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Federação Paulista de Tênis chega aos 100 anos

Quadro dos 18 presidentes da centenária Federação Paulista, Arte: MTB

Walmor Elias
Especial para TenisBrasil

A primeira entidade organizada do tênis brasileiro comemora seu centenário de existência. Naquele dia 6 de março de 1924, às 20h30, uma quinta-feira de 30 graus em São Paulo, então um estado com média de 800 mil habitantes num país de 34 milhões presidido por Artur Bernardes, surgia a Federação Paulista de Tênis em assembleia realizada no Centro histórico, à Rua São Bento, número 51.

Foram convocados os delegados representantes de vários clubes que praticavam tênis. Cerca de 15 pessoas estavam fundando a Federação Paulista de Tennis, nesta grafia inglesa da época. Havia ali um homem muito especial, um líder nato e incontestável, que tem seu nome ligado ao Club Athletico Paulistano, sua origem.  Foi um dos fundadores da Sociedade Harmonia de Tênis.  E naquele 6 de março seria eleito o primeiro presidente da entidade. Maércio Pereira Munhóz foi também o primeiro brasileiro que venceu os ingleses que atuavam na Capital paulista e no Estado, ganhando o campeonato oficial da época, em 1918. 

Munhoz foi campeão estadual de 1918, 20, 21 e 23 em simples, e nas duplas ganhou em 1922 e 1923, e foi sucedido na presidência por Erasmo T. Assumpção Junior, vencedor estadual de simples em 1922 e 1923 e de duplas em 1922, 1923, 1924, 1925, 1926, 1929 e 1930. Os dois personagens são também fundadores da Sociedade Harmonia de Tênis, em 1930. 

Início pioneiro em 1916
Os primeiros movimentos para a fundação da Federação Paulista de Tênis começaram na realidade oito anos. Em 4 de abril de 1916, houve a instalação da “Comissão de Lawn Tennis” da Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), a qual estava ligada à atividade do tênis em São Paulo.  

Pertenciam a esta comissão Maércio P. Munhoz, João Didier, Gastão Rachou e Antonio Bayma, que assinou a ata histórica de 1924. Já nessa época eram realizados sucessivos campeonatos entre clubes locais e contra representações de outros estados. 

A fundação da FPT foi imortalizada pelo jornal “Estado de S. Paulo”, na página 5 do dia 8, em linguagem da época. E dizia:

Com a presença dos representantes do S. Paulo Athletic Club, Club Athletic Paulistano,  Club de Regatas Tietê, São Paulo Tennis, Associação Athletica das Palmeiras,  S. C. Syrio e Club Espéria, esfetuou-se antehontem, como fora anunciada, a reunião convocada para discussão do projecto dos estatutos da Federação Paulista de Tennis, instalação definitiva da Entidade e eleição da sua primeira directoria.    

A Sessão decorreu na mais perfeita harmonia e cordialidade, tendo os estatutos com pequenas alterações, sido approvados no seu inteiro teor. Na reunião da sua instalação a assembleia tomou as seguintes deliberações: 1. assignar a acta de fundação da Federação Paulista de Tennis; 2. eleger, por acclamação, o presidente honorário, sr. Antonio de Prado Júnior; 3. Reconhecer como fundadores os clubes que mesmo não representados na dita reunião, communicarem a Federação Paulista de Tennis , dentro do prazo maximo de uma semana o seu desejo expresso , de como taes,  serem considerados; 4. eleger com maioria de votos, com mandato de dois anos, a seguinte directoria:  presidente,  Maercio Munhóz; vice-presidente, Octavius Delany; secretario-geral, Paulo Leomil; primeiro secretario, Erasmo Assumpção Junior; segundo secretario, Ossian Souza; primeiro thesoureiro, Homero Lopes;  segundo thesoureiro, dr. Francisco G. Freitas; suplentes : Arlon Lassen, Milhem Racy e Fritz Behmer. 

A Assembleia Geral Extraordinária, da já então FPT, foi realizada em 2 de abril de 1924, na sede provisória da rua São Bento, sob a presidência de Maércio Munhoz e participação de diretores do São Paulo Tênis Clube, S.C. Syrio,  Associação Athletica das Palmeiras, Clube Esperia, Portugal Clube, S. C. Germânia/EC Pinheiros, Tennis Club de Campinas, São Paulo Athletic Club/Clube dos Ingleses da Capital, Santos Athletic Club/Clube dos Ingleses de Santos, Club Athletico Paulistano e Clube de Regatas Tietê. Na ocasião foram reconhecidas, por unanimidade, como sociedades fundadoras da FPT o Germânia, Portugal, Santos AC e TC de Campinas.   

Em 1933, surge a Federação Brasileira
Em 1936, na reunião de 18 de fevereiro, sob gestão do presidente Antonio Prado Jr., era aprovada por unanimidade a proposta da diretoria sobre a filiação da FPT à “Federação Brasileira de Tênis”.  

Aqui cabe uma explicação. Antes da CBT, em 1955, nós tivemos esta entidade, que foi criada numa reunião no Aberto de Santos, 1933, por ocasião de uma rebelião dos tenistas que não aceitaram que a antiga CBD – Confederação Brasileira de Desportos, sediado no Rio, não ajudasse na viagem do Brasil para o seu segundo jogo na Copa Davis, e o Brasil perdeu por WO para o Chile, em Santiago.   

A Federação Brasileira de Tênis tinha a liderança de Ricardo Pernambuco, o melhor brasileiro da década de 1930, e do presidente e depois patrono do Fluminense Arnaldo Guinle, mas não frutificou, pois até o Governo de Getúlio Vargas foi contra e, junto a FILT (atual ITF), vetaram e abortaram a iniciativa dos tenistas brasileiros. O sonho destes dois líderes e dos dirigentes brasileiros só foi concluído em 19 de novembro de 1955, quando a CBT foi fundada. Essa Federação Brasileira de Tênis existiu, mas foi pouco efetiva e nunca reconhecida pelo poder político esportivo da época, a antiga CBD. 

Na época, as reuniões da FPT eram realizadas na sede da rua Quintino Bocaiúva, 59. A entidade foi adquirindo personalidade própria, adaptando seus estatutos.  

De acordo com o Estatuto, são considerados “definitivamente fundadores” da FPT o Clube Esperia, Esporte Clube Sírio, Club Athletico Paulistano, Clube Athletico São Paulo (dos Ingleses), Esporte Clube Pinheiros e Tênis Clube de Campinas. Depois, foram equiparados à categoria de fundadores o Clube Atlético Monte Líbano, Clube de Regatas Saldanha da Gama, Clube de Regatas Tietê, Tênis Clube de Santos, Sociedade Esportiva Palmeiras, Sociedade Harmonia de Tênis, Tênis Clube Paulista e, posteriormente,  São Paulo Futebol Clube.     

O auge do tênis paulista
A Federação Paulista chegou em seu momento máximo na gestão 1975 a 79 do presidente Milton da Luz Motta, jornalista já falecido, pai do tenista Cássio Motta e que atuou muito tempo em A Gazeta Esportiva. 

Depois de muitas boas gestões dos pioneiros que fizeram crescer a Federação Paulista, na gestão de Milton Motta a entidade atingiu a incrível marca de mais de 15 mil tenistas registrados, atuantes, cadastrados, ativos e ranqueados. Naquele momento, a entidade era fortíssima e super respeitada e praticamente não tinha rivais no País. Apenas os gaúchos conseguiam, ainda assim com grandes dificuldades, enfrentar os paulistas no cenário nacional. 

Para se ter uma ideia do que foi esse auge, é bom lembrar que em 1934 a Federação Paulista tinha apenas 159 tenistas inscritos no Campeonato Estadual oficial e contava com 410 cadastrados na entidade. Depois, em 1935, se inscreveram 244 tenistas e haviam 467 cadastrados. 

Antônio Prado Júnior foi decisivo para o Brasil disputar seu primeiro confronto da Copa Davis, em 1932, quando perdemos para os Estados Unidos, em Forest Hills, enquanto Ubirajara Martins, Pedro Leomil e Adalberto Bueno Neto. tiveram gestões destacadas. Bueno organizou com a Sociedade Harmonia de Tênis o primeiro Campeonato Brasileiro de Adultos, que começou em 1943 e só parou em 1991. Foi um evento marcante e muito importante.  

Procópio brilha na presidência
Mas foi Alcides Procópio, que já tinha se consagrado como tenista, que virou uma referência como presidente da Federação Paulista. Organizou a entidade, elevou o prestígio, promoveu muitos grandes eventos tanto na Capital como no Litoral e Interior do Estado. 

Foi Procópio quem começou a tratar junto aos grandes tenistas do exterior, especialmente quando jogavam o Aberto da Argentina, para que estes viessem ao Brasil e fizessem várias exibições. E isso deu grande impulso e popularização ao tênis.  Também teve a ideia de criar o Banana Bowl, agora completando 54 edições,o evento que logo se tornou o maior infantojuvenil da América do Sul Ele ficou a frente da FPT por um longo período, entre 1954 e 73, com exeção de 67. Entregou a entidade amadurecida para Milton Motta, que, aí sim a tornou gigante. 

Alcides Procópio foi um dos fundadores da CBT e se uniu a dirigentes gaúchos, paranaenses, catarinenses e mineiros para tirar o tênis da antiga CBD, que já era o sonho de Ricardo Pernambuco e de Arnaldo Guinle, lá em 1933.  

Eventos comemorativos
Para marcar o momento, diversos eventos no decorrer deste ano serão alusivos aos 100 anos da Federação Paulista de Tênis[. O primeiro deles é o retorno do Banana Bowl para quadras paulistas, O torneio, em andamento nesta semana, realiza as categorias 14 e 16 anos no Pinheiros e os 12 anos no Alphaville Tênis Clube. 

A FPT será homenageada durante o duelo de Brasil contra a Alemanha, pela Billie Jean King Cup, entre os dias 12 e 13 de abril, no Ginásio do Ibirapuera. 

Haverá uma sessão solene na ALESP – Assembleia Legislativa de São Paulo, no dia 18 . E, ainda no decorrer deste ano, um livro está previsto para narrar e sintetizar a brilhante trajetória da Federação Paulista de Tênis, a mais antiga instituição do tênis brasileiro. 

Os 18 presidentes da FPT
Ao todo a Federação Paulista de Tênis teve 18 presidentes: Maércio Munhóz, Erasmo T. Assumpção Júnior, Antônio Prado Júnior, Ubirajara Martins, Paulo Leomil, Adalbelto Bueno Neto, Mário Beni, Vicente Forte, Orlando Pereira, Alcides Procópio, Silvio Iasi,   Milton da Luz Motta, Wanderley Salvador Ernesto Checchia, Nelson Jorge Nastas, Heládio Martins Neto, Raul Cilento, Paulo Roberto Campos e o atual, Luiz Fernando Balieiro, que tem como vices Danilo Durante Gaino, Geraldo Petit e Paulo Rogério Martins.

WALMOR ELIAS, gaúcho de Santa  Maria, é bacharel em Comunicação Social e em Letras e Artes e professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa. Atuou como jornalista especializado em tênis por 13 anos no Correio do Povo e nas extintas Folha da Tarde e Folha da Manhã, de Porto Alegre, e correspondente das revistas Tênis Ilustrado e Tênis. Entre 1977-89, foi dirigente da Federação Gaúcha e presidiu a entidade por seis anos, foi vice da Confederação Brasileira entre 1984 e 86 e presidiu a entidade entre 1990 e 93. Aos 70 anos, coordena e dirige o documentário “As Inesquecíveis Histórias do Tênis Brasileiro” pelo canal Trotamundos do Youtube. Fontes deste artigo: jornais da época, jornal O Estado de S. Paulo e acervo do Memorial Tênis Brasileiro.

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Carlos Almeida
Carlos Almeida
1 mês atrás

100 anos com pouquíssimo resultado. A popularização do tênis não existe. É uma utopia no Brasil, inclusive em São Paulo.

O tênis segue elitizado e sem rumo. E tudo segue normal no clubinho.

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