison Keys.

Brasil e as duplas
O tênis brasileiro segue sua tradição de desempenhos notáveis nas chaves de duplas e já colocou Bruno Soares e Marcelo Demoliner nas oitavas de final deste Australian Open.

É bem verdade que o mineiro não esteve num bom dia e a parceria correu riscos frente a um dueto britânico sem muita expressão. O gaúcho, que parece ter encontrado entrosamento com Frederik Nielsen, um campeão de Wimbledon, tenta pela primeira vez as quartas de um Slam.

As oitavas de final
– Nadal e Berdych fazem 24º duelo, mas o primeiro em quatro anos. Placar geral é de 19-4 para espanhol., mas curiosamente a última vitória do tcheco foi justamente em Melbourne-2015.  Se Nadal vencer, terá 20 vitórias ou mais sobre quatro adversários (Ferrer, Djokovic e Federer, os outros).
– Federer reencontra Tsitsipas, 17 anos mais jovem, e tenta ser mais velho quadrifinalista do torneio desde 1977, quando Rosewall tinha 43. Suíço ganhou em dois tiebreaks há três semanas na Hopman. Grego busca quartas inéditas em Slam. É o sexto NextGen que Federer encara em sete jogos na temporada.
– Cilic salvou dois match-points na rodada anterior de intensos altos e baixos, Batista mostrou físico em dia ao tirar Khachanov depois de 10 sets disputados nas primeiras rodadas. Croata tem duas vantagens: 4-1 nos duelos e a pressão sobre espanhol, que jamais passou das oitavas de um Slam em nove tentativas, três delas na Austrália.
– Duelo de estilos entre Dimitrov e Tiafoe, aniversariante do dia. Piso veloz deve ajudar búlgaro, que tenta quartas de Melbourne pelo terceiro ano seguido.  Americano derrotou de virada Anderson e Seppi, dois ótimos tenistas de piso duro, depois de ter perdido todos seus quatro jogos de início de 2019.
– Grande expectativa para Sharapova x Barty e Kvitova x Anisimova. Se russa aposta na força, última esperança australiana tem muito jeito, usando slices e boa variação. Com oito vitórias seguidas na temporada, Kvitova não perdeu sets mas sabe do poder de fogo da adversária de 17 anos, para quem perdeu em Indian Wells-2018. Emoções à vista.
– Do outro lado, Kerber e Stephens são favoritas diante de Collins e Pavlyuchenkova. Cabeça 2 só cedeu 10 games e encara 35ª do ranking. Stephens tem 2-0 sobre russa, que deu trabalho no duelo mais recente.

Nadal e Federer desfilam na quadra e nos recordes
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2019 às 11:25

Como se previa, a terceira apresentação de Rafael Nadal e Roger Federer no Australian Open foi para lá de tranquila. Diante de dois novatos, aproveitaram muito bem a vasta experiência e encheram os olhos e os livros de recordes.

O espanhol cravou a 250ª vitória em Grand Slam, e assim o tênis tem hoje em atividade os três únicos a atingir esse patamar: Federer está com 342 e Novak Djokovic, 260. Ao imaginarmos que só se disputam 28 jogos de Slam por temporada, será necessária uma década para alguém da nova geração sonhar com isso.

O suíço por sua vez aumenta sua impressionante marca para 63 presenças em oitavas de final em 75 Grand Slam disputados. É quem mais fez isso em Melbourne (17 vezes em 20 participações), onde aumenta sua coleção para 97 vitórias.

Mesmo tendo apenas um título em Melbourne, Nadal já é o terceiro com mais oitavas (12ª, junto a Jimmy Connors) e mais vitórias (58). Aliás, ele iguala Jimmy Connors com 43 presenças na quarta rodada de um Slam, duas a menos que Novak Djokovic, que busca a sua classificação na madrugada.

Federer pisou pela 100ª vez no estádio Rod Laver, e o fato mais incrível é que ele tem 110 jogos feitos no torneio. Ou seja, apenas 10 vezes experimentou as outras arenas.

Os jogos
Embora a dificuldade tenha sido crescente, os três adversários australianos serviram para dar ritmo e provavelmente muita confiança para Nadal. Apesar de ter muita perna e determinação, falta potência a Alex de Minaur e assim ele precisou de um esforço gigantesco para agredir o espanhol e arrancar belos pontos. Rafa voltou a sacar muito bem – a mudança de movimento deixou mesmo o serviço mais veloz – e foi agressivo com o forehand. Serão armas muito importantes diante de Tomas Berdych, que está voando neste começo de temporada para surpresa geral. Virou com grande categoria em cima de Diego Schwartzman, sem economizar winners, aces e voleios.

Diante de outro grande sacador, Federer foi impecável com o serviço, mas também conseguiu bons bloqueios de devolução e se divertiu com pesadas trocas de bola. Taylor Fritz não tem regularidade para tanto. O atual bicampeão de 37 anos continua seu desfile diante da nova geração – ganhou de quatro em Perth – e reencontra Stefanos Tsitisipas, que o levou a dois tiebreaks na Copa Hopman. O grego só tem chance se Federer baixar o nível.

Por falar em nova geração, Frances Tiafoe reagiu duas vezes diante do ‘trintão’ Andreas Seppi e atinge seu melhor resultado num Slam. E fará um interessante duelo de estilos diante de Grigor Dimitrov, que parece animado com a nova equipe. Búlgaro tem a seu favor o piso veloz, mas todo cuidado é pouco com o jogo de fundo de Tiafoe.

Embaladíssimo, Roberto Bautista fez três sets brilhantes diante de Karen Khachanov, pegando o máximo que pôde na subida e arriscando saque. Reencontrará o croata Marin Cilic,que se salvou a duras penas diante do canhoto Fernando Verdasco, num dia muito irregular. O atual vice viu Verdasco cometer dupla falta no match-point e ai desabar mentalmente. Cilic venceu quatro de cinco duelos contra Bautista, mas a única derrota aconteceu justamente no AusOpen, em 2016..

Maria, Maria
As duas primeiras rodadas já haviam mostrado uma Maria Sharapova mais firme no saque, sólida na base e confiante para forçar nos momentos difíceis. Assim, não foi uma total surpresa a vitória em cima da campeã Caroline Wozniacki, num jogo exigente de 2h24.

As contusões têm dificultado a vida de Sharapova nas últimas temporadas. Ela ficou de fora de sete dos últimos 13 Slam, e viveu altos e baixos. Melbourne é um lugar em que geralmente seu estilo se encaixa muito bem. A adversária agora é a última esperança local, Ashely Barty, que gosta de um slice para quebrar o ritmo. Sou omais Sharapova.

A outra sensação da sexta-feira foi a juvenil norte-americana Amanda Anisimova, que não tomou conhecimento de Aryna Sabalenka, permitindo apenas cinco games à 11ª do ranking. Que exibição de força e ousadia! Primeira tenista nascida no século 21 a ir tão longe num Slam, terá um duelo de força pura diante da experiente Petra Kvitova e aí a dificuldade promete ser muito maior.

Angie Kerber continua arrasadora – cedeu apenas 10 games em três jogos -, rumo ao duelo de oitavas contra Sloane Stephens.