Tendência ou exceção? Ambidestros ganham espaço no juvenil

Teodor Davidov (Foto: Reprodução/Instagram)

Na última semana, o norte-americano de 15 anos Teodor Davidov marcou seus primeiros pontos no ranking da ATP ao avançar desde o quali até as quartas de final do ITF M15 de Naples, em quadras de saibro nos Estados Unidos. E além da pouca idade, o jovem tenista também chama atenção por seu estilo de jogo, ambidestro e com dois forehands.

Apesar de raro, o caso de Davidov não é inédito. Outros juvenis de diferentes países também jogam dessa forma, com um exemplo até mesmo no Brasil. Nesse cenário, treinadores que trabalham com formação de tenistas avaliam se o estilo pode ser adotado em nível profissional e se essa tendência pode aumentar entre as gerações mais novas.

Para Léo Azevedo, Head Coach da Rede Tênis, a viabilidade do modelo no alto rendimento ainda é incerta. “Hoje o americano é o terceiro jogador na idade dele a ter ponto na ATP, então ele é um dos melhores do mundo para a idade. Mas num nível maior, acho difícil de manter esse estilo, porque o tênis é muito rápido e não te dá chance de ficar trocando de mão”, disse Azevedo, em entrevista a TenisBrasil.

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“Acredito que, com o tempo, ele vai trocar para o backhand de uma ou duas mãos. Acho difícil no alto nível, pela velocidade do jogo, ele continuar jogando dessa forma. Sou mais conservador quanto a isso. Não temos hoje nenhum jogador entre os 100 ou 200 do mundo jogando dessa maneira”, acrescentou o experiente treinador.

A opinião de Azevedo é compartilhada por Santos Dumont, treinador de Guto Miguel, brasileiro mais bem colocado no ranking mundial juvenil, atualmente na terceira posição. Ele observa os casos com cautela e acredita ser um caminho natural para que o jogador adote um lado dominante quando chegar ao alto nível. O treinador também comenta que já foi consultado por alunos e pais interessados em saber mais sobre esse estilo.

“Na minha opinião é um jeito mais complicado que os outros. Antigamente tinha gente que jogava assim, mas com as duas mãos. Acho muito difícil, mas tudo é possível”, comentou. “Já tive alunos e pais que me pediram para fazer isso e não me adaptei, porque acho mais complicado. Quem teve coragem, fez. E está dando certo até aqui para ele, mas o tempo vai dizer”.

Dumont relembrou o caso do norte-americano Luke Jensen, que acabou tendo uma carreira de sucesso nas duplas e conquistou 10 títulos na ATP, incluindo Roland Garros em 1993, além de alcançar a sexta posição no ranking mundial da modalidade, competindo com seu irmão Murphy. Jensen dominou tão bem o saque ambidestro que, no auge de sua carreira, conseguia sacar a 210 km/h com qualquer das duas mãos. “Ele sacava bem dos dois lados, mas estava parado. Agora, com a bola viva e rápida é mais difícil. Acho que no juvenil ainda é possível. Mas como é tudo muito novo, vamos esperar para ver como ele vai se comportar até o profissional”, avaliou.

O técnico Danilo Ferraz, que trabalha com Azevedo na Rede Tênis e treina a juvenil Nauhany Silva, complementou: “O fato de não ter nenhum jogador assim no circuito hoje, seja masculino ou feminino, já é um indicador. E o principal motivo é a velocidade do jogo, que está ficando cada vez mais rápido e físico. Essa é uma peculiaridade que você vai ver de vez em quando. E se surgir um tenista assim jogando bem é porque o cara é muito diferente por algum motivo”.

Já o brasileiro Karue Sell, que enfrentou Davidov e foi superado com parciais de 6/3 e 6/4, divulgou nas redes sociais que estava impressionado com o jogo do jovem rival. “O Teo é o jogador mais impressionante que eu já vi ou enfrentei. Tem ótima atitude, é um grande competidor. Deu um nó na minha cabeça. Tenho um novo jogador favorito. Foi uma derrota dura, mas estou feliz por ter dividido a quadra com ele”.

Mouratoglou acredita que é possível se profissionalizar dessa forma

Além do norte-americano, outro juvenil que já começa a se destacar é o alemão Lucas Herrera Sanchez, que disputou o tradicional torneio Les Petits As, um dos mais importantes do mundo na categoria 14 anos, e foi semifinalista na temporada passada. As atuações de Herrera chamaram a atenção do francês Patrick Mouratoglou, ex-técnico de Serena Williams e que administra sua própria academia de tênis. “Quando ele prepara para bater o forehand, independentemente de ser do lado esquerdo ou direito, ele usa a mão não dominante para ajudá-lo a executar o forehand nos dois lados”, comentou.

“Muitas pessoas me perguntam se ele poderia jogar assim no profissional. Eu não vejo nenhuma razão para isso não funcionar. A maioria dos jogadores estão acostumados a ter um golpe para atacar e outro para o contra-ataque. Em geral, eles atacam com o forehand”, avaliou o francês. “É incomum. E tudo o que é incomum pode se tornar uma vantagem. Eu não vejo nenhuma razão objetiva para ele não chegar ao nível mais alto tendo dois forehands, além de conseguir sacar dos dois lados. Não vejo isso como um problema para ele chegar ao nível máximo”.

No circuito profissional, um caso recente é o do sul-coreano Cheong-Eui Kim, que era ambidestro para o saque e executava forehands dos dois lados. Ele conquistou 13 títulos de nível ITF, entre 2013 e 2022, seu último ano no circuito. A melhor colocação que atingiu no ranking foi o 296º lugar em 2015.

Davi Raposo, de 8 anos, joga torneios infantis no Brasil com esse estilo

Um jovem tenista brasileiro também segue essa linha de jogo com dois forehands. Davi Raposo, de apenas oito anos, natural de Petrópolis, disputa torneios infantis no Brasil com esse estilo pouco convencional. Ele tem se destacado nas competições da categoria Tennis Kids e conquistou, na última temporada, o título de sua idade no Banana Bowl, em Barueri. O pai Cristiano Raposo explica que a característica surgiu de forma natural e acabou levando o filho a desenvolver uma técnica própria.

“Quando ele era bebê, a gente tinha dificuldade para identificar o lado dominante. Começou no futebol com dois anos e chutava com as duas pernas, dominava com as duas e pegava as coisas com as duas mãos. Em determinado momento, achamos que ele tinha mais habilidade do lado esquerdo, colocamos o lápis nessa mão e ele acabou se alfabetizando como canhoto”, conta.

No tênis, o início foi durante a pandemia, quando Davi tinha quatro anos e meio. “Na primeira aula, o professor colocou a raquete na mão direita e eu avisei que ele era canhoto. Só que em um momento ele trocou para a direita e bateu naturalmente. O professor até perguntou se tínhamos certeza. Como ele já estava mais definido à esquerda, seguimos assim. O forehand do lado esquerdo evoluiu rápido, enquanto o backhand era usado apenas para manter a bola em jogo”.

“Até que a gente se mudou e teve que parar de fazer aula durante um tempo. Arrumamos outro professor, que foi ensinar para ele o backhand. Um dos exercícios era bater a bola com a mão não dominante”, explicou o pai, ao relatar que Davi repetiu espontaneamente o mesmo gesto técnico do forehand. “O professor percebeu que ele tinha muita habilidade também com a direita. A partir dali, passou a estimular os dois lados”. Aos seis anos, o tenista já executava forehands de ambos os lados, com mais força à esquerda, pela base construída desde cedo.

Cristiano conta que a troca de mãos acontece ainda na preparação do golpe. “Ele puxa a raquete para trás e é nesse momento que faz a mudança. Foi algo que ele desenvolveu naturalmente. Logico, ele está com oito anos e o tempo de reação ainda vai evoluir. Mas é o suficiente para ele jogar na categoria dele. Consegue jogar tranquilamente trocando de mão. Quando a bola acelerar, aí já não sei. Mas ele tem jogado em alto nível e vencido muitos torneios, ganhou o Banana Bowl em simples e duplas, ganhou o Brasileirão em Betim, foi finalista em Uberlândia… Então, ele tem ido bem nos campeonatos”.

A curiosidade também chama atenção nos torneios. “Esse estilo acaba sendo um fator surpresa quando alguém vai jogar com o Davi, porque ele ataca dos dois lados. Você está subindo para a rede e joga no backhand do teu adversário, mas nesse caso ele não tem esse backhand. Isso cria uma certa duvida”, explicou. “Muita gente vem falar com ele, tem jogo que enche arquibancada”. Ainda assim, o pai é cauteloso ao projetar o futuro. “Virar tendência? Acho difícil. Tente jogar com a mão não dominante para ver como é complicado… Eu já tentei brincar com a mão esquerda e sinceramente não consigo acertar a bola. Depende muito dessa habilidade específica”.

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Gabriel Potin
Gabriel Potin
18 dias atrás

Com a direita ele pega um pouco mais em coma da raquete, pra ter espaço pra mão esquerda. Então nao ha esse problema do tempo pois as duas maos ja ficam posicionadas no local do golpe. Igual um jogador de bh 2 h noral

Rafael Guimaraens
Rafael Guimaraens
18 dias atrás

Ótima matéria. Creio que isso funciona para os ambidestros. Minha mãe nunca jogou tênis, mas escrevia e fazia as coisas do dia-a-dia com as duas mãos indiferentemente. Lembro que Nadal jogava com a mão esquerda, mas escrevia com a direita. Moyá, ao contrário. Em algum momento, eles fizeram a opção por uma das mãos.

Neto Gomes
Neto Gomes
17 dias atrás
Responder para  Rafael Guimaraens

Djokovic, com as mãos é destro e com os pés é canhoto.

Refaelov
Refaelov
18 dias atrás

Acho inviável profissionalmente se o jogador só souber jogar dessa forma e não conseguir executar um backhand minimamente competitivo mas, pode sim começar a aparecer no profissional e ser usado pontualmente, sobretudo qnd o atleta estiver na ofensiva, em momentos pontuais..

Agora engraçado o Leo Azevado se desfazendo do recurso porque “Não temos hoje nenhum jogador entre os 100 ou 200 do mundo jogando dessa maneira…” se o critério for esse então pode se desfazer da academia inteira dele q, no momento, n tem nenhum atleta nessa faixa de ranking..

Groff
Groff
17 dias atrás

A parte que não vejo ser discutida é a estrutura do jogo atual, e como ele é mais afeito a que isso aconteça. Com os jogadores cada vez mais fortes e velozes, mas as quadras cada vez mais lentas e, principalmente, o “bounce” da bola bem mais alto e vagaroso, o tempo para a troca de empunhadura hoje parece factível, o que não seria 20 anos atrás. A não ser que isso mude (na verdade, a lentidão só parece aumentar), tenho a impressão que ambidestros podem vir a competir no futuro da ATP.

João Prates
João Prates
17 dias atrás

Além de ser incrivelmente feio, não tem qq chance de vingar no profissional.

Porkuat
Porkuat
17 dias atrás

30/40 anos atras não existia open stance e com certeza pensavam ser impossivel em nivel competitivo, Nada impede ele ter um slice defensivo e quando a bola sobrar trocar a raquete de mão para soltar um winner. Para o saque um ambidestro pode dar um verdadeiro nó na cabeça do adversário. Se isso vai dar certo ou não o tempo dirá.

Fonseca
Fonseca
16 dias atrás

Excelente reportagem! Parabéns! Eu já vi Davi Raposo jogando algumas vezes. Sem dúvida ele se beneficia por ser ambidestro. Se Teodor Davidov conseguiu pontuar no ranking da ATP jogando assim, outros também podem conseguir.

Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.
Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.

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