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Série da ATP destaca Monteiro, sua luta e gratidão à família que o adotou

Reprodução de arte da ATP

A mais recente edição da série My Point, no site da ATPTour.com, retrata Thiago Monteiro, número 2 do Brasil e 117º do ranking mundial, mostrando como ele lida com o fato de ser filho adotivo e como sua família fez dele quem ele é hoje. A entrevista foi dada ao jornalista Andrew Eichenholz. Monteiro estreia no Rio Open nesta terça-feira às 19h (de Brasília) diante do espanhol Carlos Alcaraz, vice-líder do ranking mundial.

“Uma das histórias que minha mãe me contava quando eu era pequeno era que eu era um presente de Deus, que me mandou em uma cegonha e me entregou na porta da casa dela. É engraçado pensar nisso hoje. Aí minha mãe me disse que eu vinha de outra família, mas que ela me amava da mesma forma que seus filhos de sangue. A verdade é que fui adotado”, contou Monteiro.

“A mãe biológica frequentava um grupo da igreja católica e, quando engravidou de mim, não tinha condições de criar um filho. Minha mãe, Fátima, também estava lá e achou que seria uma ótima oportunidade para adotar uma criança. Na época, foi um momento muito difícil para ela, que sofria de câncer de mama, mas sempre foi uma lutadora. Em sua mente, adotar uma criança tinha a chance de ser uma estrela brilhante que traria a felicidade de volta à sua vida. Felizmente ela se recuperou e não só me adotou, mas também adotou mais duas meninas, minhas irmãs mais novas, Letícia e Jéssica”, continuou o tenista cearense.

“Eu realmente nunca soube que fui adotado até os nove ou dez anos de idade. Algumas crianças sofrem quando descobrem que foram adotadas. É uma coisa difícil e leva tempo para processar. Mas nada mudou para mim. Sempre me senti parte da família, então continuei vivendo. Nunca pareceu diferente. Eles me deram todo o apoio e amor que eu precisava, então nada faltou na minha vida.”

Monteiro, que está com 29 anos, continuou seu relato. “Muitas pessoas perguntaram se tenho curiosidade em conhecer minha família biológica. A verdade é que não. Não sei se isso é errado da minha parte, mas sempre senti que minha família é a que tenho agora. Não me interpretem mal, sou muito grato pelo que minha mãe biológica fez. Nunca é fácil desistir de um filho, mas ela sabia que seria o melhor a fazer para que eu pudesse ter um futuro”.

Monteiro com o irmão Faber e a mãe Fátima (fotos do arquivo pessoal)

“Houve muitas situações difíceis para minha mãe, desde dificuldades financeiras até câncer de mama e a criação de todos nós sozinha. Acredite em mim, não foi um trabalho fácil. Mas ela sempre me inspirou e continua a inspirar até hoje. Sempre aprendi com ela a pensar da forma mais positiva, sempre sorrir e ter fé. Ela me ensinou resiliência e persistência. Hoje sou um dos principais tenistas do Brasil. Mas se não fosse pela minha família, eu não estaria aqui.”

Monteiro contou que quando sua mãe o adotou, ela havia se divorciado um ano antes. “Meu irmão mais velho, Faber, tinha 15 anos na época e era a figura paterna de nossa família. Minha mãe também teve uma filha biológica, Flávia. Nos meus primeiros anos, concentrei-me apenas em um esporte. Queria ser jogador de futebol. Encontrar o tênis foi uma feliz coincidência. Meu irmão jogava tênis em uma quadra do outro lado da rua onde eu praticava futebol e foi lá que bati minhas primeiras bolas aos oito anos. Faber sempre foi meu maior apoiador no tênis. Ele achava que eu poderia jogar muito bem e que tinha talento. Ele tinha esse sonho que eu jogaria tênis, o que é engraçado, porque ele nunca tinha visto um jogador profissional. Eu nunca acreditava nele quando ele me elogiava.”

O jogador de Fortaleza seguiu no seu relato e contou que trabalhou com um treinador local uma hora a cada três dias e que aos 12 anos começou a ganhar pequenos torneios. “Faber me levava de carro a torneios maiores. Eu era seu irmão mais novo, mas ele cuidava de mim como filho.

Comecei a jogar contra caras que treinavam de manhã e à tarde em grandes academias e de alguma forma fui vencendo. Aos 14 anos, tive a oportunidade de me mudar para o Sul do Brasil, fui para a academia do técnico de Gustavo Kuerten, Larri Passos. Guga e seu irmão passaram a ser como meus agentes. Eles me apoiaram na mudança, pagaram meus treinos e minha moradia. O Guga até me ajudava a praticar um pouco quando eu tinha 15 ou 16 anos. Ele foi o número 1 do mundo! Esse era o cara que eu queria ser no tênis, então isso ajudou muito na minha confiança quando eu era juvenil.”

A mudança para um novo ambiente e métodos de treinamento não foi fácil. “Havia muitos jovens excelentes e até profissionais lá, e era como um mundo totalmente diferente de onde eu cresci. Todos faziam treinamento físico, recuperação e prática de tênis todos os dias. Eu não estava acostumado com essa intensidade”, confessou.

“Poucos meses depois de me mudar, eu estava pronto para desistir. Desde toda a prática até passar todo aquele tempo longe da minha família, fiquei exausto aos 15 anos. Eu disse a Larri que não era muito bom no tênis e que só queria ir para casa passar um tempo na praia e beber água de coco. Larri me contou que Guga pensava a mesma coisa e tinha os mesmos problemas. Poucos dias depois, Guga me contou que um ano antes de vencer seu primeiro Roland Garros não tinha apoio de patrocinador e estava prestes a ir para os Estados Unidos para tentar se firmar como profissional. Mas as coisas começaram a acontecer e no ano seguinte ele ganhou o seu primeiro Grand Slam. Ele me ensinou que situações difíceis acontecem para todos e cabe a você lidar com a situação. Foi muito inspirador.”

Esse toque de Guga foi importante para dar um novo ânimo a Monteiro. “Se uma pessoa como o Guga acreditava em mim, por que eu não acreditaria? Comecei a crescer mentalmente e isso realmente me ajudou em muitas situações difíceis. Acabei me tornando o segundo juvenil do mundo aos 17 anos. No meu primeiro ano como profissional, cheguei ao número 250, mas depois lutei um pouco com lesões e comecei a ter dúvidas se conseguiria chegar ao topo, ao Top 100. Novamente, não foi fácil.”

Monteiro apontou uma partida que fez diferença na sua carreira. “Em fevereiro de 2016, eu estava em 338º lugar e fiz minha estreia na chave principal do Rio de Janeiro. Consegui um empate difícil contra o número 9 do mundo, Jo-Wilfried Tsonga, o terceiro cabeça-de-chave. O cara era um monstro na quadra. Eu era fã! Eu não esperava vencer, só queria aproveitar a experiência. Entrei na quadra para aproveitar ao máximo e ver o quão longe estava dos grandes jogadores. Choveu na noite de terça-feira e foi transferido para a tarde de quarta, quando estava muito, muito quente. Gosto dessas condições porque venho do norte do Brasil onde faz 30 graus o tempo todo. Eu estava acostumado com o calor e as condições difíceis. De alguma forma, ganhei em três sets e lembro-me de cair na quadra pensando que tudo valia a pena.”

Eu estava pensando em minha mãe e meu irmão, em como eles ficariam entusiasmados. Foi um alívio. Esse momento mudou minha mente. Eu percebi que poderia conseguir. Pensei comigo mesmo: ‘Vamos fazer isso. Vamos trabalhar o melhor que pudermos todos os dias.’ Desde então, Monteiro alcançou duas semifinais de ATP, foi número 61 do mundo, viajou pelo mundo e enfrentou grandes adversários.

“É inacreditável. Era apenas um garoto que adorava futebol e começou a jogar tênis por acaso. Quase não joguei em comparação com outras crianças da minha idade, mas de alguma forma estou aqui. Claro, quero continuar e perseguir mais objetivos. Mas estou feliz porque, devido ao meu sucesso, pude ajudar minha família. No ano passado, minha mãe começou a falar sobre como ela mora na mesma casa há 30 anos e está cansada disso. Ela não estava pedindo nada, mas percebi que ela precisava de um lugar melhor. Mamãe merecia estar na casa dos seus sonhos. Meu irmão agora é corretor de imóveis, então encontramos uma propriedade muito boa e a levamos para passear até lá. Ela ficou maravilhada porque tem lagos e árvores, e ela adora isso. Depois de algumas semanas, compramos o terreno e começamos a trabalhar nele. Levará dois ou três anos para ficar pronto, mas minha mãe está animada por ter algo para sorrir e ansiar. É uma forma de retribuir tudo o que ela fez e continua fazendo por mim.

Fazer algo assim faz parte do que me motiva hoje. Quando estou em quadra, não estou jogando apenas para mim. Tenho energia extra para tentar fazer coisas incríveis pela minha família. Não sou apenas um menino que veio até eles no bico de um pássaro. Eu sou Monteiro. Minha família me deu tudo. O mínimo que posso fazer é tentar o meu melhor para retribuir o favor.”

14 Comentários
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Daniel Macedo
Daniel Macedo
1 mês atrás

Que história linda de superaçāo! Vencer num esporte elitista como o tênis, em um país tāo desigual como o nosso, vindo do maravilhoso Ceará, terra da minha familia materna, nāo é pra qualquer um. Parabéns Dona Fatima, Faber e Thiago. Sou muito seu fã, fiquei muito feliz com a vitória na Davis. Torço muito pra que vc volte ao top 100 e que consiga conquistar título na ATP. Independente de conseguir ou nāo, vc é um exemplo pro nosso esporte e nosso país! Força Thiago!

Guilherme ES Ribeiro
Guilherme ES Ribeiro
1 mês atrás

Fantástica matéria. Já torcia bastante para ele, agora ainda mais. Belíssima história de vida, dele e da familia. Faber já apareceu aqui respondendo algumas vezes. Imagino o orgulho que deve ter do irmão. Bacana ler isso tudo. Merece muito tudo isso e ainda mais. Esse cara merecia um TOP50 e uma final de ATP. Jogadores piores que ele já conseguiram. Torcendo pra isso acontecer

Felipe
Felipe
1 mês atrás

Thiago tem uma história bonita. Merece pelo menos o respeito dos comentaristas do site, ou ainda, a admiração daqueles que sabem os desafios de se profissionalizar no tênis no Brasil.

Dennis Silva
Dennis Silva
1 mês atrás

Que história incrível e emocionante. Você merece estar onde chegou. Parabéns.

Alecsa
Alecsa
1 mês atrás

Linda história, parabéns dona Fátima por proporcionar ao Thiago uma família carinhosa como toda criança merece. Parabéns por ensinar e mostrar que mais do que status é o caráter e a vida que a pessoa leva o que realmente importa. Sucesso Thiago, torci tanto pra vc contra o deminauer… Foi por pouco… Mas valeu pela garra e bom exemplo…

Paulo A.
Paulo A.
1 mês atrás

Que relato lindo e emocionante! Não tem como não ser fã de uma pessoa como o Thiago. Bravo!

Antoniogomes.anjos@gmail.com
Antoniogomes.anjos@gmail.com
1 mês atrás
Responder para  Paulo A.

Bravo…

Adriano Veiga
Adriano Veiga
1 mês atrás

Espero que os haters leiam essa linda história de força e superação e tenham mais respeito pela sua bela história Thiago…
Se não tiverem por vc, que respeitem pelo menos sua família, em especial sua mãe que é uma verdadeira guerreira e fez a diferença na sua vida. Parabéns

Fabiano
Fabiano
1 mês atrás

Minha nossa! Mas que história mais emocionante. Vou sempre torcer por sua você e sua família, Thiago.

Ilda Souza
1 mês atrás

Admiro ainda mais você, Thiago. Superação é um dos sobrenomes dessa família. Torcendo sempre por você.

Mary Ann
Mary Ann
1 mês atrás

Vc transmite isso na quadra, garra, luta, resiliência e agora lendo sua história, arrematou tudo…Estou com olhos cheios d’água de emoção, pela sua história e humildade, como conta e uma pessoa de coração puro… Continue, lute que estamos torcendo por vc…sempre, agora dentro da quadra e depois fora da quadra, vc é gente demais…bjs

Attila Ribeiro
Attila Ribeiro
1 mês atrás

Parabéns Thiago!!! Você já é um vitorioso nessa vida. Não pelo tênis e sim pelo reconhecimento que você tem pelo esforço e carinho que Dona Fátima e Faber te deram. O tênis foi só um caminho que Deus escolheu para você se realizar. Continue sendo essa pessoa humilde e agradecida, mantenha seus sonhos, que a vida te recompensará. Bravo guerreiro.

Cleber Winckler da Silva
Cleber Winckler da Silva
1 mês atrás

Sensacional, já torcia pelo Monteiro pelo tenista que é, agora torço pelo cidadão exemplo que ele se transformou. Parabéns pela entrevista e principalmente pela postura. Continue sendo assim. Merece o sucesso!

Jorge Luiz
1 mês atrás

Nossa que história emocionante, já torcia para o Monteiro, agora mais ainda, parabéns grande guerreiro

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