Eduardo Faria *
O tênis competitivo brasileiro vive um excelente momento, impulsionado pela ascensão meteórica de João Fonseca no circuito masculino e pela consolidação de Bia Haddad Maia entre as principais jogadoras do mundo. Esse cenário positivo reforça a percepção de que o Brasil voltou a ocupar um espaço de destaque no tênis internacional.
No âmbito amador, observa-se um crescimento significativo no número de academias e no contingente de praticantes da modalidade, reflexo do maior interesse por um esporte reconhecidamente envolvente, técnico e desafiador.
No tênis juvenil, o momento também é especialmente promissor. Desde novembro de 2022, quando o país conquistou de forma inédita o título da Copa Davis Júnior, diversos jovens brasileiros passaram a chamar a atenção no cenário internacional. Entre eles destacam-se Victoria Barros, Luis Guto Miguel, Nauhany Silva, Livas Damazio e Pietra Rivoli, além de um número crescente de promessas que vêm surgindo em diferentes regiões do país.
Esse avanço é resultado direto do trabalho consistente dos treinadores em todo o território nacional, aliado à atuação da Confederação Brasileira de Tênis na estruturação da base, com a ampliação do acesso à modalidade, a organização do calendário competitivo e o acompanhamento mais próximo do desenvolvimento dos jovens atletas.
Nós, da 5º SET, por meio do programa TFI – Treinamento Físico Inteligente, temos atuado diretamente no atendimento, orientação e realização de testes de mapeamento genético em diversos perfis de esportistas, desde tenistas amadores e profissionais até jovens atletas em fase de formação.
O que mais chama a atenção nesse trabalho é o número crescente de atletas juvenis envolvidos, reflexo direto do atual boom do tênis brasileiro. Esse cenário positivo, embora extremamente estimulante, acende um importante sinal de alerta: o aumento da carga de treinos, do número de competições e das expectativas por resultados.
Diante desse contexto, torna-se fundamental cuidar da forma como os treinos são programados, distribuídos e aplicados na preparação dos jovens tenistas, garantindo um desenvolvimento saudável, seguro e sustentável ao longo das diferentes fases de crescimento.
Sem um planejamento adequado e individualizado, o excesso de estímulos pode comprometer o crescimento, o desenvolvimento físico e até a permanência do atleta no esporte. Por isso, alinhar a carga de treinamento, as atividades fora da quadra e as características individuais de cada jovem é uma etapa indispensável para uma formação saudável, segura e sustentável.
A importância do controle do volume e da intensidade dos treinos
Na formação esportiva, especialmente no tênis, treinar mais não significa treinar melhor. O desenvolvimento saudável depende do controle do volume (quantidade de treino) e da intensidade (nível de esforço), respeitando as fases de crescimento.
É essencial lembrar que a criança não é um adulto em miniatura. Seus ossos, músculos, tendões e ligamentos ainda estão em desenvolvimento e respondem de forma diferente às cargas de treino. Quando há excesso ou má distribuição das atividades — dentro e fora da quadra — aumentam os riscos de lesões, fadiga e desmotivação.
Como o controle deve acontecer em cada fase
Iniciação esportiva (6 a 10 anos)
O foco deve ser o prazer pela prática e o desenvolvimento motor geral. Treinos leves, variados e lúdicos são fundamentais. O excesso nessa fase pode gerar dores, cansaço e perda do interesse pelo esporte.
Formação básica (11 a 14 anos)
Período marcado pelo estirão do crescimento. O aumento do volume deve ser gradual, com intensidade bem controlada. Atenção às queixas de dor é indispensável, pois o corpo está mais vulnerável a lesões por sobrecarga.
Especialização (15 a 18 anos)
Os treinos se tornam mais específicos e exigentes. O controle das cargas e o respeito ao descanso ajudam a evitar fadiga crônica, queda de rendimento e lesões recorrentes.
Benefícios do controle adequado na formação
Quando o treinamento é bem planejado, os benefícios são claros:
- Menor risco de lesões
- Melhor aprendizagem técnica
- Evolução física mais segura
- Mais motivação e confiança
- Maior chance de permanência no esporte a longo prazo
Ganhar cedo não pode ser mais importante do que crescer bem. O verdadeiro sucesso no tênis começa na base, com decisões corretas que priorizam saúde, desenvolvimento e prazer pela prática esportiva.
Orientações básicas para os pais dos tenistas
- Observe sinais de cansaço e dor
Dores frequentes, queda de rendimento, irritação ou falta de vontade de treinar não são normais. Esses sinais podem indicar excesso de carga. - Valorize o descanso
Dias sem treino e boas noites de sono fazem parte do processo de evolução. O corpo da criança precisa de tempo para se recuperar e crescer. - Evite excesso de atividades físicas simultâneas
Aulas extras, outros esportes e atividades intensas fora da quadra devem ser alinhadas com o treinador para não sobrecarregar o corpo. - Não apresse resultados
Cada criança tem seu tempo de desenvolvimento. Ganhar cedo não garante sucesso no futuro, mas o excesso pode gerar lesões e desmotivação. - Mantenha diálogo com o treinador
Pergunte sobre volume, intensidade e objetivos do treino. A comunicação entre pais e profissionais é essencial para decisões equilibradas. - Priorize o prazer pelo esporte
A criança deve gostar de jogar tênis. Quando o treino vira apenas obrigação, o risco de abandono aumenta. - Lembre-se: a criança não é um adulto em miniatura
O corpo ainda está em formação. Cargas exageradas podem comprometer o crescimento e o desenvolvimento saudável.
Orientações básicas para os treinadores
- Planeje o treino pensando no crescimento, não apenas no resultado
A formação deve priorizar desenvolvimento técnico, motor e físico adequado à idade, e não vitórias imediatas. - Controle o volume e a intensidade semanalmente
Evite grandes variações de carga ao longo da semana. Os aumentos devem ser graduais e planejados, sempre respeitando a capacidade de recuperação do atleta. Atualmente, o mercado oferece diversas plataformas que auxiliam nesse processo, permitindo o monitoramento de marcadores de fadiga nos treinos físicos e técnicos, o controle da carga interna — por meio da percepção diária de esforço e bem-estar relatada pelo atleta — e da carga externa, referente ao que é aplicado pelo treinador em cada sessão. Esse acompanhamento contínuo facilita ajustes precisos e contribui para um treinamento mais seguro e eficiente. - Atenção redobrada durante o estirão do crescimento
Reduza picos de intensidade e volume quando o atleta apresentar queda de coordenação, dores articulares ou cansaço excessivo. - Varie estímulos e evite repetição excessiva
Excesso de repetições do mesmo gesto aumenta o risco de lesões por sobreuso. Inclua jogos, desafios e tarefas variadas. - Integre atividades fora da quadra ao planejamento
Preparação física, escola e outras atividades devem estar alinhadas ao treino técnico para evitar sobrecarga. - Estimule a comunicação com pais e atletas
Explique objetivos, fases do treinamento e a importância do descanso. Transparência gera confiança e apoio ao processo. - Priorize o prazer e a motivação
Atletas motivados aprendem mais e permanecem mais tempo no esporte. A formação deve ser exigente, mas positiva.
Recado final para pais e treinadores
O momento do tênis brasileiro é extremamente positivo e inspira novas gerações. No entanto, para que essas crianças e adolescentes tenham a chance real de seguir esse caminho, é fundamental que a formação seja feita com responsabilidade, equilíbrio e paciência.
Bons treinos!
Licenciado em Educação Física, pós-graduado em treinamento esportivo e com diversas formações na área do treinamento físico e qualidade de vida, Eduardo Faria trabalha com tenistas desde 1986, ao lado de Fernando Meligeni, Flávio Saretta, Alexandre Simoni, Vanessa Menga e Thiago Alves, entre outros. Integrou a equipe da Copa Davis desde do final dos anos 90 até os dias atuais, atuando com nomes como Andre Sá , Bruno Soares, Marcelo Melo, Gustavo Kuerten e Marcos Daniel. É fundador da empresa ‘5º Set’, contendo o programa TFI (Treinamento Físico Inteligente), que combina testes físicos, mapeamento genético e avaliação nutricional para melhorar a performance de tenistas, do amador ao profissional: confira detalhes em quintoset.com.br.











Excelente! Post de alto nível.
Apesar do tênis brasileiro estar em um ótimo momento, conforme o texto, ainda falta uma coisa muito importante que já poderia ter sido mudado há anos atrás: uma escolha melhor de horários para os jogos, principalmente aos domingos. Achei um tremendo descaso os horários das finais de ITF de alguns torneios aqui no Brasil, citando como exemplo uma final que a Fullana fez contra a Nauhany Silva. Gente que cuida do tênis no Brasil: vamos cuidar melhor de nossos atletas aqui dentro de nossas fronteiras!
Verdade! Texto riquíssimo!