Sascha brilha, diverte e cala críticos
Por José Nilton Dalcim
18 de novembro de 2018 às 22:29

Alexander Zverev divide corações. Considerado o maior expoente da nova geração, acrescenta a sua coleção de grandes títulos o ATP Finals, quinto maior torneio da temporada, ao derrotar em sequência, e sem perder set, dois adversários que somam 11 troféus na competição e estão na lista dos melhores de todos os tempos.

Mas Sascha ainda não vingou num Grand Slam, irrita com seu comportamento por vezes juvenil, reclama demais dentro e fora da quadra, quebra raquetes e, dizem, tem sério problema com a disciplina, talvez o mais importante atributo de um tenista profissional.

Com um tênis de primeira linha e atitude exemplar, Zverev calou seus críticos num final de semana mágico. Ganhou de Roger Federer indo à rede, superou Novak Djokovic no fundo de quadra. Parece surreal. Lembremos ainda que barrou Marin Cilic em dois tiebreaks e foi de uma frieza cirúrgica no jogo que valia a semi diante de John Isner.

Esta é sua terceira real temporada entre os tops. Virou top 100 pouco depois de completar 18 anos, período em que se recusou a ficar nos challengers e se arriscou o tempo todo em qualis de ATP e Masters. Pensou grande, como tem de ser para alguém com seu talento.

A chegada de Ivan Lendl pode ter iniciado a transformação que tanto se cobra dele. O homem que mudou a vida de Andy Murray chegou pedindo maior rigor no trabalho físico. Sascha ganhou rapidamente massa muscular e vimos na final deste domingo o quanto isso fez diferença.

Lendl também é excepcional estrategista e provavelmente vai tentar tornar o forehand do alemão mais potente e eficiente, tudo muito semelhante ao que adicionou a Murray. Claro que Andy de então tinha mais pernas e versatilidade, mas faltava acreditar em si mesmo. Zverev precisa dar esse salto nos Slam.

A semana de Zverev deixa claro que ele está amadurecendo. Superou o amigo e ídolo Federer num jogo em que teve de lidar com o público e mostrar ousadia tática, encarou o embalado número 1 do mundo quatro dias depois de levar uma surra decidido a aguentar inúmeras trocas de bola sem perder a cabeça. Deixou escapar uma vantagem no começo do segundo set, mas jamais se apavorou. E fechou a cerimônia de premiação com um animado e divertido discurso. Ganhou bônus.

Nole, é verdade, foi caindo de produção a partir do final do primeiro set. Perdeu-se com seus erros e falta de potência do forehand, fez três voleios pavorosos e sofreu três quebras seguidas e uma quarta para perder o jogo. Muito para quem não havia cedido o saque até então. Houve uma queda física e a evidência disso foram a pressa para dar dropshot ou a busca do saque-voleio. De qualquer forma, Djokovic não tem do que reclamar de seu segundo semestre de ouro.

E mais
– Zverev é o mais jovem campeão de um Finals desde o próprio Djokovic, que tinha os mesmos 21 anos quando venceu a edição de 2008. A diferença, claro, é que naquela altura Djoko já havia conquistado um Grand Slam.

– Sascha é o terceiro alemão a conquistar o Finals. Boris Becker foi tricampeão em 1988, 1992 e 1995, enquanto Michael Stich triunfou em 1993.

– Com os 1.300 pontos que somou em Londres, Zverev termina a segunda temporada consecutiva na quarta posição. Está apenas 35 atrás de Federer.

– Em sua sétima final, Djokovic ficou com o vice no ATP Finals apenas pela segunda vez na carreira, repetindo o que aconteceu em 2016, quando perdeu a decisão para o britânico Andy Murray.

– Nole fecha a temporada com 9.045 pontos, mais de 1.500 de vantagem sobre Rafa Nadal, e tem apenas 200 pontos a defender até começar a temporada de saibro, em abril. Mas o espanhol também tem pouco: 360.

Mike, de novo
Para comprovar que é mesmo o maior duplista da história, Mike Bryan conquistou o Finals pela quinta vez na carreira em sete finais disputadas. O fato inusitado é que desde junho ele trocou de lado na quadra, passou a atuar do lado direito da dupla e ainda assim se entrosou tão bem com Jack Sock a ponto de vencerem os três mais importantes troféus desde então, ou seja Wimbledon, US Open e o Finals.

Mike tem 40 anos e acumula 121 títulos na carreira. Não tem a menor intenção de parar. Ao contrário, aguarda a recuperação do irmão canhoto Bob, que colocou prótese no quadril e tenta retornar em janeiro. Mike detém os recordes de mais títulos (112) e mais Slam (18), é mais velho número 1 e quem passou mais tempo na liderança (chegará a 474). Único a disputar 17 vezes o Finals – curiosamente, também se classificou com Bob em sexto lugar -, chegou a 42 vitórias. A maior coleção de títulos no entanto cabe a John McEnroe e Peter Fleming, com sete.

Sock, claro, é também um duplista de respeito. Há quatro anos, surpreendeu com o título de Wimbledon ao lado de Vasek Pospisil. Nesta temporada, com atuações sofríveis em simples, dedicou-se mais às duplas e venceu seu segundo Masters em Indian Wells  (ao lado do mesmo John Isner com quem ganhou Xangai no ano passado). Também foi campeão com o desconhecido Jackson Withron e com Nick Kyrgios. Vai terminar como número 2 do mundo.

Djokovic busca a chave de ouro
Por José Nilton Dalcim
17 de novembro de 2018 às 20:35

Novak Djokovic está a dois sets de um fecho espetacular no seu segundo semestre de ouro. Novamente dono do circuito masculino, o sérvio de 31 anos busca igualar o recorde de seis títulos de Roger Federer na competição mais importante da ATP. Quem sabe, apenas o primeiro de muitos feitos do suíço que irá perseguir daqui para a frente.

Nole chega à sétima decisão do Finals sem perder um único game de serviço e nem sets. As duas últimas apresentações foram notáveis, mesclando solidez na base com um serviço apuradíssimo. Kevin Anderson é bem verdade não sacou bem e, obrigado a disputar pontos, foi esmagado: 18 winners a 12, 14 erros frente a 27, só 26% de pontos vencidos com o segundo saque, 40 a 15 nas trocas de bola.

Agora, são 35 vitórias em 37 jogos feitos desde a estreia em Wimbledon, o que lembra cada vez ais aquele Djokovic praticamente imbatível de 2011 ou 2015. O fato curioso é que essas duas únicas derrotas desde julho foram para membros da nova geração, Stefanos Tsitsipas e Karen Khachanov. E o adversário às 16 horas deste domingo é o maior representante da Next Gen, Alexander Zverev, para quem perdeu uma vez no saibro de Roma.

Zverev só tirou cinco games de Djokovic dias atrás na fase inicial do Finals – placar tão fácil quanto o de Xangai no mês passado -, mas tal qual o sérvio evoluiu a cada partida que fez na O2. A vitória deste sábado sobre Federer foi inquestionável, já que mostrou melhor atitude nos dois sets. Com certeza, surpreendeu o suíço com a tática bem mais agressiva. Mesmo falhando em alguns voleios, colocou pressão no backhand do adversário e manteve um padrão notável de saque: 66% de acerto, 88% vencidos com média de 215 km/h.

O suíço talvez tenha exagerado no slice defensivo, demorou a criar coragem para bater mais o backhand, mas sua falha crucial foi outra vez o rendimento instável do primeiro saque, o que custou a quebra no final do primeiro set. Não poderia jamais ter desperdiçado a vantagem que construiu no começo da outra série.

É preciso elogiar mais uma vez a frieza de Zverev, que vem se comportando muito bem neste Finals depois da derrota de estreia. O alemão nunca se apavorou, reduziu muito a choradeira, esqueceu a admiração pelo amigo e teve notável postura na entrevista em quadra, ao pedir desculpas ao público pelo lance confuso no tiebreak quando recebia desmerecidas vaias.

Compreensível que a torcida não tenha entendido por que Sascha parou o ponto e o próprio Federer ficou a princípio surpreso, porque afinal a bola que escapou da mão do boleiro estava às costas do suíço. Carlos Bernardes agitou corretamente e mandou voltar o ponto – em que Federer dominava, daí a bronca do público – e talvez a falha do árbitro brasileiro tenha sido não explicar claramente o motivo do ‘let’.

Impossível dizer se esse lance de má sorte teria mudado o destino do tiebreak para Federer, mas provavelmente ele irá sonhar muito mais com o incrível voleio que errou, grudado à rede e com Zverev batido, que abriu 4-6. O fato é que Federer não fez um torneio brilhante, ainda que tenha reagido à estreia fraca. Perdeu o quarto tiebreak consecutivo, outro espelho de seu saque irregular e da falta de confiança na hora do aperto.

Depois das duas surras recentes sobre Zverev, é óbvio que Djokovic entrará em quadra como favorito absoluto. Tenta reconquistar o troféu que ergueu pela última vez em 2015. O alemão tem sacado muito bem, mostra-se mais agressivo e é experiente para seus parcos 21 anos. Tomara Ivan Lendl consiga colocar na cabeça do pupilo o espírito de ‘nada a perder’, e assim tenhamos uma final animada.

Djokovic e Federer ensaiam a esperada final
Por José Nilton Dalcim
16 de novembro de 2018 às 21:04

O melhor tênis de Novak Djokovic reapareceu na hora exata. Numa apresentação bem perto do impecável, o número 1 do mundo manteve a invencibilidade no Finals e reafirmou o favoritismo para o título ao superar um Marin Cilic bem disposto e com nada a perder na última partida da fase classificatória do torneio.

Nole só não devolveu mesmo quando foi impossível antecipar o bombástico saque de Cilic, que escapou de um break-point no set inicial e permitiu uma única vantagem ao adversário no finalzinho do tiebreak. Sólido na base, ofensivo com suas bolas profundas e com a excepcional qualidade para criar ângulos, Djokovic também sacou muito bem e fez um segundo set primoroso.

Virá então o reencontro com Kevin Anderson na semifinal e, em que pese o sul-africano viver um grande momento na carreira, deverá influenciar muito o amargo placar de 7 a 1 em favor de Djokovic, que só perdeu em março de 2008. Dez anos depois, eles se cruzaram na final de Wimbledon e nas quartas de Xangai, e Anderson nem tirou sets.

Claro que Djokovic não irá substimá-lo. É muito provável que utilize a mesma postura tática que adotou contra Cilic, ou seja, fazer a bola voltar, investir no backhand menos confiável e só ir para o forehand quando o grandão estiver em movimento. A Anderson só cabe atacar o tempo todo, principalmente com o saque. Terá de correr riscos se quiser equilibrar, e isso inclui necessariamente transição mais constante para a rede.

Minha aposta: Djokovic em 2 sets, com um tiebreak.

Amigos, amigos, negócios à parte
Apesar dos 16 anos que os separam, Federer e Zverev já se cruzaram oficialmente cinco vezes e o suíço tem apertados 3 a 2  – houve outra na Copa Hopman, um jogaço aliás, que o alemão venceu. No problemático ano de 2016, Federer ganhou em Roma e perdeu em Halle. Em sua grande fase de 2017, suíço levou em Halle e no Finals, mas caiu em Toronto.

Zverev tem um excepcional backhand e saca muito bem, abrindo alguns buracos quando precisa defender com o forehand e se compromete principalmente nas bolas baixas e mais curtas. Provavelmente, serão as duas coisas em que Federer irá investir, ainda mais na quadra mais lenta.

Sascha nunca escondeu sua grande admiração por Roger, dentro e fora das quadras, mas sobrou algum incômodo hoje, quando ele rebateu declaração do suíço, que o criticou indiretamente pela queixa excessiva e redundante do calendário.

Pouco antes, Zverev fez seu melhor jogo da semana diante de John Isner, com destaque não apenas para sua boa devolução e oportunos contragolpes, mas principalmente por ter lidado muito bem com a pressão da vitória, única forma de garantir a inédita semifinal. Muito bom ter um representação da nova geração na fase decisiva do Finals.

Minha aposta: Federer em 3 sets, com até dois tiebreaks.

Bruno tenta final inédita
Únicos invictos nas duplas, o mineiro Bruno Soares e o britânico Jamie Murray terão que passar pela parceria norte-americana de Mike Bryan e Jack Sock, atuais campeões de Wimbledon e do US Open, se quiserem enfim disputar a primeira decisão na arena O2. É a quarta tentativa do mineiro.

Soares e Murray fizeram uma fase classificatória de alta qualidade e confiança. O trabalho de rede muito firme e algumas devoluções excelentes do brasileiro. Tomara mesmo que Sock jogue no nível desta sexta-feira, em que foi muito irregular e por vezes displicente.

A outra semi reúne os franceses Pierre-Hugues Herbert e Nicolas Mahut, outros campeões de Slam na temporada, contra os colombianos Robert Farah e Juan Sebastian Cabal, dupla muito bem introsada mas que continua à procura de seu primeiro grande título no circuito (até aqui, só venceram um Masters, em Roma deste ano).

Minha torcida: vitórias de Soares/Murray e de Cabal/Farah.