O primeiro passo para a glória

Em dois cenários distintos, mas ambos promissores, Roland Garros viu a russa Mirra Andreeva dar enfim o tão aguardado passo que faltava a sua jovem carreira e consagrou Luís Guto Miguel como mais um brasileiro com plenas condições de dar rápida arrancada na carreira, algo que remete tanto ao tricampeão Guga Kuerten como à sensação João Fonseca.

A grosso modo, soa até como heresia essa cobrança em cima de Mirra. Afinal, ela acaba de completar 19 anos. Mas o circuito cria expectativas por vezes cruéis. Dona de golpes potentes e estilo ousado, venceu seu primeiro jogo de nível WTA ainda aos 15 anos e pouco depois fez oitavas em Wimbledon. Mas demorou para faturar o primeiro de seus seis WTAs e no ano passado, após vencer dois 1000 consecutivos, o segundo deles em cima de Aryna Sabalenka, vieram cobrança e críticas por sua postura de emoções expostas.

Ao se tornar neste sábado a mais jovem campeã de Roland Garros desde Monica Seles, 34 anos atrás, Andreeva deixou de ser o prodígio, a adolescente cheia de potencial, para entrar no rol das campeãs de Slam, o que definitivamente é outro patamar. Poucos se dão conta que Mirra tem títulos em todos os níveis de WTA e também é duplista competente, com três troféus e uma medalha de prata olímpica.

Terceira mais jovem vencedora de Slam deste século, atrás somente de Maria Sharapova e Emma Raducanu, ela agora é a líder da classificação desta temporada e retoma o sexto lugar do ranking, ficando perto do top 5 que já ocupou. E seu discurso em quadra deixa clara sua personalidade divertida e rara no circuito: “Quero agradecer a minha mesma por acreditar em mim, em dar sempre 100% mesmo em duras situações, em tentar todos os dias ser uma tenista e uma pessoa melhor. Por crer que conseguiria isto, mesmo com tantos demônios dentro de mim”.

A vice Maja Chwalinska, que equilibrou o começo da partida final mas foi de certa forma surpreendida pelo uso de variações por parte de Andreeva, pareceu mentalmente cansada. Afinal, dos quatro finalistas de simples, foi quem mais tempo passou em quadra nestas duas semanas. O período sofrido da depressão ficou para trás e ela sairá de Paris como 21ª do ranking e com salto direto para todos os grandes torneios. “Claro que tudo será diferente a partir de agora, mas espero que consiga me adaptar. Roland Garros está no passado”.

Guto não surpreende

Num degrau inferior, Guto confirmou a expectativa sobre seu jogo e atingiu uma façanha histórica para o tênis brasileiro, ao se tornar o primeiro juvenil nacional a ganhar simples no torneio. O feito é bastante raro, já que somente Tiago Fernandes, na Austrália e Thiago Wild e Fonseca, no US Open, fizeram o mesmo. Simultaneamente, atinge também a liderança do ranking internacional, repetindo Fernandes, Fonseca e Orlando Luz.

Para quem acompanha a evolução do goiano de 17 anos, o título não chega a ser uma surpresa. No ano passado, quando ainda era praticamente um desconhecido, Guto foi ‘sparring’ dos jogadores do Rio Open e ganhou muitos elogios por seu jogo e, desde então, o potencial era evidente. Precisava, é claro, ser lapidado, especialmente a parte emocional.

E foi justamente a parte mental que mais chamou a atenção nesta campanha no saibro de Paris, onde ele entrou como favorito. Nos dois jogos mais duros que fez, especialmente a semi contra o amigo Leo Storck, Guto precisou de muita cabeça e frieza. Tanto ontem como hoje, teve aplicação tática muito boa, variações que seu arsenal de golpes permite executar.

Tênis ofensivo, a partir de bom saque e forehand, jogo de base consistente e mão bem treinada para surpreender com curtas e voleios geram semelhança respeitável para Fonseca, não por acaso um dos espelhos de Guto. O título em Paris tem tudo para deixar o goiano mais confiante e mostrar o quanto vale a pena seguir evoluindo, porque o caminho para virar destaque no profissionalismo é longo e exigente.

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Walter
Walter
44 minutos atrás

Para mim, Guto tem o mesmo potencial de João, com a vantagem de ter um físico mais desenvolvido

Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br
Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br

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