Melo garante que segue motivado para competir e destaca experiência

Marcelo Melo (Foto: Fotojump)

Felipe Priante
Especial para TenisBrasil

Rio de Janeiro (RJ) – Um dos tenistas mais vitoriosos da história do Brasil, com dois títulos de Grand Slam nas duplas e o número 1 do mundo, o mineiro Marcelo Melo segue competindo no circuito mesmo com seus 42 anos. Antes de sua estreia no Rio Open deste ano, triunfando com o carioca João Fonseca na segunda-feira, ele fez um apanhando de sua carreira em entrevista exclusiva.

Melo não apenas olhou para momentos do passado, mas também para o persente e o futuro. Lamentou a cobrança excessiva por resultados, falou brevemente sobre o rompimento com Fernando Romboli e contou como surgiu a parceria com Fonseca. O mineiro também contou que ainda não tem um parceiro novo definido, mas jogará os próximos dois torneios ao lado do alemão Alexander Zverev.

Veja tudo o que falou Melo:

Você é o atual campeão, vai defender o título e vai jogar com o João Fonseca. Como você encara a defesa do título aqui dentro de casa?

Eu acho que vai ser bacana essa parceria com o João. A gente treinou ontem e tem uma química muito boa, tanto dentro quanto fora de quadra. Deu para perceber isso ontem. Independente de estar defendendo o título ou não, acho que é um momento especial. Eu imagino que, tanto para ele quanto para mim, será muito interessante essa oportunidade de jogar junto pela primeira vez aqui no Rio Open.

Ele falou que partiu de você o convite. Como é que surgiu a ideia? 

Acho que foi uma ideia em comum com o Gui, lá em Buenos Aires. Ele chegou a comentar se eu tinha parceiro ou não. A gente ainda estava decidindo com quem jogaria o wild-card, já que eu não tinha assinado com ninguém. A gente estava vendo quais seriam as opções, quais os brasileiros às vezes não poderiam jogar. Acabou casando, depois da derrota do João, dele  querer jogar mais um pouquinho. A gente já vinha comentando na brincadeira que um dia a gente queria jogar uma dupla junto. Eu acho que poderia ser um lugar mais especial.

João Fonseca e Marcelo Melo (Foto: Fotojump)

Olhando para a frente, você terminou com o Romboli e agora está sem parceiro. Como é que está a procura, tem alguma coisa mais em vista depois do Rio Open com o João? 

Agora eu vou para Acapulco e Indian Wells jogando com o Zverev de novo. Depois eu ainda não sei. Acho que vai depender um pouquinho de resultados que eu vou ter nesses próximos três torneios e do ranking, para ver com quem eu poderia jogar. Logicamente eu tenho que achar um outro duplista porque assim fica mais fácil do que ficar trocando entre jogadores de simples. Mas é um negócio que eu ainda vou olhar depois dessas sequências de torneios.

Você que já foi número 1 e ganhou Grand Slam, nesse momento de troca de parceria, sente que tem uma facilidade um pouco maior por todo mundo te conhecer e ter mais acesso na hora de procurar? 

Eu acho que uma coisa que influencia muito é a experiência. Obviamente os resultados que eu tive e tenho, acho que isso influencia um outro jogador querer jogar comigo ou não. Mas eu acho que o importante é saber complementar o jogo um do outro. Como eu sempre falei de todos os parceiros que eu tive antes, para ter um parceiro fixo, acho que é importante complementar. O que a gente tem que fazer não é ficar mudando de parceiro toda semana, mas encontrar um parceiro que possa casar bem com o meu jogo. Por isso que às vezes demanda um pouquinho de tempo para tentar encaixar o melhor possível para seguir uma sequência de torneios.

Sobre as parcerias, você veio de uma recente parceria com o Rafa, foram três títulos, mas faltou alguns grandes desempenhos e chegar longe num Grand Slam ou alcançar uma final de Masters 1000. Qual sua avaliação dessa parceria?

Eu acho que a gente teve belos resultados, ganhou um 500 no Rio de Janeiro, fez a quartas de final de Wimbledon. Às vezes as pessoas acabam ficando um pouco mal acostumadas com os resultados de ambos, mas são resultados, para mim, relevantes. Independente disso, já fui campeão de dois Grand Slams, Master 1000, mas eu acho que chegar nas quartas e final, ganhar um 500, ganhar 250, sendo dois títulos no ano passado, é o desenvolvimento natural de uma dupla. É normal a oscilação, mas eu acho que a gente teve bons resultados e acho que foi uma época boa para ambos.

Foto: Fotojump

Você falou sobre o que as pessoas comentam. Isso é algo que você costuma ver ou fica mais distante de comentários em redes sociais Te afeta, ou já com a experiência, consegue lidar tranquilamente com a opinião alheia, ainda mais num mundo hiper conectado como o atual? 

Eu acho que as críticas relevantes a gente sempre dá atenção, elas podem te melhorar. Mas eu acho que as vezes, mais na moção depois de ter perdido um jogo ou não, não vale tanto. Toda crítica faz você ser melhor, eu nunca levo negativamente. Pela carreira que eu tive, pelo tempo que eu estou jogando, as pessoas que às vezes falam: ‘por que ele não se aposenta? Ele tem que parar’. Isso é ter a cabeça um pouco fechada, acho que a gente tem que pensar o contrário, que é o caso dos americanos, por exemplo, que chegam e falam: ‘que bacana o cara com 42 anos está tentando jogar e representar o país da melhor maneira possível’. Eu levo por esse lado, estou aqui mais um ano, já me aposentaram uns cinco anos seguidos, mas ano passado ganhei o Rio Open. A gente não pode ser cego, mas sempre olhar pelo lado positivo, por isso que eu acredito que as críticas são para melhorar. Como eu sempre falo, quanto mais gente jogando, quanto mais tempo jogando… Olha uma oportunidade incrível, que de repente o João está tendo, de estar podendo jogar comigo, que fui campeão de dois Grand Slam, nove Master 100, não é todo país que tem, às vezes outra coisa que é natural para mim, as vezes para ele ainda não é, é uma troca de experiência, não só para ele, mas para as pessoas mais novas. Então assim, quanto mais tempo um jogador extremamente alto nível puder jogar, melhor, acho que a grande maioria pensa dessa mesma maneira, por isso que é difícil identificar qual o caminho a seguir, mas eu sempre vou pelo lado positivo.

Você falou, abordou um pouco nessas críticas a questão de idade, os resultados já não são tão bons quanto foram no seu auge, mas ainda tem uma boa consistência, foram três títulos com o Rafa, você lembrou das quartas de Wimbledon ano passado. O que ainda te motiva justamente a continuar jogando nessa reta final de carreira? 

O que me motiva ainda é, logicamente, desfrutar o tempo que eu tenho treinando, o tempo que eu vou estar em quadra jogando e disputando os maiores torneios. Acho que há altos e baixos e logicamente os resultados agora não são os mesmos que tive quando era o número 1 do mundo, é normal. Mas, queira ou não, ano passado foram dois títulos, um 500 e um 250, às vezes, como eu falei, parece que o costume de ter ganhado Grand Slam antes e ser o número 1 do mundo faz parecer que um 500 não é nada. Um 500 é muita coisa, especialmente no Rio de Janeiro, então enquanto eu estiver desfrutando, jogando no mais alto nível, ganhando títulos ainda, não tem o porquê de não jogar mais. Sempre quis jogar e ainda estou em alto nível, quem sabe eu ainda posso ganhar um Grand Slam ou não. A partir do momento que eu parar de desfrutar, acredito que não posso ganhar mais, aí é a hora de pendurar a raquete.

Ano passado a gente viu que você jogava um pouco menos do que o Rafa. Focar nos principais torneios, realmente é algo que você adotou para levar o seu calendário nessa parte da carreira? 

Eu acho que ano passado eu joguei 30 semanas, então acho que está meio equivocado, passei três meses seguidos viajando, ano passado no fim do ano, então assim, como eu falei, eu estou ainda viajando 90% do tempo. Todo ano eu falo que vou viajar menos, mas acabo viajando mais.

Você que é um cara que já está há bastante tempo no circuito e tem muitas mudanças que vão acontecendo. Atualmente a gente está com essa questão dos Masters 1000, que nos últimos anos aumentaram duas semanas, e nas duplas acaba que jogam praticamente só na segunda semana e meio que perdem uma semana. Como que é para os duplistas essa questão do calendário? 

Para a dupla eu acho que tem sido melhor, pelo fato de, por exemplo, em Indian Wells começa no domingo e aí já tem menos jogos de simples nas quadras maiores e as duplas acabam jogando lá, que é algo que a gente sempre tentou fazer e não dava quando tinham muitos jogos ao mesmo tempo no começo de um  torneio grande. Se você está jogando um Master 1000 em Indian Wells, se você for bem ou não, você vai jogar o próximo Master 1000, que é Miami. Então acho que para os jogadores de nível Master 1000 não afeta tanto. Fora que tem a chance de jogar a segunda rodada em uma quadra grande.

No Brasil, a dupla está tendo um pouco mais de visibilidade, principalmente com os grandes resultados seus e do Bruno (Soares). E agora também uma nova geração despontando, mas a final de Buenos Aires com Rafa (Matos) e Orlando (Luz) lá não estava passando em lugar algum. Como é que você enxerga essa situação de visibilidade? 

Eu acho que melhorando está, às vezes poderia melhorar um pouquinho mais rápido, mas por exemplo, hoje todos os torneios de 500 para cima, todos os jogos passam no Tennis TV, tem passado bastante no streaming, na televisão. Eu acho que os 250 ainda poderiam passar mais, pelo menos as semifinais e final. É uma coisa que nós jogadores ficamos martelando com o ATP para poder melhorar um pouco, mas eu acho que a visibilidade vai acabar aumentando, igual eu falei no Master 1000, você acaba tendo menos jogos de simples e mais jogos de dupla, enquadras grandes, então assim.

Ainda para ficar um pouquinho nessa questão do circuito, a gente tem o programa One Vision da ATP, priorizando um pouco mais os eventos de grande porte, focando os Masters 1000 de duas semanas. Também teremos o Masters 1000 da Arábia Saudita e para isso eles estão tentando cortar um pouquinho algumas arestas, uns 250, 500. O presidente da ATP foi a Buenos Aires e estará aqui. Como você vê essa temporada sul-americana do saibro podendo mudar de data e/ou até de piso? 

A tradição da América do Sul é o saibro, logicamente, mas muita coisa virou um pouco comercial, então é difícil você querer manter o saibro. Ao mesmo tempo, eu acho que a gente tem que tentar levar pelo caminho de quanto maior o nível do torneio, mais gente vai vir, mais gente vai assistir, mais os juvenis vão se espelhar, mais oportunidade vai ter, e esse torneio é um torneio gigante. Eu acredito que tem que ter uma gira sul-americana. Estão tentando passar para o fim do ano, eu acho que isso é uma demanda que os torneios têm que analisar melhor, onde seria mais fácil trazer os jogadores. A gira sul-americana tem que continuar, de repente se pudesse voltar para  quatro (torneios) mas o piso aí tem que ver o que cada um pode fazer. Não adianta também largar uma sequência de um piso aleatório, no meio de uma sequência de dura, ou no meio de uma sequência de saibro. Tem que deixar mais na mão de quem decide isso, que é a ATP e os torneios, para em conjunto e em comum acordo, poder fazer uma gira bacana.

Você falou que vai jogar Acapulco e Indian Wells com o Sacha e você é uma pessoa muito presente lá na equipe deles. Como têm sido esses últimos tempos, você chega a dar palpite ou participa  informalmente do time? Já pensou em trabalhar como treinador no futuro? 

É, eu acho que eu vou tentar ficar envolvido realmente com o tênis, no dia a dia do tênis. Joguei tênis a minha vida inteira, é o que eu sei fazer, acho que com a experiência que eu tenho do tênis, posso transmitir bastante para muita gente. Não diria que é um dever, mas eu acho que é um negócio que seria muito gratificante para mim, poder ajudar.  Todo mundo sabe que eu fico muito perto do time do Zverev, a gente troca bastante experiência, são quase 10 anos que eu conheço ele, então eu sei de muita coisa que acontece, muita coisa que às vezes eu vejo de fora, que como jogador não vê de dentro. A gente pode trocar esse tipo de informações, por eu ainda estar jogando e conhecê-lo bastante, saber a mentalidade da família dele, como funcionam as coisas lá. Futuramente, se acontecer de eu ficar trabalhando fixo como treinador, dele ou de alguém do circuito de alto nível, eu acho que seria um negócio muito bacana também. Por exemplo, sempre apoiei na Copa Davis o Brasil levar os juvenis, me conecto muito com eles porque eu acho que é uma oportunidade deles aprenderem muito, de levar as experiências nossas. Como eu falei, não é qualquer país que tem um jogador com os resultados que eu tive, com os resultados que o João está tendo, então assim, para a gente passar para quem não tem, é realmente muito bom.


Você falou justamente das questões das Davis, sempre que os juvenis têm contato com você, falam da sua importância, de dar dicas e toques. Que tipo de toque você costuma dar mais? É uma coisa mais geral ou individual? 

O principal que eu passo para eles é verem muito a nossa rotina, como a gente fica focado, as coisas que a gente fala, os nossos pensamentos, não só nos treinamentos, mas no dia a dia. Eu acho que a rotina para o juvenil ver como um profissional faz, é muito importante, porque às vezes eles não têm acesso e imaginam que é de uma maneira, mas é de outra. É realmente uma realidade muito dura, de um foco muito grande. Então, às vezes, eu passo para eles experiências que eu tenho no circuito de conversar com o Djokovic meia hora. Então, é passar para eles as experiências que eu tenho. Eu não sou o treinador deles, mas eu imagino que como eu fui o Marcelo Mello que chegou ao número 1 do mundo, os caras têm um respeito muito grande, quando eu falo. Eu falo com um argumento e uma base por estar no circuito há tanto tempo, não são coisas que eu crio. Então, eu trago eles para perto, para encurtar essa distância de uma figura muito grande para eles que estão começando agora.

Falar sobre a Davis, na última você ia participar com o Fernando (Romboli), mas vocês acabaram rompendo e não acabaram não indo. Queria saber um pouco o que levou a esse final e se você acabou ficando um pouco frustrado de não poder defender o Brasil?

A Copa Davis, para mim, é extremamente importante, eu acho que deveria ser importante para qualquer tenista e poder representar o país em um torneio por equipes. Como eu falei, eu praticamente joguei todas as Copas Davis desde quando eu comecei a jogar. Independente do meu ranking, sempre quando eu fui convocado, eu sempre fiquei muito feliz, porque eu acho que a Copa Davis é uma confiança que o capitão e o time depositam em você para trabalhar como equipe, não é um torneio que eu escolho jogar ou não. Então, eu logicamente fiquei muito feliz de ter tido a chance de ir para mais uma, mas ao mesmo tempo eu entendi demais o Jaime (Oncins) pelas circunstâncias que aconteceram. Um time acabou se separando e o outro está jogando muito bem, ganharam mais jogos que a gente, então eu acho que o Jaime teve a atitude correta. A gente conversou muito sobre o que aconteceria, porque ao mesmo tempo não é fácil para ele desconvocar um time que ele tinha convocado, mas eu acho que tem que pensar no que é melhor para o país, o que é melhor para o time, o que é melhor para a equipe. E eu acho que ele acabou tomando a atitude certa, os meninos foram lá, ganharam, e por pouquíssimo o Brasil não ganhou o confronto. Chateado de não ter ido, lógico que eu queria ter jogado mais uma Copa Davis, mas nada contra com ninguém, porque eu acho que no fundo é decisão do capitão.

 E a parceria com o Romboli? 

A gente jogou três torneios, acabou que não teve tantos resultados da maneira que queria no começo, então decidimos trocar.

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F.F. Real
F.F. Real
6 dias atrás

Isso soa como ameaça….rs

PRGF
PRGF
6 dias atrás

O Melo tem uma carreira incrível…
É um privilégio ter um cara desses ainda na ativa…

Normalmente quem faz campanha para ele parar de jogar é pq sequer assistem seus jogos… Só ficam procurando notícias de derrotas…

Deixem o Melo em paz.

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