Onde tudo começou: conheça a história de Wimbledon e do tênis

Wimbledon foi o lugar que transformou o tênis num esporte competitivo e, por isso, permanece há quase 150 anos como o mais importante evento do calendário internacional.

O All England Club foi criado em 1868 para a disputa de críquete, com sede da Worple Road, e passou a ter quadras de tênis em 1875, um ano depois que o major Walter Clopton Wingfield patenteou a nova modalidade na Inglaterra. Mudou assim seu nome para All England Lawn Tennis and Croquet Club.

A necessidade de juntar fundos para ampliar a sede e principalmente consertar um rolo de grama levou o Club a organizar um torneio de tênis, em 1877, cobrando inscrição e oferecendo um troféu. Três anos antes, uma reunião havia padronizado as regras do novo esporte, que permanecem praticamente inalteradas até hoje, à exceção da altura da rede e dos postes e da distância da linha de saque em relação à rede.

O primeiro campeonato foi de simples masculino, com chave de 22 jogadores, e deu fama a Spencer Gore, um jogador de críquete que se inscreveu na última hora. Cerca de 200 pessoas pagaram um xelim de ingresso para assistir à final, algo em torno de 2 centavos de libra esterlina. As quadras foram arranjadas de forma que a principal ficasse ao meio do espaço e as demais em volta. Surgia assim a Quadra Central. Quando o Club mudou sua sede para a atual Church Road, essa disposição acabou alterada e apenas em 1980, quando foi comprado um terreno ao norte e construídas novas quadras, a ideia de Central retomou sua origem.

O sucesso do tênis foi tão grande que praticamente encerrou a disputa do críquete no Club. O termo foi retirado no nome em 1882, mas por motivos sentimentais acabou reincluído em 1899 e assim permanece, embora haja pouquíssimos jogos de críquete atualmente.

Entram as mulheres

Em 1884, houve a primeira competição feminina, com 13 jogadoras, e Maud Watson ficou com o título. No mesmo ano, começou a ser disputado o torneio de duplas masculino através de troféu doado pelo Oxford University Lawn Tennis Club.

Conforme a popularidade de Wimbledon crescia, as facilidades para os espectadores aumentavam. Lugares fixos foram substituindo gradualmente as acomodações temporárias para que o público, sempre crescente, pudesse assistir aos gêmeos Ernest e William Renshaw, que juntos ou não ganharam 13 títulos entre 1881 e 1889.

Na virada do século, Wimbledon assumiu notoriedade internacional e, em 1905, a norte-americana May Sutton tornou-se a primeira estrangeira a ganhar o torneio, feito repetido pelo australiano Norman Brookes dois anos mais tarde. Desde então, ao longo de toda a era amadora, apenas apenas dois britânicos levantaram o troféu, Arthur Gore e Fred Perry.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os jogos em Wimbledon foram suspensos e o All England Club sobreviveu graças a doações de membros. Quando recomeçou, em 1919, o torneio passou a contar com uma nova geração de jogadores. A francesa Suzanne Lenglen acabou com o domínio inglês em simples feminino, que durava 35 anos, ao vencer Dorothea Lambert Chambers. O ano de 1920 marcou a chegada do norte-americano Bill Tiden, um dos maiores jogadores da história do tênis.

Nova sede

Tantas estrelas forçaram a mudança de sede para a Church Road, numa cerimônia que contou com o rei Jorge 5º. O estádio principal foi erguido para 14 mil espectadores. A verba veio do fundo de reservas do Club e de uma campanha de venda de títulos. O interesse do público por ingressos chegou a tal ponto que, naquele ano de 1922, adotou-se o critério de sortear as entradas, sistema que continua até hoje. Ao mesmo tempo, os organizadores eliminaram o “challenge round”, em que o campeão do ano anterior disputava apenas a final, ou seja, defendia o título.

A cada ano, durante a década de 20, a França tinha pelo menos um campeão. No fim do reinado de Suzanne Lenglen, os famosos ‘quatro mosqueteiros’ – Jean Borotra, Jacques Brugnon, Henri Cochet e René Lacoste – apareceram e nos 10 anos seguintes ganharam seis títulos de simples e cinco de duplas entre eles

O tênis norte-americano também brilhou, primeiro com Helen Wills, já em 1927, e depois com o retorno vitorioso de Bill Tilden, que ganhou o torneio aos 38 anos. No início da década de 30, Wimbledon já atingia 200 mil ingressos vendidos e foi o momento de o tênis local viver sua era de ouro. Fred Perry ganhou três vezes, Dorothy Round chegou ao bi, resultados que se juntavam às glórias na Copa Davis, disputada na Central. Pouco antes de a Segunda Guerra paralisar novamente o torneio, em 1939, Don Budge e Helen Wills Moody retomaram a hegemonia norte-americana. Alice Garble surpreendia, ao trazer o estilo saque-voleio ao jogo feminino.

A Guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Club permaneceu aberto, mas houve poucas atividades com o tênis. As instalações foram usadas pela defesa civil, incluindo corpo de bombeiros e ambulatórios. Por isso, em 1940, uma bomba alemã atingiu a Quadra Central, destruiu parte do teto e resultou na perda de cerca de 1.200 lugares. Em junho e julho de 1945, com o final dos conflitos, soldados disputaram partidas na Quadra 1. Em agosto, aconteceu o Campeonato Americano Europeu, com vitória de um britânico que servia as Forças Armadas dos Estados Unidos.

Em 1946, com grande esforço e muitas limitações, Wimbledon recomeçou seu tradicional campeonato. As quadras acabaram totalmente reformadas em 1949. A única coisa que não mudou foi o domínio norte-americano, período marcado por conquistas de Jack Kramer, Tony Trabert, Maureen Connolly e Althea Gibson. A década de 60 passou a ver a ascensão do tênis australiano, que chegaria até 1970. Entre os grandes nomes, estiveram Lew Hoad, Neal Fraser, Rod Laver, Roy Emerson, John Newcombe e Margaret Smith.

A grande exceção foi Maria Esther Bueno, que conquistou seu primeiro triunfo em 1959 e acabou com a festa americana. A brasileira fez história vencendo mais duas vezes, em 60 e 64, além de erguer cinco troféus de duplas.

Billie Jean King (Foto: AELTC/Michael Cole)
A Era Aberta
A expansão das viagens aéreas em 1950 significou mais e mais estrangeiros competindo. Ao mesmo tempo, os jogadores começaram a receber ajuda financeira. O Club propôs, em 1959, que o campeonato fosse aberto a todos os jogadores, extinguindo assim a restrição ao tenistas que se tornavam “profissionais”. A ideia foi rejeitada pela Federação Internacional e pela Associação Britânica. Em 1964, nova tentativa foi feita, mas outra vez barrada.

Em agosto de 67, oito “profissionais”, que haviam feito história em Wimbledon, participaram de um torneio de convidados para marcar o início das transmissões em cores de Rede BBC. Por fim, em dezembro daquele ano, a Associação Britânica decidiu abrir seus torneios da temporada seguinte a todos os tenistas e isso acabou forçando a Federação Internacional a fazer a reunião de maio de 1968, em Paris, que marcou o início da chamada “Era Aberta”. Rod Laver e Billie Jean King foram os primeiros campeões da nova fase de Wimbledon. O total de prêmios naquele ano beirou as 26 mil libras esterlinas.

Mas os tempos profissionais não seriam tão tranquilos. Logo em 1973, Wimbledon sofreria o maior boicote da história do esporte, quando nada menos que 81 dos principais jogadores decidiram não competir, em represália à suspensão dada pela Federação Iugoslava a Nikki Pilic, que havia se recusado a disputar a Copa Davis. Ainda assim, mais de 300 mil espectadores foram ao torneio, que viu a vitória do tcheco Jan Kodes e o histórico sexto troféu da norte-americana Billie Jean King.

Bjorn Borg em 1980 (Foto: Flickr)
Imortais
A era profissional fez surgir quatro imortais na grama de Wimbledon. O primeiro foi o sueco Bjorn Borg, único na história até então a levantar o troféu por cinco vezes consecutivas. A final de 1980 contra John McEnroe ainda é apontada como um dos maiores jogos de todos os tempos.
Depois, veio o alemão Boris Becker, símbolo do tênis-força moderno, mais jovem campeão da história aos 17 anos. Ao final dos anos 80, a norte-americana Martina Navratilova bateu o recorde absoluto de nove troféus de simples, seis deles seguidos. Já o norte-americano Pete Sampras atravessou a década de 90 como o maior homem sobre a grama, com sete conquistas entre 93 e 2000, e a alemã Steffi Graf venceu sete vezes, entre 1988 e 1996.

Começou então o domínio de Roger Federer e Serena Williams. O suíço fez seis finais seguidas e ganhou cinco delas, entre 2003 e 2007, chegando ao hexa em 2009, ao hepta em 2012 e ao recorde de oito troféus em 2017. Nesse período, o escocês Andy Murray disputou a final pela primeira vez em 2012 e chorou de decepção, mas no ano seguinte foi à decisão e enfim acabou com o jejum de 77 anos, provocando verdadeira euforia entre os britânicos. Repetiu o feito em 2016.

Novak Djokovic tem sido o outro fenômeno em Wimbledon, com sete troféus nas últimas 12 edições. Conquistou o primeiro título em 2011, depois dois seguidos em 2014 e 2015 e mais quatro sequenciais, entre 2018 e 2022. Serena também obteve longevidade admirável. Foi bicampeã em 2002-03, fez outra série em 2009-10, faturou 2012 e depois de vários problemas médicos voltou às conquistas em 2015-16, totalizando sete troféus.

Foto: AELTC/Joe Toth
Modernismo
Apesar da tradição, que exige roupa predominantemente branca, Wimbledon muitas vezes significou festa. Em 1977, celebrou seu centenário com um desfile de campeões e teve a honra de ver a rainha Elizabeth 2ª entregar o troféu a Virginia Wade. Nesse ano, também foram inaugurados o hoje superconcorrido Wimbledon Lawn Tennis Museum e a biblioteca.

Os últimos anos têm sido de inovações. Em 2008, o torneio finalmente igualou a premiação entre homens e mulheres; na temporada seguinte, veio a mais importante modificação, com a inauguração do teto retrátil da Quadra Central. A cobertura é acionada em caso de chuva, leva 10 minutos para ser completamente fechado e, uma vez colocado na partida, ficará até o final.

Para 2019, colocou teto retrátil também sobre a Quadra 1 e determinou o fim do set longo, primeiro com tiebreak no 12/12 do quinto set – regra usada na decisão histórica de 2019 – e agora com a regra uniformizada com tiebreak de 10 pontos em caso de 6/6.

Devido à pandemia do coronavírus, a edição 2020 foi cancelada, algo inédito desde a Segunda Guerra. O Club se valeu de um seguro de R$ 720 milhões para cobrir a despesa da não realização.

Em 2022, ano que marcou o centenário da mudança de sede, Wimbledon acabou com a secular tradição de não fazer jogos no domingo que divide as duas semanas, mas se envolveu em grande polêmica ao impedir russos e bielorrussos de se inscreverem devido à invasão da Ucrânia. Em retaliação, ATP e WTA decidiram não dar pontos no ranking para o torneio.

Já para 2025, o All England Club decidiu eliminar os juízes de linha de todas as quadras e adotar o sistema eletrônico de chamada.

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