Há 25 anos, Guga superava Agassi em Lisboa para chegar ao nº 1

Foto: POA Press

Mário Sérgio Cruz
Da redação

Há 25 anos, o tênis brasileiro comemorava um feito histórico. Em 3 de dezembro de 2000, Gustavo Kuerten conquistou o título da Masters Cup de Lisboa ao superar o norte-americano Andre Agassi por triplo 6/4 no jogo que encerrava a temporada do circuito da ATP. Com isso, o catarinense garantiu um título inédito em sua carreira aos 24 anos e alcançou a liderança do ranking mundial.

“Vejo que aquela conquista foi um divisor de águas por completo. Mexeu com o país inteiro. Pessoas de diferentes regiões do país e de diferentes classes sociais começaram a jogar tênis. Mas obviamente, mesmo com essa euforia, o dever de casa ficou faltando”, disse Guga, durante depoimento à imprensa em 2020, em comemoração do 20º aniversário de sua conquista em Lisboa.

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O jogo serviu como uma revanche para Guga, que havia perdido para Agassi no início daquela semana, ainda pela fase de grupos da competição, disputada no Pavilhão Atlântico de Lisboa. O catarinense vinha sofrendo com problemas físicos, especialmente nas costas, e cogitou até mesmo desistir do torneio.

No entanto, conseguiu se recuperar para conquistar quatro vitórias em dias seguidos. Ainda na primeira fase do torneio, bateu Magnus Norman e Yevgeny Kafelnikov. Depois, na semifinal, buscou uma grande virada contra Pete Sampras antes de reencontrar Agassi na capital portuguesa.

‘Foi a partida mais perfeita da minha vida’, vibra Guga

Guga classifica a atuação na partida com Agassi como a melhor de sua vitoriosa carreira profissional, que conta com três conquistas em Roland Garros, 20 títulos de ATP e 43 semanas como número 1 do mundo. “Foi a partida mais perfeita da minha vida. Parecia que eu estava num treino com o Larri na academia, com total tranquilidade. Eu me senti sereno do início ao fim, já comecei quebrando o saque dele e acertando pancada para tudo quanto é lado”, afirmou.

Com um jogo muito bem adaptado às rápidas condições do torneio, disputado em quadra dura e coberta, Guga atuou de forma agressiva e buscava a rápida definição dos pontos. Ele também foi preciso no saque, especialmente nos pontos mais importantes, ao disparar 19 aces na final e salvar todos os sete break points que enfrentou na partida com 2h06 de duração. O brasileiro criou nove oportunidades de quebra e aproveitou três, uma em cada set.

“Eu enfrentei alguns break points e ele só conseguiu responder o saque uma vez. Nos outros, foi praticamente definido sem ele ter chances. Quando ele via, o ponto já tinha acabado”, relata Guga, citando que a situação também deu a ele uma vantagem psicológica na partida. “Isso dá um poder mental e uma confiança inabaláveis. E do outro lado, vai dando frustração e desespero. Ele deve ter pensado: ‘De novo esse cara?’, a ponto de, no terceiro set da final, ele até virar de lado numa hora que não era para isso, de tão incomodado que estava com a situação. Na hora H, quando precisava, eu acertava o saque em cima da linha. Dava cada pancada que o cara não tinha chance”.

Ainda sobre o ponto de vista estratégico, ele traçou uma tática perfeita para o penúltimo ponto da partida, que foi determinante para sua vitória. Guga subiu à rede no backhand de Agassi e apostou em uma bola profunda, fugindo um pouco de suas características para chegar ao match-point. “Na hora daquele ponto marcante do 5/4, que praticamente definiu o campeonato, eu precisei atacar e subir à rede. Saí das minhas características, que era ficar no fundo, essa era a base do meu jogo, e ir lá para cima para botar a cara na rede e ganhar o ponto. Nessas quadras mais rápidas, eu comecei a entender que eu tinha a capacidade de ser mais agressivo. Precisava assumir os riscos e também lidar com alguns erros, que são comuns nesse nível”.

Ainda jovem, Guga não acreditava no feito

Na entrevista coletiva, feita logo após a partida de 25 anos atrás, o ainda jovem Gustavo Kuerten não acreditava no tamanho de sua façanha. “É estranho. Como eu disse outros dias, não acreditava que pudesse conseguir. Eu nem pensava sobre isso, na verdade, porque já tinha muitas coisas com que me preocupar. Eu apenas fiz e não sei como”.

“Se alguém me dissesse no início do torneio: ‘Para ser o nº 1, você precisa vencer Kafelnikov, depois Sampras, depois Agassi’, eu diria: ‘Ah! Sem chance’. Agora, de alguma forma, as coisas começam a se encaixar. É algo que você sempre pensa que está longe. E quando você consegue, ainda demora um pouco para perceber”.

Agassi era um ídolo na adolescência do brasileiro

Em sua autobiografia “Guga, um brasileiro” (Sextante, 2014), Guga revelava sua idolatria por Agassi, quando ainda sonhava em se tornar um tenista profissional. “Apesar de ser o nosso nono confronto, eu ainda achava estranho enfrentar o Agassi, meu ídolo na passagem da infância para a adolescência. Aos 13 anos, numa viagem aos Estados Unidos, pedi à minha mãe que comprasse uma camisa dele de presente para mim. Custava 50 dólares, uma fortuna. Se não fosse do Agassi, seria feia. Mas como era, me parecia magnífica. Cresci com aquela camisa, sonhando um dia jogar tão bem quanto ele”.

A mãe número 1 do mundo

Outro momento marcante daquele 3 de dezembro foi o carinhoso abraço na mãe, Alice Kuerten, durante a cerimônia de premiação. “Além de ser o dia mais feliz da minha vida, é a primeira vez que eu vou falar em português e todo mundo vai me entender”, disse Guga. “Hoje eu sou número 1 do mundo, mas ela sempre vai ser a mãe número 1 do mundo para mim. Eu quero dar um beijo na minha mãe”, acrescentou, enquanto caminhava até as arquibancadas para cumprimentá-la.

Em seu recente depoimento à imprensa, Guga lembra que Alice foi fundamental para que ele não desistisse do torneio depois de ter sofrido com as dores nas costas na partida de estreia. “A minha mãe foi a peça extraordinária nesse momento. Ela ficou comigo no quarto até 5h ou 6h da manhã, quando eu consegui dormir. Eu estava com tantas coisas na cabeça e ela lá me dando carinho, amor e afeto. É a melhor solução que tem na vida. Foi aquilo que me trouxe de volta”.

Segundo o ídolo do tênis brasileiro, o momento de muita emoção só foi possível por ele poder discursar em sua língua materna, pela primeira vez em eventos dessa magnitude. “Fez total diferença para mim. É outra experiência poder falar nosso idioma e falar daquela forma. Só assim, eu tive a liberdade de ir lá e abraçar a minha mãe. E assim eu me senti realmente em casa”.

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JClaudio
JClaudio
8 dias atrás

Guga, número um do mundo, um dos maiores feitos do esporte brasileiro, algo extraordinário.

Sérgio Ribeiro
Sérgio Ribeiro
7 dias atrás
Responder para  JClaudio

Em nada diminui o feito , caro JClaudio. Mas a reportagem coloca : perfeitamente adaptado as ” rápidas condições do torneio em Indoor coberta “. Sem medo de errar , Lisboa surpreendeu pela lentidão devido a aspereza. Deu pra notar desde o início, e principalmente contra Sampras. Norte-Americanos não reclamaram e vida que segue. Lembras , parceiro? …rs. Abs !

Ronildo
Ronildo
8 dias atrás

Grande trajetória do Gustavo Kuerten. Sua precoce saída do tênis, ocasionada pela lesão, mudou a história do tênis. Estava vencendo os bichos papões da quadra dura, Sampras e Agassi e até mesmo Federer. Seria o cara que poderia vencer algumas vezes Rafael Nadal em RG.

Rafael
Rafael
7 dias atrás
Responder para  Ronildo

Gostaria muito de ter visto uma partida Guga vs Nadal, uma pena que não aconteceu.

Sérgio Ribeiro
Sérgio Ribeiro
7 dias atrás
Responder para  Rafael

Acredito sinceramente que em 10 no Saibro, venceria 03 contra Touro Miura. Seu Backhand na paralela era devastador, Sacava barbaridade, e as curtinhas era grande especialidade da casa . Manezinho da Ilha , usou estas armas no triplo 6 x 4 contra Federer em RG 2004 , com Suíço já N 1 . Abs !

Helton
Helton
7 dias atrás
Responder para  Sérgio Ribeiro

Isso mesmo, Sérgio. E o Guga acabou impedindo o Federer de ganhar os 4 Grand Slams na mesma temporada (2004).

Daniel Rodrigo
Daniel Rodrigo
6 dias atrás
Responder para  Rafael

Provavelmente você deve ter visto a partida de Guga x Federer pelas quartas de final de Roland Garros em 2004. Jogaço , 3 sets a 0 pro nosso Manezinho da Ilha.

Guilherme do E.S. Ribeiro
Guilherme do E.S. Ribeiro
8 dias atrás

Monstro. Que bom que pude acompanhar toda a carreira.

Daniel Arantes Heitor
Daniel Arantes Heitor
7 dias atrás

Um dos maiores esportistas brasileiros na História do nosso país. Pena que na nossa cultura ignorante só dão espaço ao futebol. Esse cara deveria ter uma estátua e um museu em sua homenagem. O cara foi campeão mundial e ninguém fala disso. Uma pena.

AKC
AKC
7 dias atrás

Foi incrível. Eu li uma informação que não sei se é verdade, que dizia que o Guga foi o único jogador que venceu Sampras e Agassi no mesmo torneio.

Sérgio Ribeiro
Sérgio Ribeiro
7 dias atrás
Responder para  AKC

Nem Safin e Hewitt como N 1, conseguiram tal feito. Pode incluir também Roddick,Ferrero, Rafter e Moya. Apenas Gustavo Kuerten. Abs !

Adriano Buso
Adriano Buso
7 dias atrás
Responder para  AKC

Sim, é verdade, ele foi o único a vencer Sampras e Agassi no mesmo torneio.

Antonio Miranda
Antonio Miranda
7 dias atrás

Simplesmente um gênio! Obrigado Guga! <3

Tiago PW
Tiago PW
7 dias atrás

Q relato fantástico. Obg

Luis Alves
Luis Alves
7 dias atrás

E um outro sulamericano, David Nalbandian foi o único a vencer Federer, Nadal e Djokovic no mesmo torneio se não me engano Madrid 2007

João Prates
João Prates
7 dias atrás
Responder para  Luis Alves

É isso. Mas acho que o Djoko ainda não tinha sido #1 qdo isso aconteceu.

Antonio
Antonio
7 dias atrás

Ele foi extraordinário. Além de grande jogador, sempre foi também uma grande pessoa. Dá-lhe Guga!

Helton
Helton
7 dias atrás

Vamos torcer pra daqui a dois ou três anos o site esteja noticiando que “João Fonseca repete o feito de Guga e se torna o número 1 do mundo”. Eu acredito que essa notícia vai se tornar realidade.

Paulo Revero
Paulo Revero
7 dias atrás

O Guga me emociona. Sempre.

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