A emblemática foto de um telhadinho aparecendo no exuberante cenário da quadra central de Monte Carlo, com a cor do saibro em contraste com o azul do mar Mediterrâneo, era a minha visão da mesa que ocupava junto a janela da sala de imprensa. A imagem guarda muitas histórias e detalhes de onde não só sobrevive o luxo e as celebridades, mas também uma vida tranquila em um quase pacato e agradável Principado. Revelo isso, pois o monegasco tem privilégios e ambiente simples, com recantos normais, como se estivesse em uma vila da vizinha França. Corre a lenda de que se num acidente de trânsito bater em um carro de um local, a culpa é sua, independente do que aconteceu. Há outras vantagens nos poucos quilômetros quadrados da região. A loja Fnac de lá tinha preços bem interessantes, a ponto de eu manter por muitos anos o chip de celular com número local, nas temporadas europeias.
Antes de voltar aos bastidores do Principado, lembro que um dos momentos mais marcantes ocorreu em 2003. Tinha viajado a Monte Carlo por um sistema de compra de passagens que era chamado de ponto a ponto. O preço atraente não permitia qualquer alteração. Funcionava porque ficava mais em conta voltar ao Brasil, depois do torneio de Mônaco (hospedagens, etc.) e só retornar à Europa nas quartas de final de Roma, seguindo até Roland Garros e, as vezes, Wimbledon.
Só que nesse ano, fui surpreendido. Gustavo Kuerten vencia o sueco Magnus Norman por 6/1 e 5/2. Nesse momento, acompanhado pelo tour manager da ATP, Joe Lynch, estava pronto na saída da quadra, para uma entrada ao vivo, via celular, para o SporTV. Mas, de repente a casa caiu. Guga perdeu o jogo por 7/5 e 6/2. Lembrando que um pouco acima coloco que o brasileiro já havia vencido o primeiro set e liderava com folga o segundo.
Passagem ponto a ponto nas mãos segui frequentando o torneio. Numa dessas tardes de terceira rodada, o ex-juiz de cadeira brasileiro Adão Chagas apareceu na sala e me convidou para ver um espanhol tido como muito talentoso: Rafael Nadal. Muito jovem ainda, cara de criança, ele ainda não era um toro miura e perdeu para o argentino Guillermo Coria. Adão, mesmo diante do resultado, profetizou. “Ele joga bem no estilo espanhol, mas é o mais rápido jogador que já vi”.
E realmente Nadal foi rápido. Depois dessa derrota em 2003, sofreu uma lesão no pé e não jogou em Roland Garros naquele ano. Só fui ver o espanhol novamente cerca de 13 meses depois em Paris. Apareceu como um homem feito e conquistou o título ao bater Roger Federer nas semifinais e Mariano Puerta na final.
Para o torneio de Mônaco costumava alternar minha estadia entre a vizinha cidade francesa de Beausoleil (cerca de 15 minutos a pé do hotel até o torneio) e a agradável e cintilante Nice, bem mais distante, mas de encantos, beleza e ambientes inesquecíveis. Como os jogos do Masters costumavam terminar relativamente cedo, pois ainda não tinham inventado a odiada sessão noturna. É que quando surgiram essas primeiras experiências de partidas à noite, o lema da sala de imprensa era “I hate night session”.
Com tempo nessa doce época para jantar, passei a frequentar um restaurante de locais, onde impera o idioma italiano: o La Salieri. Fica na charmosa Quai Jean-Charles Rey, com exclusiva vista para o porto Grimaldi, um chateau maravilhoso ladeado por imponentes embarcações, numa marina secundária do Principado. Olhei na Internet é dá para jantar por 40 euros, mas sem vinho. Os preços variam de 20 a 38 euros, mas aconselho a pedir um antipasti da casa. Se estiver em mais de duas pessoas na mesa vai faltar espaço para tanta coisa. Se aguentar pode completar ainda com uma massa ou carne.
O ambiente local é agradável, quase sem turistas, e as conversas entre as mesas costumam fazer parte, como dita a tradição italiana. A dica para seguir até mais tarde seria o bar do Hotel Columbus. Não tem muita coisa não, boa música lounge de fundo, e pilotos de carros nos arredores.
Festa mesmo é o dia do ‘players party’. É realizada no suntuoso salão do Principado, onde acontecem os grandes eventos como a entrega do prêmio Laurus entre outras comemorações. Parte da imprensa é convidada. E com Guga em alta, jamais esqueceram de mim. Para uma dessas noites de “gala” precisei passar no hotel para um paletó e gravata. Como eu não pedia “parking lot” ou seja, credencial para estacionamento no torneio, o pessoal da recepção até respirava aliviado (pois nunca sobram vagas) e nesse dia colocaram a disposição um Mercedez Benz oficial para me levar ao hotel e voltar para a festa. Fui acompanhado de um amigo francês, que morava em Nice, e aproveitou para ir ao meu hotel para também se arrumar. Detalhe ele deixou o seu Fiat Uno no improvisado estacionamento: uma rua larga, que durante os jogos fica fechada e depois volta ao trânsito normal. Quando retornamos, ele lembrou que seu carro estaria estacionado em local proibido no alcançar das horas. Ao localizarmos o carro dois guardas já estavam ao lado. Esse meu amigo explicou que estávamos trabalhando no torneio e iríamos a um jantar, em que o anfitrião era o Príncipe Albert. Não entendi muito bem o que aconteceu, e só vi que o carro ficou parado no mesmo lugar, já com um trânsito bem razoável desviando do Fiat Uno.
Desconfiado, perguntei o que tinha acontecido. Esse meu amigo contou que falou aos guardas que nos dois iríamos a um jantar com a presença do príncipe. O entendimento oficial foi de que se estaríamos nesse evento seríamos então “amigos” de Albert. Tranquilos aproveitamos a festa, boa comida, bons vinhos, e show no palco de alguns divertidos jogadores. De volta ao “estacionamento” nas primeiras horas da madrugada, uma cena hilária: o Fiat Uno estava ladeado por dois pomposos guardas, enquanto Porsches, Mercedes, Lamborghini passavam ao lado de um carrinho muito bem cuidado.











Parabéns pelas histórias interessantíssimas. Quando sai o livro?
Se precisar de apoio, já pode abrir a vaquinha que temos interesse num livro beeem extenso das suas histórias no circuito, Chiquinho!!
Boas memórias, Chiquinho.
Permita-me fazer uma pequena correção: Norman derrotou Guga de virada em MC 2003 por 1/6 7/5 6/2.
Foi isso que ele escreveu. 6/1 5/2 pro Guga, depois Norman virou o segundo pra 7/5 e venceu o terceiro 6/2.
Corrigiu depois. No texto original, o Norman teria ganhado o segundo set no tiebreak.
Entendi! Tudo certo