A festa apenas começou
Por José Nilton Dalcim
22 de abril de 2018 às 18:19

O primeiro dos cinco capítulos que Rafael Nadal pretende protagonizar no saibro europeu foi um campeão de audiência. Apenas 21 games cedidos a seus cinco adversários, três deles de nível top 10. Monte Carlo viu somente quatro serviços quebrados, 68% de pontos com o segundo serviço e 43% de lances vencidos ao devolver o primeiro saque. Praticamente impossível fazer melhor do que isso sobre o saibro.

Algo que chama a atenção é a forma com que Nadal venceu seus jogos no Principado. À exceção de dois sets que foram mais exigentes e levaram cerca de 60 minutos cada um, diante de Grigor Dimitrov e de Kei Nishikori nas duas rodadas decisivas, a campanha foi cristalina o bastante para mantê-lo completamente fresco.

Certamente, estreará apenas na quarta-feira em Barcelona e terá dois dias de descanso, não físico porque certamente treinará como um touro, mas mental. E assim estará novamente pronto para outro desfile sobre o saibro. Nas oitavas, poderá reencontrar Nishikori – aposto que o japonês estará exausto – e ficará novamente a expectativa pelo reencontro com Novak Dokovic nas quartas. Há ainda David Goffin numa possível semi e quem sabe Dominic Thiem ou Dimitrov na decisão.

Não há qualquer motivo razoável para se duvidar que ele tenha grandes chances de chegar ao 11º título também em Barcelona, tendo então uma semana para se preparar a um real desafio que é a velocidade de Madri e então o cansaço sempre mais evidente em Roma. Sei que é impossível pedir a Rafa que diminua o calendário e o ritmo, guardando forças para Roland Garros. Porém, ainda acho que seria o mais sensato.

De qualquer maneira, sua distância atlética, técnica e emocional para qualquer concorrente de momento é abismal. Ninguém achou solução para ao menos equilibrar as partidas. Talvez a melhor postura tenha sido de Nishikori quando apostou em forçar no backhand do espanhol e trocar para paralela, ou então usar curtas. Porém, faltaram braços e pernas para  sustentar o plano.

Não bastassem seu spin enlouquecedor e a incomparável visão tática, Nadal mostra muito mais físico e coração. Caso Djokovic não acorde do seu pesadelo a tempo, tudo indica que assistiremos a um domínio jamais visto sobre o saibro, superior até mesmo ao que Rafa obteve em 2010, quando só lhe faltou Barcelona.

Os feitos que aguardam Nadal
Por José Nilton Dalcim
21 de abril de 2018 às 18:28

Mal começou a temporada de saibro e Rafael Nadal já começa a mudar o livro de história do tênis. O canhoto de Mallorca já marcou pelo menos quatro feitos importantes com as quatro vitórias obtidas até aqui em Monte Carlo e poderá obter mais nove caso confirme seu amplo favoritismo neste domingo e supere o japonês Kei Nishikori.

O que Nadal já garantiu:
– 34 sets vencidos seguidos no saibro, seu recorde pessoal
– 47 finais de Masters, igualando recorde de Federer
– 82,52% de vitórias na carreira: assume segundo lugar na Era Profissional e supera Djokovic (82,49)
– 395 vitórias no saibro, mais do que Rios, Stich e Nalbandian somaram na carreira toda

O que Rafa pode obter com título:
– 11 títulos num mesmo torneio, inédito no tênis masculino
– 15 temporadas seguidas com ao menos um título, repetindo Federer
– 23 Masters no saibro, mais do que Agassi conseguiu em todos os M1000 juntos
– 31 Masters, reassumindo liderança sobre os 30 de Djokovic
– 54 títulos no saibro, mais do que Becker, Murray e Edberg conquistaram na carreira inteira
– 74 títulos em quadras descobertas, superando Federer
– 76 títulos, ficando a um de McEnroe
– 171 semanas como número 1, ultrapassando McEnroe e isolando-se em 6º lugar
– 807 vitórias em quadras descobertas, igualando Vilas no segundo lugar

Como se esperava, Nadal dominou Grigor Dimitrov, mas até que tivemos um primeiro set interessante, em que o búlgaro conseguiu ser competitivo mesmo com um índice insatisfatório de primeiro saque. Ficou firme lá atrás da base, aguentou a pancadaria com o backhand e mostrou ótimo preparo físico para buscar bolas difíceis.

Rafa vacilou no único game realmente ruim que fez durante toda a semana, porém foi recompensado com duas duplas faltas do adversário no 10º e decisivo game do primeiro set. Daí em diante, Dimitrov perdeu forças, ficou apressado e virou presa tão fácil que o espanhol sentiu necessidade de treinar logo depois da semifinal. A cena de ele correr para o celular e mandar texto para Carlos Moyá, pedindo uma quadra para bater bola, foi icônica.

Nishikori pode atrapalhar a festa? Claro, mas teria de jogar num nível muito acima do que mostrou até agora. Fez quatro exibições de muito esforço e por isso merece estar na sua quarta final de Masters. Não é um saibrista genuíno, mas já ganhou dois títulos em Barcelona, além de outras quatro finais na terra.

Depois do problema no punho, mostra um forehand ainda menos potente. Para compensar, aumentou o arsenal com curtinhas e voleios. Sua virada em cima de Alexander Zverev deste sábado teve muito mais de empenho tático e determinação mental. Quem sabe, ele se inspire naquela atuação de Madri, quatro anos atrás, em que deu sufoco em Nadal, ou no último duelo entre eles, nos Jogos do Rio, em que exibiu um grande tênis.

Nishikori soma 12 títulos na carreira – quase tudo o que Rafa tem somente em Monte Carlo – e não ergue troféu desde fevereiro de 2016. Se surpreender o mundo neste domingo, voltará ao 12º lugar do ranking. E certamente poderá pleitear uma estátua.

Avassalador
Por José Nilton Dalcim
20 de abril de 2018 às 16:56

Qual será o adjetivo mais apropriado quando você enfrenta aquele que deveria ser seu maior obstáculo não só ao título da semana mas talvez a toda a fase do saibro e o atropela como um principiante, tendo de ouvir a torcida implorar por um game? Deu pena de Dominic Thiem no reencontro com o cada vez mais avassalador Rafael Nadal.

Na verdade, em que pese a atuação soberba do espanhol, é incompreensível como um já experiente Thiem desaba em momentos importantes. Esta atuação apagada lembrou muito a semi de Roma do ano passado, quando escapou também de ‘bicicleta’ diante de Novak Djokovic, e mostrou fragilidade ainda maior do que na semi de Paris diante do mesmo Nadal poucos dias depois.

Eu havia escrito ontem que, para ser competitivo, Thiem precisava muito do primeiro saque e o que vimos foi um percentual pífio de 35% no primeiro set e 44% no segundo. E mesmo quando acertou, só ganhou 11 de 21 lances. Fez ainda cinco duplas faltas, três delas no fundamental comecinho da partida, e jamais explorou o saque bem aberto no lado do iguais ou um ‘american twist’ que jogasse o adversário para a linha de dupla no lado da vantagem, mesmo com Nadal a seis passos da linha. Teimosia ou incompetência?

Claro que essas opções táticas óbvias não seriam suficientes para ganhar de Nadal, já que o espanhol está degraus acima na confiança, repertório, deslocamento e visão tática, mas ao menos deixaria o jogo mais decente para dois especialistas de saibro de nível top 10.

Será muito mais aceitável que Grigor Dimitrov leve uma surra na semi deste sábado, já que o búlgaro não morre de amores pelo saibro e terá seu backhand atormentado pelo spin de Nadal. Mais uma vez, apenas um grande desempenho no serviço pode evitar um vexame, pois Rafa está assombroso no fundo da quadra, com um backhand mais calibrado e ofensivo do que nunca, e dando pouquíssimas oportunidades quando saca. Contra Thiem, errou apenas nove lances e ganhou todos os 10 pontos com mais de nove trocas. Um trator.

Dimitrov aliás viveu altos e baixos contra David Goffin. Fez um belo primeiro set até o nono game. Daí perdeu set-points e o saque, mas se valeu da falta de potência do belga para ainda fechar. Depois, entrou em parafuso, perdeu quatro games seguidos e viu Goffin chegar a 5/1. Mas com duas oportunidades de confirmar o saque, o belga pecou pela falta de coragem, errou backhands e viu Dimitrov crescer novamente. O búlgaro terminou a partida com um tênis vistoso. Uma pena que isso não aconteça o tempo inteiro.

A outra semi terá Alexander Zverev contra Kei Nishikori e honestamente não chega a me empolgar. O japonês sofreu muito para ganhar de um avariado Marin Cilic, jogando desnecessariamente um terceiro set, enquanto o alemão sofreu demais diante de Richard Gasquet sem outra vez mostrar a consistência ideal para o saibro. Sem falar nas escolhas duvidosas na parte tática, como a estranha insistência em atacar o backhand do francês.

Destaques
– Conforme publicado em TenisBrasil, Nadal anotou seu 12º pneu da carreira sobre um top 10, o 59º sobre o saibro (sendo 11 em Monte Carlo) e o 97º do total. Até mesmo o atual técnico Moyá levou surra do canhoto de Mallorca.
– Desde que perdeu para Thiem em Roma do ano passado, Nadal ganhou 12 partidas e 32 sets consecutivos no saibro.
– Dimitrov tem mostrado grande poder de recuperação em Monte Carlo. Virou contra Herbert e Kohlschreiber antes da incrível reação no segundo set diante de Goffin.
– Com a semi, Nishikori pode retornar ao 26º lugar do ranking e será 21º se atingir a final, mas certamente a meta é estar entre os 17 após Roma para pegar uma boa condição de cabeça em Paris.
– Djokovic aceitou convite e vai jogar em Barcelona, onde entrará como cabeça 6 e portanto estreará diretamente na segunda rodada. A chave sai neste sábado, com Nadal, Dimitrov, Thiem e Goffin como principais inscritos além de Ferrer, Verdasco, Carreño e Bautista. Dureza. O sérvio aliás anunciou que Marian Vajda fica até o final do saibro.