PLACAR

Talento premiado

Mesmo quem não entende profundamente de tênis percebe com clareza que João Fonseca tem talento de sobra. E isso não é de hoje. Seus golpes de base são fluídos, pesados e ousados, ele não titubeia se precisar ir à rede, usa o saque nos momentos importantes e segura a cabeça quando está atrás do placar ou sob pressão.

Não à toa, já fez partidas significativas entre os profissionais, tanto em nível ‘future’ como em challengers, tendo vencido até Thiago Wild, um jogador que o carioca costuma ter como parâmetro devido à grande semelhança de estilos. Isso tudo antes de completar 17 anos, o que aconteceu há apenas 18 dias, algo que definitivamente não estamos acostumados.

Assim, a conquista do US Open não chega a ser surpresa. Diante da escola italiana ou americana, mostrou qualidade superior à de seus adversários, o que inclui também a resistência ao clima pesado de Nova York. A bola de Fonseca anda muito mais e ele enxerga bem o jogo e suas oportunidades de ataque. Tem deficiências? Óbvio. Mas está um passo adiante do universo juvenil e por isso espera-se que se dedique ao circuito profissional já em 2024.

O risco de cobranças e expectativas exageradas são inerentes ao tão necessitado tênis brasileiro. Alguém já perguntará se surgiu um novo Guga, mas tais comparações me parecem desculpáveis para quem desconhece que o profissionalismo é um degrau bem elevado e de que tropeços acontecem aos montes. Vocês já ouviram falar de Oliver Golding, Omar Jasika ou Jonas Forejtek? São campeões juvenis do US Open da última década. Se pegarmos um exemplo bem caseiro, Wild ganhou também em Flushing Meadows em cima de Lorenzo Musetti e só agora, cinco temporadas depois, enfim chegou ao top 100.

É muito correto que comemoremos o feito de Fonseca, cujo troféu erguido é fruto direto do seu potencial e de esforço bem dimensionado. Além de ter uma família com recursos e que parece saber exatamente até onde deve se intrometer na carreira do garoto, por trás existe o acompanhamento próximo de André Sá, que não gosta muito de aparecer mas que transfere experiência e confiança. E João confia no trabalho competente do treinador Guilherme Teixeira.

Vale recordar que Fonseca é apenas o terceiro brasileiro a ganhar um troféu de simples em torneios juvenis do Grand Slam, repetindo Tiago Fernandes e Wild, e será nesta segunda-feira o terceiro a liderar o ranking, como Fernandes e o gaúcho Orlando Luz.

Coco agarra sua chance
O talento premiado também cabe como uma luva à adolescente norte-americana Coco Gauff, que aliás pode servir como bom exemplo a Fonseca. Fenômeno de precocidade, entrou no circuito aos 14 anos e sempre se esperou dela repetir o sucesso de Serena e Venus Williams. Mas nada é tão simples assim. Embora tenha feito progresso evidente e subido paulatinamente na carreira, a pressão por resultados pesou em proporção quase semelhante.

Seu desabafo durante a cerimônia de premiação foi sintomático e precioso. Mesmo na condição de uma top 10, ela revelou que ninguém se entusiasmou quando ganhou o 500 de Washington semanas atrás e muitos consideraram seu limite o título do 1000 de Cincinnati, três semanas atrás. Por isso, agradeceu àqueles que não acreditaram nela, porque transformou isso em motivação.

A campanha rumo ao título inédito passou apertos, como na estreia diante de Laura Siegemund, em que correu risco de eliminação; obteve outra virada logo depois contra a experiente Elise Mertens e precisou de paciência contra a vetenana Caroline Wozniacki. Só então Gauff realmente se soltou. Fez ótimas partidas contra Jelena Ostapenko e Karolina Muchova, já demonstrando lapidada capacidade defensiva.

Na final contra Aryna Sabalenka, começou muito mal, dando a impressão que repetiria a falta de controle emocional da decisão de Roland Garros do ano passado, mas desta vez ela lutou muito por cada ponto, soube sofrer com paciência e achar as brechas que a futura número 1 do mundo lhe deu. Sabalenka cometeu 46 erros, com 32 deles surgindo nos dois sets finais.

Oitava diferente americana a ganhar o US Open na Era Profissional, Gauff avançará a um inédito terceiro lugar do ranking e ainda é cedo para sonhar com a liderança. Mas a primeira grande barreira foi superada e o que não faltam a Gauff são tempo e oportunidades.

Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br
Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br

PUBLICIDADE

VÍDEOS

Quando os tenistas se machucam, mas ainda vencem

ATP seleciona as 10 melhores jogadas do ATP FInals