Neste mês, passou a vigorar a nova política da WTA para a elegibilidade da categoria feminina. Alinhada às diretrizes mais recentes do movimento olímpico, a entidade adotou o teste SRY, realizado uma única vez por meio de uma amostra de saliva ou de sangue, para identificar a presença do gene SRY, um gene associado ao desenvolvimento sexual masculino.
A decisão reacendeu um debate que há décadas atravessa o esporte de alto rendimento.
Não por acaso, duas das maiores referências da história do tênis, Martina Navratilova e Billie Jean King, têm posições diferentes sobre o assunto. Martina apoiou a nova política da WTA por entender que a categoria feminina deve ser baseada no sexo biológico feminino. Billie Jean King, por outro lado, manifestou preocupação com o impacto da medida sobre a participação de atletas trans no esporte competitivo. Ambas merecem respeito, e suas opiniões refletem a complexidade dessa discussão.
Para mim, porém, esse debate nunca foi apenas teórico. Eu o vivi em quadra.
No final da década de 70, joguei contra Renée Richards, pioneira na participação de uma atleta trans no tênis feminino de alto nível, em um torneio no Texas.
Para enfrentá-la, eu precisava vencer uma partida antes, e dei tudo de mim para conquistar essa oportunidade.
Nunca esquecerei o início daquela partida. No primeiro game, ela fez três aces e, no quarto ponto, acertou uma bola na direção do meu estômago. Ali percebi, de forma muito concreta, a potência do seu jogo. Apesar de não ser uma jogadora de grande velocidade, a força do seu saque e de seus golpes era impressionante.
Naquela época, fui favorável à sua participação, já que a Justiça havia reconhecido sua elegibilidade para competir, embora muitas jogadoras tenham se posicionado de forma contrária.
Anos mais tarde, li sua autobiografia, Second Serve, e me aprofundei em sua história. Fiquei profundamente impactada não apenas pelos desafios que enfrentou para competir, mas, sobretudo, pelo intenso processo psicológico e humano que viveu. Depois, sua trajetória também foi retratada no cinema, em Second Serve, estrelado por Vanessa Redgrave.
A partir dali, compreendi que esse tema não pode ser analisado apenas pela ótica das regras esportivas. Por trás de cada discussão existem pessoas, dilemas, escolhas extremamente difíceis e diferentes trajetórias de vida. Isso ampliou minha compreensão sobre um tema complexo, que envolve diferentes valores, experiências e pontos de vista.
A adoção dessa política estabelece critérios objetivos e não invasivos para a elegibilidade da categoria feminina. Na minha opinião, essa medida preserva a integridade da competição feminina e oferece um critério claro para o futuro.
Depois de tudo o que vivi, dentro e fora das quadras, ficou uma convicção: é possível defender critérios claros para a competição esportiva sem perder a capacidade de olhar para cada história com humanidade. Uma coisa não exclui a outra.









Bom, vou jogar mais lenha na fogueira.
Pegando o caso da Renée Richards e transpondo para os dias atuais um caso hipotético.
De repente o Alcaraz se levanta da cama “se sentindo” uma mulher. No fim do ano, faz uma cirurgia de redesignação de sexo. E em 2028 se inscreve no torneio feminino do US Open.
Parece razoável isso?
O título da tese é “A norma de gênero olímpica: mulheres legítimas e o tensionamento da bicategorização por atletas trans e intersexo”, da Waleska Vigo Francisco.
Patricia, muito legal vc abordar esse assunto. Estou fazendo meu TCC sobre isso, inclusive. Durante a elaboração, fiquei bastante curioso para ouvir atletas profissionais que tiveram contato com essa situação e quais as opiniões sobre o tema. Sou a favor da participação dessas mulheres, embora entenda que essa questão precisa de mais estudos para melhor compreensão e definição de parâmetros.
A título de sugestão, tem uma tese de doutorado que achei incrível, abordando a questão de forma bastante profunda e trazendo outros elementos bastante interessantes.
Se tiver interesse, dá pra acessar por esse link: https://repositorio.usp.br/item/003199721.
Obrigado!
Olá Rodrigo !
Obrigada , o assunto me interessa e vou ler a tese .
Sim, temos de pensar nas pessoas. Das mulheres que seriam prejudicadas ao ter que jogar com alguém com características física superior.
Uma top8 tem nível abaixo de um top200 masculino.
Patrícia, vc acha o meu ponto de vista totalmente sem noção? A ideia é boa, mas não funciona?
Olá Kario
É simplesmente impensável ter regras diferentes para competidores de um mesmo esporte, numa mesma modalidade .
Seria totalmente discriminatório.
Céus, eu podia jurar q eu estava justamente lutando contra a discriminação, dando às mulheres trans uma chance. Sem desvantagens, não vejo como resolver isso em favor delas. Vamos aguardar e ver no que isso vai dar. Grato pelo feedback.
Faltou informar se a potência dos golpes dela e sua óbvia maior força física impactou no resultado do jogo. Renée ganhou ou perdeu esse jogo?
Oi Paulo
Com certeza impactou no resultado: perdi!
Rennée obviamente ficou mais lenta , pelo tratamento hormonal e pela idade.
Ela também mede 1.85 cm , altura incomum naquela época , portanto mais alcance nas bolas .
Há jogadoras altas no circuito e com mta potência. Tem q ter embasamento científico para banir pessoas trans. Então a Tifany, jogadora q iniciou a hormonização após a puberdade, tem q ser banida do vôlei? O esporte é feito de pessoas com características físicas diferentes e isso é o significado de Inclusão
Há jogadoras altas no circuito e com mta potência. Tem q ter embasamento científico para banir pessoas trans. Então a Tifany, jogadora q iniciou a hormonização após a puberdade, tem q ser banida do vôlei? O esporte é feito de pessoas com características físicas diferentes e isso é o significado de inclusão. Sei q há estudos científicos q mostram q não há benefícios em pessoas trans praticando na categoria feminina, mas não saberei dizer quais. Farei o meu mestrado sobre isso e, em breve, saberei falar mais sobre isso. Parabenizo Patrícia pela reportagem, pois, com certeza, a vida de Renné (vi o documentário sobre ela) não foi fácil. Deve ter passado mta transfobia. Tanto é q ela vive isolada de todes.
Excelente ponto de vista
Até que alguém me traga argumentos incontestáveis, serei a favor de mulheres trans no tenis sendo q, já q elas tem vantagens com relação à força, q tenham desvantagens – tipo raquetes mais pesadas, ou impossibilidade de subir à rede (a menos q forçadas). Mesmo q as sugestões q dei sejam péssimas, acho q o caminho é esse. Inclusão, sempre q possível. Nos esportes em q fosse possível criar desvantagens- sei q em alguns não será possível.
Em nome da inclusão, as que nasceram com o sexo biológico feminino ficarão prejudicadas, indo pro lixo todo o esforço de uma vida.
Renée Richards foi homem desde 1934, quando nasceu, até 1975, quando fez redesignação de sexo. Em 1977, competiu como mulher. 41 anos como homem e 2 anos como mulher. Claro que em apenas 2 anos seus músculos forjados a testosterona não iam “magicamente” mudar.
Então respeitosamente discordo do seu ponto de vista.
Por isso eu falei em criar desvantagens, e sendo assim, continuo buscando argumentos contrarios incontestáveis.
Sim. absolutamente injusto com as mulheres biológicas!!!