Com a ajuda dos céus

Novak Djokovic não ganha um set neste Australian Open desde a terceira rodada de sábado, mas ainda assim atingiu sua 13ª semifinal em Melbourne nesta quarta-feira, mais uma façanha de seus 38 anos. O sérvio parece contar com ajuda divina: não precisou se desgastar nas oitavas, quando sequer entrou em quadra para enfrentar Jakub Mensik, e vivia um dia de baixas qualidade e eficiência quando Lorenzo Musetti, dois sets à frente, não suportou uma contusão na coxa direita, abandonou melancolicamente a quadra e viu esvair a chance de atingir um dos maiores resultados de sua carreira.

E olha que não para por aí. Porque seu próximo adversário, o atual bicampeão Jannik Sinner, deu preocupantes sinais de algum problema físico ao longo de sua esperada vitória em cima de Ben Shelton. O italiano seguiu sem perder set para o canhoto norte-americano, mas por vezes mostrou alguma dificuldade para caminhar e apresentou um segundo saque muito abaixo do seu habitual. Vale destacar que Sinner ganhou os últimos cinco confrontos contra Nole desde o Finals de 2023 – inclui-se aí três diferentes semis de Grand Slam – e tem uma série de nove sets consecutivos.

Pouco depois de Djokovic pedir atendimento para uma bolha no pé, o que pode explicar sua atuação tão irregular, Musetti completou o segundo set e já pediu presença do fisio. Contou mais tarde que sentiu o adutor já no começo dessa série, mas foi levando. Após o atendimento, a dor piorou e ele, certo de que se trata de uma ruptura, viu que não adiantava mais o esforço. O italiano entrou para a história dos Slam como o primeiro a se retirar de umas quartas liderando por 2 a 0, mas convenhamos que o seu corpo nunca foi algo plenamente confiável, ainda que tenha melhorado desde aquele outro abandono contra Djokovic, em Roland Garros de 2021, quando também fez 2 a 0 e desistiu no quinto set.

O decacampeão agradeceu a chance que ganhou de seguir no torneio, reconhecendo que não merecia ter avançado. “Ele foi de longe o melhor em quadra e eu estava a caminho de casa. É muita pouca sorte sair assim, estando no total controle do jogo”, admitiu ele, que teve um lance de notável esportividade ao acusar o toque na bola em ponto muito importante. Ele é agora o tenista de maior idade a somar cinco semis seguidas de Slam e o quarto mais velho na penúltima rodada de um Slam, atrás de Ken Rosewall, Pancho Gonzalez e Jimmy Connors. Perdeu no entanto a paciência com uma pergunta mal colocada sobre estar correndo atrás de Sinner e Carlos Alcaraz: “Acho desrespeitoso que você ignore meu domínio nos Slam por 15 temporadas”.

Já na rodada noturna, Sinner teve pequenas oscilações para atingir a 19ª vitória seguida no torneio. Salvou break-point logo no game de abertura, o que poderia ter deixado Shelton mais confiante, e novamente na metade do segundo set, mas de forma geral correu poucos riscos, principalmente quando entrava nos ralis e tentava tirar sempre o tempo do instável backhand do adversário, a ponto de sair de quadra com apenas 16 erros não forçados, sendo duas duplas faltas. O saque deixou algumas dúvidas: 59% de acerto com média de 187 km/h e segundo serviço de 150 km/h. Opção tática ou desconforto?

Com os resultados desta quarta-feira, as semifinais do Australian Open serão disputadas pelos quatro atuais líderes do ranking, algo que não acontecia desde Roland Garros de 2019, então com o Big 3 e Dominic Thiem, e desde 2012 em Melbourne, com todo o Big 4.

Semifinalistas perfeitas

Elena Rybakina e Jessica Pegula completaram o quadro das semifinais femininas e as quatro postulantes ao título irão à quadra na rodada noturna local desta quinta-feira sem ter perdido um único set nesta edição. Embora exista empate por 3 entre a cazaque e a norte-americana, Rybakina venceu os dois jogos do ano passado. Já Aryna Sabalenka leva ampla vantagem de 5 a 1 sobre Elina Svitolina. O primeiro dos dois títulos de Sabalenka, em 2023, foi contra Rybakina e de virada.

A vitória de Rybakina sobre Iga Swiatek, a segunda na Austrália, mostrou uma cazaque extremamente afiada e confiante. Depois de um começo vacilante no saque, incluindo duas duplas faltas, Elena calibrou o golpe e daí em diante foi encurralando a polonesa, com direito a um domínio absoluto no segundo set. Faz assim sua primeira semi de Slam desde Wimbledon de 2024 e segue num momento notavelmente positivo, tendo vencido 18 jogos desde outubro, oito deles em cima de top 10.

“Sou também muito calma fora da quadra”, brincou Rybakina na entrevista em quadra, questionada por sua postura um tanto gélida. “Também consigo ser engraçada com pessoas mais próximas. Na verdade, tento não mostrar frustrações quando as coisas não estão indo bem”. Elena é a única tenista a ter vencido Sabalenka e Swiatek no mesmo torneio por duas vezes (Indian Wells de 2023 e Finals do ano passado).

Já a vitória de Pegula sobre Amanda Anisimova foi um repeteco, ainda que em dose menor, do que aconteceu com Coco Gauff diante de Svitolina na véspera, o que não tira os méritos de Jessica de se manter mentalmente firme em momentos delicados, como na hora de Anisimova sacar para levar o segundo set. O dado mais impressionante é que 44 dos 77 pontos marcados na partida por Pegula vieram de erros não forçados da compatriota, incluindo sete duplas faltas e alguns golpes muito ruins.

Pegula faz assim sua segunda semi seguida de Slam e tem a chance de atingir a segunda decisão, como fez no US Open de 2024. O duelo também coloca as duas na luta pelo número 3 do ranking, que será garantido para a cazaque em caso de vitória, mas ainda dependerá de título no caso de Pegula.

A um passo de fazer história

Luísa Stefani e a canadense Gabriela Dabrowski voltaram a fazer uma exibição sólida e agressiva, tiraram as finalistas do ano passado Su-Wei Hsien e Jelena Ostapenko e estão a uma vitória da final do Australian Open. Caso dê esse novo passo na carreira, Stefani se tornará apenas a terceira brasileira a decidir duplas femininas num Slam, depois de Maria Esther Bueno e Bia Haddad Maia. Em mistas, ela já divide tal glória com Estherzinha e Cláudia Monteiro.

Em sua terceira semi de Slam nessa especialidade – as duas anteriores foram também no piso duro, mas no US Open de 2021 e de 2023 -, as adversárias serão as cabeças 7 Anna Danilina e Aleksandra Krunic nesta madrugada e na Laver. Curiosamente, Danilina foi a parceria de Bia na decisão que fez em 2022. O eventual título recolocará a paulistana de 28 anos no top 10 do ranking de duplas.

Pouco depois, Stefani e Marcelo Arévalo perderam no detalhe para os franceses Kristina Mladenovic e Manuel Guinard, incluindo lance polêmico no importante sexto ponto do match-tiebreak, e assim pararam na semifinal.

Os gaúchos Rafael Matos e Orlando Luz, por sua vez, foram eliminados em sets diretos pelos experientes Marcel Granollers e Horacio Zeballos, atuais campeões de Roland Garros e do US Open. A parceria brasileira segue agora para o saibro sul-americano muito bem cotada.

E mais

– Sinner se torna o sexto profissional a fazer seis semis consecutivas de Slam, junto ao Big 3 e Ivan Lendl. Excelente companhia.
– Swiatek adiou o sonho do Career Slam e atravessa uma fase de evidente queda técnica. Perdeu os dois últimos confrontos contra Rybakina, Sabalenka, Pegula, Anisimova e Andreeva, os quatro mais recentes para Gauff e também um para Paolini e outro para Bencic.
– Na segunda-feira, as seis líderes do ranking feminino somarão pelo menos 6 mil pontos!
– “Vou ficar chateada por 48 horas… Treinar tão duro para jogar assim… Essas coisas que fazem a vida do tenista tão dura”. A decepção de Anisimova é grande.
– Zverev lançou campanha de doação para sua fundação de ajuda a crianças com diabetes. E com um prêmio e tanto: passagem com acompanhante para ver Roland Garros, ingressos para dois dias, quatro noites de hotel e raquete autografada. Vale muito: viprize.org/zverev
– Guto Miguel e o parceiro esloveno Ziga Sesko levaram apenas 40 minutos para avançar às quartas de final da chave juvenil do Australian Open. Enfrentam o britânico Mark Ceban e o russo Kirill Filaretov no final do dia. E antes Guto disputa oitavas de simples.

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Gilvan
Gilvan
1 hora atrás

“Perdeu no entanto a paciência com uma pergunta mal colocada sobre estar correndo atrás de Sinner e Carlos Alcaraz: ‘Acho desrespeitoso que você ignore meu domínio nos Slam por 15 temporadas’.”

Aqui caiu a máscara e surgiu o Djokovic verdadeiro: um homem mal educado, estourado (especialmente com mulheres), frustrado, que acha que o mundo deve amor e admiração a ele porque ele teve um “domínio nos Slam por 15 temporadas” (informação que eu não sei de onde ele tirou).

Paulo F.
Paulo F.
1 hora atrás
Responder para  Gilvan

Quem parece ser frustrado é o senhor, que está interpretando ao seu modo a ridícula pergunta do enviesado jornalista.

Paulo Sérgio
Paulo Sérgio
1 hora atrás
Responder para  Gilvan

Foi de 2011 a 2023. Ele errou.

Joselito
Joselito
47 minutos atrás
Responder para  Gilvan

4 < 6 < 24. Quem está correndo atrás de quem, garato?

Luiz Fabriciano
Luiz Fabriciano
44 minutos atrás
Responder para  Gilvan

Não disse, prezado Julio Marinho?

Marquinhos
Marquinhos
42 minutos atrás
Responder para  Gilvan

Peraí que a conta não bate! 15 x 4 slam no ano = 60… Mas o sérvio tem 24 títulos… 15 anos de domínio!? Esse cara só fala M… abobrinha

Joelson
Joelson
27 minutos atrás
Responder para  Gilvan

Gilvan,

Assisti a entrevista e tive a mesma impressão que vocé teve.

Obviamente os fanáticos – como o colega que lhe respondeu – jamais conseguiria perceber.

SANDRA
SANDRA
1 hora atrás

Será que os Deuses vão ajudar colocando o jogo no calor escaldante ? Djokovic se vira melhor que ovSinner no calor ?

Guilherme
Guilherme
1 hora atrás

Um com a ajuda dos céus e o outro com a ajuda do teto kkkk

Thiago
Thiago
1 hora atrás

A meu ver sinner 3 a 0 na semi, 6×4 6×2 6×3. Não vai dar jogo não.

Paulo F.
Paulo F.
1 hora atrás

O GOAT terá que encarar Sinner e depois Alcaraz com aquele velho olhar e a gana do Lobo dos Balcãs se quiser ter uma mínima chance para erguer mais um caneco na Austrália, merecia ter perdido e externou justamente isso na entrevista de quadra.
Para os que tentarem citar o Sobrenatural de Almeida, vale refrescar a memória dos antis que fato similar aconteceu o mesmo com Sinner na edição passada de Wimbledon.
Musetti? Continua tendo o físico como o grande rival da carreira, parece ser de vidro tipo o Delpo.

Paulo F.
Paulo F.
1 hora atrás

No confronto Rybakina x Pegula, não torcerei.
Admiro as duas por motivos distintos.
Ryakina além do tênis de pesadíssimos golpes, acho-a linda, maravilhosa e encantadora, poderia estar desfilando para grandes grifes ao invés de ser desportista.
Já Pegula, poderia ter uma tranquila e confortável vida de patricinha instagramável e influencer, ser uma outra Paris Hilton ou Khardashians por ser também ser uma bilionária herdeira. Ao invés disso, trilha seu próprio belo caminho, sendo uma das melhores atletas num disputado e desgastante esporte como o tênis.

Realista
Realista
54 minutos atrás

O Djokovic precisa se aposentar logo. Está apenas aumentando mais paginas triste da sua carreira, que vem desde 2023 sem títulos acima de 250 no circuito. E agora jogando uma semifinal sem qualquer mérito.
Djokovic virou o palhaço de rodeio no tenis. Desperta grande atenção, mas a grande atração seria os Cowboys Sinner e Alcaraz.

Joelson
Joelson
51 minutos atrás

Quanto será que custou colocar o sérvio na semi-final?

E quem será que pagou a conta??

Afinal de contas com o superbig Sinner oscilando fisicamente, era necessário encontrar alternativas com nomes de peso para uma eventual final, caso Sinner não se recupere a tempo.

Verdades que doem
Verdades que doem
45 minutos atrás

Muita sorte mesmo. Vai precisar agora que o Sinner e o Alcaraz se lesionem. Talvez ele só consiga ganhar do Sasha numa hipotética final pq o alemão sente bastante pressão.
Só na base de lesão mesmo. Sinner e Alcaraz não perdem mais para o Djokovic em slam mesmo jogando mal.

Marquinhos
Marquinhos
44 minutos atrás

Eu acho que não é ajuda dos Céus não. Acho que a ajuda vem lá de baixo….

Paulo F.
Paulo F.
18 minutos atrás
Responder para  Marquinhos

Cuidado para onde apontas ou o que desejas, poderá ter um efeito que tu não curtirás domingo pela manhã…

André Aguiar
André Aguiar
40 minutos atrás

Não poderia haver foto mais emblemática para encimar esse post.

Marquinhos
Marquinhos
32 minutos atrás

Obviamente a vitória foi do Musetti, e foi uma baita surra. Pela primeira vez na história dos slam teremos um jogador sendo surrado mas avançando para ser surrado de novo. Pode isso!? Se Sinner estiver 100 ou 80% sem chances para o milongueiro. Mas basta o Jannik jogar o que jogou hoje(mesmo sem potência no saque) que o que vier do goat do Paraguai pouco importa! 3 x 0 tranquilo!

PS: Novak não depende mais de si mesmo para vencer slam ou algo importante. Depende de se o rival vai estar machucado. No 100% x 100% ele já não é páreo para alguns… Para os dois primeiros do ranking chances zero!

Jonas
Jonas
27 minutos atrás

Djokovic e rodada diurna não combinam. Quase sempre ele joga mal e hoje não foi diferente. Cometeu 32 erros não forçados em 2 sets. A critério de comparação, na final de 2019 contra o Nadal ele cometeu 9 erros apenas (rodada noturna).

Quanto ao Musetti, mais do mesmo… é um jogador muito bom tecnicamente, mas o físico é uma porcaria para um cara de apenas 23 anos. Ano passado aconteceu a mesma coisa contra o Alcaraz e em 2021 a mesma coisa contra o Djoko. Trágico.

Obviamente o sérvio não vai ser favorito aos 38 anos contra Sinner ou Alcaraz, mas para ter alguma chance precisa apresentar o mesmo nível de movimentação das rodadas iniciais. Não vejo outra forma.

Safin esses dias foi perguntado sobre a busca do 25º Slam “Eu diria que não. Sendo sincero, ficaria surpreso se conseguisse. Teria que rejuvenescer dez anos para conseguir”.

Esse tipo de declaração mostra como o Big 3 foi impressionante após os 30 anos. Não vejo um Sinner jogando nesse padrão com mais de 35 anos, um cara que sofre tanto fisicamente igual ele. Alcaraz, que também tem grande imposição física, já deu declarações no sentido de parar cedo. Fisicamente é um esporte cruel. Só nesse AO: Fonseca, Musetti, Mensik etc, fora os “baixados” Rune, Fils e Draper.

wilson Rocha
wilson Rocha
25 minutos atrás

Sinner saudável – resultado 3 x 0. Dúvida? Saber quantos games Djokovic consegue ganhar.

Alison Cordeiro
Alison Cordeiro
13 minutos atrás

Sempre consciente de seu nível, uma característica marcante dele, Nole reconheceu o mérito de Musetti e sentiu-se mal pelo garoto. E é justamente essa questão física que sempre o diferenciou, ele sempre soube dosar a energia nos Slams, aumentando o nível somente quando o necessário. O cuidado extremo com o corpo minimizou as lesões que o esporte de alto nível sempre traz.

Uma pena pro Musetti, mas para o entretenimento ter Djoko para enfrentar Sinner é muito mais interessante. Ainda que pareça um desafio instransponível, já que Jannik é de fato uma versão melhorada do sérvio, a experiência e a técnica estão do lado de Nole. Pensando no jogo de hoje, somente um problema físico impede o triunfo do italiano. Mas como disse, é na hora que a onça bebe água que vemos o melhor de Djoko. Chega inteiro pro jogo.

Claro que mesmo vencendo o Sinner, a chance de Carlitos ser o adversário é tremenda, e mesmo já tendo superado o espanhol no AO, a cada confronto Djoko vê uma versão melhorada do garoto. Alcaraz me lembra um jogo de videogame do Batman, em que não bastasse o herói já ser quase invencível, a cada fase ele vai incoporando mais armas ao seu vasto arsenal. No caso de Carlitos, já veio com quase todos os “acessórios” na largada, e ganhando mais alguns, vai ficando cada vez difícil ganhar dele.

Chegam os 4 melhores do ranking, e fico feliz de ver Nole entre eles ainda. Calendário reduzido, contusões pelo caminho, idade chegando e o homem continua firme alcançando as semi-finais de Slam. Sorte? Com certeza, aquela mesma que acompanha todo mundo que sempre acredita em si mesmo.

Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br
Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br

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