O Masters 1000 de Montréal é um dos mais agradáveis torneios do Tour. E em 1997 marcou um importante capítulo na história do tênis brasileiro. Nesse ano, no State du Maurier, o mesmo até hoje, Gustavo “Guga” Kuerten entrou pela primeira vez na então ascendente carreira no cobiçado grupo dos 10 primeiros do ranking da ATP. Gosto de associar que o acento francês da cidade canadense embalou a campanha de Guga, que vinha de título de Roland Garros.
A lembrança do que aconteceu esse ano foi incentivada por um post no FB de Rui Hoeppers. Ele colocou o vídeo (acho que já viralizado) da semifinal de Guga em Montreal, quando derrotou o norte-americano Michael Chang, outro campeão de Paris, e que na época ocupada a 2ª posição no ranking mundial. Com o resultado somou pontos suficientes para entrar no top ten.
Naquele ano cobri o título de Guga em Roland Garros. Mas estava difícil viabilizar a viagem para Paris. Não queria perder a minha sequência do Grand Slam francês que frequentava desde 1985. E com o apoio de Luiz Felipe Tavares, da Koch Tavares, e, é claro, a força do jornal Estadão consegui embarcar à última hora. Cheguei um dia antes do início da competição. Costumava pegar as últimas rodadas do qualy e no ano anterior, em 1996, já tinha visto o Guga mostrar seu potencial num jogo, super equilibrado que fez diante do sul africano Wayne Ferreira, que era top 10. Essa informação é curiosa, pois a IA dá como primeiro encontro entre o brasileiro e sul africano em 1997 em Indian Wells.
Se me permitem um longo parêntese, como havia chegado em Paris em cima da hora em 1997, do aeroporto fui direto para Roland Garros pegar minha credencial, a chave da mesa da minha posição, cadeado para o armário, e informaram que Guga e Larri treinavam na primeira quadra depois da Suzanne Lenglen (na época era chamada de quadra A). Dei uma corrida para lá. Cheguei e fui recebido de cara fechada pelos dois. Pensei “poxa o que será que aconteceu… confesso que fiquei preocupado com isso, logo no primeiro momento da cobertura de RG”. Mas tratava-se de mais uma pegadinha da dupla Guga e Larri. Ao final do treino, ao me encontrar no caminho do vestiário da quadra A, eu todo arrumadinho recebi um forte abraço do tenista todo suado. Ora sujaram minha camisa já no inicio da viagem. A brincadeira custou mais um ‘jeton de blanchisserie’
Em Montreal Guga chegou em 1997 como astro. Até eu recebi as honras. Afinal, mandaram um carro me buscar no aeroporto e me deixar no hotel oficial. Nos levavam passear nas horas de folga e, certa noite, fomos todos jantar na Crescent Street, uma rua emblemática da cidade. Guga fazia dupla com um tenista canadense, Bobby Kokavec, que também esteve com a gente.
Já peço desculpas por estar falando tanto de mim, mas a intenção é demonstrar o que acontecia na época. Guga humilde campeão de Roland Garros não se importava em dividir o carro do transporte oficial com a gente e até sair para um simples jantar, como acontecia quase todas as noites no restaurante Silvano na campanha de 97 em Paris. O interesse por cada passo do tenista era enorme. Como era praticamente o único jornalista brasileiro que viajava a quase todos os torneios, na época escrevia para o Estadão, Agência Estado, O Globo (do excelente editor Toninho) e boletins para rádios Eldorado e Transamérica.
Na quadra, Guga correspondeu a todas as expectativas. Na semifinal, a que mostra o vídeo compartilhado por Rui Hoeppers, o brasileiro deu uma aula de tênis. Vale a pena conferir o vídeo no YouTube. Passou então para a final com grande favoritismo. Mas num jogo marcado por muitas divergências nas marcações do juiz de cadeira, a vitória foi para o norte-americano Chris Woodruff. Ele era conhecido como country man (caipira). Nascido no Tennessee, Estados Unidos, tinha um sotaque carregado.
No dia seguinte viajamos todos juntos para Cincy. No avião o saudoso amigo que arbitrou grandes finais do tênis mundial, comentou que poderia sim ter acontecido alguns equívocos durante o jogo, comuns em qualquer disputa acirrada. E sem se importar com nada disso, Woodruff ainda vivia sua comemoração. Fez uma viagem regada a várias doses de bebidas. Parecia ainda não acreditar no título recentemente conquistado em cima do campeão de Roland Garros.









Fantástico, Chiquinho: valeu!!!!!