Nadal sai devendo outra vez
Por José Nilton Dalcim
24 de abril de 2019 às 19:05

Como bem disse na entrevista oficial, o importante é vencer. Mas Rafa Nadal novamente deixou impressão ruim neste início de atividade sobre o saibro. Leonardo Mayer, que faz uma temporada fraca, conseguiu interromper a série de 30 sets que o canhoto espanhol levava em Barcelona, ainda que jamais tenha sido ameaça real no segundo e terceiro sets.

Nadal me pareceu claramente pressionado a jogar bem, depois da decepção em Monte Carlo, porém fez um primeiro set apático, limitado a trocar bolas, várias vezes sem profundidade. O vento forte e o estilo de Mayer também não o ajudaram a pegar ritmo, sem falar no rendimento baixo de primeiro serviço, um tormento que carrega desde a semana passada.

Ainda assim, dada à cristalina diferença de qualidade entre os dois, Rafa deveria ter vencido o primeiro set. Enrolou-se, perdeu dois set-points e o tiebreak. Apenas cinco winners em 13 games, depois seis num set de outros 10 games. Fechou o jogo com 36 erros, sendo 16 de forehand, vendo Mayer errar voleios primários.

O próximo duelo tem um lado emocional, já que será diante do amigo David Ferrer, cujo estilo de muitas trocas sempre casou bem. Naquele que pode ser o penúltimo torneio de sua carreira, Ferrer arrasou seus dois primeiros adversários em Barcelona, cedendo apenas sete games. Encarar Nadal, mesmo nesse momento delicado do compatriota, é um desafio: o placar negativo de 19-2 no saibro e 5-0 em Barcelona pesam.

Ferrer havia anunciado originalmente a aposentadoria para esta semana, mas recebeu convite para Madri e não está totalmente descartada a possibilidade de também ser chamado para Roland Garros, o que afinal seria uma despedida bem mais justa.

E mais
– Três nomes fortes da geração em quadra nesta quinta-feira: Aliassiame busca sua maior vitória em cima de Nishikori, Munar conta com a torcida diante de Thiem e Tsitsipas, finalista do ano passado, é favorito diante de Struff.
– McDonald é primeiro norte-americano nas oitavas de Barcelona em exatos 20 anos (Martin e Spadea, em 1999).
– Fognini desistiu de jogar horas antes da estreia, alegando dores na coxa. Mas diz que estará no Estoril na próxima semana.
– Pouille perdeu todos os seis jogos que fez depois da semi em Melbourne. A atuação contra Ferrer foi desastrosa.
– Pella é o tenista que mais venceu no saibro em 2019: agora 16, seguido por Garin, com 14.
– O Chile de Garin e Jarry não colocava dois representantes nas oitavas de um ATP desde Gonzalez e Massu em Houston-2010.
– Pela sexta vez em sete duelos, Dimitrov e Verdasco decidiram o jogo no terceiro set (4 a 2 para o búlgaro). A outra partida entre eles também foi em três sets, mas em Roland Garros.
– Nadal tem agora 59 vitórias e 3 derrotas e Barcelona pode se tornar o quarto torneio em que ele atinge 60. São 86 em Paris, 71 em Monte Carlo e 61 em Melbourne.
– Se conseguir a vingança contra Hsieh e avançar às quartas de Stuttgart, Osaka já garantirá sua permanência na ponta do ranking, já que Halep desistiu de competir devido a uma contusão no quadril durante a Fed Cup.

Fognini precisa agora ir atrás do top 10
Por José Nilton Dalcim
21 de abril de 2019 às 21:53

O primeiro passo foi dado. Enfim, o talento de Fabio Fognini ergueu um dos grandes troféus do circuito masculino e faturou com máxima justiça Monte Carlo. Afinal, alguém que domina Rafa Nadal como ele fez no sábado teria mesmo de ficar com o título.

Então o sonho de um dia chegar ao top 10, que ele próprio revelou meses atrás, nunca esteve tão perto. O italiano, pertinho da casa dos 32 anos, aparecerá nesta segunda-feira em seu recorde pessoal, o 12º posto, 5 pontos atrás de Marin Cilic e a apenas 245 de John Isner. Somará tudo que fizer acima dos 45 em Barcelona e dos 10 em Madri. É uma chance de ouro. E depois defende apenas 180 em Roma e em Paris, locais onde pode se sair muito, muito bem.

Fognini garante no entanto que não quer pensar em Barcelona ou em ranking por enquanto. Ele será cabeça 4 lá e portanto deve estrear somente na quarta-feira, o que lhe dá tempo para comemorar e descansar. Ele destacou na campanha de Mônaco, claro, sua vitória na semi sobre Nadal, mas mostrou muita consciência ao dizer que o espanhol continua favorito a tudo que jogar no saibro europeu. A boa notícia é que Rafa ficou do outro lado da chave em Barcelona.

A final deste domingo começou tensa, como era de se esperar. Dusan Lajovic teve a primeira vantagem, ainda no terceiro game, mas cedeu o 2/2 em seguida e daí em diante o que se viu foi Fognini sempre muito mais oportuno nos famosos ‘pontos importantes’. Lajovic várias vezes pareceu indeciso sobre que postura adotar, foi menos agressivo do que vinha fazendo na semana, e obviamente sofreu com a incrível capacidade do italiano em variar direções e efeitos. Não foi um jogo espetacular e o vento contribuiu muito para isso.

Lajovic aliás também deu uma declaração interessante, afirmando que ver Fognini jogar o melhor tênis da carreira pertinho dos 32 anos é um grande incentivo para ele, que aos 28 disputou sua primeira final de nível ATP.

Novos tempos
Fato muito relevante: este é o segundo ano consecutivo em que três diferentes jogadores vencem os Masters iniciais do calendário e que dois deles são debutantes. Em 2018, foram Juan Martin del Potro e John Isner e agora Fognini e Dominic Thiem. Algo que só havia acontecido em 1990, quando foi instituída a série Masters, com triunfos de Stefan Edberg, Andre Agassi e Andrei Chesnokov.

Outro dado bem interessante divulgado pela ATP lembra que Fognini é o oitavo tenista a ganhar seu primeiro Masters nos últimos 17 eventos disputados. Antes de Roma-2017, também foram oito porém em 92 torneios, ou seja, no período de amplo domínio do Big 4.

Detalhes
– Fognini é o primeiro tenista a derrotar Nadal e ganhar um troféu no saibro desde Pablo Cuevas, no Rio Open de 2016.
– O último italiano a ter vencido Monte Carlo foi Nicola Pietrangeli, em 1968, quando o tênis ainda não havia entrado na Era Profissional. Corrado Barazzutti foi vice em 1977.
– Lajovic é treinado justamente pelo ex-técnico de Fognini, o espanhol Jose Perlas, e treina atualmente em Barcelona.
– Sinal de como o saibro é lento em Monte Carlo, Fognini levantou o título com média na semana de 57% de acerto de primeiro saque e 65% de pontos vencidos com ele.
– O sérvio jogou a semana toda com uma bolha dolorida no dedão do pé e revelou que a preparação para entrar em quadra foi extremamente chata e longa.

Não deu
O renovado time brasileiro da Fed Cup não teve mesmo muita chance em Bratislava, mesmo jogando sobre saibro coberto. Dominika Cibulkova, ex-top 4 e vice do Australian Open, colocou toda sua experiência em quadra e fez a diferença, mas ainda assim Bia Haddad esteve bem perto de ganhar o primeiro set no terceiro e decisivo jogo deste domingo, quando abriu 5/3 e teve o serviço a favor.

Vale lembrar que a canhota de 22 anos estava competindo em Bogotá até o sábado e se dispôs a um longo deslocamento até a Eslováquia, onde chegou apenas na quarta-feira.

É preciso ainda dar o devido desconto às meninas, que raramente disputam jogos de nível tão alto e sob tamanha pressão. Há uma distância grande de qualidade e de experiência entre Bia e as demais integrantes do time, isso é inegável.

O lado realmente positivo está no fato de esse grupo ser muito unido, todas trabalham juntas e sem atritos, algo bem raro na nossa longa história de Fed Cup.

Mágico Fognini
Por José Nilton Dalcim
20 de abril de 2019 às 16:06

Fabio Fognini chegou a Monte Carlo com um de seus piores inícios de temporada. Apenas quatro vitórias em 12 jogos, cinco derrotas em primeira rodada nos seis últimos torneios e, pior ainda, sem um único triunfo sobre o saibro em quatro tentativas em 2019.

Faltou muito pouco para outra despedida precoce, quando viu Andrey Rublev abrir 6/4 e 4/1, com break-point. Salvou-se com um ace e começou suas conhecidas reações. Passou sufoco ainda maior nas quartas: Borna Coric teve 6/1 e 2/0, e novamente o italiano fez mágica.

Dono de um talento raro no tênis, Fognini sabia que não era possível jogar de forma passiva contra o ‘rei do saibro’ em um de seus palcos prediletos. Entrou intenso, decidido a bater na bola. Tirou logo o primeiro saque, mas não sustentou a postura tática e de repente Nadal já tinha 3/1.

O italiano segurou a cabeça, e quando isso acontece ele fica extremamente perigoso. Arrancou incríveis paralelas dos dois lados, fez curtas magníficas e voleios competentes. Venceu 11 dos 14 games seguintes e faltou um único ponto para aplicar um incrível ‘pneu’ no segundo set. Encurralou Nadal numa de suas melhores atuações de toda a carreira.

Números explicam bem o tamanho da façanha de Fognini. Esta foi apenas a quinta derrota de Nadal em suas 16 participações em Monte Carlo (duas para Djokovic e outras para Ferrer e Coria) e a 37ª em 455 partidas sobre o saibro, lista que tem apenas sete diferentes adversários. Um deles é exatamente Fognini, que se junta a Djokovic, Thiem e Gaudio como únicos a vencer o espanhol ao menos três vezes na terra.

Nadal diria pouco depois que “foi um dos meus piores jogos no saibro em 14 anos”, mas talvez fosse justo reconhecer que atuou de maneira burocrática, quase medrosa, muito parecida aliás ao primeiro set da véspera contra Guido Pella, em que sua única postura tática se limitou a colocar spin, trocar bolas e esperar erros. Só foi bater com determinação e arrojo quando estava a um passo da derrota. Desta vez, tarde mais.

Não apenas por esta vitória de gala, mais pelo conjunto da obra, Fognini, aos 31 anos, merece ganhar seu primeiro Masters. No entanto, ainda existe mais um obstáculo: o animado Dusan Lajovic, que vive uma semana ainda mais irrepreensível: não perdeu set mesmo diante de David Goffin, Dominic Thiem e Daniil Medvedev.

Arrancou um feito e tanto neste sábado. Perdendo de 1/5, com saque do adversário, incomodado com o vento e seus erros, reagiu. Foram 10 games seguidos diante de um atônito Medvedev, que 24 horas antes havia sido mais sólido do que o número 1 do mundo.

Lajovic nunca havia ganhado quatro jogos seguidos num mesmo torneio e fará a primeira final de toda a carreira. Aos 28 anos, é o tenista de mais baixo ranking (48º) a atingir a final de Monte Carlo desde que Hicham Arazi (53º) perdeu para Guga Kuerten em 2001. Nunca enfrentou Fognini, o que deixa a disputa ainda mais aberta.

E mais
– Esta é a primeira vez, desde 1990, que Monte Carlo tem dois finalistas inéditos.
– Esta foi apenas a segunda vitória de Fognini sobre um top 2 do ranking em 16 tentativas. A anterior veio sobre Murray, em Roma-2017
– Nadal perdeu sequência de 18 jogos e de 25 sets vencidos, mas seu recorde no Principado é de 46 vitórias e 31 sets.
– Medvedev permanece como o tenista que mais venceu na temporada, com 21.
– Lajovic é segundo sérvio, fora Djokokvic, a ir a uma final de Masters, repetindo Filip Krajinovic, vice em Paris-2017. Já garantiu o 24º posto do ranking e será 19º com eventual título.
– Federer continua como o tenista com mais finais de Masters (50). Nadal vem logo atrás (49). Djokovic tem 47.
– Não foi nesta semana que Nadal se tornou o primeiro e único homem com 12 títulos no mesmo torneio. Mas ele terá nova chance a partir de segunda-feira, em Barcelona. Ele ficou do lado de Dominic Thiem e vê Fognini e Alexander Zverev na parte inferior da chave.
– O sábado foi triste para o tênis brasileiro: as meninas perderam os dois primeiros jogos na Eslováquia, Bruno Soares ficou de fora da final em Monte Carlo, Bellucci não jogou nada em Túnis e Monteiro caiu logo na estreia do quali de Barcelona. A esperança é Sakamoto, com boa campanha e semi noturna no challenger de San Luis Potosi.