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Bellucci: 'Vitórias traziam mais alívio que alegria'
23/03/2022 às 08h00
Felipe Priante

Embora esteja vivendo um dos momentos mais delicados da carreira, o paulista Thomaz Bellucci acredita que ainda possa dar a volta por cima, mesmo já tendo completado 34 anos no fim de 2021. Afastado das quadras por causa de uma lesão no joelho, ele chegou a pensar em parar após a conturbada temporada passada, em que teve problemas físicos, pegou Covid-19 e não conseguiu grandes resultados.

“Realmente pensei bastante em parar de jogar no final do ano passado. Acabei a temporada bem desanimado, com pouca motivação de trabalhar tudo de novo e buscar o ranking. Mas parar de jogar é uma decisão difícil, acho que qualquer atleta de alto rendimento, quando não está em um bom momento, acaba pensando em coisas ruins como parar de jogar”, contou Bellucci em entrevista exclusiva para TenisBrasil.

O canhoto de Tietê também falou sobre a grande pressão que encarou durante a carreira e garantiu que agora, bem mais experiente, consegue administrá-la de forma bem melhor, tanto que apesar de não passar por um grande momento, ainda acredita que possa dar a volta por cima. “Hoje em dia o que me motiva a continuar é saber que sou um cara muito mais maduro e que hoje em dia posso curtir muito mais as coisas”, disse.

Veja a entrevista completa com Bellucci:

Recentemente no Instagram, você falou que pensou em parar depois de uma temporada tão ruim em 2021, mas deixou a entender que pretende voltar. O que te fez mudar de ideia?

Realmente pensei bastante em parar de jogar no final do ano passado. Tive algumas lesões, peguei covid e quando tentei competir eu não consegui competir bem, de uma maneira geral eu não estava preparado para jogar os torneios, consequentemente não tive bons resultados. Acabei a temporada bem desanimado, com pouca motivação de trabalhar tudo de novo e buscar o ranking. Com 34 anos isso é mais difícil de fazer e você fica mais desgastado. Mas parar de jogar é uma decisão difícil, você vê aí o Tom Brady, que anunciou que ia aposentar e acabou voltando. Teve também uma entrevista do (Rafael) Nadal, se não me engano depois do Australian Open, dizendo que pensou muitas vezes em parar. Acho que qualquer atleta de alto rendimento, quando não está em um bom momento, acaba pensando em coisas ruins como parar de jogar. Para mim foi igual, mas acabei amadurecendo e não me apego só ao ranking e aos resultados. Cheguei a 21 do mundo, fiquei muito tempo no top 50 e mesmo assim muitas vezes estava infeliz, as vitórias não me traziam alegria, traziam mais alívio do que alegria. Hoje em dia o que me motiva a continuar é saber que sou um cara muito mais maduro e que hoje em dia posso curtir muito mais as coisas que posso conquistar, aproveitar melhor mesmo em relação ao meu auge. É isso que me motiva a continuar.

 
 
 
 
 
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Depois de temporadas ruins e ter deixado o top 600 recentemente, como está a cabeça agora?

O ranking para mim não é o principal objetivo que tenho hoje. São pequenos passos que vão me deixar mais perto de ser um bom jogador de novo e um desses passos seja eu estar bem fisicamente e feliz dentro de quadra, isso é o mais importante. Foi uma coisa que nos últimos anos não consegui fazer, estava muito frustrado e não estava bem comigo mesmo dentro de quadra. Não conseguia treinar bem e consequentemente não estava bem fisicamente. Para mim hoje em dia o mais importante é estar feliz dentro de quadra, curtindo os treinos e os momentos. O ranking vai ser consequência, não posso me apegar. Por mais que o tenista dependa do ranking para sobreviver, não pode se apegar 100% aos resultados, pois às vezes eles não condizem com a realidade. Às vezes você está treinando super bem e não está ganhando, mas de repente vai lá e vence um torneio grande. O mais importante neste momento é não desanimar, não é porque estou 600 do mundo que está tudo ruim. Acho que se eu voltar a treinar e fazer as coisas certas vou melhorar no ranking, por isso não o vejo como fator crucial para continuar jogando.

Este problema no joelho que atrasou seu retorno é recente ou já vinha de antes?

Essa lesão no joelho é uma lesão antiga, que não estava me limitando, tinha um certo incômodo, mas não prejudicava dentro de quadra, mas nos últimos meses ela acabou piorando. Conversando com minha equipe e meus médicos achamos que a melhor solução era parar e tratar, para voltar quando estiver melhor. Não vou ficar jogando com dor, algo que a gente muitas vezes faz, mas não é o momento de ficar fazendo isso.

Como tem sido seu dia a dia nesses últimos tempos?

Desde janeiro estava em Lisboa treinado com meu técnico, o André Podalka. Nossa intenção era fazer uns dois meses de treino e voltar a competir em março, mas daí minha lesão no joelho começou a piorar e tive que voltar para São Paulo para tratar com meu fisioterapeuta, fazer novos exames e deixar de lado os treinos por um certo momento. Não estou conseguindo treinar dentro de quadra neste momento, estou só fazendo fisioterapia e preparo físico, ainda estou muito limitado. Acredito que no próximo mês ainda não consiga voltar a competir. A partir do momento que puder voltar a treinar, provavelmente voltarei para Portugal para treinar por lá, mas meu foco agora é recuperar essa lesão.

Apesar de uma vitoriosa carreira, ainda assim você é muito criticado no Brasil. O que sente que poderia ter trabalhado na própria imagem para ter um retorno mais positivo do grande público?

Sempre aceitei as críticas de uma maneira construtiva, algumas eram embasadas e outras nem tanto. Acho que qualquer atleta brasileiro acaba sendo muito criticado. Quanto maior sua visibilidade e seu potencial, mais você vai ser criticado. De uma certa maneira, sempre tentei que essas críticas não me prejudicassem e me abalassem, mas no fundo sempre acaba te tirando um pouco a confiança. Acho que talvez o único erro da minha carreira foi não ter me comunicado de uma maneira saudável com o público. Sempre fui um cara fechado e introvertido, que nunca quis me expor demais, mas essa é minha personalidade, minha essência. Talvez tenha sido prejudicial porque as pessoas não entenderam como é a vida de um tenista e como é a minha vida. Não culpo ninguém, cada um tem suas opiniões. Tem gente que gosta do jeito que eu jogo, que torce por mim, e tem aqueles que não. Qualquer atleta tem que saber lidar com as críticas e eu como atleta tenho que saber quais são construtivas e quais não. Só que quando você é mais novo, elas acabam te prejudicando um pouco mais, você tem mais dificuldade de se blindar.

Você se sente injustiçado por uma parte dos fãs?

Não digo injustiçado, mas em muitos momentos da minha carreira eu me senti pouco valorizado. E não digo só que foi só comigo, mas também com muitos outros atletas brasileiros. Foram tantos os tenistas que tivemos e que não foram valorizados. Em muitas modalidades temos os melhores atletas e muitas vezes são ridicularizados, boicotados e jogados para baixo. Isso eu acho que não é legal. Temos tantas dificuldades aqui no nosso país que qualquer atleta que consiga competir em nível mundial já é um grande vitorioso. Eu me sinto assim, conquistei muitas coisas com esforço próprio e você acaba esperando essa valorização, qualquer ser humano é assim, Acho que tanto eu como outros atletas poderiam ser mais valorizados, mas não é algo que me incomode muito.

 
 
 
 
 
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