Por Eduardo Faria *
Acompanhando de perto vários jogos no Rio Open, uma das capacidades físicas que mais chamou minha atenção foi a resistência dos atletas, tanto a resistência geral, relacionada ao fôlego, quanto a resistência muscular localizada, que permite repetir movimentos de alta intensidade inúmeras vezes ao longo da partida.
As condições climáticas, com calor e umidade elevados, certamente aumentam a exigência física e influenciam diretamente o rendimento. Ainda assim, em alguns jogos, a queda de intensidade, especialmente a partir do segundo set, era visível, mesmo entre atletas altamente treinados.
Esse cenário reforça que o desempenho no tênis é resultado da integração de diversos fatores: a forma como o atleta treina, sua força mental, a capacidade de tolerar a fadiga e o nível de condicionamento físico específico para sustentar esforços repetidos ao longo do jogo.
Se isso é determinante no nível profissional, no tênis amador o impacto é ainda maior.
Você começa a partida jogando bem. Está rápido, consistente e confiante. Mas, depois de alguns games, algo muda: você começa a chegar atrasado na bola, os erros aumentam e sua intensidade cai. Isso acontece com a maioria dos tenistas amadores e, na maior parte das vezes, o problema não é técnico: é físico.
O jogo exige que o jogador realize esforços intensos repetidamente e consiga se recuperar rapidamente entre os pontos. Sem esse condicionamento, fica impossível manter o nível durante toda a partida.
O tênis não é uma corrida contínua
Diferente de esportes como corrida ou ciclismo, o tênis é um esporte intermitente. Os pontos normalmente duram poucos segundos, com pausas curtas antes do próximo saque.
Durante cada ponto, o jogador precisa:
- acelerar rapidamente
- mudar de direção várias vezes
- frear e reacelerar
- recuperar o fôlego em poucos segundos
Isso exige um sistema cardiovascular eficiente e músculos capazes de resistir à fadiga.
O objetivo não é correr por muito tempo em linha reta, mas sim repetir movimentos explosivos com recuperação rápida.
O que realmente significa ter “bom fôlego” no tênis
No tênis, ter fôlego significa conseguir recuperar-se rapidamente entre os pontos para estar pronto novamente. Um jogador bem condicionado consegue:
- controlar a respiração rapidamente após o ponto
- manter a velocidade de deslocamento
- chegar equilibrado para executar o golpe
- sustentar o nível durante todo o jogo
Já quando o condicionamento é limitado, surgem sinais claros:
- pernas pesadas
- atraso na preparação
- perda de precisão
- aumento de erros não forçados
Muitas vezes, o jogador acha que sua técnica piorou, quando na verdade é o cansaço que está afetando a execução.
A capacidade que diferencia jogadores mais preparados
Existe uma capacidade física fundamental no tênis: a capacidade de repetir esforços intensos sem perder desempenho.
Isso significa conseguir fazer vários deslocamentos rápidos seguidos, recuperar-se em poucos segundos e repetir o mesmo nível de intensidade no ponto seguinte.
Jogadores que desenvolvem essa capacidade conseguem:
- manter a velocidade durante toda a partida
- reagir mais rápido
- manter a consistência nos golpes
- competir melhor em jogos longos
Essa é uma das principais diferenças físicas entre jogadores que mantêm o nível até o final e aqueles que apresentam grande queda de rendimento.
O condicionamento físico não melhora apenas o desempenho muscular, mas também a resistência mental. Quando o corpo está preparado, o jogador consegue manter o foco, a confiança e a qualidade técnica mesmo sob fadiga e pressão.
Por que apenas correr longas distâncias não resolve
Correr pode ajudar na saúde geral, mas não prepara completamente o corpo para as exigências específicas do tênis.
O jogo exige:
- aceleração curta
- deslocamentos laterais
- paradas e mudanças de direção
- recuperação rápida
Por isso, treinos com esforços curtos e intensos, seguidos de pausas curtas, são muito mais eficazes para tenistas.
Esse tipo de treino melhora diretamente a capacidade de recuperação entre os pontos.
A resistência muscular também é decisiva
Além do fôlego, os músculos também precisam resistir ao esforço repetido, principalmente nas pernas e na região do core.
Essas estruturas são responsáveis por:
- estabilizar o corpo durante o golpe
- permitir mudanças rápidas de direção
- manter o equilíbrio
- sustentar a intensidade do jogo
Quando ocorre fadiga muscular, o jogador perde estabilidade e precisão, o que afeta diretamente a consistência dos golpes.
Treinar certo não é treinar mais, é treinar de acordo com o seu perfil físico individual.
O papel do mapeamento genético na preparação física individualizada
Hoje, a preparação física pode ser ainda mais precisa com o apoio do mapeamento genético esportivo, como o realizado pela Quinto Set. Esse tipo de análise permite identificar características individuais que influenciam diretamente o desempenho e a resposta ao treinamento.
Um dos principais pontos avaliados é o perfil muscular, que indica a predominância de fibras musculares e a capacidade do jogador de suportar estímulos de alta intensidade. Alguns atletas possuem maior facilidade para ações explosivas, enquanto outros apresentam maior resistência à fadiga. Saber isso permite ajustar o volume, a intensidade e o tipo de treino de forma muito mais eficiente.
Outro aspecto importante é a capacidade de recuperação muscular, relacionada à atividade de proteínas envolvidas no metabolismo energético, como o MCT1. Essa proteína atua no transporte de subprodutos gerados durante esforços intensos para dentro das fibras musculares com maior capacidade oxidativa, favorecendo a re-síntese de energia e melhorando a recuperação entre pontos e treinos intensos.
Na prática, essas informações permitem criar programas de treinamento mais individualizados, ajudando o tenista a desenvolver melhor sua capacidade de repetir esforços intensos e manter o desempenho durante toda a partida.
Benefícios práticos para o tenista amador
Melhorar o condicionamento traz resultados claros dentro da quadra:
- mais velocidade para chegar nas bolas
- melhor recuperação entre os pontos
- maior consistência durante a partida
- menos queda de rendimento
- mais confiança física
- menor risco de lesões
O jogador passa a competir e treinar com mais qualidade.
Como melhorar o condicionamento de forma eficiente? Alguns exemplos básicos incluem:
- Treinamento em circuito: Consiste em realizar vários exercícios em sequência, com pouco descanso.
Por que funciona: Mantém os músculos sob tensão repetida e aumenta também a exigência cardiovascular.
Exemplo de circuito: Agachamento – 15 repetições, afundo alternado – 12 cada perna, flexão de braço – 12 repetições, prancha – 30 segundos, deslocamento lateral – 30 segundos- Descanso: 30–60 segundos e repetir 3–4 vezes. Benefício no tênis: melhora a capacidade de sustentar ralies longos.

- Exercícios com peso corporal (alta repetição)
Utilizam o próprio corpo como resistência.
Principais exercícios: Agachamentos, afundos, Step-ups, flexões, pranchas.
Faixa ideal: 12–20 repetições ou 30–45 segundos.
Benefício: aumenta a resistência muscular específica sem excesso de carga.

- Treinos com deslocamento e mudança de direção
Fundamentais porque reproduzem os movimentos do jogo.
Exemplos: Deslocamento lateral entre cones, exercício em formato de “T”, shuttle runs (ida e volta), movimentos curtos em quadra.
Benefício: melhora a resistência muscular funcional e específica do tênis.

- Exercícios com elásticos e resistência leve a moderada
Permitem trabalhar músculos estabilizadores importantes para o controle corporal.
Exemplos: Caminhada lateral com miniband, rotação de tronco com elástico, agachamento com elástico, exercícios de ombro com resistência leve.

Benefício: melhora a capacidade de manter força sob fadiga.
- Exercícios unilaterais (uma perna ou um braço)
Muito importantes porque o tênis exige apoio unilateral constantemente.
Exemplos: agachamento unilateral, afundo, step-up, equilíbrio com movimento.
Benefício: melhora resistência e controle específico de quadra.

- Treino integrado com core
O core transmite força entre membros inferiores e superiores.
Exemplos: Prancha frontal e lateral, rotação com medicine ball, estabilizações, laterais , frontais.
Benefício: mantém estabilidade durante golpes e deslocamentos repetidos.

Frequência recomendada para amadores: 2 a 3 sessões por semana, duração de 30 a 45 minutos, foco em qualidade e consistência.
Resultado esperado após algumas semanas: menos fadiga durante os jogos, mais estabilidade nos golpes, melhor recuperação entre pontos, maior consistência no segundo e terceiro sets.
O condicionamento sustenta sua técnica
A técnica é fundamental, mas o condicionamento é o que permite mantê-la durante toda a partida.
Quando o físico melhora, o jogador consegue: chegar mais bem posicionado, executar golpes com mais controle, reagir mais rápido, manter a concentração
No fim, não é apenas sobre jogar melhor — é sobre conseguir manter seu nível do primeiro ao último ponto.
Para obter os melhores resultados com segurança, o treinamento deve ser orientado por um profissional de Educação Física capacitado, garantindo que os exercícios sejam adequados às necessidades e características individuais de cada jogador.
Bons treinos!
Licenciado em Educação Física, pós-graduado em treinamento esportivo e com diversas formações na área do treinamento físico e qualidade de vida, Eduardo Faria trabalha com tenistas desde 1986, ao lado de Fernando Meligeni, Flávio Saretta, Alexandre Simoni, Vanessa Menga e Thiago Alves, entre outros. Integrou a equipe da Copa Davis desde do final dos anos 90 até os dias atuais, atuando com nomes como Andre Sá , Bruno Soares, Marcelo Melo, Gustavo Kuerten e Marcos Daniel. É fundador da empresa ‘5º Set’, contendo o programa TFI (Treinamento Físico Inteligente), que combina testes físicos, mapeamento genético e avaliação nutricional para melhorar a performance de tenistas, do amador ao profissional: confira detalhes em quintoset.com.br.













Excelente. Sendo amador, já passei por isso inúmeras vezes. Começava com muita intensidade mas, após 5/6 games o rendimento caia de forma absurda.