O João dos sonhos está de volta

O retorno de João Fonseca às quadras sintéticas, em que pôde jogar tão pouco em janeiro, foi um espetáculo. O carioca de 19 anos despejou toda sua imensa qualidade técnica contra o bom belga Raphael Collignon ao mesmo tempo em que se mostrou muito consistente nas trocas de bola e com excelente cobertura de quadra.

É bem verdade que o 77º do ranking chegou a sacar para vencer o primeiro set antes de ser dominado no tiebreak. Porém, Fonseca teve muito mais chances de quebra e volume de jogo ao longo dessa primeira série, em que exigiu do adversário esforço defensivo constante. Collignon também teve o mérito de achar excelentes primeiros saques quando ficou trás do placar, seja num 15-30 ou num break-point.

O mais positivo foi ver Fonseca muito solto para disparar golpes espetaculares de fundo de quadra, mas ao mesmo tempo ser bastante conservador e consciente nos momentos em que precisou trabalhar os pontos, deixando a pressa de lado. Abusou também de slices, inclusive o de paralela no forehand do belga, o que o deixou bem pouco à vontade. E, quando foi à rede, jogou com categoria e precisão absolutas. Taticamente, o saque aberto no ‘iguais’ e sobre o corpo na ‘vantagem’ funcionou muito bem e a devolução profunda colocou Collignon em constante pressão.

Ele reencontra agora o russo Karen Khachanov, a quem levou ao terceiro set no sintético coberto de Paris, um oponente muito oportuno com o primeiro saque e na distribuição da base. Quem passar, pegará o instável Tommy Paul ou o imprevisível Zizou Bergs antes de provavelmente cruzar com Jannik Sinner. Os otimistas como eu já podem sonhar com o primeiro teste de João diante dos líderes absolutos do circuito.

Enquanto isso…

Por um momento, um breve momento, Bia Haddad pareceu a velha Bia Haddad. Foi ali, entre o tiebreak que definiu o segundo set e os três primeiros games da série decisiva, quando vimos a canhota montar na bola, bater com raiva, jogar com apuro tático e precisão técnica, vibrando na hora certa.

Confesso que tive esperança. Poderia ser o momento de virada, aquela fagulha que precisa ser reacesa para que Bia volte a jogar mais solta, confiante, proativa. Ledo engano. Um game tenso, um serviço medroso e tudo foi por água abaixo em minutos.

E olha que a espanhola Jessica Bouzas também não jogou tudo isso, embora tenha se aplicado corretamente nas paralelas que deixam a brasileira tão indefesa. E qualquer adversária já sabe muito bem disso. A top 50 deu muita chance, perdeu até a calma e nem assim Bia aproveitou para enfim voltar a vencer.

É evidente que nossa número 1 não pode continuar sem um treinador, alguém que me dê norte, corrija o saque tão pouco contundente e principalmente recupere a consistência nos golpes. Sempre que vai à rede, Bia costuma se dar bem, mas o golpe de preparação muitas vezes é curto ou lento. Aos 30 anos, convenhamos, o tempo também joga contra ela.

Na próxima semana, Bia volta ao nível 125, o que provavelmente lhe dará adversárias menos gabaritadas. O problema é conter a ansiedade e superar a pressão cada vez maior da necessidade de vitórias. Nesse duríssimo esporte chamado tênis, essa talvez seja a pior das encruzilhadas.

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Sérgio Ribeiro
Sérgio Ribeiro
1 dia atrás

Perfeito. Para acrescentar, como foi importante largar Saibro lento de Buenos Aires e Rio Open, e passar pela sintética em Los Angeles. Jogou o Torneio a vera , e ganhou de volta a confiança antes da lesão, ou seja , a mesma da Basiléia. Abs !

Aurelio
Aurelio
23 horas atrás

Durante muito tempo (2 anos? 3 anos?) a Bia acreditava fielmente que o caminho certo para voltar ao seu melhor tênis era “seguir trabalhando” – tudo do mesmo jeito, com as mesmas práticas, as mesmas estratégias… (o mesmo técnico)

Felizmente algo aconteceu e ela finalmente percebeu que aquele caminho não dava mais, que os problemas (graves) não seriam corrigidos daquela forma; e esse era o principal ponto.

Agora merece “um período de graça” em que possa encontrar “quem” (o treinador) e “como” (estratégias de treino, de jogo, de calendário) para voltar a ter um tênis competitivo.

O que vier nesse meio tempo é pra ser sumariamente desconsiderado. Surpresa seria se, como milagre, começasse a jogar bem de novo sem as mudanças necessárias.

O potencial não deixou de existir, mas é claro que não há também garantias. Tudo depende de muitos fatores, a começar por ela própria; o quanto estiver disposta a desconstruir e reconstruir seu jogo.

Refaelov
Refaelov
16 horas atrás
Responder para  Aurelio

“Felizmente algo aconteceu e ela finalmente percebeu que aquele caminho não dava mais, que os problemas (graves) não seriam corrigidos daquela forma…”

Na verdade n sabemos se percebeu coisa alguma.. de repente foi o próprio Rafael que pediu pra sair, não vendo mais salvação pra Bia voltar aos tempos áureos e evitando queimar(ainda mais) seu cartaz como treinador para projetos futuros..

Aurelio
Aurelio
14 horas atrás
Responder para  Refaelov

E bem possível… o duro é que não há, infelizmente, quase nada de transparência em relação a Bia como jogadora:
– não dá entrevistas onde se aprofunda nem como ou porque da escolha de seu calendário
– não explica o que tem feito para melhorar os pontos críticos do seu jogo
– não diz quais são suas prioridades de momento ou o que está pensando

…e por aí vai. Ruim, porque dá muita margem a interpretações e especulações – de torcedores, entusiastas e até parte da imprensa especializada. Todos tentando adivinhar cada um desses aspectos.

Da mesma forma que o Maxime teve sua chance de dar sua versão quando foi desligado, o mesmo aconteceu com o Rafael. Mesmo que fosse uma versão abrandada, mais polida, já seria melhor que nada.

Hoje mesmo Charleston confirmou a presença da Bia. Pra que insistir num torneio 500 com Pegula, Anisimova, etc, onde quase todas as jogadoras estão em melhor fase e melhor rankeadas que ela? Porque não ir ao invés disso para Bogotá onde seria cabeça de chave e teria um mínimo de chance de avançar?

Só a Bia pode responder. O que eu me pergunto é porque os jornalistas especializados não vão atrás dela para responder essas e outras perguntas. Ou será que ela está se escondendo dos jornalistas? Se for o caso, não deixa de ser uma notícia a ser explorada.

Refaelov
Refaelov
14 horas atrás
Responder para  Aurelio

“…não explica o que tem feito para melhorar os pontos críticos do seu jogo…”

Nas pouquíssimas entrevistas que dá nesse sentido ela já deixou claro q n tem feito nada nesse sentido, porque justamente não vê nenhum problema tecnicamente com seu jogo.. ela e o Paraccioli falaram enfaticamente algumas vezes que “nos treinamentos tudo dá certo e as coisas nao estao acontecendo nas partidas oficiais por questões mentais”.. teria q ver se pelo menos com relação a essas “questões mentais” ela tem feito algum trabalho específico..

Aurelio
Aurelio
8 horas atrás
Responder para  Refaelov

“nos treinamentos tudo dá certo” –> isso daí tem cara de ser item da cartilha do Palaccioli. :-)

Claro que não há nexo entre essa suposta obrigação causal entre treinos e jogos.

E não precisa ser nenhum gênio pra ver que precisa de ajustes técnicos.

E a gente só pode esperar que essas falas (e pensamentos) da cartilha sejam também deixados pra trás. Seja por influencia do novo técnico (ou até mesmo da mãe), seja por consciência da própria atleta após tanto tempo “agarrada” nessa situação.

Jpão Mendonça
Jpão Mendonça
5 horas atrás
Responder para  Aurelio

Ouvi dizer que há três jornalistas especializados e dois ex-tenistas atrás dela, a seguindo por todos os lugares.

Rola a lenda que estão fazendo um dossiê secreto entitulado” O segredo de Bia”.

Rola a lemda que vão lançar uma biografia não autorizada e que a Netflix já se interessou.

E então você saberá de tudo tudo tudo…

Rafael
Rafael
20 horas atrás

O João jogou demais. Que forehand incrível que ele tem. Que ele siga evoluindo!

Julio Marinho
Julio Marinho
19 horas atrás

Realmente, Dalcim. Desde a Basiléia contra o Munar foi o melhor jogo dele. Calmo, esperto de pernas. E o tanto de voleio de muita sensibilidade que deu. A melhor coisa para mim foi não ver aquele desespero de fugir para o forehand, trabalhando bem com o back e guardando os aumentos de velocidade para momentos específicos. Foi um outro nível do João.

Roger Porciúncula
Roger Porciúncula
19 horas atrás

O problema é que a mídia endeusou o João. Disseram, talvez pela sua precocidade, que ele seria melhor que o Big3. Ledo engano. Começou a perder para tenistas abaixo do seu ranking e parece que entrou em parafuso. Ele tem muito a aprender ainda. Ainda poderá ser um top tem. Aguardemos, o futuro dirá.

Kleber Julio
Kleber Julio
19 horas atrás

O João Fonseca jogou uma excelente partida.
Mais solto em quadra, boa movimentação, paciência nas trocas de bola, se defendeu bem com o backhand e venceu muitos pontos com forehand brilhante e potente.
Cometeu alguns erros não forçados, mas soube controlar a ansiedade.
Conseguiu se recuperar da quebra sofrida na parte final do primeiro set, devolveu a quebra e arrassou no tiebreak.
Se mantiver esse nível de tênis, tem chances concretas de vencer o Krachanov.
Estarei na torcida.

Antagonista
Antagonista
18 horas atrás

Quanto fuzuê por uma vitória contra o 77º do mundo…. Mas tem boas chances no próximo jogo. O Russo acabou de ter a experiência emocionante de ter ficado preso no meio de um conflito militar, iniciado pelo ataque surpresa dos EUA. Não deve ter tido muito tempo para treinar…

João Mendonça
João Mendonça
18 horas atrás

O bom foi ver um “padrão” e uma “tática muito bem definida”, mostrando evolução tática e amadurecimento.

Vamos ver se esse padrão mantém-se nos momentos mais difíceis e como sua porção atlética se comporta no decorrer de IW. Caso contrário, veremos mais altos e baixos.

Com relação a BHM:

– Será que ainda há motivação para seguir neste momento? – é a grande questão – em minha opinião…

Refaelov
Refaelov
16 horas atrás
Responder para  João Mendonça

“…e como sua porção atlética se comporta no decorrer de IW…”

Esse é o X da questão colega, também estou curioso para ver o que apresentará fisicamente o Joao numa sequência de jogos, sobretudo qnd for preciso um 3° set..

Sérgio Ribeiro
Sérgio Ribeiro
16 horas atrás
Responder para  João Mendonça

Veremos altos e baixos até o amadurecimento. Djokovic e Murray amadureceram próximo aos 24 anos . Bem depois de Federer e principalmente de Rafa Nadal. Este com uma incrível precocidade , com Alcaraz tentando se aproximar. Sinner 22/23 , muitos diziam que suas lesões eram irreversíveis. Memória nunca foi o forte, dos comentaristas de Insta e grupos de Whatsapp, meu caro. Abs !

Paulo Sérgio
Paulo Sérgio
13 horas atrás
Responder para  Sérgio Ribeiro

Alcaraz já passou Nadal em precocidade.

João Mendonça
João Mendonça
18 horas atrás

E ahhh..
Estou aqui aguardando anciosamente pela estréia.
Apenas para poder contar quantos Winners ele fez, quantos aces, dropshots e smashes.
Vou poder ver e rever o jogo em Slow diversas vezes… só para apreciar suas lindas subidas a rede… e curtir seus deliciosos voleios. UI!
E ao final de IW vou adicionar tudo as minhas estatísticas… Quem sabe não surge um novo recorde que todos desconheciam???
GO-GO-GOAT!

Paulo Almeida
Paulo Almeida
7 horas atrás
Responder para  João Mendonça

Nem precisa esperar: é só rever a final do M1000 2021 ou do USO 2023 (23/27 acertos), um verdadeiro show de voleios/saque-voleios do Mestre.

Luiz Otavio
Luiz Otavio
17 horas atrás

João jogou muito bem ontem. A questão é este “sonhos”. Se ele voltar a jogar bem e conseguir fechar este ano no top 20 será excelente, se for top 30 ainda acho muito bom. No entanto vai se começar de novo o outro extremo que ele tem ganhar GS, fazer novo big 3 e por ai vai…. Ai perde uma e voltamos ao trocar de tecnico, so tem direta, não tem movimentação…

Reginaldo Pereira
Reginaldo Pereira
16 horas atrás
Responder para  Luiz Otavio

Concordo plenamente!

Fonsequismo fonsequisado
Fonsequismo fonsequisado
17 horas atrás

Vdd, pelo pouco que assisti já senti que ele tava bem melhor doq outros torneios, parece que manteve o nível do torneio de exibição, vamos torcer pra manter assim

Luiz Fernando
Luiz Fernando
15 horas atrás

Bia perdeu mais uma, vi partes do jogo, as inconsistências de sempre, as derrotas dela precocemente nos eventos nunca são inesperadas…
JF venceu, não vi a partida, mas pelo post do Dalcim deve ter jogado bem, repetindo a performance de Las Vegas. Vai encarar agora um adversário mais duro, mas ele me parece ter mais movimentação do que o russo, que sempre é perigoso. Se tiver solidez e consistência, como na manchete do site, terá grande chance de avançar…

Luiz
Luiz
15 horas atrás

Creio que a Bia, tendo em vista a dificuldade de voltar aos seus melhores tempos, e já com seus trinta anos, deveria estudar seriamente a decisão de se dedicar às duplas, onde sempre se deu bem.

Realista
Realista
13 horas atrás
Responder para  Luiz

Também acho que ela deveria focar em duplas, teria o gostinho de vitória e troféu novamente.
Mas pelo ranking atual, por hora os cheques de simples pagam mais mesmo nessa situação calamitosa. Na Austrália recebeu 105k dólares só pra jogar a R1.

Ronaldo de Souza Lima
Ronaldo de Souza Lima
15 horas atrás

É um Garoto excelente, educado, carismático, mas é um tenista pra ficar entre os 30 ou 50 do mundo. Prá ultrapassar esse ranking o preço a pagar é mto alto. Treinamento pesado, renunciar as baladas com as gatinhas e não se deixar levar pelos elogios exagerados depois de alguma vitória que não acrescenta nada. E isso para um garoto criado na zona Sul Carioca a pão de ló acho bastante improvável. Será pouco mais que um Luiz Mattar dos anos 80. Me desculpe a sinceridade.

Ronildo
Ronildo
11 horas atrás

A queda de rendimento de Stefanos Tsitsipas é maior que o da Beatriz Haddad Maia.

Luiz Fabriciano
Luiz Fabriciano
9 horas atrás
Responder para  Ronildo

Claro, ele é tri em Monte Carlo, já ganhou um Finals, M1000, vice em RG e no AOpen, entre outros.
Infinitamente maior.

Berg
Berg
6 horas atrás

Que o João tem um nível assustador isso não se discuti. O problema dele é ser consistente torneio a torneio. Capaz de amassar um top 20 e logo em seguida ser engolido por um top 100. Se essa bendita regularidade vier, rumo ao top 10. Caso contrário, terá apenas lampejos, como o de hoje.

Paulo A.
Paulo A.
5 horas atrás

A decadência técnica e principalmente mental do tênis da Bia é evidente e, penso eu, irreversível, infelizmente. A idade chegando e todas as outras só evoluindo. Ela ja ficou para trás. Nos deu muitas alegrias mas ficou no passado. Que venha Naná, Victoria e outras…

Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br
Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br

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