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As lições da Billie Jean King Cup

Foto: Luiz Candido/CBT

Sempre gostei desse evento disputado entre nações, que já se tornou o maior do mundo. Orgulho e pertencimento de representar o nosso país são o diferencial nessa modalidade. Quando soube que São Paulo sediaria um confronto com a Alemanha, valendo vaga para a fase final, passei a divagar sobre as 14 edições em que participei e fui me surpreendendo com a evolução.

A minha estreia foi em Bad Homburg, na Alemanha, em 1973, dez anos após o lançamento da competição, que foi criada pela Federação Internacional de Tênis (ITF) para comemorar os seus 50 anos de existência. A inciativa chegou com exatos 63 anos de atraso, se comparada à sua versão masculina, a Copa Davis, criada em 1900.

Muito charmoso, o evento feminino sofreu transformações ao longo dos anos, tanto no sistema de disputa quanto no nome da marca. Inicialmente intitulado Federation Cup, o torneio teve sua nomenclatura abreviada em 1995 para Fed Cup e, mais recentemente, em 2020, passou a homenagear Billie Jean King.

Grande expoente do esporte feminino, a norte-americana só não levantou mais troféus (foram 12 de simples em Grand Slam) por ter passado boa parte do seu tempo defendendo as mulheres e se tornando referência na luta pela igualdade em premiações (o US Open, graças ao seu boicote, foi o primeiro Slam a igualar os prêmios, em 1973). Ela protagonizou também o bizarro e, ainda hoje, o mais famoso evento de tênis do mundo: a Guerra dos Sexos, na qual disputou e venceu Bobby Riggs, veterano e ex-número 1 do mundo.

De fato, uma justa homenagem, ainda lembrando que a premiação da Copa do Mundo feminina também já foi igualada à dos homens, oferecendo US$ 2,4 milhões à equipe campeã da etapa final. Na sua versão mais antiga, o Brasil sediou a Federation Cup em 1984, recebendo 32 países no Esporte Clube Pinheiros, onde integrei a equipe brasileira ao lado de Cláudia Monteiro, Silvana Campos, Luciana Corsato e Vera Cleto.

Para o evento da semana passada, foi montada uma quadra de saibro no Ginásio do Ibirapuera, situado no pulmão da cidade de São Paulo, ao lado do parque que leva o mesmo nome. Com casa lotada (cerca de 9,6 mil pessoas presente), não faltaram bandeiras verde amarelas ao longo dos dois dias de disputa.

O confronto contra a Alemanha, assim como os outros sete realizados nos mesmos dias ao redor do globo, valiam vaga para a finalíssima em Sevilha, na Espanha, no próximo mês de novembro. A vaga finalmente não veio e ficou entalada na nossa garganta, já que as derrotas do primeiro dia pesaram para a classificação final.

Depositamos muita esperança no primeiro confronto de Bia Haddad, melhor tenista do país, contra a número 2 da Alemanha, Laura Siegmund, uma vez que o segundo jogo apontava um favoritismo, que se confirmou, de Tatjana Maria sobre Laura Pigossi.

Não foi um dia feliz para o Brasil. Bia, que atravessa uma fase difícil de confiança, também perdeu e terminamos a primeira parte do duelo com duas derrotas. No sábado, nossa estrela máxima, já mais segura e relaxada, venceu Anna-Lena Friedsam de virada. No entanto, por mais que desejássemos ver Luísa Stefani (11ª melhor duplista do mundo) em quadra, Carol Meligeni, que substituía a lesionada Pigossi com um problema panturrilha, não resistiu ao jogo seguro de Siegmund, que, com duas vitórias no saibro paulistano, garantiu a classificação alemã.

Com isso, ficaram algumas lições a serem digeridas:

1. Jogar em casa pode ter trazido muita responsabilidade, mas deixou um espetáculo inesquecível.
2. Apesar da derrota, o país segue acreditando na equipe e sabe torcer até a última bola.
3. Não há caminho de volta. Agora temos ídolos que representam o tênis feminino e isso vai repercutir na nova geração.
4. Ranking não define vitórias; Bia é 13ª do mundo e perdeu para Laura Siegmund, 85ª.
5. Idade é relativa no tênis, ela traz experiência e bagagem; Alemanha chegou com três jogadoras de 36 anos (Kerber, Siegmund e Maria) e uma de 30 (Friedsam). A mais jovem, de 22, (Lys) esteve longe de se apresentar em quadra.

E, por fim, um grande aprendizado:

Com recorde de bilheteria entre todos os oito confrontos realizados pelo mundo, na mesma data e valendo vaga para a finalíssima, o Brasil mostrou que o tênis feminino está vivo e mais forte do que nunca. Tem público que acompanha, torce e vibra junto. Precisamos, sim, ser palco de mais eventos dessa natureza para oportunizar a disseminação da modalidade e o surgimento de mais estrelas.

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SANDRO
SANDRO
1 mês atrás

Realmente um excelente evento com grandes jogos! Todas as jogadoras envolvidas estão de parabéns!

SANDRO
SANDRO
1 mês atrás

Vale ressaltar que LAURA SIEGEMUND tem grandes desempenhos em competições por equipe! Imprescindível lembrar que as excelentes atuações da dupla LAURA SIEGEMUND e ZVEREV foi a grande responsável pela conquista do título da UNITED CUP para a ALEMANHA !

Maurício Luís *
Maurício Luís *
1 mês atrás

Não sei se a Bia tem psicólogo na equipe. Se não tem, passou da hora de ter. Espero que a deficiência no saque não seja algum problema físico.

João
João
1 mês atrás

Excelente texto, Patricia (por sinal, o melhor que li sobre o confronto, disparado). Vendo os jogos me lembrei dos grandes confrontos da Davis, quando ela ainda era no formato antigo, minha competição favorita, independente da presença ou não do Brasil. Infelizmente a Fed Cup nunca teve o mesmo grau de visibilidade, mas também é uma competição muito legal. Só acho chato o jogo de duplas sempre ter sido deixado para o final do confronto.

Helton
Helton
1 mês atrás

Publicação da ITF

The weekend’s Billie Jean King Cup by Gainbridge Qualifier between Brazil and Germany at Ginasio do Ibirapuera in Sao Paulo set new attendance records for the competition.

A crowd of 8,050 watched day two of a tie which saw Germany advance to November’s Billie Jean King Cup by Gainbridge Finals in Seville. This set a new single day attendance record for a Billie Jean King Cup Qualifier.

The combined attendance of 14,940 across the two days was also a new attendance record for a Billie Jean King Cup Qualifier.

Raquel Felix
Raquel Felix
1 mês atrás

Foi um evento inesquecível. Segundo torneio de tênis feminino que assisto ao vivo. As tenistas brasileiras sempre representaram o Brasil com força e raça. Esse evento ficará para sempre na minha memória.

Vanda Ferraz Lopes de Oliveira
Vanda Ferraz Lopes de Oliveira
1 mês atrás

Li com muita alegria seu comentário, concordo com todas as suas palavras
Lembro até hoje da nossa participação na Fed Cup de 1975, em Aix un Provence
Acompanho tênis, e principalmente o feminino, me faz ficar cada vez mais entusiasmada

Ex-tenista profissional e medalhista de prata nos Jogos Pan-Americanos na Cidade do México-1975, foi por 11 anos consecutivos a número 1 do Brasil e chegou ao top 50 em simples. Atualmente, possui 16 títulos mundiais no circuito Masters da ITF e ocupa os cargos de diretora executiva do Instituto Patrícia Medrado e líder do Comitê Esporte do Grupo Mulheres do Brasil.
Ex-tenista profissional e medalhista de prata nos Jogos Pan-Americanos na Cidade do México-1975, foi por 11 anos consecutivos a número 1 do Brasil e chegou ao top 50 em simples. Atualmente, possui 16 títulos mundiais no circuito Masters da ITF e ocupa os cargos de diretora executiva do Instituto Patrícia Medrado e líder do Comitê Esporte do Grupo Mulheres do Brasil.

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