Carol Meligeni: “Ainda estou aprendendo a lidar com o luto”

Carol Meligeni (Foto: João Pires)

Mário Sérgio Cruz
Especial para TenisBrasil

A vida de Carolina mudou completamente em agosto de 2025. Era o dia seguinte ao Dia dos Pais. A tenista, que treina em Buenos Aires, aproveitava uma rara brecha no calendário de competições para passar a data comemorativa com a família, em Campinas. Foi quando o pai, Flávio Rodrigues Alves, faleceu aos 59 anos, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). Quase um ano depois da perda, ela ainda aprende a lidar com a dor do luto e se emociona ao falar do pai.

“Foi um baque muito grande na minha vida e estou aprendendo a lidar com isso”, disse Carol Meligeni a TenisBrasil após a vitória na estreia do W35 de São Paulo, na última quarta-feira. “Hoje faz 11 meses. E a cada mês que passa, é difícil, porque você tem que aprender a lidar com uma realidade diferente do que teve em toda a sua vida. Nessa semana, estou até sentindo um pouco mais e estava bem nervosa para jogar. Eu tô em São Paulo, ele viria me assistir”.

Encontrar a motivação para seguir a rotina no circuito foi mais um desafio para a tenista de 30 anos, atual número 4 do Brasil e 348ª do mundo. “Teve dias que eu não tinha vontade de treinar, ficava mais abalada com derrotas ou momentos ruins. Mas é a realidade que eu tenho que enfrentar, não tem muito o que fazer. Tenho que lembrar dos momentos bons, me apegar à minha família e saber que ele me apoiava no que eu faço”.

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Carol, o irmão Felipe, também tenista profissional, e a mãe, Paula Meligeni, compartilham a dor e ajudam um ao outro. E além do tênis, os jogos e vitórias da Argentina na Copa do Mundo alegram o coração de Paula, que comemorou bastante a virada sobre a Inglaterra na semifinal no dia da entrevista: “Querendo ou não, eu e o Felipe saímos de casa com 15 anos. Ela convivia com ele todos os dias”, afirmou.

Altos e baixos na temporada

Em quadra, o ano tem sido de altos e baixos para Carol Meligeni, que conquistou dois títulos em Buenos Aires e Cuiabá, mas sofreu eliminações precoces nos últimos três torneios que disputou na Europa. E mesmo no evento desta semana na capital paulista, venceu a argentina Berta Bonardi na primeira rodada, mas perdeu da francesa Oceane Babel no dia seguinte: “Talvez tenha sido um ano não muito consistente da minha parte, porque ganhei dois torneios, mas também tive um monte de primeira rodada. Mentalmente, estou tendo altos e baixos, muita coisa aconteceu desde o ano passado. Então, na quadra, que é o lugar onde eu tenho mais pressão, ainda oscilo um pouco”.

Bastante experiente no circuito, Carol é vista como referência para jogadoras mais jovens. E vinda de uma família de tenistas, tenta transmitir um pouco do que viveu em quadra. O bom momento da nova geração brasileira, liderada por Victória Barros e Nauhany Silva, também é bastante celebrado por ela. “Eu tento ser muito aberta e acessível para poder conversar com elas”, explicou. “E acho que está vindo uma leva muito boa de meninas novas. Há muito tempo, a gente olhava para trás e não tinham tantas jogadoras vindo, mas agora são várias e muito boas”.

Redes sociais e hábitos de leitura

Fora de competição, a tenista compartilha um pouco da rotina nas redes sociais, com o projeto “Carolinda pelo Mundo”. E recentemente, também passou a colaborar com as plataformas digitais da ESPN. A paixão pelos livros também se intensificou. Ela lista como seus favoritos neste ano “Eu que nunca conheci os homens” (de Jacqueline Harpman), “As primas” (da autora argentina Aurora Venturini) e “O rio que me corta por dentro” (de Raul Damasceno): “Esse último é de um menino do interior que se descobre homossexual numa realidade que não aceita isso. Acho que a leitura me aproxima de realidades que são totalmente fora da minha bolha”.

Além da literatura contemporânea, Carol tem se desafiado a ler clássicos e histórias de interesse social: “Capitães da Areia, eu amei. Também li Vidas Secas e a Hora da Estrela, que foi meu primeiro da Clarice [Lispector]. Também peguei literatura russa, li Kafka e “Noites Brancas”, e livros sobre a Segunda Guerra. Saí um pouquinho da zona de conforto. Acho que cada vez que eu termino um livro, é meu momento favorito, porque eu fico pesquisando o que quero ler depois. Eu adoro!”

Confira a entrevista completa com Carol Meligeni

Queria começar falando do seu ano, que você teve dois títulos, em Buenos Aires e Cuiabá, mas as últimas semanas foram de poucas vitórias. Até vi uma postagem sua há alguns dias sobre ter giras boas e outras não tão boas. Como avalia a temporada até aqui?
Então, talvez tenha sido um ano não muito consistente da minha parte, porque ganhei dois torneios e acho que muita gente gostaria de ter vencido dois títulos. Eles vieram em momentos super importantes. Mas também tive um monte de primeira rodada. Mentalmente, estou tendo altos e baixos, acho que muita coisa aconteceu desde o ano passado, teve um baque importante da minha vida e estou aprendendo a lidar com tudo isso. Então, na quadra, que é o lugar onde eu tenho mais pressão, ainda oscilo um pouco.

Acho que o principal é que faz um tempo que eu venho me sentindo bem em quadra. Agora é ajustar essa parte mental que é imprescindível para ter resultados mais consistentes e continuar trabalhando. E como eu falei, tem semanas boas, giras boas e giras ruins, mas a gente tem sempre que se preparar no dia seguinte para o que vem pela frente. E é isso o que eu tenho feito.

Carol Meligeni (Foto: Tatiana Santoro Herrera)

Quando eu converso com algumas jogadoras mais novas, muitas delas te colocam como uma referência, pela forma como você trabalha. Sempre falam de você nesses torneios ou na Billie Jean, quando a gente tem as juvenis junto. O que você tenta passar para essas meninas quando está junto com elas?
É legal saber disso, porque estou há bastante tempo no circuito, já tive um ranking melhor do que tenho hoje, mas acho que a minha carreira é pautada em bastante resiliência, tive lesões, altos e baixos, momentos bons e ruins…

Eu sempre falo que tive a sorte de ter um jogador na minha família, o que me facilitou bastante, porque eu sempre tive contato próximo com alguém que já viveu tudo isso que estou vivendo agora. Ele sempre me ajudou muito e me ajudou no caminho. Então eu entendo muito que a grande maioria do circuito não teve essa sorte e esse privilégio. Então eu tento ser muito aberta e acessível para poder conversar com elas, gosto de marcar treinos, acho que agrega muito para mim e para elas. Outro dia a Pietra me perguntou como jogava a adversária dela.

E acho que está vindo uma leva muito boa de meninas novas. Há muito tempo, a gente olhava para trás e não tinham tantas jogadoras vindo e agora são várias e muito boas. Admiro muito o que elas têm feito no circuito juvenil, cada uma no seu caminho, algumas morando fora, outras morando aqui. Fico feliz delas se espelharem em mim.

Você até já citou rapidinho. A última vez que a gente conversou foi no SP Open, o primeiro torneio desde a perda do seu pai. E você estava bem emocionada. E como está sendo lidar com tudo isso?
Ainda estou… Hoje faz 11 meses… E a cada mês que passa, é difícil porque você tem que aprender a lidar com uma realidade diferente do que teve em toda a sua vida. Essa semana eu estou até sentindo um pouco mais, estava bem nervosa para jogar, porque é diferente de outras vezes. Eu tô em São Paulo, ele viria me assistir. Então, realmente tem sido difícil lidar com a ansiedade no dia a dia. Teve dias que eu não tinha vontade de treinar, ficava mais abalada com derrotas ou momentos ruins.

Mas é a realidade que eu tenho que enfrentar, não tem muito o que fazer. Tenho que lembrar dos momentos bons, me apegar à minha família, e saber que ele me apoiava no que eu faço. Tento pensar por esse ângulo, mas é difícil de lidar no dia a dia.

Para quem já viveu uma perda, mas conviveu com uma rotina de cuidados, você meio que vai se preparando. Mas nesse caso que foi repentino, parece ainda mais forte…
Eu acho que é ruim sempre, né? Não tem um momento melhor para acontecer… Mas sim, te pega totalmente desprevenida. Eu estava jogando na Argentina, tive um mau resultado, meu irmão estava recém-operado… Meu treinador me deu uns dias para descansar. A gente conseguiu passar o Dia dos Pais com ele. E aí aconteceu no dia seguinte, foi muito louco. Foi mais ou menos do nada. Ele não estava se cuidando muito, mas a gente não esperava, ele não estava doente e nem nada.

Então foi difícil para mim, para o Felipe e principalmente para a minha mãe. Querendo ou não, eu e o Felipe saímos de casa com 15 anos. Ela convivia com ele todos os dias.

Foto: CBT/Divulgação

Fora da quadra, você é bem ativa nas redes, tem o ‘Carolinda’, você gosta de mostrar um pouquinho o outro lado, saindo um pouco dos resultados e do ganhou/perdeu. O quanto isso ajuda e traz um pouquinho de leveza na vida de tenista e humaniza um pouquinho a rotina de vocês?
Eu tento levar um pouco esse lado, que eu não seja só um número, um ranking, uma vitória ou uma derrota. Porque a semana pode ter sido muito boa, mas o dia seguinte pode ser muito ruim. Muda toda hora. Então eu tento mostrar como é o circuito, não só com as coisas boas que todo mundo vê na televisão, com o tenista preparado para entrar em quadra na melhor forma, como também tudo o que a gente faz para chegar até ali.

Abriu um mercado muito bom para o tênis nas redes sociais com o Fonseca, a Bia e a Luísa. Todo mundo querendo jogar tênis e consumir bastante. As marcas e as empresas querem entrar. As pessoas se identificam com isso e eu percebi que gostam de ver essas coisas de bastidores. Então é isso que tento passar um pouco. E a leveza de mostrar que a gente está lutando, competindo e fazendo o que todo mundo faz. É a vida de uma pessoa comum.

É um pouco do que você estudou também?
Eu fiz administração na Estácio e entrei mais na Comunicação porque acho que é fácil para mim pegar uma câmera e falar. Meu tio me fez o convite para entrar no New Balls. E foi uma porta que se abriu para mim. Eu gosto de fazer. Claro que não são mil maravilhas, porque você acaba se expondo. Então, se estiver mais sensível, vai se expor mais ou menos, mas é isso.

Por enquanto estou conseguindo administrar bem e está fazendo bem para mim. Além do podcast, eu entrei faz um mês no time de talentos da ESPN também e mostro de um jeito diferente também nas redes sociais. Então além do tênis, eu posso fazer outras coisas e isso me dá mais autoconfiança de que eu poderia ser capaz de buscar caminhos diferentes também.

Queria falar um pouquinho do seu hábito de ler, porque você sempre compartilha as leituras nas redes sociais e também gosta muito de escrever. Tem algum que leu recentemente e gostou? Lembro que você postou que havia ganhado o novo da Chimamanda [Adichie] de presente…
Este ainda não comecei, porque ele é grande para levar nas viagens. Está em Buenos Aires e vou ler quando passar mais semanas direto lá. Mas neste ano, eu já li uns oito ou nove. Eu gostei muito de “Eu que nunca conheci os homens”, “As primas” e “O rio que me corta por dentro”. Esse último é de um menino do interior, bem interior mesmo, que se descobre homossexual numa realidade que não aceita isso.

Acho que a leitura me tira um pouco do telefone, me dá foco e atenção. Além de pensar como performance, me aproxima de realidades que são totalmente fora da minha bolha. Esse ano eu li sobre coisas duras que aconteceram na sociedade, tipo racismo, holocausto, Segunda Guerra… São temas que te aproximam de realidades que você não viveu e você não encontra tantas pessoas para conversar sobre isso. E acho que isso te torna uma pessoa melhor também para conhecer coisas diferentes do que está acostumada a viver. Acho que cada vez que eu termino um livro, é meu momento favorito, porque eu fico pesquisando o que quero ler depois. Eu adoro! Demoro muito tempo para escolher.

Costuma ler rápido ou depende da história?
Depende… Por isso que eu gosto do Kindle. Eu amo livro físico, mas às vezes eu tô numa gira muito longa. Dois meses, por exemplo. Quantos quilos de livros eu teria que levar? Agora eu terminei um longo, chamado “Toda luz que não podemos ver”, que também é da Segunda Guerra. É uma ficção. Era grande, mas eu li em quatro dias. Estava em um voo e li cinco horas seguidas! Eu vou rápido.

E num momento eu entrei também de querer ler os clássicos brasileiros: “Capitães da Areia”, eu amei. Também li “Vidas Secas” e “A Hora da Estrela”, que foi meu primeiro da Clarice [Lispector]. Mas também li “Ensaio Sobre a Cegueira” (do português José Saramago), que não amei, mas sei que tem uma crítica social forte e peguei literatura russa, li Kafka pela primeira vez e “Noites Brancas”. Saí um pouquinho da zona de conforto. Não li coisas muito densas, para que o meu momento de escape e de lazer seja tão pesado, mas gosto de ler de tudo. Ano passado eu li muita coisa boa.

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Lucas Miranda Faria
Lucas Miranda Faria
2 horas atrás

Você é forte, Carol!!!!!

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