O que a virada de Sinner ensina sobre calor, fadiga e rendimento

Jannik Sinner (Foto: Nicolas Gouhier / FFT)

Eduardo Faria *

O tênis tem dessas histórias difíceis de explicar apenas pela lógica técnica.

Na quinta-feira, em Roland Garros, o italiano Jannik Sinner parecia caminhar para mais uma vitória protocolar. Número 1 do mundo, vinha embalado por impressionantes 30 vitórias consecutivas, abriu dois sets a zero contra Juan Manuel Cerúndolo e chegou a liderar o terceiro set por 5/1. Tudo indicava mais uma atuação dominante.

Mas algo mudou.

Em um dia de temperatura elevada e baixa umidade relativa do ar, o rendimento físico do italiano caiu abruptamente. Os deslocamentos perderam eficiência, a intensidade diminuiu, sinais claros de desconforto físico começaram a aparecer e a partida tomou um rumo improvável. O resultado final foi uma surpreendente virada: 3/6, 2/6, 7/5, 6/1 e 6/1.

Naturalmente, muitos olham para um jogo assim e pensam: “faltou condicionamento?”, “desidratou?”, “teve câimbras?”. Mas a fisiologia do esporte mostra que a resposta costuma ser mais complexa.

Em partidas longas disputadas sob calor intenso e baixa umidade, muitas vezes não é apenas a qualidade técnica que entra em jogo. O organismo passa a disputar uma batalha paralela.

Quando aparecem sinais como endurecimento muscular, queda brusca de intensidade, dificuldade de deslocamento e possíveis câimbras, normalmente o desequilíbrio fisiológico já começou muito antes.

No tênis, especialmente em ambientes quentes, existe uma combinação clássica de fatores:

  1. Desidratação e perda de eletrólitos

Não é apenas perda de água.

O atleta perde sódio – talvez o eletrólito mais importante nesse cenário -, além de potássio, cloreto e magnésio. Em dias quentes e secos, a evaporação do suor é muito eficiente e o atleta pode até subestimar o quanto está perdendo líquido.

Essa combinação reduz o volume plasmático, aumenta o estresse cardiovascular e prejudica a eficiência da transmissão neuromuscular.

  1. Fadiga neuromuscular

Hoje sabemos que câimbras não são explicadas apenas pela falta de sais minerais.

No tênis, existe enorme componente de fadiga neuromuscular: arrancadas explosivas, desacelerações bruscas, mudanças constantes de direção e contrações excêntricas intensas em panturrilhas, posteriores e adutores.

Quando a fadiga se instala, o músculo perde parte do controle fino dos mecanismos reflexos, tornando-se mais suscetível às contrações involuntárias.

Em termos práticos: o corpo começa a “dar sinais”.

  1. O erro de achar que basta continuar hidratando

Existe uma percepção comum de que basta aumentar isotônico ou maltodextrina durante o jogo para resolver.

Nem sempre.

Quando o quadro já está instalado, muitas vezes o organismo apresenta:

  • hipertermia;
  • queda do volume sanguíneo;
  • fadiga neuromuscular acumulada;
  • dificuldade de absorção rápida dos líquidos.

Além disso, bebidas muito concentradas podem retardar o esvaziamento gástrico, atrasando justamente aquilo que o atleta mais precisa naquele momento: água e sódio chegando rapidamente à circulação.

No tênis de alto nível, a prevenção costuma valer mais do que a correção.

Entrar bem hidratado, ajustar sódio conforme a taxa de suor, antecipar carboidrato, controlar temperatura corporal e manejar a carga acumulada das semanas anteriores fazem enorme diferença, especialmente quando se vem de uma sequência intensa de jogos e vitórias, como era o caso de Sinner.

Talvez tenha sido apenas um dia ruim. Talvez o desgaste acumulado tenha pesado. Talvez as condições climáticas tenham acelerado um processo fisiológico silencioso.

Mas jogos como esse nos lembram uma verdade importante: em determinadas condições, partidas deixam de ser decididas apenas pela técnica ou pela tática. O vencedor pode ser aquele que consegue sustentar a homeostase do próprio organismo por mais tempo.

Porque, no tênis, às vezes o adversário mais difícil não está do outro lado da rede. Está dentro do próprio corpo.

Licenciado em Educação Física, pós-graduado em treinamento esportivo e com diversas formações na área do treinamento físico e qualidade de vida, Eduardo Faria trabalha com tenistas desde 1986, ao lado de Fernando Meligeni, Flávio Saretta, Alexandre Simoni, Vanessa Menga e Thiago Alves, entre outros. Integrou a equipe da Copa Davis desde do final dos anos 90 até os dias atuais, atuando com nomes como Andre Sá , Bruno Soares, Marcelo Melo, Gustavo Kuerten e Marcos Daniel. É fundador da empresa ‘5º Set’, contendo o programa TFI (Treinamento Físico Inteligente), que combina testes físicos, mapeamento genético e avaliação nutricional para melhorar a performance de tenistas, do amador ao profissional: confira detalhes em quintoset.com.br.

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Ernani Pinheiro Chaves
Ernani Pinheiro Chaves
17 dias atrás

Excelente esclarecimento!

Deleon Ferreira Gomes
Deleon Ferreira Gomes
17 dias atrás

Bela aula! Infelizmente os últimos dois anos mostram que o Sinner tem dois grandes adversários: Alcaraz e o seu próprio corpo. É um tenista incrível, mas a maior das partidas ele perde pra ele mesmo. Tem uma equipe ótima e precisa urgente ver essa questão.

SANDRO
SANDRO
17 dias atrás

Excelente Texto!!! Já passei por isso algumas vezes, porém, o caso mais emblemático foi quando disputei um triatlo no qual fui extremamente bem na natação e no ciclismo, porém, a musculatura da perna endureceu na corrida e vi adversário após adversário me ultrapassando, me senti tal qual o Sinner do terceiro set em diante, todo travado e sem energias para correr e o que eu considerava um podium certo, foi tudo por água abaixo!!!

Rafassiner
Rafassiner
17 dias atrás

Texto muito explicativo, uma aula! Eu disse que a equipe técnica do Jannik não planejaram corretamente a disputa dos torneios, foi um erro muito grande ter jogado Madrid que é numa altitude e pouco tempo depois jogar em Roma, acredito pela pressão de records, uma parte da mídia, mas acredito que ele e sua equipe levaram uma lição e vão fazer diferente. Alcaraz agiu tbm pelo impulso, depois que perdeu o posto de n°1 inventou de jogar Barcelona para recuperar o ranking. Eu entendo que um jogador pode se machucar, lesionar até numa esteira, mas ter precaução não é nada de mais, o tênis mudou, a intensidade é muito maior do que a 5 anos atrás, está uma pancadaria que é difícil de acompanhar até a bolinha na tv, e sei que tem as obrigações de jogar os grandes torneios, mas é simples, já que a ATP não que diminuir o calendário e tem essas imposições, o jogador em alguns Masters tem que perder de propósito se quiser ter uma carreira longa e ganhar os G Slams.

Deleon Ferreira Gomes
Deleon Ferreira Gomes
17 dias atrás
Responder para  Rafassiner

Perfeita análise!

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