Há 94 anos, Brasil jogava sua primeira partida de Copa Davis

Walmor Elias
Especial para TenisBrasil

Aquelas 10 pessoas, quatro solteiros e três casais, que se reuniram no Armazém 18 do Cais do Porto do Rio de Janeiro às 15 horas do dia 21 de maio de 1932, um domingo, e partiram no navio Southern Prince por 8.070 km. viajando 14 dias no Oceano Atlântico rumo a Nova York, talvez não tivessem noção que estariam fazendo o ponto de partida de 90 anos de história do Brasil na Copa Davis.

A Copa Davis havia sido criada em 1900 para um duelo particular entre norte-americanos e ingleses, mas rapidamente se tornou uma competição mundial entre países. Aqueles pioneiros brasileiros eram assim o primeiro grupo importante do nosso tênis indo ao exterior em missão oficial e viveriam desdobramentos dramáticos e alegres numa saga feita de sangue, suor e lágrimas.

O grupo desembarcou em Nova York no dia 3 de junho, sexta-feira, e se hospedou no Hotel Vanderbildt Ambassador, na Park Avenue, sendo recebido pelo cônsul brasileiro, Sebastião Sampaio, que fora nomeado pela antiga CBD – Confederação Brasileira de Desportos para chefiar a delegação.

No cais, havia uma comissão de recepção, limousines ornamentadas com bandeiras dos dois países, da então USLTA e do West Side Tennis Club de Forest Hills. Ali estavam também entidades que cuidavam das relações comerciais entre EUA-Brasil, especialmente da venda do nosso café, assim como o City Bank e o jornal New York Herald Tribune. Havia até escolta de batedores uniformizados e sirenes, pompa que provavelmente jamais tenha ocorrido novamente para o Brasil como visitante no evento.

Ainda viriam recepções, jantares, almoços, a solenidade do sorteio na quarta-feira, dia 8, e uma sessão especial de teatro para nossa delegação, tudo organizado e supervisionado pelo cônsul brasileiro. Algo realmente marcante.

A década de 30
Na época, o Brasil tinha menos de 50 milhões de habitantes, vivia a preparação para a Revolução Constitucionalista de 1932 que São Paulo liderava e se insurgia contra o Governo provisório de Getúlio Vargas. O presidente americano por sua vez era Herbert Hoover e eles ainda não tinham se transformado nessa potência que terminou surgindo pós Segunda Guerra. Tinham uma população de cerca de 124 milhões de habitantes.

O Brasil tinha participado da primeira Copa do Mundo de futebol de 1930, no Uruguai, e nos preparávamos para em 34 ir para a segunda edição na Itália. Havia uma outra grande preparação pois a CBD, que cuidava de todos os esportes, estava organizando com imensas dificuldades nossa delegação para as Olimpíadas do mesmo ano de 1932, em Los Angeles.

Houve um momento que os brasileiros pediram para a USLTA mudar a sede dos jogos e antecipar a disputa da Copa Davis, justamente para nossos tenistas aproveitarem a carona e irem num navio menor, o Itaquicê, que levaria os atletas olímpicos em 22 longos dias de viagem. A ideia era jogar em Los Angeles. Mas não foi possível devido a Wimbledon e outros compromissos americanos. Os brasileiros não estavam estruturados para a viagem no dia 12 de maio em que havia reservas no navio American Legion. A CBD desconsiderou a viagem aérea pela antiga Panair, que fazia esta rota, devido aos elevados custos.

O Brasil na verdade deveria ter jogado a edição de 1931, mas não foi a Santiago para enfrentar o Chile por falta de verba. Em 1932, não jogou antes porque chilenos e paraguaios não aceitaram atuar nem no Brasil e tampouco em Buenos Aires. Esta sempre foi uma marca do Brasil na Copa Davis: tudo é sempre difícil.



Jogos no simbólico Forest Hills

O lugar para o Brasil estrear não poderia ser melhor. O West Side Tennis Clun foi fundado em 1892 e sediou o então National Championships (hoje US Open) por 60 edições até 1978, tendo somado 38 quadras de diferentes pisos. O duelo de 1932 contra o Brasil inaugurou instalações, como a nova tribuna de um estádio que chegou a ter depois, bem mais adiante, 14 mil lugares. Forest Hills era portanto um lugar simbólico e famoso na história do tênis.

Outro fato curioso: Welcombe Ward, que jogou na primeira partida desta competição no time americano em 1900, foi nomeado o árbitro geral do confronto diante do Brasil. Ward foi campeão do US Open de 1904, tendo vencido duplas com o político e tenista Dwight F. Davis, que deu o nome à Copa. Welcombe também foi presidente da USLTA, a antecessora da atual USTA, sendo portanto uma personalidade pioneira importante do tênis americano.

A recepção, Forest Hills, o árbitro geral, um país criador do evento, uma equipe fortíssima, tudo mostra que a estreia brasileira da Copa Davis teve nuances muito especiais e nada deixava a desejar. Até valeu a longa espera.

Nos treinos realizados entre 3 e 8 de junho, os norte-americanos tiveram a primeira surpresa com a equipe brasileira. Ficaram impressionados ao verificar que os adversários eram bons jogadores. Não imaginavam que o Brasil tivesse uma equipe daquele nível, e isso foi noticiado nos jornais, tanto no New York Herald Tribune como no consagrado New York Times.

Liderança de Pernambuco
Uma foto na capa do Jornal dos Sports no dia do embarque, em 21 de maio, mostra Nelson Cruz, Ricardo Pernambuco e Ivo Simoni, que eram os três principais da equipe e os que jogaram. Mais do que isso eles foram os únicos subsidiados pela CBD. Humberto Costa, Manoel Carlos Aranha, Roberto Whately e Inacio Nogueira tiveram de ir por conta própria ou com a ajuda dos seus clubes e das federações paulista e carioca.

Outro tenista também foi muito cogitado para viajar, Basílio Neto Machado, do clube Paulistano, pois a CBD queria que nossos tenistas fizessem um intercâmbio com os americanos e aprendessem também. Mas no final Basílio não entrou para esta histórica delegação.

A CBD se envolveu com a organização da equipe que tinha a liderança de Ricardo Pernambuco. Mas o presidente Renato Pacheco, mais Oscar Portella, Carlos Lopes e Orlando Silva, tiveram grande participação na primeira grande viagem internacional. Contou também com o apoio do presidente da então forte Federação Paulista, Antônio Prado. E nomeou o cônsul Sebastião Sampaio como chefe da delegação.

Havia um líder técnico e uma voz forte e espírito agregador do grupo. Ricardo Pernambuco tinha o contato e era respeitado pela difícil CBD, que sempre foi acusada da monocultura do futebol e de abandonar os outros esportes. Já nesta época, o basquete, o vôlei e o pugilismo queriam se desvincular e se emancipar da entidade, dominada pelo Rio.

O primeiro movimento para criar a CBT foi no ano seguinte, em 1933, no famoso Torneio Aberto Cidade de Santos, quando exatamente esta mesma equipe brasileira da Copa Davis fez uma grande e ampla reunião liderada sempre pelo Ricardo Pernambuco e por Arnaldo Guinle, ex-presidente e patrono do Fluminense, mas foram massacrados pelos dirigentes cariocas da CBD, que nunca desejaram nenhum esporte fora do seu controle político. Arnaldo Guinle, rico e importante carioca, e Pernambuco tinham uma visão de que o tênis precisava se emancipar.

Por que citar isso? Em 1933, no ano seguinte a nossa estreia, a CBD não conseguiu ajudar nossa equipe a ir jogar a Davis em Santiago, no Chile, e os tenistas ficaram muito decepcionados e extremamente desapontados. Era necessário mudar aquela situação.

Exatos 22 anos depois, em 19 de novembro de 1955, a CBT era criada e neste dia lá estavam Ricardo Pernambuco e Arnaldo Guinle no ato solene e oficial. O tênis brasileiro é uma sucessão de fatos interligados por longos períodos. O espírito daquela equipe de 32/33 foi um pequeno embrião para a luta pela criação da CBT mas isto demorou longos 22 anos para ter sucesso.

O cônsul em seu relatório cita como capitão da equipe Ricardo Pernambuco, mas na prática nos três dias de jogos – 9, 10 e 11 de junho de 1932 – quem realmente esteve sentado na quadra com os tenistas foi Inácio Nogueira. Ele era do Fluminense, um jogador reserva e terminou entrando para a história como “primeiro capitão brasileiro” na Copa Davis.

Interessante que se destaque que a equipe era composta por tenistas dos três grandes clubes que dominavam o tênis brasileiro na época. Ricardo Pernambuco, Humberto Costa e Inácio Nogueira eram do Fluminense. O Club Athletico Paulistano deu o número dois e três da equipe, Nelson Cruz e Ivo Simoni, além do reserva Manoel Carlos Aranha. O outro jogador, mais jovem, era da Sociedade Harmonia de Tênis, Roberto Whately.

Houve campanhas, como sempre, na seleção e escolha dos tenistas baseadas na rivalidade de paulistas fortes na quadra e os cariocas decisivos e influentes na política. Mas a escolha dos três titulares e quatro reservas teve alguma lógica. Convocações da Copa Davis nunca foram unanimidades.

Quem é quem no time
Tecnicamente, é indiscutível que Ricardo Pernambuco era o mais categorizado tenista daquela época e dominou nosso tênis na década de 30 e o tratavam com uma atração, um astro. Talvez ele tenha sido o primeiro ídolo masculino do nosso esporte, assim como Sofia de Abreu foi a primeira no tênis feminino. São frequentes até charges do tenista do Fluminense nas matérias dos jornais mostrando um carinho especial por ele.

Já Nelson Cruz, mais velho, foi o número dois da equipe, porém teve muito azar e já se lesionou no segundo game do primeiro set e não pode nem jogar a dupla e a outra simples. Também retornou bem mais cedo para o Brasil devido à lesão. Cruz dominou o tênis brasileiro na década de 1920 e foi o primeiro a atuar em Wimbledon, em simples e duplas, em 1925, quando perdeu na estreia para o francês Jacques Brugnon, que ganharia a Davis daquele mesmo 1932.

O número três da equipe, Ivo Simoni, que se chamava Ivo Amorim Ultimo Simoni, nome que sempre gera dúvidas e controvérsias, inclusive na grafia. Ele terminou substituindo na sexta-feira, segundo dia dos jogos, dia 10, Nelson Cruz formando combinação com Ricardo Pernambuco.

Interessante também notarmos que os jogos da Davis naquela época eram sempre com duas simples na quinta-feira, uma dupla no dia seguinte e as duas últimas simples no sábado. E a fórmula tinha outra particularidade: o campeão do ano anterior não jogava as eliminatórias zonais e interzonais. Só entravam no chamado “Desafio Final”. O campeão do ano anterior levava grande vantagem pois sempre só jogava um confronto, defendia o título.

Domínio de franceses e americanos
Foi nessa fórmula do “Desafio Final” que os famosos Quatro Mosqueteiros Franceses dominaram a Copa Davis de 1927 a 1932. René Lacoste, Jean Borotra, Henri Cochet e Jacques Brugnon ganharam seis títulos seguidos nessa fórmula, o que não os diminui em nada pois era uma equipe fabulosa.

Ainda contextualizando, os grandes nomes do tênis na época e campeões dos Grand Slam entre 1931 e 33 eram Jack Crawford (cinco títulos), Ellsworth Vines, Sidney Wood, Fred Perry e os franceses Henri Cochet e Jean Borotra, que começavam um novo ciclo notável que seria marcante.

Registre-se que Ricardo Pernambuco venceu Fred Perry (12-14, 6-1, 6-4, 2-6 e 6-3) quando fez exibições no Rio de Janeiro e também ganhou do outro inglês muito conhecido que veio jogar aqui, bicampeão da Davis em 1933-34, Harold Lee (6-3, 6-4, 5-7 e 6-2), em setembro de 1930, quando assumiu o posto de número um indiscutível do País.


Qualidade dos americanos
A equipe norte-americana era muito forte, quase imbatível e naquele ano de 1932 venceram a fase americana facilmente. Depois bateram o Brasil por 5-0 na etapa final intercontinental das Américas e foram para o Interzonal contra a Europa e também ganharam dos alemães. Adquiriram esse direito e chegaram ao “Desafio Final” contra os campeões do ano anterior, os franceses, e perderam para os únicos que tinham condições de vencê-los e o fizeram no último dia por 3 a 2, em Roland Garros, quando os donos da casa completaram o sexto título seguido.

Basicamente eles usaram contra o Brasil três tenistas: Wilkmer Allison, Frank Shields e o consagrado especialista duplista John van Ryn, que nasceu em 1905 e morreu em 1999.

Wilkmer tem na carreira 15 finais de Grand Slam, cinco títulos, inclusive o Nacional americano, em 1935. Ele era um exímio voleador e grande duplista. Após a carreira virou técnico de tênis. Nasceu em 1904 e morreu em 1977. Shields tem três vices em Grand Slam e Van Ryn possui 11 finais de duplas em Slams com cinco títulos. Depois que encerrou a carreira, Shields virou ator famoso. Era uma pessoa muito bonita, jogava bem na quadra e tinha mais sucesso fora das canchas com as mulheres e era muito polêmico. Foi avô da bela Broke Shields, ex-esposa do Andre Agassi. Nasceu em 1909 e morreu em 1975.

Pioneirismo difícil na América do Sul
Também não podemos ficar com o complexo de vira-lata como dizia o grande saudoso genial cronista Nelson Rodrigues por demorarmos muito para chegar na Davis e ainda perder como visitante por 5 a 0 para uma equipe tão forte.

Os países da América do Sul tiveram de lutar muito para entrar na Copa Davis. A sequência foi essa: 1922, Argentina; 1928, Chile; 1931, Uruguai e Paraguai; 1932, Brasil; 1957, Venezuela; 1959, Colômbia; 1961, Equador; 1968, Peru; 1971, Bolívia, que foi o último dos filiados da Confederação Sul-americana a entrar na Davis.

Por que não deveríamos sentir-nos diminuídos? Vejam, a Argentina ambicionava há muito disputar a Davis. Surgiu a oportunidade e foi convidada em 1920 e não teve condições. Depois tentaram que nossos irmãos fossem em 1921 e novamente não puderam se inscrever. A nossa vizinha Argentina não tem história diferente. É impressionante como essa forte equipe e de um tênis mais estruturado do que o nosso também teve percalços e ou não se inscrevia como em 1932 na estreia brasileira ou perdia de WO.

Notem que mesmo em 1922, quando estreou contra a Bélgica e perdeu em Bruxelas, por 4 a 1, a equipe da Argentina só conseguiu ir pois ganhou três bilhetes gratuitos numa grande cortesia da empresa dona do navio que fazia este trajeto. Foram cinco tenistas para o confronto e então eles tiveram que simplesmente fazer uma corrente e rifas para reunir os valores que completavam o orçamento e custo total da viagem e as passagens dos outros dois tenistas, um deles o capitão-jogador.

E ainda temos que considerar que nas fórmulas antigas da Davis o país sede tinha que oferecer hotel, alimentação e transporte interno. Mesmo assim a Argentina, Brasil, Chile e outros países menores tinham muitas dificuldades neste evento que é o mais tradicional do tênis mundial junto aos torneios do Grand Slam.

Finalmente em 1922, quando o Brasil comemorava o Centenário da sua Independência, os dois países pensaram em jogar este evento. O Brasil alegou para a Argentina que toda a sua verba estava designada para um evento que comemoraria o centenário da nossa Independência e declinou da ideia e ainda demorou 10 anos longos para entrar em quadra. Mas em 1922 os argentinos viajaram 24 dias de navio e chegaram a Bruxelas e perderam por 4 a 1 e finalmente a América do Sul aderia pela primeira vez ao evento.

Estreia marcada
É bom destacar também como o Brasil só conseguiria jogar a Copa Davis após 31 anos de sua criação em 1900 e na 27ª edição pois não houve disputa entre 1915-18 na Primeira Guerra Mundial. O Brasil viveu uma situação singular. Foi convidado a participar em 1930 e não conseguiu nem se inscrever. Em 1931 se inscreveu, porém após o sorteio contra o Chile, jogo em Santiago, não teve condições de comparecer. Joga em 32 e no ano seguinte já não vai e perde de WO no Chile.

Vejam que neste ano da estreia brasileira de 1932 a própria Argentina resolveu não se inscrever por falta de verba. E este ano foi trágico para a América do Sul, pois primeiro o Chile perdeu por WO e depois o Uruguai repetiu o mesmo problema e não compareceu também contra o Brasil mesmo os jogos sendo marcados para Buenos Aires próximos a data do Aberto da República Argentina. Só assim o Brasil foi para a final da interzonal americana enfrentando os Estados Unidos. Os chilenos e paraguaios exigiam que o Brasil fosse enfrentar estas equipes em Santiago e Assunção e não havia ainda clareza como os jogos tinham suas sedes definidas e nem eram sorteadas na época.

Para enfrentar o Brasil, os Estados Unidos antes ganharam em abril do México e também como sede derrotaram pelos mesmos 5 a 0 o Canadá em maio. Aí ocorreram as coisas estranhas da antiga Davis, pois eles superaram a Austrália, como sede, também por 5 a 0, já que aquele longínquo país fora colocado na zona do Caribe e América Central.

Nos 30 primeiros anos de Davis as inscrições não superavam 30 países e havia esses malabarismos regionais. É bom lembrar que o próprio Brasil antes e na época do Thomaz Koch e Édison Mandarino muitas vezes jogou a zonal europeia em detrimento da sul-americana. Neste ano de 1932 tivemos 22 equipes na zonal europeia e mais 8 somando as três Américas e ainda incluindo a Austrália. Eram tempos difíceis e pioneiros. A Copa Davis mais moderna já chegou a ter 134 países em 2004.

Treinos e sorteio
Em junho o estado de Nova York com o verão recebe um grande volume de turistas. A viagem de navio durou 14 dias do Rio até Nova York e foram percorridos 8.070 km até a cidade sede do primeiro jogo do Brasil na Copa Davis. A equipe de sete tenistas tinha agora seis dias para treinos e se preparar num clima agradável e com um fuso horário de apenas uma hora de diferença para o Rio.

Nos tempos atuais uma viagem dessas é feita em média de 12h45 com uma escala. Nossa equipe ficou em pleno Oceano Atlântico por 14 dias e sem nenhum treino ou jogo. Ricardo Pernambuco, Inácio Nogueira e Manoel Carlos Aranha levaram suas senhoras. Uma particularidade, este último, Carlito Aranha era casado com uma grande tenista, a paulista Maria Prado Aranha, e aí houve o toque do tênis feminino na delegação. Com o chefe da delegação nosso primeiro grupo de Copa Davis na história foi de 11 pessoas, 3 esposas presentes, 7 tenistas e um dirigente.

No dia 8 de junho, quarta-feira, num almoço oferecido pela USLTA o árbitro geral Holcombe Ward realizou o sorteio na frente das equipes, da imprensa, do chefe da delegação brasileira e do presidente da USLTA, Louis Carruthers.

Bola em jogo
Na primeira partida do Brasil na Davis, o notável Ricardo Pernambuco mostrou que era um tenista que surpreenderia o seu adversário e o público. No primeiro set ele estava muito nervoso e estranhou o jogo rápido de Frank Shields e perdeu por 6/1. No segundo set começou a melhorar e mostrou que não era qualquer um e venceu por 6/3. Jogou bem o terceiro set mas perdeu por 6/3. O público e o adversário não estavam entendendo o que ocorrera com o equilíbrio do jogo.

Pior ainda, o brasileiro chegou ao auge do seu jogo no quarto set. Incrível que o brasileiro teve 40-15 e saque no 5/4, mas deixou escapar a chance de fechar o quarto set. Shields venceu de forma espetacular por 8/6. Foi o suficiente para o americano dar o seu máximo e vencer brilhantemente. Resultado disso: todo o público aplaudiu e ovacionou de pé os dois tenistas.

Os comentários do público e dos jornalistas em Forest Hills eram de que Ricardo Pernambuco mostrava ser um tenista que não tinha nada de inferior aos argentinos e australianos que eles já conheciam e receberam lá como seus visitantes.

E o resultado correto deste jogo é vitória do americano Shields por 6/1, 3/6, 6/3 e 8/6, bem ao contrário do que consta na internet, livros, revistas e sites. Esta matéria corrige assim erro histórico das nossas narrativas, após intensas e longas pesquisas em muitos jornais da época e baseado no relatório final oficial do chefe da delegação brasileira.

O resultado equivocado sempre até hoje divulgado de vitória de Shields sobre Pernambuco por 6/1, 6/3, 0/6 e 6/4 nunca existiu e está errado. Ricardo Pernambuco neste confronto jamais ganhou o terceiro set de 6/0 de Shields, há provas evidentes e fortes que isso nunca ocorreu. O erro é até maior pois cita que Pernambuco fez o segundo jogo da série quando ele e Shields abriram a programação daquele longínquo dia 9 de junho de 1932, em Forest Hills.

Contusão no segundo jogo
Nelson Cruz foi derrotado por Wilkmer Allison, por 6/1, 6/2 e 6/3 na segunda partida da quinta-feira. Ainda no primeiro set o brasileiro se lesionou gravemente no cotovelo ao resvalar, foi atendido por 10 minutos e terminou o jogo com dificuldades. Depois foi aconselhado por equipe médica a não atuar mais e engessou o braço. Retornou bem antes ao Brasil, se desligando da equipe que chegou a permaneceu até seis semanas nos Estados Unidos.

Mas Nelson Cruz não decepcionou o público. Ele era um tenista técnico, jogo defensivo e regular. Já não estava no seu auge, que tinha sido na década anterior, mas possuía boa mecânica de golpes, estilo clássico e apenas não conseguia acompanhar o ritmo muito rápido de Allison, sendo que no primeiro set teve um desempenho bem melhor do que após a lesão.

Dúvida nas duplas
Houve muitas dúvidas para o terceiro jogo. Quem seria o parceiro de Pernambuco e foram cogitados quase todos. Se pensou no jovem promissor Roberto Whately, depois em Humberto Costa que era parceiro do nosso melhor jogador lá no Fluminense. Pensaram em Manoel Carlos Aranha que era o parceiro assíduo do Nelson Cruz no Paulistano e em Ivo Simoni, o número três da equipe e que formava também uma forte dupla com Carlito Aranha. Finalmente, Ivo Simoni foi o escolhido pelo líder técnico e a personalidade mais forte do grupo, Pernambuco, participando na decisão Inácio Nogueira.

Se os singlistas americanos eram bons a dupla então nem se fala. Tinha um especialista, John Van Ryn, que juntamente com Wilkmer Allison venceram bem por 6/1, 6/1 e 6/2. Com a lesão de Nelson Cruz em tese a nossa melhor dupla ficou inviável e os adversários eram também muito fortes. Juntos, essa dupla tem 23 finais dos maiores torneios do mundo naquela época e hoje. Era uma grande diferença e não havia como vencer.

No último dia, a diferença
No encerramento do duelo, ficou ainda mais evidente a supremacia dos norte-americanos e ainda acentuada sem nosso número dois, Nelson Cruz. A CBD e os nossos tenistas sempre souberam que iam perder, mas achavam importante entrar no maior evento por equipes do mundo e ter um intercâmbio técnico com tenistas renomados dos maiores centros. Por isso entraram jogadores menos experientes na delegação, Humberto Costa, Roberto Whately e Carlos Aranha.

Wilkmer, que também era chamado de Wilmer Allison, venceu Ricardo Pernambuco por 6/1, 6/2 e 6/0 e, depois no quinto e último jogo o tenista que era especialista em duplas terminou sendo escalado para a partida. John Van Ryn superou Ivo Simoni, por 6/2, 6/0 e 6/0. Completava-se o 5 a 0 no primeiro jogo de 90 anos da história do Brasil na Copa Davis.

Alegrias e tristezas
Registrar e resumir estes 94 anos são quase pauta de um livro, um filme, documentário ou uma outra longa matéria especial. É uma história rica em feitos notáveis, decepções amargas e resultados surpreendentes, tanto no bom como no mau sentido.

Nos orgulhamos das semifinais de 1966, 1971, 1992 e 2000, mas nossa vizinha Argentina já chegou em cinco finais, inclusive em duas perdeu em casa, mas na última, em 2016, conseguiu este grande feito superando a Croácia como visitante. O Chile chegou em uma final e perdeu para a Itália em casa, em 1976.

Mais compromissos e retorno
Nas seis semanas posteriores à derrota, os brasileiros cumpriram, conforme já era previsto, uma agenda de vários compromissos e não decepcionaram. Não ganharam título algum, como era previsto, pois o tênis americano era muito superior. Mas não fizeram fiasco e também mostraram que tínhamos que ter mais contato com centros maiores, estimular os intercâmbios técnicos, como se exige até hoje.

Os brasileiros jogaram torneios em Providence Rhode Island, Agawan Hunt, Eastern Clay Court, Massachussets, Glincore, Brookline, Richmond County e em Chestmut Hill. Novamente Ricardo Pernambuco impressionou a todos e era citado em matérias de pequenos jornais locais, pois com uma exceção sempre conseguiu passar duas rodadas e chegou até quartas de final e uma semifinal.

A técnica de Pernambuco, com a originalidade naquela época do golpe a duas mãos e uma forte direita famosa já no Brasil, eram o ponto de atração dos nossos tenistas. Não é exagero afirmar que ele foi nosso melhor jogador antes do marcante trio Alcides Procópio-Maneco Fernandes-Armando Vieira, este o nosso maior tenista da era bem mais antiga.

Mas nestes vários torneios menores pós-Davis todos acumulavam algumas vitórias, conseguiam uma segunda rodada em simples e se superavam também em duplas, mesmo os adversários não sendo de forma alguma do nível da equipe americana que nos derrotou. Isso foi muito importante para todos no processo de conhecer uma outra cultura tenística forte e marcante.

Nelson Cruz pela lesão voltou rápido. Depois Pernambuco retornou só com a esposa em 17 de julho. Também voltou Humberto Costa e finalmente todos estavam de volta para casa, sempre de navio.

O tênis brasileiro tinha cumprido sua primeira viagem internacional transcontinental com a nossa equipe de elite nacional, pois antes nossos contatos eram apenas com sul-americanos e em eventos no Uruguai, Chile e Argentina e recebendo no Brasil europeus, americanos ou australianos para jogos de exibições, mas não oficiais.

WALMOR ELIAS, gaúcho de Santa Maria, é bacharel em Comunicação Social e em Letras e Artes, também professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa. Atuou como jornalista especializado em tênis por 13 anos no Correio do Povo e nas extintas Folha da Tarde e Folha da Manhã, de Porto Alegre, e correspondente das revistas Tênis Ilustrado e Tênis. Entre 1977-89, foi dirigente da Federação Gaúcha de Tênis e presidiu a entidade por seis anos, foi vice da Confederação Brasileira entre 1984 e 86 e presidiu a entidade entre 1990 e 93. Aos 70 anos, doou seu extenso arquivo para a criação do Memorial Tênis Brasileiro, entidade que preside desde 2023

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JOAO RACCA
JOAO RACCA
1 mês atrás

Excelente crônica de um resgate histórico inédito talvez, da nossa memória tenÍstica. Parabéns aos curadores do Blog pela iniciativa de publicá-la. Que venham outras!

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