E o sufoco de Zverev já começou
Por José Nilton Dalcim
17 de janeiro de 2019 às 12:31

Segunda rodada, e Alexander Zverev já precisou de cinco sets no Australian Open. Não se pode subestimar Jeremy Chardy, um jogador sólido da base, bom sacador e que gosta muito da quadra dura mais veloz. Mas a postura do alemão ainda se mostra um pouco mais defensiva do que se espera de alguém com tanto potencial.

Por sorte, jogou de noite e já num dia em que a temperatura esteve bem amena em Melbourne. Melhor ainda, terá agora um convidado sem qualquer currículo pela frente, o que pode ajudar na recuperação da confiança e das pernas. Se pensar em ter chances lá na frente, Zverev precisa de toda a ajuda possível.

Principalmente porque Novak Djokovic fez outra partida bem tranquila. Perdeu é verdade dois games de serviço, com alguma irregularidade no saque, porém o atual momento de Jo-Wilfried Tsonga não o ameaçou. O francês até que não foi mal,fez belas jogadas e procurou ser agressivo, mas a falta de ritmo lhe custou erros imperdoáveis em momentos cruciais.

Sérvio encara agora o canhoto Denis Shapovalov, num teste muito mais difícil. O canadense tem um grande poder de fogo, mas peca pela irregularidade e a cabeça viaja quando as coisas começam a sair do controle, defeitos que tem tempo de sobra para corrigir mas que tendem a ser fatais diante da consistência de Nole. O duelo é inédito.

A provação de Halep continua
Simona Halep sentiu na pele todo o potencial e bom momento da jovem americana Sofia Kenin e precisou jogar muito tênis na reta final para virar o terceiro set. A romena tinha domínio das ações até abrir 3/0 no segundo set, mas Kenin não se entregou e o que se viu foi um grande duelo de bolas pesadas, anguladas, ataque e contraataque.

Depois de seis sets já disputados, Halep pega agora Venus Williams e, em caso de vitória, deverá ter em seguida Serena Williams, que atropelou Eugénie Bouchard como era de se esperar e cruzará agora com Dayana Yastremska, que tem menos da metade de seus 37 anos. Naomi Osaka e Elina Svitolina também foram muito superiores.

Os jogos do dia
Um festival de tiebreaks marcou a vitória de Milos Raonic sobre Stan Wawrinka, após 4 horas. A primeira quebra só foi aparecer na metade do segundo set. Obviamente foi um jogo de detalhes, decidido em um erro aqui ou acolá. O suíço fez 5/2 no quarto set mas não conseguiu sustentar a vantagem. Destaque para os 89 winners do canadense, sendo 39 aces. E que ele se prepare para mais tiebreaks, já que enfrenta o sacador Pierre Herbert.

Desempates também marcaram o duríssimo jogo em que Kei Nishikori levou 59 aces, mas conseguiu ganhar do veteraníssimo Ivo Karlovic no supertiebreak do quinto set. O japonês conseguiu uma única quebra em toda a partida, mas conseguiu virar um 6-7 para 10-7 quando estava sob grande pressão. Para quem força tanto o saque, Karlovic obteve notáveis 76% de aproveitamento.

Surpresas australianas
Dois convidados da casa estão na terceira rodada masculina. Alexei Popyrin, 19 anos, é um grandão de 1,96m que usou bem o saque para ganhar dois sets e ver um esgotado Dominic Thiem abandonar. A campanha de Alex Bolt, 26 anos, surpreende, já que havia vencido apenas um jogo de nível ATP em toda a carreira. Esteve duas vezes atrás de Gilles Simon e ganhou na consistência. As esperanças australianas de encerrar o jejum que vem desde 1976 ainda contam com Alex de Minaur. E só.

Federer deixa dúvidas
Por José Nilton Dalcim
16 de janeiro de 2019 às 14:26

Muito menos pelo placar exigente com dois tiebreaks, muito mais por não ter achado o ritmo ideal diante de um adversário de parco currículo, Roger Federer venceu sua segunda partida no Australian Open mas deixou dúvidas. O backhand descalibrado o forçou a usar slices com maior frequência, sobraram ‘madeiradas’ de forehand e a devolução não foi incisiva diante do jogo agressivo do britânico Daniel Evans. Com isso, o suíço precisou salvar set-point e virar o tiebreak do primeiro set, perdeu um game de serviço quando dominava no segundo e só ficou mais à vontade na última série.

Na entrevista, Federer destacou dois pontos: a bola Dunlop, que não está agradando a maioria dos jogadores, e a diferença de velocidade do piso. O suíço diz que quem joga à noite sente as coisas bem diferentes: é mais difícil dar efeito na bola e a quadra fica mais lenta. Ele estreou na rodada noturna, mas encarou Evans no final de tarde, o que pode explicar seu maior desconforto com um adversário agressivo. É bem provável que volte a jogar de tarde contra Fritz, um emérito sacador.

Rafa Nadal, pelo jeito, gostou dessa maior lentidão. Em seu primeiro jogo noturno na Rod Laver, deu um show diante de Matthews Ebden, exibindo um amplo arsenal. O australiano deu um susto no começo, mas a partir da primeira quebra ficou dominado. Nenhuma dificuldade de movimentação para o espanhol, que buscou bolas bem difíceis e disparou seus contragolpes espetaculares.

Vem agora um duelo de geração diante da esperança local Alex de Minaur, e por isso deve ser o jogo noturno da sexta-feira. O pupilo de Lleyton Hewitt tem chances? Pequenas. Precisará se manter perto das linhas para pegar na subida e encurtar o tempo do espanhol, arriscar paralelas de backhand para ter a cruzada aberta, o ponto mais vulnerável de Rafa. Tem de evitar ao máximo que o cabeça 2 use o forehand. Parece simples, mas não é fácil manter um padrão desses por quatro ou cinco sets.

Rumo a um duelo direto, Marin Cilic e Roberto Bautista sofreram além do que se esperava. O croata ficou pregado demais no fundo de quadra contra o bom Mackenzie McDonald e o espanhol fez outra partida em cinco sets, desta vez diante do local John Millman, desgaste que pode custar caro diante de Karen Khachanov. O adversário de Cilic será o velho e bom Fernando Verdasco.

Bia fez o que deu
Pode parecer pouco tirar cinco games da vice-líder do ranking, mas Bia Haddad fez o que tinha de fazer diante da solidez de Angelique Kerber: arriscou saque, bateu pesado o tempo inteiro, encurtou o tempo com subidas espertas à rede, forçou devoluções. Claro que isso também lhe custou um caminhão de erros não forçados – 39, sendo 29 no primeiro set – e a certeza de que precisa continuar trabalhando duro no seu backhand.

Com o nível que tem apresentado, Bia deve voltar rapidamente ao top 100, que é seu lugar. Está cada vez mais à vontade nas quadras duras e voltou a ter confiança no saque. Abusou dos efeitos abertos contra Kerber, uma arma importante para ver o outro lado aberto e finalizar sem ter que forçar tanto. Quem sabe, Bia consiga encerrar o jejum brasileiro contra top 10, que está próximo de atingir 30 anos nesta temporada. A última foi Dadá Vieira, em julho de 1989.

A segunda rodada de Carol Wozniacki, Sloane Stephens, Petra Kvitova e Maria Sharapova foram muito tranquilas. Fica a expectativa para o duelo direto de Wozniacki e Sharapova. Pelo que vi até agora, sou mais a dinamarquesa.

Surpresas americanas
Figura pouco destacada entre os novatos, sempre achei Frances Tiafoe com o melhor potencial entre os norte-americanos da Next Gen, já que tem um tremendo físico e golpes de base compactos. Faltava a ele um saque mais contundente e um voleio seguro, e foram exatamente esses dois componentes que o ajudaram na virada em cima de Kevin Anderson, um dos fortes postulantes à final deste Australian Open. Colocou 70% do primeiro saque, ganhou 80% desses pontos, e venceu 21 de 27 pontos na rede. Encara agora o sempre perigoso Andreas Seppi.

Entre as meninas, Amanda Anisimova, apenas 17 anos e mais jovem entre as top 100 de hoje, arrasou a cabeça 23 Lesia Tsurenko com seu estilo agressivo. Agora, fará delicioso duelo diante da bielorrussa Aryna Sabalenka, que é apenas três anos mais velha mas já 11ª do ranking.

A nova geração também avançou nesta quarta-feira com De Minaur, Khachanov, Fritz, Stefanos Tsitsitpas e a convidada Kimberly Birrell.

Destaques do dia
As vitórias de Tomas Berdych e Grigor Dimitrov valeram pela ótima qualidade técnica dos duelos. Aos 33 anos e voltando de longa parada por contusão nas costas, o tcheco se reinventou, e com sucesso. Agora, não perde qualquer oportunidade de ir à rede e tem feito voleios de grande categoria. Chances reais de passar por Diego Schwartzman. Na rodada noturna, Dimitrov e Pablo Cuevas fizeram quatro sets muito bem disputados, tirando tudo de seus backhands de uma mão. O búlgaro, agora sob supervisão de Andre Agassi, se candidata a cruzar com Nadal lá nas quartas.

Djokovic joga com vontade
Por José Nilton Dalcim
15 de janeiro de 2019 às 12:40

É bem possível que o motivo tenha sido a amarga derrota de Doha de duas semanas atrás, mas o fato é que Novak Djokovic disputou a primeira rodada deste Australian Open com muita vontade. Mesmo diante de um adversário de ranking e currículo muito inferiores, vibrou com seus bons lances e irritou-se com os poucos erros cometidos.

Nada de errado nisso. Muito ao contrário. Mostra que Nole entrou ligado desde o primeiro minuto e está exigente consigo mesmo. Sua atuação firme marcou o 300º jogo de nível Grand Slam de sua carreira, com 259 vitórias. Desse total, 70 partidas e 62 triunfos foram na Austrália.

Djokovic, que não era cabeça 1 de um Slam desde o US Open de 2016, reencontra agora Jo-Wilfried Tsonga, cujo primeiro dos 22 duelos aconteceu justamente em Melbourne na então surpreendente final de 2008. Os dois vivem momentos bem opostos. Enquanto o sérvio voltou a jogar um tênis soberbo, o francês luta eternamente contra o físico e amarga o 177º posto do ranking. O piso veloz no entanto pode ajudar Tsonga a equilibrar melhor os sets.

Raonic x Wawrinka
Outro jogo imperdível de segunda rodada terá Milos Raonic contra Stan Wawrinka, chance de o suíço se vingar da recente derrota na terceira rodada do US Open. São dois tenistas que também buscam reencontrar seu jogo e a capacidade de ir longe nos grandes campeonatos.

Raonic, semi do torneio há três anos quando resolveu caprichar nos voleios, foi impecável no saque diante de um Nick Kyrgios vacilante. O australiano, que um dia fez quartas em Melbourne, sofreu sua primeira derrota de estreia em seis participações. Nos últimos 10 duelos contra top 20 em Slam, perdeu nove. Seja pelo físico ou pela cabeça, continua ladeira abaixo e pode deixar o top 70. Que desperdício de talento.

Nova geração avança
Cinco nomes fortes da Next Gen venceram, com destaque óbvio para Alexander Zverev e uma apresentação sem sustos. Borna Coric por sua vez ganhou finalmente uma partida no AusOpen, após cinco tentativas. Jogou bem agressivo, como já vinha fazendo em 2018.

Observe-se que dois novatos têm tudo para desafiar Nole. Denis Shapovalov dificilmente não será o adversário do sérvio na terceira rodada, já que tem agora Taro Daniel, e Daniil Medvedev é favorito contra Ryan Harrison e tem chance de barrar David Goffin.

Sob risco de sair do top 50, Hyeon Chung sobreviveu depois de ter perdido os dois primeiros sets e parece bem distante do nível que mostrou em 2018, quando fez semi inesperada.

Entre as meninas, cinco nomes entre 17 e 18 anos avançaram à segunda rodada e continuo impressionado com a canadense Bianca Andreescu. Fiquem de olho na ex-número 1 juvenil Anastasia Potapova, na campeão de Wimbledon Iga Swiatek e na ousadíssima Amanda Anisimova.

Halep de volta
E enfim Simona Halep voltou a vencer. A número 1 não fez uma grande partida, mas achou aos poucos o ritmo para se vingar da derrota sofrida para Kaia Kanepi no US Open, que iniciou uma série de cinco quedas seguidas. A chave segue dura. Vem agora a embalada e jovem Sofia Kenin, quem sabe em seguida as duas Williams.

Serena, por falar nisso, sobrou. Muito mais em forma, mostrou-se bem à vontade num piso veloz que a ajuda no saque, na transição à rede e nas devoluções agressivas. Interessante duelo agora contra Eugénie Bouchard, que cinco anos e meio atrás deu grande trabalho à norte-americana na quadra rápida de Cincinnati.

Nesse fortíssimo setor da chave, Naomi Osaka fez também ótima estreia. É outra que se adapta muito bem a uma superfície mais veloz, já que adora comandar os pontos e ir para as linhas. A campeã do US Open parece ter caminho tranquilo pelo menos até cruzar com Anastasija Sevastova nas oitavas.

O jogo do dia
Kei Nishikori e o desconhecido Kamil Majchrzak fizeram o duelo mais maluco do segundo dia. O polonês de 23 anos jogou muito além do seu 176º lugar do ranking, com dois sets primorosos em que sacou, devolveu e contragolpeou com notável qualidade. Mas parece não ter dosado o esforço e passou a sentir cãibras até nos dedos da mão, o que permitiu a fácil virada do japonês, evitando o que seria sua pior derrota no circuito em seis temporadas. O ponto alto de Nishikori foi arriscar mais o jogo de rede, algo que vem fazendo cada vez com maior competência. Seu adversário agora é o veteraníssimo Ivo Karlovic.

Duelo emocionante marcou a virada de Venus Williams em cima da romena Mihaela Buzarnescu. A cabeça 25 chegou a sacar para o jogo com 5/4 no segundo set, mas a experiência de Venus, 38 anos e 81 Slam nas costas, prevaleceu e ela não perdeu mais serviços.

Decepções da rodada
Três abandonos dolorosos na chave masculina. Lesão nas costas de Ernests Gulbis com apenas uma hora de duelo contra Wawrinka, o peitoral de novo brecando a tentativa de reação na carreira do ainda garoto Thanasi Kokkinakis; e o segundo ano seguido em que Jaume Munar deixa a quadra no meio de sua estreia. E Jack Sock continua seu calvário, levando virada e sofrendo a 15ª derrota de estreia em seus 23 últimos torneios (em outros 7, caiu na segunda rodada).