O efeito João Fonseca: o Brasil sabe lidar com um fenômeno no tênis?

João Fonseca (Foto: Julien Crosnier/FFT)

Por Hector Rocio

Existe uma diferença enorme entre ter um talento e saber o que fazer com ele. O Brasil descobriu que tem o primeiro. O segundo continua em aberto.

Aos 19 anos, João Fonseca já venceu Novak Djokovic em Roland Garros, chegou às quartas de final de um Grand Slam, ergueu dois troféus no circuito da ATP e virou o ativo mais disputado do marketing esportivo brasileiro fora do futebol. Seu crescimento também ampliou o interesse comercial em torno do tênis, das transmissões esportivas e das apostas realizadas em plataformas legalizadas no Brasil.

Ao mesmo tempo, caiu na terceira rodada de Wimbledon para um qualifier de 132º do mundo com um triplo 6/3 que não deixou margem para interpretação generosa. Os dois fatos aconteceram em um intervalo de cinco semanas. E é exatamente aí que mora a pergunta incômoda.

O Brasil não está discutindo se Fonseca é bom. Está discutindo, sem perceber, se sabe conviver com alguém que ainda está aprendendo a ser bom.

O que os números dizem sobre o efeito Fonseca

O impacto é real e mensurável, não é hype de rede social. A Federação Paulista de Tênis registrou um salto de 303% no número de inscritos em torneios infantojuvenis, um dado que aponta rejuvenescimento estrutural da base, não apenas um pico de curiosidade. O setor de tênis no país cresceu 84% entre 2020 e 2025, puxado por investimento em quadras, eventos, transmissões e patrocínio.

Do lado da audiência, a ESPN contabiliza 51 milhões de fãs declarados de tênis no Brasil, recorde de audiência em 2025 e um número de praticantes que dobrou na última década. A procura por aulas cresceu 25% em um ano. No comercial, a emissora fechou o pacote de patrocínio do tênis integralmente pelo terceiro ano consecutivo, com 16 marcas anunciantes e crescimento de 53% no faturamento. A vitória sobre Djokovic bateu recordes de audiência na TV paga.

O portfólio pessoal do tenista acompanha o movimento. On Running, Rolex, Yonex, XP, Itaú e Mercado Livre já formam um conjunto de marcas grandes e poucas, que é precisamente o modelo ideal de construção de imagem no esporte de alto rendimento. O Rio Open, por sua vez, virou vitrine de fundos soberanos e bancos de investimento, com Mubadala e XP dividindo espaço em um torneio que virou ponto de encontro do mercado financeiro brasileiro.

Nada disso é acidente. É o efeito Fonseca funcionando exatamente como se espera que funcione. O problema começa quando se pergunta o que acontece se a curva não subir em linha reta.

A distância entre a audiência e a infraestrutura

Um país pode ter 51 milhões de fãs declarados e ainda assim não ter um sistema de formação capaz de produzir o próximo. O Brasil já viveu isso.

Depois de Gustavo Kuerten, único brasileiro a ser número 1 do mundo, o país passou mais de duas décadas sem colocar um homem consistentemente no top 25. Fonseca é apenas o quinto brasileiro da história a alcançar essa faixa, depois de Guga, Thomaz Bellucci, Thomaz Koch e Fernando Meligeni. O intervalo entre um fenômeno e outro não foi acaso: foi ausência de cadeia produtiva.

O crescimento de 303% na base é a notícia mais importante do momento, e é justamente a que menos gera cliques. Porque a pergunta que decide o futuro do tênis no Brasil não é quantos pontos Fonseca vai somar no US Open. É quantas dessas crianças vão encontrar quadra pública, técnico qualificado, calendário de competição regional e financiamento de viagem quando tiverem 14 anos e precisarem sair do país para pontuar.

Sem isso, o efeito Fonseca vira o que o Brasil já produziu antes em vários esportes: um pico de consumo, não uma mudança estrutural. O público assiste, compra raquete, faz três meses de aula e vai embora quando o ídolo perde na terceira rodada.

O calendário é a armadilha silenciosa

O próprio Fonseca antecipou o problema com uma lucidez rara para a idade. Ao encerrar 2025 no 24º lugar, avisou em coletiva no Rio que 2026 seria mais difícil, não mais fácil, porque a partir dali passaria a defender pontos sob pressão crescente. Ele estava certo.

O risco aqui é concreto: a pressão por resultado imediato distorce decisões de calendário. Um jovem que precisa alimentar audiência, ativações de patrocinador, exibições e expectativa nacional tende a jogar mais do que deveria. O tênis é um esporte que cobra essa conta com lesão, não com queda de rendimento. Jannik Sinner e Carlos Alcaraz chegaram ao topo com equipes que blindaram calendário. A pergunta é se o ecossistema brasileiro, faminto por um ídolo, vai permitir a mesma blindagem.

A torcida brasileira: o ativo mais raro e o mais imprevisível

Djokovic, antes do duelo em Paris, apontou a torcida brasileira como um diferencial competitivo e classificou Fonseca como jogador de grandes palcos. Ele não estava sendo diplomático. Nenhum outro tenista sul-americano tem uma massa que atravessa oceano, canta em quadra e transforma um court secundário em ambiente de decisão.

Esse é o maior patrimônio intangível do tênis brasileiro hoje. Também é o mais difícil de administrar.

Uma torcida que se comporta como arquibancada de futebol dentro de um esporte com códigos rígidos de silêncio e etiqueta gera dois efeitos simultâneos. Cria vantagem emocional para o jogador e cria atrito com árbitros, adversários e organizações. O equilíbrio entre paixão e constrangimento institucional é fino, e cabe muito mais à cobertura de imprensa e às federações do que ao atleta, que tem 19 anos e não deveria ser responsabilizado por gerenciar o comportamento de quem paga ingresso.

O ciclo que transforma atleta em produto antes da hora

Há um padrão reconhecível na forma como o Brasil consome fenômenos jovens. Primeiro vem a euforia. Depois vem a exigência de que a euforia se repita semanalmente. Depois vem a cobrança. Por último vem o abandono, quando outro nome aparece.

Fonseca já está no segundo estágio. Cada eliminação vira análise de crise, cada vitória vira coroação de sucessor de Guga. A comparação, aliás, é o mecanismo mais injusto disponível: Guga foi tricampeão de Roland Garros e número 1 do mundo, e virou parâmetro obrigatório para um jogador que ainda não completou 20 anos e já é comparado a um dos maiores da história do saibro.

O ponto não é proteger Fonseca da crítica esportiva. Ele é profissional, ganha bem e joga em um circuito global brutal. O ponto é reconhecer que o Brasil tende a consumir seus talentos em velocidade maior do que a velocidade em que eles amadurecem, e que essa aceleração já custou carreiras em outras modalidades.

O teste verdadeiro não é o ranking

O efeito Fonseca já provou que o Brasil sabe gerar audiência, vender patrocínio e encher arquibancada. Isso está resolvido. O que ainda não está resolvido é se o país sabe transformar entusiasmo em política esportiva, base em profissionalização e ídolo em legado.

Se daqui a cinco anos o Brasil tiver três jogadores no top 100 e um circuito juvenil consolidado, o efeito terá sido estrutural. Se tiver apenas João Fonseca, mais velho, mais cansado e cercado de expectativa impossível, o efeito terá sido apenas comercial.

E você, acha que o tênis brasileiro está construindo uma base real ou apenas surfando o talento de um único jogador?

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Marcos RJ
Marcos RJ
1 mês atrás

Parabens Hector. Excelente reportagem que retrata a brutal realidade brasileira em que a mídia é turboalimentada, enquanto a estrutura esportiva ainda não tem visão de longo prazo.

Renato dos santos Pachecocong
Renato dos santos Pachecocong
1 mês atrás

Eu vejo o público empolgado com o Fonseca! Mas o que vai acontecer nos próximos anos não dar pra saber ao certo.

Alfredo Jacobs
Alfredo Jacobs
1 mês atrás

O Sr. Hector escreveu um excelente texto. Abordou de modo apropriado, a situação do tênis brasileiro.
Eu concordo plenamente, quando ele escreve sobre os riscos, do Brasil não conseguir lidar adequadamente, com a nova oportunidade.

Parabéns pelo belo texto e pelo aprofundamento de questões fundamentais, para alavancar o nosso tênis.

José Roberto
José Roberto
1 mês atrás

Belo texto! Parabéns por tocar na ferida.

Paulo A.
Paulo A.
1 mês atrás

Nem precisa refletir muito ou ser expert em esporte para responder – e acertar – a pergunta do autor. Esse filme nós ja vimos antes por aqui…

Luiz Fer
Luiz Fer
1 mês atrás

Se o que é escrito nesse fórum servir de parâmetro, não sabe.

Gusmão
Gusmão
1 mês atrás

Faltam torneios ITF Masculino Juvenil e profissional no Brasil, todos sabem disso.
Há 15 para cá, houve uma decadência de redução de Torneios Masculino no Brasil, isso colaborou para para a falta de crescimento do número de Jogadores Brasileiros Ranqueados entre os 200° colocados no ranking ATP.
A CBT não aproveita o potencial que tem no Juvenil Masculino, há alguns anos o número de Jogadores Brasileiros Juvenis ranqueados no Ranking ITF Juvenil aumentou, superando todos Países da América do Sul.
Falta dividir poderes,criar uma Diretoria só para essa finalidade ou contratar uma Empresa para para organizar torneios ITF no Brasil.
Uma coisa se vê, pouco progresso, só 13 Torneios ITF Masculino agendados/realizados nesta temporada.
Com isso muitos jogadores Brasileiros estão ficando sem atividades, e alguns taletosos acabam deixando a profissão.
Esperamos em médio prazo, daqui a 3 anos a situação possa se inverter, e melhorar……….

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