Por Wagner Nascimento
Durante muito tempo se ensinou o forehand como se ele fosse um gesto de braço. Leva a raquete para trás, acelera, termina em cima do ombro. Simples assim. Quem cresceu nas quadras nos anos 80 e 90 e ouviu isso de quase todo professor. O problema é que a quadra conta outra história. Basta observar de perto um treino de alto nível para perceber que o braço é só a ponta final de algo que começa muito antes, lá embaixo, no contato do pé com o chão.
A potência do forehand nasce do solo. Ela sobe pelas pernas, passa pelo quadril, atravessa o tronco, chega aos ombros e só então explode na raquete. O corpo funciona como umacorrente: se um elo falha, a energia se perde no caminho. E o elo que quase ninguém enxerga, mas que define tudo, é a posição das pernas no momento do golpe.
No tênis atual, quatro bases dominam o jogo: a base aberta (open stance), a base semiaberta (semi open stance), a base neutra (neutral stance) e a base fechada (closedstance). Cada uma tem sua lógica, suas vantagens e seu preço físico. Nenhuma é melhor que a outra em termos absolutos e é justamente aí que mora a diferença entre o jogador
comum e o jogador completo.
Antes de tudo: a cadeia cinética
Vale a pena entender um princípio antes de comparar as bases. A velocidade da raquete não vem de um único movimento, e sim de uma sequência de acelerações encadeadas. Funciona mais ou menos assim: o jogador empurra o chão, e o chão devolve essa força pelas pernas. O quadril começa a girar. O tronco, que ainda está “atrasado” em relação ao quadril, se estica como um elástico e acumula energia. Os ombros aceleram na sequência, o braço é arrastado por essa rotação e a raquete chega à bola em velocidade máxima.
Essa defasagem entre o giro do quadril e o giro dos ombros tem nome: separação quadrilombro. Nos laboratórios de biomecânica, ela é um dos indicadores mais confiáveis de potência no forehand. Quanto maior a capacidade do atleta de criar essa separação – e de controlá-la -, maior o potencial de aceleração do golpe. Guardada essa ideia, dá para entender por que a posição dos pés muda tanto a natureza do forehand.
Base aberta: a assinatura do tênis moderno
Se você liga a televisão num domingo de final de Grand Slam, o que mais vê é isto: os dois pés praticamente paralelos à linha de fundo, o corpo de frente para a rede, o tronco carregado como uma mola. A base aberta virou a marca registrada do jogo atual, e não por acaso. O tênis ficou rápido demais para o jogador ter tempo de se posicionar de lado a cada bola.
A grande virtude dessa base é a liberdade de rotação. Com os pés abertos, o quadril gira sem travas, o jogador carrega o peso na perna externa e consegue criar aquela separação entre quadril e ombros que mencionamos acima. O tronco e o core entram no golpe com tudo.
Na prática, a perna de fora vira um pilar. Glúteo médio, glúteo máximo, quadríceps e a musculatura estabilizadora do quadril trabalham juntos para segurar a posição enquanto o corpo gira com violência sobre esse apoio. E aqui está um detalhe que muita gente ignora: a força do golpe não vem só de girar. Vem de saber frear e liberar essa rotação na hora exata. Girar, todo mundo gira. Controlar o giro é outra conversa.
É a base que mais exige força rotacional? Sim, sem dúvida. De todas, a aberta é a que mais cobra potência de rotação, estabilidade sobre uma perna só, controle de quadril e força excêntrica do tronco. O jogador frequentemente executa esse golpe correndo, sem tempo de preparação, apoiado quase inteiramente numa perna. Por isso os atletas de ponta dedicam tanto tempo de academia ao quadril, aos oblíquos e aos glúteos. Não é estética. É necessidade.
Base semiaberta: onde o profissional vive de verdade
Aqui vai uma confissão de quem passa o dia na quadra: quando a gente fala em “base aberta” assistindo aos profissionais, na maioria das vezes o que está acontecendo ali é uma base semiaberta. É o segredo escondido à vista de todos. O pé externo aponta para a lateral da quadra, mais ou menos a 45 graus, e o pé de dentro fica um pouco à frente. Não é tão de frente quanto a aberta pura, nem tão de lado quanto a neutra. É o meio do caminho e talvez por isso seja a posição em que os melhores do mundo passam a maior parte da troca de bolas do fundo de quadra.
A razão é prática. A semiaberta guarda quase toda a capacidade de rotação da base aberta – o quadril ainda gira com liberdade, a separação entre quadril e ombros continua ali -, mas devolve ao jogador algo que a aberta pura sacrifica: uma pitada de transferência de peso para a frente. O corpo consegue girar e avançar ao mesmo tempo. É rotação com direção.
Do ponto de vista físico, ela pede praticamente o mesmo pacote da base aberta: glúteos fortes, quadril móvel e estável, oblíquos potentes. A carga sobre a perna externa continua alta, porque é ela que carrega, freia e libera a rotação. A diferença é que o ajuste fino dos pés dá ao jogador uma janela maior de tempo e de distância da bola, o que a torna mais tolerante a pequenos erros de posicionamento.
No treino com meus alunos, costumo dizer que a semiaberta é a base “padrão” do fundo de quadra: é dela que o jogador parte, abrindo mais os pés quando o tempo aperta ou dando o passo à frente quando a bola convida ao ataque. Quem domina a semiaberta, transita com naturalidade entre todas as outras.
Base neutra: o meio-termo inteligente
Na base neutra, o jogador se coloca mais de lado, com os pés apontando aproximadamente na direção da rede. É a posição clássica de quem tem tempo: a bola veio mais lenta, o jogador leu a jogada cedo, deu para ajustar os pés com calma.
O que ela oferece é um pacote equilibrado: boa transferência de peso, bom equilíbrio, rotação suficiente do tronco e, principalmente, controle de direção. O peso flui num caminho quase linear, da perna de trás para a perna da frente, e daí para a bola. Essa sensação de “entrar no golpe” é difícil de reproduzir em qualquer outra base.
Por isso ela continua sendo a escolha natural para bolas mais lentas, para o ataque dentro da quadra, para a aproximação à rede e para aqueles momentos em que o jogador quer comandar a trajetória com profundidade. Em comparação com a base aberta, depende menos de rotação pura e mais da combinação entre deslocamento do centro de massa, transferência de peso e um giro moderado do tronco.
Base fechada: a herança clássica
A base fechada dominou o tênis de outras épocas. Nela, a perna de trás cruza para além da linha da perna da frente, e o corpo fica bem lateralizado em relação à rede. Quem aprendeu tênis com raquete de madeira. provavelmente bateu milhares de bolas assim.
Ela tem méritos reais. Permite uma preparação ampla do ombro e dá ao jogador aquela sensação forte de atacar a bola com o corpo inteiro. Em bolas na corrida, aliás, ela segue indispensável até hoje. Repare como os profissionais a utilizam quando são levados para fora da quadra.
O que mudou foi o contexto. No ritmo atual, a base fechada cobra caro: a recuperação depois do golpe é mais lenta, o posicionamento precisa ser perfeito e a rotação explosiva fica limitada, já que o próprio cruzamento das pernas trava o giro do quadril. Sua potência vem menos da rotação e mais da transferência linear de peso. Resumindo: é uma ferramenta eficiente quando o jogador chega cedo na bola, mas pouco adaptável ao caos do jogo moderno.

Como treinar a força rotacional
Aqui entra um erro clássico de academia: achar que treinar rotação é pegar um peso e girar o tronco. Não é. Depois de anos acompanhando atletas dentro e fora da quadra, aprendi que o forehand potente se constrói sobre três capacidades distintas e todas precisam de atenção.
1. Produzir força rotacional
O objetivo é ensinar o corpo a gerar potência na sequência correta: perna, quadril, tronco, braços. Três exercícios cumprem muito bem esse papel.
O arremesso rotacional com medicine ball é talvez o mais transferível de todos para o tênis. O atleta gira contra o solo e lança a bola contra a parede com tudo, reproduzindo quase exatamente a mecânica do forehand.

A rotação na polia desenvolve a força dos oblíquos com carga controlada e permite trabalhar o movimento em diferentes ângulos e velocidades.

Já a rotação com barra landmine — aquela barra presa ao chão por uma das pontas — é excelente para reproduzir padrões rotacionais com resistência progressiva, sem sobrecarregar a coluna.

2. Resistir à rotação
Parece contraditório, mas não é: quem gira forte, precisa saber não girar. O corpo cria a rotação e depois tem que controlá-la, freá-la, estabilizá-la. Sem esse freio, a energia vaza e o golpe perde precisão, sem falar no risco de lesão.
O desenvolvimento de Pallof (Pallof press) é a referência dessa categoria: o atleta empurra o cabo à frente do peito enquanto a carga tenta girá-lo para o lado, e o trabalho todo está em não deixar.

A caminhada do fazendeiro unilateral, carregando peso de um lado só do corpo, obriga o tronco a resistir à inclinação e à rotação a cada passo.

O inseto morto (dead bug) com resistência ensina o core a manter a coluna estável enquanto braços e pernas se movem, exatamente o que acontece num golpe em corrida.

E a boa e velha prancha lateral segue insubstituível para a musculatura lateral do tronco e do quadril.

3. Fortalecer pernas e quadril
A rotação começa no chão, e o chão só devolve o que as pernas conseguem aplicar nele. O foco aqui não é hipertrofia, e sim capacidade de produzir força rápido.
O agachamento búlgaro, com o pé de trás elevado, constrói força unilateral, fundamental para a perna externa da base aberta.

A elevação pélvica (hip thrust) é o exercício mais direto para os glúteos, o verdadeiro motor da rotação do quadril.

O afundo lateral trabalha o padrão de deslocamento lateral que o tênis exige o tempo inteiro.

O levantamento terra romeno unilateral desenvolve a cadeia posterior e o equilíbrio sobre uma perna só.

E o salto do patinador (skater jump) fecha o pacote, treinando a potência e a frenagem lateral. Pular é fácil; aterrissar estabilizado numa perna só é o que separa os bons dos ótimos.

Menos braço, mais corpo
Os maiores forehands do circuito não pertencem aos jogadores de braço mais rápido. Pertencem aos atletas que empurram o chão com mais eficiência, que separam quadril e ombros, que armazenam energia elástica e a liberam no instante certo. A posição dos pés é o que define como essa energia vai ser criada em cada bola.
A base aberta revolucionou o tênis porque permitiu produzir potência sob pressão de tempo. Mas quem para por aí, entendeu só metade da lição. Nenhuma base é superior às outras de forma isolada. O jogador completo domina as quatro e escolhe, bola a bola, qual ferramenta biomecânica a situação pede.
No fim das contas, o tênis moderno é uma ciência do movimento. A raquete apenas revela aquilo que o corpo conseguiu produzir.
* Wagner Nascimento é formado em Educação Física, treinador de tênis e ex-tenista profissional. Foi coordenador técnico da equipe Carlos Omaki Tennis durante anos. Atualmente, desenvolve trabalho voltado à alta performance e é coordenador do time masculino do Laredo Country Club, em Laredo, Texas.












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Backhand, diferenças nos grips, características das raquetes, táticas de jogo… Etc seria excelente uma série de tópicos técnicos
Que aula top!!! Ótimo conteúdo, que venham mais posts assim. Merece uma seção dedicada aqui no site.
Que aula!
Quem pensa que bater na bolinha é fácil, digo: sabe nada inocente.