A conquista inédita do Australian Open coloca o nome de Carlos Alcaraz em destaque na história do tênis. Aos 22 anos, o espanhol se torna o nono jogador a completar o Career Slam, com títulos nos quatro principais palcos, e o mais jovem a conseguir essa façanha.
O cenário não poderia ser melhor, vencendo Novak Djokovic, dez vezes campeão em Melbourne e recordista de títulos de Grand Slam, com 24 conquistas, além de contar com o ídolo Rafael Nadal acompanhando de perto. Faltou talvez à organização do torneio o convite para que Nadal entregasse o troféu. A ocasião seria propícia.
O título também acontece em um momento de mudanças significativas na rotina do espanhol, com a saída do técnico Juan Carlos Ferrero, e os ajustes em seu movimento de saque. Sobre Ferrero, o número 1 do mundo falou antes do torneio que o momento era adequado para a separação de caminhos, mas sem deixar de reconhecer o treinador que o levou ao topo do ranking e a seis títulos de Grand Slam. Samuel Lopez, que dividia as funções com Ferrero nas últimas temporadas, passou a ser o número 1 da equipe. Não é fácil interromper um ciclo tão vencedor, o movimento era arriscado, mas o espanhol conseguiu responder bem à nova rotina.
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“Foi uma decisão mútua. Na vida, há capítulos que precisam ser encerrados, e sentimos que este era o momento certo. Sou muito grato por esses sete anos com o Juan Carlos. Em grande parte graças a ele, sou o jogador que sou hoje. Aprendi muito. Mas decidimos fechar esse capítulo em bons termos. Continuamos amigos, temos uma ótima relação, apenas seguimos caminhos diferentes”, comentou na abertura do torneio.
Um novo saque para o espanhol
🎙️ Carlos Alcaraz: “I wasn’t thinking about making the same serve as Djokovic, but at the end, I can even see the similarities.”
😭😅
— Carlos Alcaraz Daily (@alcarazdaily) January 16, 2026
Já sobre o novo saque, o objetivo segundo especialistas e também nas palavras do próprio Alcaraz, era simplificar e dar mais fluidez ao movimento, além de ter tornar o saque um pouco mais estável, com maior percentual de acerto, mesmo que não seja um dos mais velozes no circuito. O espanhol disparou 51 aces na competição e chegou sem perder sets à semifinal, tendo sofrido apenas três quebras de serviço na semana inicial do torneio. Apenas Alex de Minaur nas quartas, Alexander Zverev em uma semifinal com 5h30, e Novak Djokovic na decisão, conseguiram quebrar duas vezes o saque de Alcaraz em suas partidas.
Também chamou atenção a similaridade da mecânica de execução com o movimento de Djokovic chamou atenção imediatamente. Com bom humor, o sérvio brincou que exigiria direitos autorais e participação nos lucros. E não haveria inspiração melhor para vencer na Austrália que não em alguém que já foi dez vezes campeão do torneio.
Tão difícil quanto chegar ao topo é permanecer nele. E para isso, é preciso buscar evolução constante. Não por acaso, o principal rival de Alcaraz, o italiano Jannik Sinner, buscou soluções após a derrota para o espanhol na final do US Open e também fez ajustes no saque. Sinner terminou a temporada passada com uma série de grupos em Viena, Paris e ATP Finals. A série invicta só acabou na batalha de cinco na semifinal em Melbourne. Por diversas vezes, acompanhamos entrevistas de Novak Djokovic, Roger Federer e Rafael Nadal sobre como os confrontos em alto nível faziam deles jogadores melhores. E não dúvidas de que isso vai se repetir também com a geração de Alcaraz e Sinner.
Rybakina volta a derrubar as líderes e conquista o segundo Slam

A busca por evolução para se manter no topo também tem acontecido no circuito feminino. Líder do ranking mundial, Aryna Sabalenka falou durante a primeira semana da temporada, em Brisbane, sobre os elementos que tem incluído em seu jogo, buscando principalmente a rede. Já a segunda colocada, Iga Swiatek, saiu de quadra de sua partida das quartas com uma lista de elementos que precisa trabalhar em seu jogo para buscar o único Grand Slam que lhe falta. Já Coco Gauff está desde o ano passado com o especialista em biomecânica Gavin MacMillan para corrigir o saque. E nesse cenário, a cazaque Elena Rybakina conquistou seu segundo Grand Slam aos 26 anos, além de conseguir a revanche contra Aryna Sabalenka, três anos depois de ter perdido a final de 2023. Ela também repete a façanha do último WTA Finals, em que venceu Swiatek e Sabalenka no caminho para o título.
Jogadora reconhecida pela qualidade de seu saque e pelo estilo agressivo, com muita potência nos golpes, Rybakina também mostrou eficiência nas trocas de fundo, essencial para vencer a semifinal contra uma adversária sólida como Jessica Pegula e tem conseguido disputar mais torneios em sequência, sem tantas implicações físicas, que limitaram seu calendário nos últimos anos. A campeã embala uma sequência de 10 vitórias contra top 10 e sobe para a terceira posição do ranking, o que por ora pode até ser um alívio para as primeiras do ranking, que não a enfrentariam antes de uma semifinal nos principais torneios do calendário.
Entre os brasileiros, João Fonseca relatou ter sentido a falta de ritmo depois de sofrer uma lesão nas costas no início da temporada, enquanto Bia Haddad Maia ainda busca a primeira vitória do ano, depois de passar quatro meses afastada para cuidar da saúde física e mental.
Stefani e Guto são os destaques brasileiros
Os melhores resultados ficaram com Luísa Stefani, semifinalista em duplas femininas e duplas mistas, com boas perspectivas na retomada da parceria com Gabriela Dabrowski. A campanha foi muito positiva e temos de aproveitar estas duas semanas como aprendizado, porque nosso objetivo é melhorar como dupla”, disse Stefani. “Primeiro torneio juntas e deixa uma esperança para a temporada, depois de fazer jogos de bom nível aqui”.

Já Guto Miguel chegou às quartas na chave juvenil, ficando a uma vitória de igualar o melhor resultado da carreira em Grand Slam. Vencedor em Traralgon no primeiro torneio da temporada, Guto emendou nove vitórias seguidas até ser superado pelo esloveno Ziga Sesko, seu parceiro de duplas na Austrália e que terminou a semana como campeão. Como já havia sido antecipado pelo técnico Santos Dumont, a pré-temporada foi mais curta e teve o foco nos dois primeiros eventos do ano, considerando também o desgaste no fim de 2025. O momento agora é de recuperação e retomada na rotina de treinos, antes de definir os próximos passos.
Já Victória Barros acabou sofrendo uma lesão na panturrilha logo em seu primeiro jogo, contra a australiana Jizelle Sibai. Em vantagem no placar e próxima de uma vitória em sets diretos, ela conseguiu explorar o serviço da adversária e vencer pontos importantes nas devoluções para conseguir a vitória apesar das dores, mas não teve condições de atuar na rodada seguinte.
“Infelizmente, a Victória sofreu uma lesão na panturrilha esquerda e teve que desistir do primeiro Grand Slam do ano”, disse o técnico espanhol David Sunyer. “Ela fez um esforço enorme para vencer sua primeira partida com a lesão na panturrilha, mas não conseguiu nem entrar em quadra para a seguinte. É triste vê-la desistir assim, mas ela voltará mais forte”.









Olá Mário, ótimo texto!
Na sua opinião, o fato do Mensik e do Tien estarem melhores ranqueados que o Fonseca, tem a ver com a pressão da mídia? Ou seria algo circunstancial de desenvolvimento.
Não acho que isso tenha a ver com a posição do ranking. O Mensik tem um ano a mais de circuito no alto nível, já estava chegando longe no ATP de Doha em 2024, quando o João sequer estava no top 100. É normal que esteja à frente.
E quanto ao Tien, os dois terminaram o ano passado muito próximos, até com o João na frente. Como ele teve a lesão e jogou menos torneios, acabou perdendo posições em relação às semanas anteriores, ao mesmo tempo que o Tien fez uma grande campanha. Mas a tendência é que estejam bem próximos nesse momento.
O Djokovic também vem se reinventando ao longo de + de 1 década, por isso tem se mantido no topo ou entre os primeiros.
Não gosto do jogo dele, não gosto da atitude ante as vacinas, mas tenho que reconhecer que ele é diferenciado física e mentalmente. Inclusive na longevidade.
Pra ganhar dele, tem que se superar.
Acho que a característica e a capacidade de se reinventar é a marca principal dos grandes campeões. Porque a pessoa quando está no topo, o primeiro desafio é não se deixar acomodar pois a tendência é dar uma relaxada pelo fato de estar conseguindo superar os seus principais concorrentes. O segundo ponto é que quem está no topo está sempre sendo estudado por seus adversários, que buscam formas de neutralizar o seu jogo. O terceiro ponto é a evolução natural das pessoas que estão sempre procurando desenvolver novas habilidades que possam facilitar o atingimento das suas metas e objetivos e isso acontece também com os tenistas que procuraram se desenvolver pra alcançar o alto do topo. E umas das estratégias mais utilizadas é copiar o que está dando certo para os campeões. Daí o Alcaraz se espelhar no Djokovic para mudar o seu saque e torná-lo mais eficiente.