Duplo Double na hora certa

Os combinados 1000 do final de inverno norte-americano foram incrivelmente favoráveis a dois jogadores que precisavam muito recuperar confiança neste começo de temporada. Aryna Sabalenka vinha de dois vices muito amargos, no Finals e em Melbourne, e Jannik Sinner chegou a deixar dúvidas depois de suas campanhas no Australian Open e em Doga, dando a impressão que veria Carlos Alcaraz disparar de vez a sua frente.

Depois de desempenho quase perfeito em Indian Wells e Miami, a bielorrussa adiou de vez qualquer ameaça à sua longa liderança no ranking e, de quebra, assume o primeiro posto também no ranking da temporada, mais de 300 pontos à frente de Elena Rybakina, a quem sobrepujou duas vezes consecutivas nas últimas três semanas, a segunda delas com superioridade inegável.

O italiano por sua vez não perdeu um set sequer na passagem pelo Sunshine Double, com algumas atuações de deixar o adversário desconcertado, como foi o caso de Alexander Zverev na sexta-feira. Com isso, Sinner derruba drasticamente a distância para o número 1, agora 1.190 pontos, o que abre perspectiva matemática de briga já no saibro de Monte Carlo, onde Carlitos defende o título e Jannik somará tudo o que fizer.

Sabalenka tomou a acertada atitude de não competir desde a derrota em Melbourne, saltando toda a fase do Oriente Médio. Preparou-se de forma adequada para o sintético mais lento que viria pela frente nos torneios dos Estados Unidos e cada vez podemos ver mais variação e menor desespero em seu tênis. Apesar de o saque pesado e bolas de definição permanecerem seu ganha-pão, Aryna claramente aperfeiçoou a devolução, ganhou paciência, não hesita mais na transição à rede e se dá ao luxo de tentar slices e deixadinhas. Esse arsenal mais amplo, aliás, será importante quando o saibro chegar e quem sabe ela possa dar o último passo em Roland Garros, onde bateu na trave no ano passado.

Sinner também corre atrás do seu primeiro grande troféu na terra, que lhe escapou no ano passado em Roma e por muito pouco em Paris. E isso foi antes de ele investir em pequenos ajustes em seu estilo, na busca incessante por elementos novos, capazes de lhe assegurar sucesso além do primeiro saque fulminante e da notável consistência da base, fatores que garantiram estes dois Masters 1000. Em Miami, somou 70 aces e só permitiu 32 pontos a seus seis adversários depois de encaixar o primeiro saque, com uma única quebra sofrida. Assim, é de se esperar que Jannik se mostre ainda mais competitivo no saibro europeu desta temporada, seja na lentidão úmida e fria de Monte Carlo ou na altitude e secura de Madri, lugares onde jogará livre de pontos a defender.

Ao mesmo tempo, os dois colocam grandes interrogações em seus perseguidores diretos. Alcaraz foi surpreendido por Daniil Medvedev na semi de Indian Wells e se mostrou tenso e irregular em Miami, tendo agora uma dura sequência de resultados a repetir no saibro europeu, como títulos em Mônaco, Roma e Paris e vice em Barcelona, ou seja, estará sob considerável pressão. Daí me parece fundamental a ele que reaja imediatamente no Principado.

Zverev segue determinado a solidificar seu jogo de rede e, a rigor, é o único dos top 10 que parece em condições de brigar com os líderes do ranking, já que Novak Djokovic segue saltando torneios e só deve reaparecer em Madri ou Roma, Lorenzo Musetti ainda não se recuperou e será incógnita e Casper Ruud não achou ainda o caminho de um tênis menos defensivo, apesar das nobres tentativas. Quem sabe, o tcheco Jiri Lehecka aproveite o embalo de Miami, apesar de seu único resultado digno no saibro europeu seja uma semi em Madri em 2024, uma vez que o piso claramente não combina com seus golpes tão retos.

O feminino, ao contrário, indica que pode haver maior equilíbrio de forças, apesar de Sabalenka e Rybakina estarem alguns degraus acima em termos técnicos e de confiança. Coco Gauff segue instável, porém fez uma boa sequência em Miami e é a dona de Roland Garros no momento. Apesar da queda drástica, Iga Swiatek nunca pode ser subestimada no saibro, uma superfície também favorável a Elina Svitolina e Jasmine Paolini e onde Karolina Muchova sempre tem chance de brilhar.

Que fase!

Mais um challenger no saibro sul-americano encerrado e o tênis brasileiro segue com baixíssimo aproveitamento em simples, salvando-se aqui ou ali nas duplas. Desde janeiro, foram 10 torneios realizados sem qualquer título individual da nossa rapaziada. Apenas Thiago Wild fez uma final e os números, alarmantes, explicam o desempenho muito ruim no ranking deste momento. Não fosse João Fonseca e seria de longe a pior fase já vivida na Era Profissional.

Nesses 10 challengers, o maior vencedor foi Thiago Monteiro (10 em 16 jogos), seguido por Pedro Boscardin (9 vitórias e 6 derrotas), Eduardo Ribeiro (5-4), Igor Marcondes (5-7), Wild (4-3) e João Lucas Reis (4-5). Gustavo Heide e Felipe Meligeni só ganharam duas partidas e Matheus Pucinelli, uma. Teremos ainda São Leopoldo e Campinas para evitarmos que Reis seja nosso único representante masculino no quali de Roland Garros.

O LA Open, challenger de São Paulo de nível 100 que colocou o problemático Jockey Club na rota dos torneios internacionais, teve boas intenções e montou uma bela estrutura para um evento desse quilate. Mas errou feio ao cobrar ingressos (e caríssimos), algo incompatível com a ideia de lotar uma arquibancada muito semelhante ao do Rio Open, dedicada a mais de 6 mil assistentes.

Talvez a falta de experiência não tenha levado em conta que o Jockey não é um clube com público natural para o tênis, sem falar na qualidade dos principais nomes inscritos e muito menos no momento terrível dos tenistas brasileiros. É algo que precisa ser cuidadosamente revisto para 2027.

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Marco Aurelio
Marco Aurelio
3 horas atrás

Aryna Sabalenka + Jannik Sinner = Double Sunshine!!! We can!!!

Sérgio Ribeiro
Sérgio Ribeiro
2 horas atrás
Responder para  Marco Aurelio

Agora sim . Feliz pelas conquistas sem precisar apelar. Parabéns caro Marquinho…Abs !

Flávio
Flávio
3 horas atrás

Quase perfeito seu comentário meu caro mestre, só discordo de uma coisa quando disse que a Muchova pode brilhar no saibro, pois ela não tem físico para derrubar as top 5, é verdade que tecnicamente é muito boa, acho que atualmente é a melhor tenista tecnicamente, porém fisicamente não consegue performar contra as melhores e nós vimos isso o que a Gauff fez com ela, então infelizmente é isso, se ela conquistar algo grande no saibro será surpresa positiva, a meu ver. Abraço!

Maurício Sabbag
Maurício Sabbag
3 horas atrás

Alcaraz começa a já ver Sinner pelo retrovisor, com o agravante que quase não terá como somar pontos na temporada do saibro, enquanto que o italiano só tem a ganhar.
Carlitos terá que firmar o pé. Mas sempre foi assim. O líder do ‘ranking’ sempre tem mais pontos a defender do que a ganhar. Por isso a dificuldade de se manter no topo.
E o Djokovic continua pulando um torneio atrás do outro. Ora por estafa, ora por contusão. Disputando pouquíssimos torneios preparatórios, vejo isso como erro estratégico. Como que vai entrar “de sola” em Roland Garros sem ritmo?
Porque ele nunca entra pra fazer figuração, ele quer o vigésimo-quinto. Porém, falta de ritmo + idade… assim fica difícil.

Marco Aurelio
Marco Aurelio
2 horas atrás

Mais um texto saboroso de sua lavra, Mestre Dalcim!

Foram muito bons 30 dias, inclusive pelos encontros do nosso João Fonseca com Alcaraz e Sinner et caterva.

Nesses 30 dias soltei o verbo na Tenis Brasil mas, a partir de amanhã, para o bem ou para o mal, voltarei para a modorrenta economia de palavras, rsrs.

Brincadeiras a parte, penso que a temporada no saibro será bem interessante.

Sinto que ao término do RG 2026 teremos Sinner TOP 1, Alcaraz TOP 2, e João Fonseca em TOP (até) 20.

Então, iniciar-se-ão as emoções gramíneas.

Que serão MAIORES que os pisos Hard e Saibro, anteriores.

Até lá…

João Mendonça
João Mendonça
2 horas atrás

“Os 36 Sets Consecutivos em Slam do Craque Suíço seguem inalcançaveis” (sic) é outro recorde de baixa relevância tipo “o jogador com maior número de aces depois do Forty-love”.

O que sei é que vai ficando difícil esticar o cobertor para justificar uma briga pelo GOAT.

Melhor investir em temas como “melhor penteado do circuito” e no “tenista mais engomadinho de todos os tempos” mesmo, para ganhar a simpata da torcida adversária que teremos mais sucesso em ver Federer ser o GOAT em algo.

Tenista do tênis mais plástico e vistoso pega bem também.

Última edição 2 horas atrás by João Mendonça
Paulo A.
Paulo A.
2 horas atrás

Dalcim, você tem notícias do Paciaroni? Ele está no Brasil, no RTB, ou foi para o exterior?

Sérgio Ribeiro
Sérgio Ribeiro
2 horas atrás

” Se mostrou tenso e irregular em Miami” . E olha que bateu JF em 2026 e caiu de cara para Goffin em 2025 … Já está treinando no Saibro e não preocupa como sempre. Minha dúvida é se ambos vão disputar os três Masters 1000 ( não é estilo do Italiano) , e Carlitos está inscrito também em Barcelona. Como Jannik defende finais de Roma e RG, assim como Alcaraz, pode fazer toda a diferença na luta pelo N 1 . Boto minhas poucas fichas que jovem Italiano retoma a ponta. Aguardemos. Abs !

Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br
Paulista de 63 anos, é jornalista especializado em esporte há mais de 45 anos, com coberturas em Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Acompanha o circuito do tênis desde 1980, tendo editado a revista Tênis News. É o criador, proprietário e diretor editorial de TenisBrasil. Contato: joni@tenisbrasil.com.br

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