PLACAR

Como Sinner foi moldado para seguir os campeões

Foto: Corinne Dubreuil/FFT

por Mário Sérgio Cruz

O primeiro título de Grand Slam de Jannik Sinner no Australian Open é o ponto de alto de um trabalho coletivo e longo prazo. O italiano de 22 anos foi moldado para acompanhar a rotina dos campeões desde muito jovem, o que acelerou seu amadurecimento dentro dentro e fora de quadra, além de contar com toda a estrutura de treinamento e competição em seu país ainda nos primeiros anos de circuito.

Essa construção começa ainda na relação de Sinner com os pais, Johann e Siglinde, citados durante a cerimônia de premiação deste domingo. Embora tenha começado a jogar tênis aos sete anos, por influência do pai, ele também competia no ski e jogava futebol durante a infância. E a escolha definitiva pelas raquete se deu apenas aos 13 anos, quando se mudou para treinar em uma das principais academias de seu país.

“Desejo que todos possam ter pais como os meus porque eles sempre me deixaram escolher o que eu queria fazer. Quando eu era mais jovem, pratiquei outros esportes e eles nunca me pressionaram. Desejo que esta liberdade seja possível para o maior número possível de crianças”, afirmou após a vitória sobre Daniil Medvedev por 3/6, 3/6, 6/4, 6/4 e 6/3 na final em Melbourne.

Convites para torneios profissionais desde o início da carreira
Sinner não foi um juvenil de destaque e sequer disputou Grand Slam ou esteve no top 100 no ranking da categoria, mas já recebia convites para torneios profissionais da ITF na Itália desde 2016 e já começou a jogar challengers ainda em 2018, quando tinha apenas 17 anos. Naquele ano, foi convidado para jogar em Gênova, Como, Biella, Ortisei e Andria. No ano seguinte, 2019, ganhou cinco torneios profissionais, três challengers e dois ITFs. Quatro desses títulos foram em casa.

A Itália é um dos países que mais recebem torneios ao longo da temporada, principalmente nos níveis challenger e ITF, que auxiliam a transição dos jovens. O país também tem força nos bastidores do circuito masculino. Desde 2020, a ATP está sob o comando o presidente Andrea Gaudenzi e do CEO Massimo Calvelli. Outro exemplo é troca de sede do Finals. Disputado em Londres desde 2009, o evento entre os oito melhores da temporada foi levado para Turim em 2021. Além disso, a cidade Milão recebeu as primeiras edições do Next Gen ATP Finals, evento que teve o próprio Sinner na galeria de campeões.

Experiência com grandes nomes do circuito
Enquanto evoluía nas primeiras temporadas do circuito, Sinner se acostumou a seguir os grandes nomes. Durante toda a adolescência foi treinado pelo experiente técnico Riccardo Piatti, que já trabalhou com estrelas como Maria Sharapova e Novak Djokovic, o italiano teve a oportunidade de acompanhar de perto alguns campeões. Ainda muito jovem, já havia treinado com Roger Federer e com a própria Sharapova. Já no início de 2021 durante o período da quarentena na Austrália, passou duas semanas com a equipe de Rafael Nadal em Adelaide antes do Australian Open.

“Treinar com jogadores e atletas desse nível obviamente faz você crescer. Eu tive muita sorte por ter a oportunidade de treinar com Rafa por duas semanas e de ficar alguns torneios treinando com o Novak também”, disse Sinner a TenisBrasil durante o torneio de Roland Garros de 2021. “Também tive o prazer de conhecer um pouco mais a Maria. Treinamos juntos às vezes e pude conhecer a personalidade dela também, o que é ótimo, especialmente para alguém de 18 anos na época. Isso faz você crescer um pouco mais rápido, eu diria. Fico muito feliz e honrado por ter chance de conhecê-los e às vezes de jogar com eles também, o que torna as coisas obviamente mais divertidas e agradáveis”.

Na mesma época, Piatti falou em entrevista ao site da ATP sobre a importância dessas experiências. “Não sou eu que iria explicar para ele as lições do circuito, mas sim pessoas como Nadal ou Maria. Ele precisava ver a mentalidade desses jogadores. Eles são simples e muito focados no que estão fazendo e Jannik gosta disso. Acho que aqueles 14 dias na Austrália foram perfeitos para Jannik, que conseguiu entender bem como funciona a cabeça do Rafa”.

Mudança no time trouxe evolução no jogo e experiência

Foto: ATP

Dois anos atrás, Sinner promoveu mudanças na equipe. O primeiro a chegar foi o também italiano Simone Vagnozzi ainda no início de 2022. Seu objetivo era tirá-lo da monotonia e evitar que ele jogasse sempre da mesma forma, lapidando pontos em seu jogo e desenvolvendo mais recursos e consciência tática. Meses depois, chegou o australiano Darren Cahill, que carregava a experiência de treinado três campeões de Grand Slam Andre Agassi e Lleyton Hewitt entre os homens e Simona Halep no circuito feminino.

“Não posso agradecê-los o suficiente por me convidarem para esta equipe e por me fazerem sentir bem-vindo. Seria fácil para esses caras falarem italiano entre si. Mas agora faço parte de uma família com eles e outras pessoas ao nosso redor que você não vê”, disse Cahill durante coletiva de imprensa da última sexta-feira.

A melhora na preparação física é outro fator importante para a conquista do tenista de 22 anos, que no início da carreira acabava perdendo oportunidades justamente por isso. “Nos últimos anos anos, passei a conhecer melhor meu corpo e minha equipe. Esse foi um passo muito importante para mim”, falou após a conquista em Melbourne. Cahill acrescenta: “Agora ele consegue se movimentar com mais eficiência, manter o alto nível por mais tempo e em partidas de cinco sets”.

O treinador australiano garante que a conquista em Melbourne é apenas o começo. “Ele está absorvendo tudo, experimentando coisas novas na quadra e só quer melhorar. Tenho certeza que não vai se acomodar. Ele nunca vai se contentar. Ele só quer evoluir”.

Leia mais:

Sinner sobrevive à batalha de 5 sets e conquista o primeiro Slam

Sinner: “Sabia que um jogo mais longo seria melhor para mim”

Treinadores explicam a evolução e sucesso de Sinner

9 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários
Eduardo
Eduardo
30 dias atrás

Achei super interessante o fato dele não ter sido um juvenil de destaque… Nem top 100 e nem ter jogado grand slam..

Leonel
Leonel
29 dias atrás

Trabalho bem feito. Físico bem arrumado(aprendeu logo que em Slam não pode se dar o luxo de jogar um ou mais jogos em 5 sets ) e chegar arrebentado numa final. Medvedev “não aprendeu essa lição”. Muitos tem boa técnica mas se acabam no torneio em jogos longos.

rubens
rubens
29 dias atrás

ganhou na sorte! esperou o cansaço de Medvedev, tava tomando um vareio nos primeiros sets…depois o russo cansou…a partida anterior foi muito dura pro medvedev contra o Zverev.

felipe
felipe
29 dias atrás
Responder para  rubens

realmente, muito mais fácil pegar o Djoko na semi do que o Zverev… kkkkkk

Luiz Fernando
Luiz Fernando
27 dias atrás

https://tenisbrasil.uol.com.br/troicki-djokovic-nao-vai-ganhar-todos-os-grand-slam.html. Hummmm, acho q depois de domingo tem chance disso acontecer esse ano…

André Aguiar
André Aguiar
27 dias atrás

É brutal a diferença de oportunidades dadas a um promissor tenista europeu e a um sul-americano. A quantidade de torneios ITF e ATP Challengers é dezenas de vezes maior no velho continente.
O Sinner, por exemplo, praticamente não jogou no circuito juvenil, tamanha a quantidade de convites para disputar torneios do circuito profissional desde os 16 anos de idade.
Estava verificando a atividade do Dino Prizmic, tenista croata de 18 anos que chamou a atenção na partida que jogou contra o Djokovic na 1ª rodada do AO e que foi n° 8 juvenil.
Até o final do ano passado, ele já havia disputado 13 Futures, 16 Challengers, 3 ATP 250 e 1 ATP 500, tendo recebido convite para muitos deles.
Para efeito de comparação, o nosso João Fonseca, 1 ano mais novo, disputou até o final do ano passado, 5 Futures, 4 Challengers e 1 ATP 500.
Por isso é que temos que louvar e muito os(as) tenistas da América do Sul que se destacam no circuito profissional. É infinitamente mais árdua a batalha deles e delas para chegar até lá.

Marcos Antonio Vargas Pereira
Marcos Antonio Vargas Pereira
24 dias atrás
Responder para  André Aguiar

Concordo contigo, Mas as federacoes Sul Americana tem feito um trabalho Para compensar a distancia. O circuito dove ampliou bastante o numero de challengers no continente e inclusive no brasil. Teve um ano que so tivemos Campinas, a previsao Para este ano e de 7 challengers. Esta Semana esta tendo Piracicaba. Tambem aumentaram a quantidade de itfs. E um trabalho arduo, Mas que certamente trara frutos.

Refaelov
Refaelov
23 dias atrás
Responder para  André Aguiar

Se for comparar um mero mortal italiano e um sudaca vc provavelmente terá razão. Mas a comparação do Prizmic com o Fonseca fica simplesmente inverídica, o Fonseca declinou de uma cacetada de convites q recebeu ano passado, poderia tranquilamente ter tido um ene de torneios próximos aos do croata se assim quisesse..

Durval de Deus
23 dias atrás

A trajetória de Jannik Sinner, desde convites precoces para torneios profissionais até treinos com grandes nomes como Nadal e Federer, destaca-se. Mudanças na equipe e foco na preparação física evidenciam sua busca constante por evolução. A vitória em Melbourne é só o começo de uma promissora carreira. Torcemos por mais conquistas desse talentoso tenista

Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.
Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.

PUBLICIDADE

VÍDEOS

Quando os tenistas se machucam, mas ainda vencem

ATP seleciona as 10 melhores jogadas do ATP FInals