Time B da Davis merecia a vitória

Matheus Pucinelli (Foto: André Gemmer/CBT)

Sem João Fonseca e a experiência de Thiago Wild e Thiago Monteiro, todos preocupados com o saibro sul-americano e a necessidade de defender pontos ou se recuperar na carreira, o Brasil foi para o piso sintético coberto de Vancouver como mero coadjuvante. Afinal, o Canadá, mesmo sem seus dois principais jogadores, contaria com o sacador Gabriel Diallo, top 40, muito, mas muito à frente no ranking de qualquer dos homens de Jaime Oncins, jogando em sua superfície favorita e com o apoio da gélida mas sempre importante torcida. E eis que o Brasil surpreendeu e esteve muito perto de uma virada e classificação históricas. E por tudo que aconteceu, merecia.

O todo poderoso Diallo não contava com uma das melhores atuações da carreira de Gustavo Heide, compenetrado no saque, firme na devolução, aplicadíssimo na parte tática. Heide não havia feito qualquer jogo desde a derrota no qualificatório do Australian Open e me deixava algumas dúvidas sobre sua condição física e ritmo de jogo. Voltou a mostrar que, quando o primeiro serviço funciona, ele fica um tenista muito perigoso, porém o destaque mesmo foi seu equilíbrio emocional nos dois tiebreaks vencidos na duríssima partida. E isso depois de João Lucas Reis perder o duelo inicial para Liam Draxl, 145º do mundo e mais habituado ao nível challenger, que no entanto tirou o melhor do seu estilo agressivo sobre as condições velozes de Vancouver.

Menos de 24 horas depois, Oncins deu uma cartada perfeita e trocou Reis por Matheus Pucinelli, muito provavelmente por entender que, sem um saque de peso, seria difícil encarar o número 1 canadense. E o paulista de 24 anos, que só havia enfrentado um top 50 em sua ainda jovem carreira, cumpriu o papel. O desempenho do primeiro set foi magnífico, colocando Diallo sob total pressão e na correria. Mesmo perdendo intensidade na série seguinte, Pucinelli se recompôs para um terceiro set disputado palmo a palmo, em que teve uma chance preciosa de break-point antes do tiebreak. Exigiu o máximo do adversário, com games longos, muitas trocas de bola e ótimas transições à rede, onde mostrou sua conhecida mão para executar ótimos voleios. Foi uma pena, porque Pucinelli era o melhor tenista em quadra.

Isso aconteceu depois de a dupla de Rafael Matos e Orlando Luz marcar a virada parcial do placar, o que certamente colocava muita pressão sobre Diallo. Os gaúchos começaram um tanto sem ritmo, enquanto Draxl e o parceiro Cleeve Harper mostravam nível elevado, empurrados pela empolgação contínua e incontida de Draxl, que se tornaria a principal figura do fim de semana em Vancouver. Pouco a pouco, os brasileiros fizeram valer o favoritismo, mas precisaram lutar demais o tempo todo. Destaque para o primeiro saque oportuno de Orlandinho e a ótima movimentação de Matos, que para mim é um dos melhores duplistas do circuito atual. Vale lembrar que Oncins havia escalado Fernando Romboli e Marcelo Melo, mas o rompimento inesperado do dueto provocou a mudança.

Veio então a quinta e decisiva partida, com expectativa que Heide mantivesse o altíssimo padrão da véspera e que Draxl sentisse algum desgaste por ter disputado as duplas pouco antes, em que gastou muita energia. No entanto, me parece que Heide não se recuperou totalmente da batalha física e mental e ainda sentiu o peso da responsabilidade de decidir o confronto. O primeiro saque não fez a diferença necessária e Draxl, que já havia vencido Heide em duelo anterior no circuito, estava a mil. Chegou a sofrer leve torção de tornozelo ainda no quinto game, no momento em que o brasileiro se recuperava da quadra sofrida. Mas Heide não embalou e voltou a sacar com irregularidade. Elevou depois o nível e fez um segundo set bem melhor, mais determinado e eficiente da base, até que veio a quebra dolorosa e Draxl completou a vitória num game de Roger Federer.

O Brasil perdeu a chance de ir para a segunda rodada do quali mundial, onde enfrentaria França ou Eslováquia, com chance de atuar como mandante caso desse a lógica e os franceses vencessem. Agora, terá de esperar até setembro para disputar a repescagem e tentar novamente vaga no quali de 2027, como aconteceu no ano passado contra os gregos.

Ao olhar o lado muito positivo de um final de semana inesperado, Heide e Pucinelli mostraram qualidade muito acima do que vinham fazendo em nível challenger, prova de que podem jogar bem mais. Heide já esteve entre os 150 e tenta recuperar o tempo perdido com a cirurgia nas costas. Pucinelli já passou dois períodos de contusões e pode ir muito além do 190º posto que já ocupou. Tomara que os organizadores do Rio Open tenham acompanhado a Davis e usem a brecha de convite restante com a saída de Gael Monfils para compensar os dois.

E segue o calvário de Bia Haddad

Convidada para disputar o qualificatório do WTA 1000 de Doha – mais um detalhe inexplicável nesta sequência de cabeçadas, já que tinha ranking suficiente para isso -, Beatriz Haddad Maia segue num momento de falta de confiança e pouca produtividade. Ganhou seu primeiro jogo do ano de uma tenista que vinha jogando (sem sucesso) qualis de nível W15 e, quando encarou uma jogadora de maior gabarito, a ex-top 80 Anastasia Zakharova, vieram à tona toda sua dificuldade com o saque e a inconsistência da base.

Neste domingo, ganhou um presente: a quarta desistência da chave principal, agora da romena Sorana Cirstea, campeã no sábado em Cluj-Napoca. Terá como adversária a indonésia Janice Tjen, 47ª do ranking, em confronto inédito. Quem sabe, livre de qualquer compromisso nesta altura do campeonato, ela jogue mais solta, como fez nos primeiros sets das partidas na Austrália. Se avançar, teria pela frente nada menos do que a número 2 do mundo Iga Swiatek, a quem já enfrentou quatro vezes e ganhou uma e que também não anda assim tão regular como bons tempos. Como o destino age de formas estranhas, resta sonhar que o momento de virada pode estar logo à frente.

E mais

– O Chile foi até agora o único dos cinco sul-americanos a avançar no quali da Davis, com vitória sobre a desfalcada Sérvia no saibro de Santiago. Mas terá de encarar a Espanha, talvez com Carlos Alcaraz.
– A Argentina também levou um time B para a Coreia e levou virada no segundo dia, também perdendo as duas simples finais. O Peru foi superado como era previsto pela Alemanha e o Equador tem boa chance de triunfar no saibro de Quito contra a Austrália. Se confirmar, pega a Grã-Bretanha.
– Alemanha x Croácia e EUA x República Tcheca são os melhores duelos da segunda rodada, em setembro. Os vencedores ganham o direito de disputar as quartas de final, em novembro, e viram candidatos ao título.
– João Fonseca volta às quadras na quarta-feira para iniciar a defesa do troféu e dos 250 pontos de Buenos Aires. Estreia diretamente na segunda rodada e pode duelar contra Francisco Diaz, campeão de 2024, que enfrenta o canhoto Alejandro Tabilo.
– O carioca ainda pode ter Tomas Etcheverry e depois Francisco Cerúndolo no caminho, refazendo a campanha do ano passado em que derrotou quatro homens da casa, incluindo Etcheverry na estreia e Cerúndolo na final.

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Jhonny
Jhonny
18 horas atrás

Na realidade sem o joao fonseca e jogando em quadra rápida coberto (e com wild e monteiro ma fase a mais de um ano) a previsão era uma derrota de 4.x.0 ou 4 x.1 (vencendo nas.duplas) e heide surpreendeu vencendo diálo e pucinelli surpreendeu mais ainda vencendo um set e levando no tie-break o 3.set

SANDRO
SANDRO
18 horas atrás

Eu não acho que o Brasil merecia a Vitória sobre o Canadá na Davis não… No próprio texto está escrito que Heide sentiu o peso da responsabilidade de decidir o confronto… Se seu time tem tenistas que só jogam bem a primeira partida, mas que “sentem o peso da decisão” e jogam mal, esse time não merece se classificar não… Parabéns ao Canadá, que soube decidir o confronto!!!

Daniel Ferreira
Daniel Ferreira
18 horas atrás
Responder para  SANDRO

A merecida vitória teria sido se Pucinelli tivesse vencido o Dialo. Quase chegou lá.

Guilherme
Guilherme
16 horas atrás
Responder para  SANDRO

Concordo

SANDRO
SANDRO
18 horas atrás

A Davis está tão desprestigiada que a Argentina enviou seu time “Cê cedilha”, nem foi time B não, várias outras equipes fizeram o mesmo, inclusive Canadá e EUA…

Refaelov
Refaelov
17 horas atrás

Clr q, dentro da expectativa inicial que era levar um 4×1 o resultado e, principalmente, o desempenho dos nossos singlistas foi acima das expectativas e merece elogios..

Dito isso, fica até feio um titulo: “Brasil merecia sair com a vitória”. Ora pois, o tênis se decide em quadra, assisti os 5 jogos e sinceramente não vi nenhuma marcação esdrúxula da arbitragem ou comportamento antidesportivo do time canadense que justificasse alguma injustiça na classificação deles..

Apesar do desempenho bem acima do esperado nos dois jogos contra o n°1 e top 40 canadense, o fato é que perdemos o confrotno pq fomos dominados nos 2 jogos de simples contra o n°2 canadense: um jogador que apesar de melhor rankeado q qlqr BR presente no confronto e infinitamente mais habituado ao hard indoor é um atleta que jamais chegou ao top 100 e, assim como os BRs, até aqui é um jogador de challengers.. logo, menos ufanismos/fantasias acerca doq se passou é salutar para se entender as falhas e onde se pode melhorar para melhores resultados futuros.

Saudações!

Ronildo
Ronildo
16 horas atrás

Achei de bom tamanho a participação do Brasil e o resultado foi justo em minha opinião. Se o Canadá fosse desclassificado acredito que o jovem Diallo seria muito penalizado psicologicamente.

Para alguns do blog creio que isto possa ter servido de “ensinamento” sobre “força mental”: Diallo jogando como franco favorito contra dois tenistas de ranking acima de 250, o “super jogo” de Heide contra Diallo, o sufoco que Pucinelli deu em Diallo e depois o muchamento de Heide quando tinha um teórico favoritismo devido ao rendimento no jogo do dia anterior contra um top 40.

Paulo Estarola
Paulo Estarola
15 horas atrás

O circuito anda a cada dia mais concorrido. Se antigamente alguns tenistas começavam o ano de forma.lenta, neste ano o AusOpen nem esfriou e já temos os mesmos vaforitos de sempre no TOP20 da corrida.

Obviamente que isso vai pesar para alguns já a partir do meio do ano, com contusões e afastamentos precoces do circuito.

A se ver…

Enquanto isso João começa o ano verdadeiramente em Buenos Aires. Agora vamos poder ver a estensão dos seus problemas físicos e o buraco criado pela perda de parte da pre-temporada no perigosíssimo ATP de Buenos Aires onde só vai pegar “pedreira” pela frente e depois.. “se” ainda tiver condições físicas, jogará no quintal de casa.

Última edição 15 horas atrás by Paulo Estarola
Ernani chaves
Ernani chaves
15 horas atrás

Espero que Heide e Pucinelli possam levar esse brilhante desempenho para o resto da temporada!!!

Fernando
Fernando
15 horas atrás

Jogou como nunca perdeu como sempre com essa equipe lugar do Brasil é na terceira divisão da copa Davis.

Roberto Rocha
Roberto Rocha
13 horas atrás

Infelizmente não temos nem time A…

Paulo É. Estarola
Paulo É. Estarola
11 horas atrás

Heide nos mostrou como a cobrança (e a preparação física) pesam para cadanum de forma diferente:
– Como ‘time B’, sem qualquer cobrança, Heide ‘fomos’muito bem no primeiro jogo.

Então no segundo, a preparação (ou deficiência) pesou muito, juntamente com a raquete, que passou a ter 40 kilos quando ele percebeu que a decisâo de alguma forma recairia sobre ele.

Nunca foi muito claro os ‘caminhos mentais’ que nos acompanham e nos deixam mais leves/mais tranquilos ou estressados e nervosos a caminho do quadra/do campo – Seja la qual for a sua modalidade – nem tampouco a receita psicológica para superá-los ou contorná-los. E esta receita os Tops não contam, nem em seus livros bibliográficos.

Talvez daí tenha nascido a famosa frase “Treino é treino e jogo é jogo”, mas com certeza autoconfiança e preparação adequadas ajudam em muito a chegar mais tranquilo para o momento da competição.

Quando chegamos bem fisicamente, com a tática já estudada e repetiva exausticamente lá na mente, estudo da prova e dos adversários e descansados, com certeza o caminho para colocar tudo em prática tornará nossa competição bem mais leve e prazerosa.

O ponto é que uma vez relaxados – pois aquilo que nos é permitido controlar está sob controle (e entendimento que aquilo que diz respeito aos adversários ennão podemos controlar não nos diz respeito) hormônios relacionados ao estresse tendem a ser liberados em quantidade bem menor, melhorando o rendimento.

André Aguiar
André Aguiar
8 horas atrás

Esse duelo contra o Canadá mostrou uma vez mais a faca de dois gumes que é para alguns jogar em casa e com favoritismo conferido pelo ranking. O Diallo claramente não lidou bem com a situação. Nervoso nos dois jogos, quase entrega a rapadura no segundo, diante de um Pucinelli solto e regular. O Guga no auge perdeu mais de uma vez jogando aqui, não escondendo a pressão que sentia. Azar nosso e sorte do Canadá que o raquete 2 Draxl teve comportamento oposto, jogando solto e parecendo vibrar mais do que a própria torcida.
Agora é torcer para que o João Fonseca volte na repescagem em setembro e que voltemos a jogar em casa depois de cinco disputas fora.

SANDRO
SANDRO
36 minutos atrás
Responder para  André Aguiar

João Fonseca não deve perder o tempo dele com Davis Cup, deve se concentrar e prioriza torneios da ATP, isso sim…

Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br
Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br

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