Ignorar o ciclo menstrual pode comprometer rendimento das tenistas

Foto: Akira Ando/Kinoshita Group Japan Open

Eduardo Faria *

Treinar tenistas do sexo feminino exige atenção a fatores que muitas vezes ainda passam despercebidos no esporte. Entre eles, um dos mais importantes e frequentemente negligenciado: o ciclo menstrual.

No tênis, modalidade que exige resistência, potência, velocidade, tomada de decisão, coordenação motora e controle emocional, alterações hormonais podem influenciar diretamente a forma como a atleta responde aos treinos e competições.

Ainda hoje, muitos treinadores não observam os sintomas que podem surgir mensalmente e acabam interpretando alterações de comportamento ou rendimento como falta de motivação, desinteresse ou queda de comprometimento.

Ignorar esse processo fisiológico é perder uma oportunidade valiosa de individualizar o treinamento e cuidar melhor da atleta.

Muitas vezes, o que parece falta de motivação ou queda de rendimento é apenas uma resposta fisiológica do organismo feminino, algo que merece atenção e ajustes inteligentes no treinamento.

Ciclo menstrual não afeta da mesma forma

O primeiro ponto importante é entender que não existe uma regra absoluta.

Algumas tenistas treinam e competem praticamente sem sintomas. Outras apresentam desconfortos importantes, como:

  • cólicas;
  • inchaço abdominal;
  • fadiga aumentada;
  • sensibilidade muscular;
  • alterações de humor;
  • irritabilidade;
  • ansiedade;
  • dificuldade de concentração;
  • distúrbios do sono;
  • dor lombar;
  • sensibilidade mamária;
  • sensação de pernas pesadas.

No tênis, onde a tomada de decisão rápida, explosão muscular, resistência, precisão técnica e estabilidade emocional são fundamentais, essas alterações podem ter impacto significativo.

A atleta pode parecer “sem energia”, mais lenta nos deslocamentos, menos tolerante ao esforço ou emocionalmente mais vulnerável — e, muitas vezes, isso é interpretado erroneamente como falta de foco ou baixa entrega.

Por isso, compreender o ciclo menstrual pode ser uma ferramenta importante para melhorar rendimento, bem-estar e relação entre atleta e equipe.

Como as fases do ciclo impactam o treinamento?

Fase menstrual (dias 1 a 5)

Nesse período, algumas atletas podem sentir maior desconforto físico, fadiga ou cólicas.

No tênis, dependendo da intensidade dos sintomas, pode haver menor tolerância ao esforço e pior sensação física durante treinos intensos.

A recomendação não é parar de treinar, mas individualizar as cargas, priorizando qualidade técnica, mobilidade, prevenção de lesões e pequenos ajustes no volume quando necessário.

Fase folicular (dias 6 a 13)

Com a elevação gradual do estrogênio, muitas atletas relatam melhora da energia, humor e recuperação.

Frequentemente é um momento favorável para treinos de maior intensidade, potência, velocidade, mudanças de direção e maior exigência técnica.

Ovulação (aproximadamente no 14º dia)

Algumas atletas percebem alta disposição física e boa resposta ao treinamento.

Pode ser um período interessante para estímulos intensos e trabalhos coordenativos. Embora ainda exista debate científico sobre o tema, alguns estudos sugerem atenção especial ao controle de cargas e prevenção de lesões ligamentares em determinadas atletas nesse período, especialmente em joelhos e tornozelos, algo relevante em um esporte de mudanças bruscas de direção como o tênis.

Fase lútea / TPM (dias 15 a 28)

É uma fase em que várias atletas relatam maior fadiga, irritabilidade, retenção de líquidos e alterações emocionais.

Em alguns casos, pequenas reduções no volume ou ajustes na intensidade podem ajudar a preservar rendimento e recuperação.

O segredo não é reduzir exigência, mas ajustar o treinamento ao momento da atleta.

Monitorar é melhor do que adivinhar

Hoje existem aplicativos que podem ajudar atletas e treinadores a monitorar o ciclo menstrual e identificar padrões individuais.

Entre os mais utilizados estão:

  • Clue — bastante utilizado por seu embasamento científico e monitoramento detalhado de sintomas;
  • Flo — aplicativo simples e popular para acompanhar sintomas, humor e ciclo;
  • Apple Health e Samsung Health — permitem integrar dados de sono, recuperação e bem-estar.

Mais importante do que o aplicativo é criar o hábito de observar padrões.

Com o tempo, treinador e atleta conseguem perceber momentos de maior energia, recuperação ou maior sensibilidade ao treinamento, favorecendo decisões mais inteligentes sobre as cargas de treino.

Onde o mapeamento genético esportivo pode ajudar?

Se o ciclo menstrual já mostra que mulheres respondem de forma diferente ao treinamento, o mapeamento genético esportivo realizado pela 5º SET – TFI (Treinamento Físico Inteligente) pode ampliar ainda mais essa individualização.

A análise genética ajuda a compreender tendências relacionadas à força muscular, recuperação, resposta inflamatória, metabolismo energético, capacidade antioxidante e predisposição a lesões.

Na prática, isso auxilia treinadores e preparadores físicos a ajustar melhor cargas, recuperação e estratégias de treino de acordo com a individualidade biológica da atleta.

É importante reforçar: o mapeamento genético não determina desempenho, nem prevê sucesso esportivo. Ele deve ser entendido como uma ferramenta complementar para ajudar a orientar decisões de treinamento com mais precisão.

No esporte moderno, compreender a individualidade biológica da atleta deixou de ser diferencial e está se tornando necessidade.

Conclusão

No tênis feminino, compreender o ciclo menstrual não significa fragilizar a atleta ou reduzir exigências.

Significa treinar com mais inteligência.

Da mesma forma que individualizamos cargas por idade, calendário competitivo, histórico de lesões e recuperação, compreender as respostas do organismo feminino pode melhorar rendimento, reduzir desgaste e favorecer a longevidade esportiva.

Para tenistas competitivas, esse entendimento pode contribuir para melhor organização das cargas, recuperação e rendimento em treinos e competições.

Já para tenistas amadoras, um público que frequentemente apresenta muitas dúvidas sobre o tema, conhecer melhor o próprio corpo pode ajudar a reduzir inseguranças, melhorar a disposição para jogar, entender oscilações de energia ao longo do mês e tornar a prática do tênis mais prazerosa e saudável.

Muitas mulheres deixam de jogar ou treinam desconfortáveis sem compreender exatamente o que está acontecendo com o organismo.

A boa notícia é que informação, observação e individualização fazem diferença.

Porque, no esporte moderno – seja no alto rendimento ou no tênis recreativo – treinar todas da mesma forma já não faz sentido.

No tênis feminino, compreender o corpo da atleta também faz parte do treino.

Licenciado em Educação Física, pós-graduado em treinamento esportivo e com diversas formações na área do treinamento físico e qualidade de vida, Eduardo Faria trabalha com tenistas desde 1986, ao lado de Fernando Meligeni, Flávio Saretta, Alexandre Simoni, Vanessa Menga e Thiago Alves, entre outros. Integrou a equipe da Copa Davis desde do final dos anos 90 até os dias atuais, atuando com nomes como Andre Sá , Bruno Soares, Marcelo Melo, Gustavo Kuerten e Marcos Daniel. É fundador da empresa ‘5º Set’, contendo o programa TFI (Treinamento Físico Inteligente), que combina testes físicos, mapeamento genético e avaliação nutricional para melhorar a performance de tenistas, do amador ao profissional: confira detalhes em quintoset.com.br.

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