Felipe Priante
Especial para TenisBrasil
Um dos maiores nomes do tênis brasileiro nas últimas décadas, Carlos Bernardes conviveu com grandes nomes em sua longa e brilhante carreira, arbitrando partidas de 25 dos 29 número 1 do mundo da ATP. Aposentado desde o fim de 2024, o juiz de cadeira natural de São Caetano rodou o mundo trabalhando com o esporte que tanto ama e acabou se radicando na Itália, onde mora atualmente.
De passagem pelo Brasil, ele foi convidado de honra do LA Open, onde comandou as partidas de exibição antes da chave principal do torneio começar. Foi depois da última partida que Bernardes conversou exclusivamente com TenisBrasil, fazendo um balanço de sua carreira e também olhando para frente, arquitetando seus novos projetos junto ao tênis.
+ Clique aqui e siga o Canal do TenisBrasil no WhatsApp
Apesar de aproveitar bastante o tempo que tem livre para curtir o sossego de sua casa, ele não se afasta do tênis, que é uma paixão. Por isso, seus planos para o futuro envolvem diretamente a modalidade que ele tanto ama, experimentando novas opções ligadas ao tênis desde que parou de arbitrar: foi diretor de torneio, comentarista e palestrante.
Veja a entrevista completa com Carlos Bernardes:
Queria começar justamente sobre o pós-carreira. Você pode ficar agora mais em casa, não tem mais viagem toda semana e agora dá para curtir mais. Qual que era a grande diferença desde que parou de arbitrar?
Já tem um ano, um ano e meio praticamente. Eu acho que a grande diferença para mim, a primeira coisa, era não viajar. A gente fazia de 30 a 35 semanas ao ano e dá mais do que isso, porque sempre vamos na quinta e voltamos na segunda. Então, imagina isso durante quase 40 anos. Alguns podem falar que (ficar viajando) é com, mas não por 40 semanas, é complicado. Chega no final do ano, você já está completamente morto. Aí a família fala: “Ah, agora vamos viajar de férias. E toca o aeroporto. Então, agora eu estou podendo ficar mais em casa”. Os primeiros dias foram muito estranhos porque você já não é mais o escravo do tempo. Então, esse foi o primeiro ajuste que foi um pouquinho complicado. Você pode fazer as coisas com calma porque tem tempo.
Depois, muita gente falava, que eu não podia me afastar do tênis, que trabalhei em período espetacular, com 25 dos 29 números 1 do mundo. Teve a época o Federer, Nadal, Djokovic, também essa nova, começando agora, com Alcaraz, Sinner, além da época de Wilander, Becker. Foi uma maravilha porque eu amo o tênis e além de tudo era o meu trabalho. Só depois que eu parei, que eu comecei a analisar todas essas coisas. Falei: “poxa, foi uma bela viagem”. Eu nunca tinha pensado nisso antes, foi só no momento que eu parei, que aí as pessoas começaram a me perguntar (sobre os feitos da carreira). Aí eu comecei a me dar conta de todas essas coisas, que até então eu não sabia, como essa dos 25 entre os 29 número 1. Se me perguntasse quantos foram eu ia falar que não sei. Fiquei sabendo isso por causa das homenagens no final, meu chefe que me deu esses números.
Depois comecei a pensar no que poderia fazer então começaram a vir convites. Uma empresa que faz umas panelas famosíssimas na Itália me convidou para fazer uma apresentação, falar da minha carreira. Tinha um jantar, um lugar espetacular. E aí começou, fiz não sei quantos outros eventos. Quando tinha esses torneios VIP, me convidavam para ir jogar ou pra fazer a final do torneio. Fui convidado para ir na televisão, na Sky, lá da Itália, duas ou três vezes, para falar de tênis e dar minha opinião. Coisas que a gente não podia fazer, na época que era árbitro. Começaram a aparecer muitas coisas diferentes e nesse ano me convidaram para ser diretor de torneio de Cesenatico. Foi uma experiência muito legal ver esse outro lado do tênis, tentar ajudar os jogadores da melhor forma possível com a colaboração de um grupo de pessoas trabalhando junto. Foi muito divertido. Inclusive me convidaram outra vez para fazer um challenger agora, que é depois de Roma Um monte de coisas novas, até comecei a escrever um livro, porque são tantas as histórias de tênis. E tem as histórias de viagens, dos lugares que eu conheci. Foram mais de cem países, todos os torneios praticamente que tiveram. São planos que ainda tenho, que não vão me deixar longe do tênis.
Pegando esse gancho desse livro, que tipo de histórias que você está mais focando nele? O que você pretende abordar?
Principalmente o início da carreira, porque é muito diferente de hoje em dia. Naquela época, estou falando de 1984, quando fiz meu primeiro torneio. Foi um Federation Cup (atual BJK Cup) no Pinheiros. Eu era professor de tênis, tinha esse torneio que jogavam no Pinheiros e precisavam de 120 juízes de linha. Eu falei pra minha chefe que queria ver como é que é. E aí foi aquela paixão à primeira vista. Então passei a fazer alguns torneios pequenos, depois fiz Campos de Jordão. No final, gostei tanto que tive que começar a fazer escola para conseguir uma certificação para poder ir a um nível superior. Então fui sempre indo passo a passo. Tive que aprender inglês, porque depois que você passa pelo lado brasileiro e sul-americano vai para Estados Unidos. Minha primeira vez lá foi em 92, quando eu fui pro Lipton. A gente foi por causa da chefe do Lipton, que veio fazer uma turnê no Brasil, gostou da gente e convidou seis para ir para Miami. Imagina sair de São Caetano e chegar em um lugar assim.
Então o livro se apoiaria nesse começo e depois nas histórias com os jogadores, nos torneios. São mais de oito mil jogos. Tem jogos emocionantes, como as finais de Grand Slam. E eu consegui fazer a Copa Davis, que era a única que eu nunca tinha feito. Consegui fazer no meu último torneio, foi uma coisa assim legal. As pessoas sabiam que eu nunca tinha feito e me convidaram. Em Wimbledon me falaram que ia fazer a final (da Copa Davis). Então foi como fechar um ciclo para mim. Eu comecei com a Federation Cup e terminei com a Copa Davis na ITF, com o mesmo tipo de torneio. Foi muito legal. Acho que todo esse reconhecimento que eles me deram foi uma coisa fantástica, me deixou muito contente.
Você falou dessa escalada na carreira, de um passo depois o outro. Qual foi aquele passo que mais impactou?
Um deles foi a abertura que a mulher, que era a chefe do Lipton, deu para gente. Era uma mulher fantástica, ela levava os juízes, a gente dormia na casa dela. Tinha uma casa no fundo e os seis juízes brasileiros ficavam ali. Ela adorava os brasileiros…Joyce Singer. Tinha uma personalidade muito forte, porque os norte-americanos, naquela época, usavam os torneios como férias, para viajar para Miami, Indian Wells e ela abria espaço para nós, em 1992 bancou a gente foi pela primeira vez. Em 1993 era eu e uma australiana, que hoje é supervisora da WTA a
Donna Kelso. Nós fomos selecionados para fazer a final do torneio e você não sabe o bafafá que deu e os americanos não falavam mais com a gente porque estávamos tirando o lugar deles. Então esse foi um passo grande porque abriu espaço para o nosso trabalho nos Estados Unidos.
E depois, teve outro momento que foi quando fui designado pra um torneio em San Jose e eu fiquei com o outro árbitro para fazer as semifinais e final. As duas semifinais foram Andre Agassi contra MaliVai Washington em uma e na outra Jim Courier contra Michael Chang. Eram três top 10 e o número 18 do mundo. Para mim, primeiro torneio designado nos Estados Unidos, 15 mil pessoas, quatro jogadores norte-americanos, a nata da época. Faltava só o Sampras, que não tinha jogado o torneio. Foi uma experiência que me ajudou bastante, mostrou que eu estava preparado para iniciar nesse grupo. Porque era muito mais difícil arbitrar no passado, agente não tinha chamada eletrônica, não tinha juízes de linha profissionais. Foi um passo que me deu muita experiência, que me ajudou bastante.
Hoje em dia, a arbitragem mudou muito, a gente não tem mais os juízes de linha em praticamente em nenhum torneio. Seria mais difícil para você se tivesse que começar agora?
O problema que se criou com essa forma de arbitragem hoje é o processo. Antes, quando você estava na transição de juiz de linha para juiz de cadeira, você conseguia aprender com os caras (juízes de cadeira) ao trabalhar como juiz de linha com eles, dava para observar como eles se comportavam, como falavam, como manejavam o jogador. E aí você ia aprendendo, era uma escola vendo os melhores. Hoje, quando você vai começar, primeiro que já não tem essa oportunidade de viajar, porque não precisam mais de juízes de linha. Isso você já perde de cara. Te dou um exemplo de Roland Garros, onde ainda temos juízes de linha porque eles querem insistir. Então você que é Juiz de linha num challenger – eles têm bastantes challengers ainda com juiz de linha – e seu próximo passo é trabalhar em um 250, depois num 500 e depois num 1000 para aí ir para Roland Garros, só que esse caminho acabou.
Então os responsáveis pela arbitragem precisam descer de nível para avaliar os candidatos e ver quem pode ir para Roland Garros. Mas você não passou por aqueles outros níveis, vendo a bola ficar mais rápida aos poucos, vai ter que ir direto. Eles estão com o problema de conseguir a base, mesmo que, para mim, tenham a melhor escola de arbitragem. Os franceses pegam garotos bem jovens, ensinam, fazem de juiz de cadeira, aí vão passando de um por um até chegar a ser selecionado para Roland Garros. Agora, você sai de challenger direto para Roland Garros, quebrou todo esse processo. Vai influenciar bastante nessa formação. Agora, o juiz de linha que vai começar vai ter essa paciência de ficar fazendo challenger? Ele não pode viajar mais porque não tem mais torneio para fazer no circuito. Ele vai fazer só challenger ou faz o curso de juiz de cadeira? Fazendo o curso de juiz de cadeira, você não tem toda essa formação que eu estava explicando, de viajar e observar, você vai direto ali com o negócio… e com uma máquina. Ou seja, nem sua opinião você vai dar. Você não chama mais as bolas, é a máquina que chama a bola.
Antes de eu parar, estava conversando e eles estão tentando descobrir outras formas de fazer as avaliações para criar um ambiente para treinar este juiz. Agora, com os óculos de VR (realidade virtual) pode tentar simular. Mas toda essa preparação que a gente teve, de aprender como falar com o jogador, não tem mais. Hoje você vai fazer o coin-toss e qualquer dúvida chama o VAR. Para quem quer virar um juiz, precisa ver se também é isso que quer fazer, porque você praticamente não faz nada, a máquina marca tudo. Até o próprio jogador vai crescer sem essa personalidade do árbitro em quadra. A gente está indo por esse lado em todos os esportes. Não sei até que ponto isso vai ser bom porque a gente não vive num ambiente sem erro. Eles estão vivendo agora nesses últimos anos e você vê que às vezes os jogadores têm que brigar com alguém e sobra para o técnico. O cara arruma a bola, ele sabe que foi ele, não foi o juiz de linha que chamou errado ou o juiz de cadeira que chamou errado, foi ele que errou. Aí ele fala: “Pô, mas ele é que me treina, então é ele que é o errado”. Você muda completamente a forma do jogo. Então. Para um árbitro hoje, ele perdeu toda essa formação.
Você é uma figura relevante para o tênis brasileiro, quando vinha para os torneios no Brasil sempre era muito requisitado pelos fãs de tênis. Como você avalia essa figura que se criou ao seu redor e como se sente com essa importância para quem acompanha tênis e também para quem se inspira em você?
Quando arbitrava, não fazia só os jogos, também tinha um trabalho de observar, avaliar e aconselhar os jovens árbitros. Conversava com eles sobre como poderiam melhorar, como falar com o jogador. Uma coisa que foi muito engraçada, nesse meu último ano em Roland Garros, queriam fazer uma homenagem e reuniram todos os árbitros de cadeira do torneio na primeira semana numa sala. Eles me deram um quadro e quando eu olhei para falar com eles (árbitros), eu tinha feito a avaliação de todos eles. Todos. Eram mais de quarenta e eu trabalhei com todos eles, mesmo os mais experientes como Cedric (Mourier). Então, foi uma coisa que me deixou muito contente. Porque no final, vi que pude dar uma parte pequeninha de meu trabalho para esses caras, para eles progredirem também. Continuo me comunicando com eles, sempre que um faz uma final eu mando os parabéns.
A relação com as pessoas às vezes me impressiona, sinceramente, porque eu acho que a televisão, a internet, o Instagram e todas essas coisas ampliaram muito minha figura como pessoa pública. Você não tem ideia. Eu fui no médico aqui, quando eu cheguei, num hospital que é longe da minha casa, lá em Santo André, entrei no lugar e logo depois que eu sentei, uma menininha do meu lado veio e falou: “Você que era juiz de tênis”? Eu falei que sim. Aí percebi que o pai dela que tinha falado para ela. Então, esse tipo de coisa faz você não se dar conta. Eu acho que esse feedback das pessoas é que prova que fiz um bom trabalho, porque as pessoas não vêm me acusar de ter errado, mas sempre vêm me falar coisas boas. Esse último ano foi espetacular.
Uma coisa assim que nunca imaginava é que de até os jogadores que vieram falar comigo na minha despedida, perguntavam se era o meu último torneio mesmo durante o jogo, com televisão ao vivo e tudo. Coisas assim que me marcaram bastante. Além disso teve o reconhecimento na Itália. Eu não sou italiano, mas mesmo assim me chamaram para fazer dois programas lá na televisão, como tinha falado, me convidaram para fazer várias apresentações. Teve uma vez que me chamaram para fazer uma apresentação para conversar com os garotos que jogavam em um clube no norte da Itália. Também me chamaram para fazer entrevista. Eu era juiz, mas não imaginava nada desse outro lado, isso é uma coisa que me deixa muito contente, porque eu não sinto aquela melancolia de ter parado, aquela tristeza.
Olhando para trás, para a sua carreira vasta de partidas e de jogadores, quais foram os que te mais te marcaram?
Bem, jogador para mim eu acho que o Federer. Quando você vê o cara jogando da distância que a gente via, o tênis parecia o esporte mais fácil do mundo. Era uma leveza que me impressionou. Temos esses agora, que batem muito forte, mas ele tinha uma categoria que era um espetáculo. Admiro muito Nadal e Djokovic, que para mim é um que as pessoas não dão tanto valor quanto deveriam, por todo o sacrifício que ele teve para alcançar os dois e passar os dois. Mas como de impressão de ver jogar é o Federer.
Jogos, eu diria a final de Wimbledon, porque eram os jogos que eu via na televisão. Antes mesmo de começar a dar aulas ou começar a jogar mesmo, eu via aquela quadra e aí o dia que você vai e vai fazer a final pela primeira vez, é uma coisa que não dá para descrever. É um espetáculo. Tiveram muitos jogos, mas esses nos torneios grandes são os que marcam. No US Open eu fiz a final do (Andy) Roddick contra o Federer, que foi a minha primeira final de Grand Slam, isso em 2006, foi 20 anos atrás.
Você falou que vai ser diretor de mais um challenger na Itália, tem um livro para escrever, mas além disso, quais os próximos planos?
Largar o tênis é difícil. Todas as coisas que eu conquistei, tem a mãozinha ali do tênis. Eu gostaria de ficar mais tranquilo, adoro ficar em casa: passo roupa, lavo louça, faço a comida, faço de qualquer coisa. Mas também quero continuar a ajudar o tênis no que puder. Tenho toda essa experiência, vi tantas coisas que gostaria de ajudar. Eu gostei muito desse lado do diretor do torneio. Gostei muito da televisão, achei legal comentar.












Lenda do tênis mundial
Não há como discordar! Ele tem um prestígio incrível.
Esse brasileiro, sim, merece todo nosso aplauso!
Trabalhei durante varios anos com o Bernardes ,desde 1985,quando iniciei minha vida nos torneios de tenis
Ele sempre foi referência , um cara diferenciado
Me emociono ao ler tudo o que ele viveu e me alegro por ter feito parte dessa história,mesmo dentro de minha limitações
Deus te abençoe Bernardes
O tenis brasileiro te agradece
Rubio Ribeiro