Oscar exemplo de bondade, talento e perseverança

Peço licença para trocar de assunto. Mas por um período da minha carreira de jornalista, o tênis e o basquete caminharam juntos. Nos idos dos anos 80, depois de cobrir as eliminatórias da Copa do Mundo de Futebol (na época a classificação era outro formato e tudo ficava decidido em cerca de dois meses em jogos entre os países concorrentes) e chegando de confrontos do Brasil em países como Equador, Colômbia, Venezuela e Bolívia, fui convidado para substituir um colega, que iria se aposentar, no que a gente chamava de “esporte amador”, ou seja tudo que não fosse futebol.

A indicação do meu editor veio pelo fato de eu talvez ser o único repórter que conhecia as regras do tênis. Jogava regularmente no A D Floresta, hoje Clube Esperia. A decisão foi difícil, pois sabia que perderia espaço editorial no jornal (Estadão). Mas como sempre fui de ir para a frente de batalha e não gostar de ficar parado na redação, revolucionei a cobertura do tênis, tanto é que pouco tempo depois, em 1985, fui ao meu primeiro Roland Garros, em Paris.

No basquete, a cobertura era mais dinâmica. A modalidade estava em alta na época e viajei o mundo acompanhando a Seleção Brasileira e clubes tradicionais. Conheci o Oriente Médio com o Sírio, cruzei os Estados Unidos de costa a costa, também com o Sírio, e acompanhei o Monte Líbano na Ásia, numa inesquecível visita ao Japão, em cidades como Tóquio, Nagoya, Kobe e a religiosa Kyoto.

Com a Seleção andei pela América do Sul. E no Pré-Olímpico do Uruguai, no ginásio El Cilindro, conheci o lado bondoso de Oscar. Ele já era um jogador consagrado. Juarez Araújo o descrevia na Gazeta Esportiva como “mão santa”. Emprestava sua experiência e conhecimento aos mais novos, com dicas técnicas e também de comportamento. Lembro bem de como falava (ensinava) o pivô Pipoca, que em pouco tempo também se transformou num astro do basquete mundial.

O lado mais explosivo e de forte personalidade do mão santa bem treinada apareceu no Oriente Médio. Na época a entrada nos países desse lado do mundo era de rígido controle, bem distante das facilidades de turismo dos dias atuais como Dubai, Doha etc. Na chegada a qualquer um desses países, nossas malas eram vistoriadas. Ao final, o agente da alfândega marcava com um giz quem já tinha passado pelo controle. Num certo dia, a bagagem de Oscar estaria liberada, mas um outro agente pediu para abrir novamente. O grandalhão reclamou. Falou “já fui vistoriado, não está vendo a marca do giz?” Sem cerimônias, o agente passou a mão em cima, apagou o giz e ironicamente – até provocativo – disse “não está mais”.

Na época o Aitolá Khomeini havia retomado a liderança da região. Segundo me contou uma aeromoça numa das viagens, os costumes que estavam mais brandos, voltaram a ser rígidos. E em certo voo, Oscar sentou na poltrona que estava determinada em sua passagem. Só que ao lado dois outros lugares estavam destinados para mulheres orientais. Como naqueles anos elas não costumavam sentar ao lado de homens ocidentais, a aeromoça pediu para o mão santa trocar de assento. Ele recusou e disse que estava no seu direito. Até que o comandante da aeronave anunciou que se ele não trocasse de lugar o voo não partiria. Diante desse argumento, Oscar manteve a paz nos ares.

Sem dúvida nenhuma um dos momentos mais gloriosos que acompanhei Oscar foi durante o Pan Americano de Indianápolis, em 1987. Nos treinos ficava sim um tempo a mais aperfeiçoando os arremessos, assim como também fazia o genial Marcel.

No dia da decisão da medalha de ouro, além do basquete, o tênis brasileiro também estaria em ação. Foi um dia glorioso. Fernando Roese ganhou a medalha de ouro de simples masculino e Gisele Miró a de simples feminina. Só que pelo meu envolvimento com a turma do basquete, pedi ao jornal para cobrir a final entre Estados Unidos e Brasil. Nesse Pan muito se falava do feminino e com respeitadas euforias, pois a dupla Hortência e Paula estava em alta. Mas não reclamei e até gostei de ficar com a cobertura do masculino. E então tive a honra e o privilégio de estar na tribuna de imprensa, colada à quadra, nesta memorável e histórica atuação de Oscar e cia…

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Ronildo
Ronildo
15 dias atrás

Não sei se estava correto naquele momento Chiquinho, mas quando via Oscar jogar ficava com a sensação que ele seria titular da seleção americana caso fosse natural de lá.

Samuel, o Samuca
Samuel, o Samuca
13 dias atrás
Responder para  Ronildo

Dream Team 1992, na mesma posição de Oscar: Larry Bird, Charles Barkley, Scotie Pippen, Karl Malone.
Eles dão muita importância para a atuação na defesa, onde o Oscar era muito fraco. Os americanos citados, exceto Bird, foram excepcionais na defesa, principalmente o Pippen, um dos melhores defensores da história.
Ou seja, o nosso brasileiro só teria lugar na arquibancada para aplaudir as feras.
No ataque eles estavam bem servidos, pois tinham um tal de Michael Jordan.
Oscar foi excelente, mas os gringos estavam em outro patamar.
Para ter ideia, naquele jogo Oscar arremessou 25 bolas para fazer 24 pontos, desempenho considerado sofrível, pois o normal seria fazer de 35 a 40 pontos.

Vanda Ferraz Lopes de Oliveira
Vanda Ferraz Lopes de Oliveira
15 dias atrás

Com certeza um dos maiores atletas que o Brasil já teve !!!
Parabéns por fazer esta matéria!!!

Maurício Sabbag
Maurício Sabbag
14 dias atrás

Não só como atleta, mas ele foi também exemplo de resiliência, otimismo e luta contra o câncer. Uma batalha que durou 15 anos, e que poderia ser bem mais curta não fosse o espírito combativo do grande (em todos os sentidos) Oscar.
Que descanse em paz e seja muito bem recebido pelo de lá de cima.

Jornalista especializado em tênis, com larga participação em diversos órgãos de divulgação, como Grupo Bandeirantes de Comunicações, TV Globo, SporTV e o jornal Estado de S. Paulo. Revela sua experiência com histórias de bastidores dos principais torneios mundiais. Já cobriu mais de 70 Grand Slams: 30 em Roland Garros; 22, no US Open; 18 em Wimbledon; e 5 no Australian Open.
Jornalista especializado em tênis, com larga participação em diversos órgãos de divulgação, como Grupo Bandeirantes de Comunicações, TV Globo, SporTV e o jornal Estado de S. Paulo. Revela sua experiência com histórias de bastidores dos principais torneios mundiais. Já cobriu mais de 70 Grand Slams: 30 em Roland Garros; 22, no US Open; 18 em Wimbledon; e 5 no Australian Open.

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