As derrotas que ensinam no primeiro ano de Fonseca em Slam

Foto: Dustin Satloff/USTA

A derrota na segunda rodada do US Open encerrou a temporada de Grand Slam para João Fonseca, que teve suas primeiras experiências como profissional nos quatro principais torneios do ano. Fonseca acumulou seis vitórias e quatro derrotas em chaves principais de Slam em 2025. A mais expressiva foi justamente na estreia, diante de Andrey Rublev no Australian Open. Já as melhores campanhas foram as terceiras rodadas de Roland Garros e Wimbledon.

Derrotas podem ensinar muito, especialmente nessa idade. E alguns jogos deixam lições importantes para o carioca que completou 19 anos na semana passada. Começando pela partida mais recente, em que foi superado pelo tcheco Tomas Machac, 22º do ranking, por 7/6 (7-4), 6/2 e 6/3 na última quarta-feira. O adversário era um cabeça de chave e com um bom cartel de vitórias – já venceu Novak Djokovic e Carlos Alcaraz no ano passado – mas é um jogo que mostra alguns pontos que o número 1 do Brasil pode melhorar.

Fonseca teve um set-point na primeira parcial, que Machac salvou com ace. Não havia o que fazer naquele ponto. Mas foram apenas quatro break-points na partida e nenhuma quebra, o que lembrou o duelo contra Tommy Paul no saibro de Madri. O aproveitamento nos break-points tem pesado em alguns jogos e os erros em devoluções, principalmente no segundo saque, também fazem parte disso. Não acredito que João tenha “saído do jogo” depois de perder o 1º set, mas o vimos cometer mais erros do que fazer winners a partir da segunda parcial. E isso tem sido determinante contra adversários mais estabelecidos. Precisa trabalhar nisso para dar o outro salto.

+ Clique aqui e siga o Canal do TenisBrasil no WhatsApp

Em números das últimas 52 semanas da ATP, Fonseca é apenas o 73º colocado em aproveitamento de break-points, na casa dos 33%. Os líderes nessa estatística, da qual o próprio Machac é top 3, estão na casa dos 45%. E nos tiebreaks, o brasileiro é o 49º colocado com aproveitamento de 48%. Os primeiros dessa lista, como Jordan Thompson, Grigor Dimitrov e Jannik Sinner estão na casa dos 80%. Ainda em abril, a coluna de Alexandre Cossenza no blog Saque e Voleio do UOL também já citava dados parecidos. Há muita margem de evolução para o jovem tenista em momentos críticos das partidas.

Nas palavras do próprio João, “Foi um jogo difícil, contra um adversário sólido e com bons golpes. Esquerda muito boa, joga bem na primeira bola e entende de intensidade de jogo. Hoje eu acho que ele conseguiu fechar bem as portas”, avaliou o carioca, que acrescenta. “Acho até estava melhor que ele no primeiro set. Mas no tiebreak, ele foi frio e impôs um ritmo maior. E nos outros dois sets, ele fechou as portas. É um jogo que tem muito aprendizado, enfrentar um top 20 é diferente, então com certeza vou levar essa experiência para os próximos jogos”.

Faltou experiência e controlar a intensidade na Austrália

Fonseca chegou ao Australian Open carregando uma sequência de bons resultados em semanas anteriores, como os títulos do Next Gen ATP Finals e do challenger de Camberra e as vitórias no quali de Melbourne. E estreou na chave principal superando Andrey Rublev, apresentando-se ao grande público com um resultado expressivo. Na eliminação, diante do italiano Lorenzo Sonego, faltou saber controlar melhor a intensidade da partida que se encaminhava para uma disputa física com cinco sets de duração. Normal para um tenista em desenvolvimento e que admitiu que faltou um pouco mais de experiência para lidar com esse tipo de jogo.

“Eu estava nervoso desde o começo do jogo. Na minha cabeça eu não era favorito, mas tinha bastante chances de ganhar. Infelizmente não consegui jogar solto e bater forte na bola, dando winners como eu gosto de fazer”, ressaltou o tenista, que disputou uma partida de cinco sets pela primeira vez na carreira. “Baixei um pouco a intensidade. Meu saque baixou o nível e isso foi me preocupando. O nervosismo não estava me deixando jogar. Hoje faltou um pouco mais de experiência da minha parte. Eu preciso aprender a enfrentar o jogo e a pressão. Vou seguir trabalhando para melhorar mentalmente nesses momentos”.

Controle de Draper em Paris e o saque de Jarry em Wimbledon

Em Roland Garros, venceu dois jogos antes de ser superado por Jack Draper, número 5 do mundo e que vinha de uma final em Madri. Foi um jogo em que o britânico marcou três sets a zero, quebrando no início de cada parcial. Disposto a buscar objetivos maiores, afirmou ainda que jogos contra adversários desse nível são fundamentais para sua evolução.

Draper fez um jogo consciente, movimentou-se nos ralis de fundo e afastou o brasileiro da linha de base, para não permitir que Fonseca comandasse os pontos. Some-se a isso, um ótimo desempenho no saque. “Jogar contra esses caras, jogadores do top 5, exige saber lidar com essas situações. Em quadra dura, às vezes você ataca, ataca, e o ponto acaba. No saibro, você ataca, a bola sobe, de repente você está na defesa, precisando pensar de novo sobre o ponto e reiniciar a jogada”.

Já na grama de Wimbledon, conseguiu mais duas vitórias antes de ser superado por um adversário bastante experiente, o chileno Nicolas Jarry, em quatro sets. Foi uma partida em que o brasileiro mostrou dificuldades diante de um grande sacador, um dos pontos que podem se melhorados ao longo da próxima temporada.

Existem dois tipos de pressão quando se enfrenta um grande sacador. A primeira, obviamente, é a dificuldade de devolver, aliada à falta de ritmo nos pontos jogados no saque do adversário. E além disso, é exigido um nível de concentração ainda mais alto em seu próprio saque, diante das poucas oportunidades que aparecerão ao longo dos sets. E isso aconteceu nas duas primeiras parciais. Fonseca ainda reagiu no terceiro set, mas não conseguiu buscar a virada.

“Acho que o Nico jogou muito bem no começo, impondo um ritmo muito forte, tanto no saque quanto na devolução. Estava difícil para mim porque não estava acertando tanto o primeiro saque e ele foi mais protagonista, coisa que eu gosto de fazer”, disse Fonseca após a derrota por 6/3, 6/4, 3/6 e 7/6 (7-4) para Jarry. “Já no segundo set, ele começou sacando muito melhor e teve um break logo no início, o que o deixou mais tranquilo na partida. Os dois primeiros sets foram muito rápidos. No terceiro, consegui manter mais o meu saque, quebrei pela primeira vez e comecei a jogar melhor, mais confiante”.

“Mesmo perdendo os dois primeiros sets, aprendi que ainda é possível virar uma partida. Só é preciso manter o foco, porque tudo pode mudar rapidamente. No quarto set, cheguei a ter 0-40 no saque dele e senti que ele estava errando mais, talvez por sentir a pressão. O tiebreak poderia ter ido para qualquer lado, mas ele sacou muito bem e isso foi mérito dele”, acrescentou. “Jogar um Grand Slam é diferente. Os jogadores são mais concentrados e cada ponto conta muito. E na grama, você tem que estar sempre focado no saque, porque às vezes vai ter uma chance no 30-40, o cara mete um ace e você tem que continuar positivo”.

Os grandes já passaram por isso

Derrotas e aprendizado fazem parte do processo de um jogador em formação. João Fonseca começou a temporada como 145º mundo e sem nunca ter disputado uma chave principal de Grand Slam. Hoje está 100 posições acima, com vitórias em todos os torneios, um título de ATP e com chance até se aproximar do top 40 após o torneio. Ele é o tenista mais jovem de todo o top 100 do ranking mundial. O brasileiro não era favorito em nenhum dos quatro jogos que perdeu em Grand Slam, mas em pelo menos dois deles as chances se apresentaram para buscar resultados melhores.

Grandes tenistas já passaram por situações parecidas. Nomes como Alexander Zverev e Aryna Sabalenka tinham verdadeiras barreiras das oitavas em Grand Slam nos primeiros anos de circuito, Jannik Sinner e Carlos Alcaraz também precisaram de tempo até se tornarem as forças dominantes do atual tênis masculino. Iga Swiatek levou 0 e 1 de Simona Halep em Roland Garros quando tinha 18 anos. De lá pra cá, só perdeu mais dois jogos no torneio e já tem quatro títulos do Grand Slam parisiense, além das conquistas de Wimbledon e do US Open.

Podemos olhar até para Jakub Mensik, um ano mais velho que João e já top 20 e campeão de Masters 1000: Nunca passou de uma terceira rodada de Grand Slam. Fonseca nunca escondeu o sonho de ser campeão de Grand Slam e número 1 do mundo. E o caminho para isso não é outro além de seguir trabalhando, acreditando no processo e seguindo os exemplos de quem já passou por isso.

Subscribe
Notificar
guest
10 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários
Sérgio Ribeiro
Sérgio Ribeiro
2 meses atrás

Excelente comentário, caro Mario Sérgio. O mais jovem TOP 100 do Circuito, tem muito a melhorar. E os exemplos citados no Post , somente demonstram que podemos ser otimistas . Abs !

Lucas Mendes
Lucas Mendes
2 meses atrás

Vi todos os jogos do João. Todos absolutamente iguais. Muita pancada e muita intensidade. Trocando em miúdos: não aprendeu e nem evoluiu. Alcaraz ganhou Miami com 18 anos, ganhando antes o Rio Open. Ganhou do Nadal e do Djoko em Madrid.
Então, a distância está na casa de anos-luz.

Marcos RJ
Marcos RJ
2 meses atrás
Responder para  Lucas Mendes

Cada atleta tem seu proprio ritmo de aprendizado e evolucao. Algumas pessoas tem deficiencia de ler e intepretar uma analise esportiva, honesta e bem escrita. Sempre havera possibilidade de evolucao, se tiver interesse. Boa sorte!

Kleber
Kleber
2 meses atrás

Caro Mário Sérgio, você fez uma análise perfeita sobre o desempenho do João Fonseca nos 4 GS.
O tenista brasileiro tem um enorme talento e ainda um grande caminho a percorrer até se firmar no circuito como um top dez, por exemplo.
Os seus feitos até aqui não são nada desprezíveis e acredito que pode evoluir, principalmente nas devoluções de backhand e na paciência para trocar bolas e esperar o melhor momento de atacar.
O tempo joga ao seu favor.

Nelson Sakuma
Nelson Sakuma
2 meses atrás
Responder para  Kleber

Se desperta o desejo do Dkoko em treiná-lo, é porque tem muita potencial e talento para crescer e chegar ao topo do tênis. É preciso dar tempo ao tempo. Faço apenas um reparo: melhorar o condicionamento físico porque altura,.postura e resistência tem de sobra.

O Verdadeiro analista
O Verdadeiro analista
2 meses atrás
Responder para  Kleber

TOP10 é??

JClaudio
JClaudio
2 meses atrás

João Fonseca é um bom tenista, em formação, buscando resultados contra jogadores estabelecidos…
Furou a bolha do tênis aqui no Brasil, um esporte de nicho, muitas pessoas que não tinham familiaridade com o esporte, hoje oferece “pitacos” e “exigem” correções de rota (Galvão Bueno foi o mais recente).
Vejo muitas críticas do jornalismo especializado (Cossenza é um deles) sobre as cobranças e críticas ao jovem, seria como alguém escrevesse que não se pode criticar, pois não conhece o esporte, o que é algo “elitista” e toma o jogo como algo “catedráticos”, apenas para algumas almas escolhidas pelo Deus da sabedoria tênistica.
João Fonseca pode e deve ser cobrado, afinal, se colocou numa posição delicada, a de ídolo e referência de um esporte pouco popular.
Quando oferece entrevistas, notamos um desejo “nacionalista” do garoto (fala muito sobre ser brasileiro e o desejo de ocupar um lugar como ídolo dessa população, que no momento está vago).
Coloca o desejo de ser número um do mundo, antes mesmo de estar entre os melhores.
A crítica especializada, tem sua parcela de culpa na situação, no começo do ano, o entusiasmo era tão grande, que ninguém parou para pensar que algo poderia dar errado, as comparações eram com o Guga, o Big 3, fenômenos de outros esportes, no torcedor comum é algo natural, mas não no jornalista especializados, que deve, equilibrar vários aspectos do jogo de uma jovem promessa, que o tênis oferece todos os meses, promessas (jovens que podem ou não dar certo).
Está faltando uma “mea culpa” dos especialistas que hoje criticam quem crítica.

Flauber
Flauber
2 meses atrás

Acho que o salto só acontecerá quando ele mudar a base de treinamento para um centro na Europa onde terá adversários mais qualificados para treinar.

Marcos Antonio Vargas Pereira
Marcos Antonio Vargas Pereira
2 meses atrás
Responder para  Flauber

Ele treina com adversários qualificados o tempo todo. Ele joga com adversários qualificados o tempo todo. Treinar com sparrings na Europa ou na América do Sul é quase a mesma coisa. A diferença de treinar na Europa é a qualidade dos centros e treinadores, o que tem a América do norte também. Na hora que ele entender a necessidade de uma mudança, ele muda.

Marcos Antonio Vargas Pereira
Marcos Antonio Vargas Pereira
2 meses atrás

Assisti a maioria dos jogos do João, e a meu ver o maior buraco no jogo dele é a devolução. Ele se posiciona quase sempre da mesma maneira, sem tentar entender o saque do adversario. E as últimas derrotas foram contra bons sacadores como o scholltkate ou o atmane que tem a base do jogo em bons saques. E quanto mais se movimenta no ranking, mais bons sacadores vai enfrentar. E segundo as buscas das linhas na maioria das jogadas, o que faz jogar bolas para fora mais vezes, não tenho a estatística mas creio que a maioria dos enf vêm deste tipo de bola. Ainda tem muito aprendizado, o que é bom, pois tem muito que melhorar o que já está bom para a idade dele. Ninguém chega ao top 50 com 18 anos por acaso.

Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.
Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.

Comunicar erro

Comunique a redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nessa página.

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente ao TenisBrasil.