Técnico brasileiro destaca trabalho de longo prazo com Eala

Alexandra Eala e o técnico brasileiro Daniel Gomez (Foto: Reprodução/Instagram)

O grande resultado de Alexandra Eala no WTA 1000 de Miami, onde aproveitou o convite e passou por três campeãs de Grand Slam para chegar até à semifinal, teve uma importante participação brasileira. O técnico Daniel Gomez, de 43 anos, participou de todo o processo desenvolvimento da tenista filipina de 19 anos na Rafa Nadal Academy e trabalhou durante cinco temporadas com a jogadora. Depois de derrotar nomes como Jelena Ostapenko, Madison Keys e Iga Swiatek em Miami, Eala entrou no top 100 e aparece agora na 75ª posição do ranking.

Em entrevista a TenisBrasil, Gomez falou sobre o longo trabalho feito com a jogadora desde o circuito juvenil e também sobre os programas oferecidos pela academia, não só dentro de quadra, mas também no aspecto educacional. O nome de Eala já é conhecido há alguns anos por aqueles que acompanham a nova geração do tênis, por conta de resultados de destaque em competições juvenis. E por tudo isso, teve que aprender a lidar muito cedo com a pressão e expectativas, que a ajudaram durante a grande semana em Miami.

Campeã juvenil do US Open em 2022 e ex-número 2 do ranking mundial da categoria, Eala conquistou seu primeiro título no circuito profissional ainda aos 15 anos, em 2021, em torneio disputado na academia de Nadal. Já aos 16, venceu pela primeira vez uma partida da WTA. Após um período de transição do circuito juvenil para o profissional, em que disputou alguns qualis de Grand Slam, a filipina teve a grande smeana da carreira em Miami e agora se prepara para objetivos maiores.

Início da carreira de treinador e chegada à Academia de Nadal

O tênis surgiu na vida de Gomez por inspiração familiar. O avô, Vicente, era fabricante de raquetes e bolas de tênis. Já o pai, Edison, era treinador: “Eu iniciei ao tênis de maneira muito natural. Sempre convivi muito com o tênis e não tenho uma idade exata onde eu tenha começado”, disse o Daniel, que tentou a carreira como tenista profissional, mas logo fez uma transição para também se tornar técnico. “Me tornei treinador aos 20 ou 21 anos, quando decidi parar de jogar. Tentei quali de Futures, Satélites e alguns Challenger, mas nenhum resultado de expressão. Tive muitos anos trabalhando no Graciosa Country Club de Curitiba, onde treinei vários jogadores e jogadoras com ótimos resultados a nível nacional e COSAT”.

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“Logo vim morar em Mallorca para trabalhar em uma academia com ótimos jogadores pequenos e me surgiu um trabalho simultâneo na Federação Balear, onde conheci, entre outros treinadores importantes, o Tomeu Salva, ex-jogador profissional e melhor amigo do Rafa Nadal. Hoje, ele é o Head Coach da Rafa Nadal Academy. Voltei ao Brasil, ao Graciosa e também treinei o José Pereira. Quando o Nadal abriu a Academia, foi o Tomeu quem me indicou e me procurou e fui trabalhar como Asistent Head coach do grupo feminino”, relatou o treinador.

Período de testes com o brasileiro agradou a jovem tenista

O técnico contou sobre a chegada de Eala à academia e que o período de testes teve retorno positivo por parte da jovem jogadora. “Quando ela venceu o Les Petits As [tradicional torneio da categoria 14 anos na França], era treinada por seu avô, que não jogou tênis e já tinha uma idade avançada. Ele não tinha mais condições de treiná-la. E então saíram a experimentar algumas academias importantes. Quando veio testar no Nadal, o head coach na época, Nuno Marques, me pediu para estar junto com ela o tempo todo. Ela gostou, resolveu ficar e o Nuno me disse: ‘Já que ela provou contigo e gostou, você ficará de responsável por ela’. E assim foi até o ano passado quando eu me lesionei e tive que deixar o time. Trabalhei com ela desde seus 13, quase 14 anos até os 19. Foram pouco mais de cinco anos juntos. Hoje ela está com Joan Bosc (ex-treinador do Carlos Moya) e Sandro Viana, dois técnicos espanhóis”.

A filipina também vem de uma família de atletas, com a mãe nadadora, um tio jogador de basquete e um irmão que também competiu no tênis em nível juvenil. Toda essa estrutura no entorno da tenista ajudou muito no amadurecimento. “A mãe dela competiu na natação nos Jogos Asiáticos, que é como nosso Panamericano. O irmão mais velho jogou tenis muito bem, disputou Grand Slam no juvenil e se formou em uma universidade nos Estados Unidos. E o pai é um grande empresario e fanático por tênis, mas sempre nos deixou trabalhar”, relatou Gomez. “É muito interessante que mesmo ela tendo ótimos resultados nas categorias de base, chegou sem pontos no ranking e com algumas falhas téncnicas e fisicamente muito além do nível que ela jogava”.

“Ali, trabalhamos com muita ênfase na técnica e no físico com muito cuidado para não perder sua identidade e não ter lesões. Ganhou torneios importantes, como Grand Slam juvenil individual e nas duplas, ganhou torneios profissionais de diferentes categorias e sempre teve uma evolução gradativa”, acrescenta o treinador brasileiro, destacando também que o ciclo de desenvolvimento da tenista teve poucas lesões. “Ela não teve nenhuma lesão séria, relacionada ao tênis. Teve uma fora do tênis, que ela fraturou o pé, mas competiu no US Open Júnior sem saber. E mesmo com dores e fez quartas de simple e semifinal de duplas”.

Elogios de Iga, ênfase nas devoluções e formatura

Uma das jogadoras superadas por Eala na última semana foi Iga Swiatek, número 2 do mundo e vencedora de cinco títulos de Grand Slam. Após a partida, a polonesa destacou o desempenho de sua algoz e a elogiou por seu jogo agressivo e pela qualidade das devoluções. “Acho que ela devolveu muito bem. Eu não estava pronta para a próxima bola. As devoluções dela são bem profundas, então não foi fácil de responder”, disse Swiatek na coletiva de imprensa, após a derrota por 6/2 e 7/5 em Miami.

“Ela estava jogando bem solta e simplesmente foi para cima. Acredito que ela encontrou um bom ritmo e isso a ajudou. Além disso, ela manteve o foco. Mas ainda assim, eu pude ver claramente que ela tem intenções de ir para frente e pressionar. Então funcionou para ela hoje”, acrescenta a polonesa de 23 anos. As duas características também foram destacadas pelo treinador: “Ela tem uma disciplina incrível, dentro e fora da quadra. Tem muito bom controle emocional. E a devolução impõe muita pressão, tem um timing incrível”.

Assim como Eala, Swiatek teve parte de seu processo de formação na academia de Nadal nos tempos de juvenil. Desde que o confronto com a polonesa foi confirmado, muitos fãs de tênis relembraram uma foto em que a filipina aparece entre Swiatek e Nadal durante sua cerimônia de formatura em 2023, já que a academia do espanhol também oferece programa educacional para os jovens tenistas.

Filipina estudou na academia de Nadal e teve Iga na formatura (Foto: Rafa Nadal Academy)

“Na Rafa Nadal Academy, recebemos jogadores de todos os níveis e idades e temos programas para todos”, relatou o treinador. “Mas o programa que a Alex fez parte, consiste em morar na residência da academia e estudar na escola que fica lá dentro, com aulas em inglês. Temos treinamento em quadra por 2h45 de segunda a sexta mais 1h30 aos sábados. Além da preparação física, acompanhamento nutricional e fisiotereutico, assim como um equipe de médicos e psicólogos”.

Na coletiva de imprensa após a maior vitória da carreira, a filipina se lembrou da formatura e sabia que teria um jogo duro com a polonesa. “Sinto que sou exatamente a mesma pessoa que eu era naquela foto. Mas é claro que as circunstâncias mudaram! Estou tão feliz e tão abençoada por poder competir com uma jogadora desse nível”, relembrou.

“A Iga foi palestrante convidada. Acho que todo ano a academia tenta convidar uma figura pública para inspirar os jovens. Tive muita sorte de tê-la durante minha formatura. Ela tinha acabado de ganhar Roland Garros, se bem me lembro. E lembro que ela me disse: ‘Oh, eu te conheço! Eu já te vi!’ e eu só dizia que sim (sorrindo). Então ela participou da cerimônia inteira com a turma toda. Tive muita sorte, porque eu estava ao lado dela. É surreal pensar que as circunstâncias mudaram e agora estamos nos enfrenantando em quadra. Sou abençoada por ter essa oportunidade”.

Os próximos passos

 

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Uma publicação compartilhada por WTA (@wta)

A grande campanha em Miami vai possibilitar que a filipina dispute torneios maiores com cada vez mais frequência, entrando diretamente nas chaves principais de Grand Slam, mas também tenha seu jogo mais observado pelas adversárias. Por isso, o entorno da tenista trabalha com cautela sobre os próximos passos. “Ainda não conversamos sobre as próximas competições, mas como as inscrições fecham com alguma antecedência, eu imagino que ela vá jogar alguns torneios menores onde já estava inscrita. E logo os torneios grandes que o ranking novo ja lhe irá permitir”.

Apesar de muito jovem, a tenista é bastante consciente das mudanças que virão nas próximas semanas. “Não tenho muita experiência no circuito da WTA, isso é certo. Mas tenho experiência em ser profissional. Não hesito em mostrar essa parte de mim quando estou na quadra e quando estou em um ambiente que exige profissionalismo”, disse na coletiva depois de vencer Swiatek. “Não é algo que aprendi na academia. É uma experiência que obtive com as coisas pelas quais passei até chegar a este momento. Também é algo pelo qual minha família me orientou, e é parte de nossos valores. Eles são pessoas bem-sucedidas em seus próprios campos e pessoas que admiro”.

Já nas redes sociais, ela comemora as portas abertas pela boa campanha e já pensa nos próximos desafios. “Estou orgulhosa de mim mesma por ter superado tantos momentos difíceis e também por ter conseguido levar o nome das Filipinas a um dos maiores palcos do tênis. Muito obrigada por todo o apoio e mensagens positivas, espero que vocês continuem comigo nos altos e baixos. Reconheço que essas duas semanas abriram portas para novas oportunidades para mim, mas junto com isso também virão novos obstáculos que terei que superar. O verdadeiro trabalho começa agora”.

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Edison
Edison
2 dias atrás

Que bacana. Pena pro Daniel q logo na hora de participar dos fruto$ do crescimento da tenista,..saiu da equipe,…acontece.

JClaudio
JClaudio
2 dias atrás

O que sinto falta, quando leio sobre o desenvolvimento de jovens atletas, em academias mundialmente conhecidas, são os valores.
Quanto custa a admissão da jovem filipina na Rafa Nadal Academy?
Pode ser que não tenha custo, a estadia está relacionada ao potencial da jovem, pode acontecer…
A jovem treina, estuda, tem toda uma retaguarda para seu desenvolvimento, a pergunta é pertinente…
No Brasil existe o “apadrinhamento”, muito por causa do futebol, onde jovens são “sustentados” como uma oposta futura.

Samuel, o Samuca
Samuel, o Samuca
12 horas atrás
Responder para  JClaudio

Certamente quem pretende frequentar tais academias terá que poder aquisitivo elevado, ou potencial suficiente para ser adotado pelas mesmas.

Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.
Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.

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