Nova York (EUA) – A segunda-feira foi marcada por despedidas no US Open, com os últimos jogos de suas carreira profissionais de Petra Kvitova e Caroline Garcia. Contemporâneas de circuito por mais de uma década, a tcheca de 35 anos e a francesa de 31 passaram por diversas emoções dentro e fora das quadras e deixam aprendizados importantes para tenistas mais jovens e para todos que acompanham o esporte.
Kvitova foi número 2 do mundo e bicampeã de Wimbledon em 2011 e 2014. Também finalista do Australian Open em 2019, ficou a uma vitória da liderança do ranking. A tcheca, que se tornou mãe no ano passado e retornou ao circuito em março para uma temporada de despedida, sempre foi bastante respeitada no circuito por seu profissionalismo. Exemplo disso, foram os oito prêmios de esportividade que recebeu da WTA, em votação conduzida pelas próprias jogadoras.
“Eu me orgulho de muitas coisas. Principalmente, do lado mental. Todas as temporadas foram bem longas e eu estava bem para lidar com isso, mesmo com algumas lesões, doenças e esse tipo de coisa”, disse Kvitova na coletiva de imprensa desta segunda-feira, após a derrota para a francesa Diane Parry por 6/1 e 6/0. “Tenho muito orgulho de como lidei com a pressão, de todas as vezes fiquei entre as 10 melhores do mundo. Foi muito especial para mim. Mesmo nunca tendo sido a número 1 do mundo, acho que esses dois títulos de Grand Slam estão acima do número 1. Então é assim que vou encarar. Tenho orgulho de muitas coisas”.
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“O que vou sentir falta é do tênis em si. É um esporte lindo. Tudo o que você faz na quadra é culpa sua ou mérito seu. Acho que essa também é a beleza do esporte. Então é isso”, explica a vencedora de 31 títulos no circuito da WTA. Ela teve 634 vitórias como profissional, sendo 514 nos torneios de primeira linha e uma premiação acumulada superior a US$ 37,5 milhões.
Último jogo fora das melhores condições
A tcheca revelou que não estava em suas melhores condições de saúde para o último torneio de sua carreira, mas que gostaria de se despedir em quadra. “Desde que acordei esta manhã, senti que não seria bom. Eu não conseguia comer. Eu estava muito nervosa. Mas de uma forma diferente, eu diria. É, eu não conseguia me mexer, não conseguia jogar, não conseguia fazer nada (sorrindo). Foi muito difícil. Infelizmente, há três semanas eu peguei Covid, então isso me afeta muito. Sim, meu físico não estava ótimo. Meus pulmões ainda não estão funcionando direito, mas espero que fique bem quando eu não estiver treinando agora. Eu queria, jogar aqui e queria jogar terminar a temporada disputando um Grand Slam e não porque a Covid me pegou”.
Desafios fora das quadras
Kvitova lidou com desafios que vão além das quadras de tênis. Com muitas crises de asma quando era mais nova, reconhece que a qualidade do ar afetava diretamente seu rendimento, especialmente no ponto de vista físico. A tenista também foi vítima de um assalto no fim de 2016, em sua casa, na República Tcheca, que resultou em ferimentos graves por faca na mão esquerda. Ela precisou passar por várias cirurgias e só retornou ao circuito em Roland Garros. Semanas depois, na grama de Birmingham, voltou a conquistar um título.
A tcheca também soube conduzir a carreira com leveza, em tempos em que o tema da saúde mental é tão discutido no esporte. Por diversas vezes, dava folga aos integrantes da equipe, mantinha a rotina treinos com as outras jogadoras e preferia viajar na companhia de amigas. Ela venceu um torneio grande em Doha, superando Aryna Sabalenka na final, com essa rotina. Sua conquista mais recente foi o WTA 1000 de Miami, em 2023. Já quando decidiu voltar ao circuito após a gravidez e o nascimento do filho, Petr, a tcheca também manteve expectativas mais modestas. Sabia que dificilmente teria os mesmos resultados que jogadoras como Belinda Bencic e Elina Svitolina, que se tornaram mães um pouco mais jovens e retornaram ao alto nível.
Maternidade e planos para o futuro
Perguntada sobre os planos para o futuro, a tcheca ainda não se decidiu. A prioridade no momento é ficar mais tempo com a família. Mas acha difícil se tornar treinadora. Reconhecida por seu estilo agressivo e de muita potência nos golpes, acredita que não conseguiria aconselhar tenistas mais jovens a jogar com variações. “Ainda não sei o que vou fazer. Em primeiro lugar, quero passar mais tempo com meu filho. Mas continuo amando o esporte e vamos ver o que o futuro reserva. Não me vejo como treinadora, acho que não seria boa nisso. Vocês sabem o jeito que eu jogo… Seria difícil para mim ensinar alguém a dar top spin, slices e saque-quique. Taticamente seria difícil para mim”.
Ela deixou uma possibilidade em aberto para o futuro, juntar-se a Martina Navratilova no torneio de lendas: “Talvez eu fique entediada, mas talvez vocês me vejam jogando algumas partidas do Legends em Wimbledon, talvez. Quem sabe? Eu adoraria jogar com a Martina. Sim, esse é outro objetivo (sorrindo). Sim, espero que ela queira jogar comigo também. Preciso perguntar a ela”.
Garcia e a relação pouco saudável com o tênis

Em outra despedida desta segunda-feira, Caroline Garcia foi superada pela russa Kamilla Rakhimova, 65ª do ranking, com parciais de 6/4, 4/6 e 6/3. A francesa chegou a ser número 4 do mundo e conquistou três WTA 1000 em simples, além do Finals em 2022. Já como duplista, foi bicampeã de Roland Garros ao lado da compatriota Kristina Mladenovic em 2016 e 2022, além de ter feito parte da equipe campeã da Billie Jean King Cup em 2019. Ela optou por uma despedida no US Open, em vez de Roland Garros, por ser o palco do melhor resultado em Grand Slam, a semifinal de 2022.
O tênis me deu muitas emoções, algumas difíceis, mas cresci muito como pessoa. Estou em paz com minha decisão de dar adeus ao tênis, pelo menos em nível competitivo”, disse Garcia na entrevista em quadra. Já na coletiva de imprensa, complementou. “Obviamente não é fácil entrar em quadra quando você não sabe que é sua última partida ou que, se vencer, talvez tenha outra última partida. É um momento meio complicado. Mas muita emoção antes da partida, mesmo que eu tenha me emocionado muito em Roland Garros. Mas, sim, significou muito para mim jogar mais uma vez o US Open”.
Garcia é uma jogadora que lidou com pressão e expectativas desde muito cedo, porque já destacava como juvenil e também nas primeiras experiências como profissional. A francesa sempre falou abertamente sobre sua saúde mental e de uma relação com o tênis que nem sempre foi positiva, mas conseguiu nos últimos anos trabalhar para ter uma despedida dentro de quadra e no seu tempo.
“Estou muito feliz. Foi uma ótima jornada. Fiz algo incrível em quadra e fui até onde pude alcançar. Sabe, obviamente você sempre pode alcançar mais e eu sonhava em alcançar mais”, reconhece a vencedora de 11 torneios de simples e 8 nas duplas. “Mas estou muito feliz e em paz com a minha decisão de seguir em frente com a minha vida e encerrar o capítulo da minha carreira de tenista”.
“Os últimos anos foram difíceis para mim e um pouco sombrios. Consegui, sim, superá-los e aprender muito. Quase desisti no ano passado por odiar tênis e achava que era o pior esporte do mundo (sorrindo). Mas me esforcei muito para entender o que estava acontecendo e pude fazer mais uma temporada para reconstruir meu amor pelo esporte e minha paixão pelo tênis. Chegou um momento em que não queria mais competir e fazer tudo o que é preciso para estar no topo. Não aguentava mais, mas ainda amo tênis”, complementa a tenista, que teve 474 vitórias na carreira e o prêmio acumulado acima de US$ 18,6 milhões.
Sonhos não realizados
Ela também havia falado sobe essa relação com o tênis na despedida de Roland Garros. “Tive um ano muito difícil em 2023. Foi muito complicado encontrar o equilíbrio com o tênis e ter uma relação saudável com ele. Muitas coisas ruins se acumularam e começaram a me afetar até mesmo em aspectos simples do dia a dia. Pensei em parar de jogar no ano passado, mas o objetivo de disputar os Jogos Olímpicos de Paris me fez continuar até setembro. Agora, eu já estou mais em paz”.
“Vencer aqui sempre foi um sonho óbvio, que nunca virou realidade. Eu tive que aceitar isso e seguir em frente. Queria ser jogadora de tênis, sonhava em ganhar um Grand Slam. Roland Garros era o objetivo, mas sempre havia jogadoras mais fortes do que eu. Eu fiz o máximo, mesmo que os resultados nem sempre viessem. Mas estou na longa lista das que não ganharam Roland Garros em simples. Ainda assim, tive uma boa carreira e é isso que vai ficar”.
Garcia, que se casou recentemente, mantém atualmente um podcast sobre tênis e conversa com grandes nomes do circuito. Recuperando seu amor pelo esporte, espera fazer o projeto crescer e também quer ajudar as novas gerações. “Se isso puder ajudar alguns jovens jogadores, tipo, seria a melhor recompensa que eu poderia receber. Agora vejo um futuro para mim no tênis. Há 12 meses, não era o caso”.











Ótima coluna, Mário! Grandes jogadoras e grandes pessoas! E muito talentosas. Farão falta!