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Super-heróis não usam capas e nem raquetes...
26/09/2021 às 07h59
Ricardo Takahashi *

A comunidade do tênis está triste. Faltam notícias sobre o que realmente está acontecendo com um dos maiores ídolos do esporte e sem expectativas para o seu retorno ao circuito mundial. Estamos falando do Roger Federer.

Para mim, é muito fácil falar sobre ele. Sou um fã incondicional, pois o Roger demonstra ser um pai de família exemplar, tem carisma, inteligência e uma técnica perfeita. Além de um comportamento invejável que poucos atletas possuem.

Mas a grande pergunta é: Afinal, o que está acontecendo com ele?

Por ser um profissional da saúde, consigo compreender os pontos em relação ao lado físico de Federer. Na verdade, o quadro geral é bem simples: todos passam pelo processo de envelhecimento, alguns sofrem mais e outros menos, mas conforme o tempo passa, dificilmente seremos o mesmo de antes.

Sabemos que fatores como o histórico de lesões, doenças hereditárias, entre outros, podem antecipar alguma interrupção ou até aposentaria de um atleta profissional. Também temos que considerar que cada pessoa é única.

Mas, em relação aos cuidados com a saúde do corpo, o quadro natural de envelhecimento poderia ser diferente? Lesões e cirurgias poderiam ser evitadas?

No caso do Federer, acredito que ele tem feito tudo a seu alcance. Vou contar uma história para ilustrar.

Em 2012, após o vice-campeonato do ATP Finals, Roger Federer veio para o Brasil logo em seguida, a fim de participar de um evento de exibição em São Paulo com Jo-Wilfried Tsonga, Serena Williams e Maria Sharapova, entre outros.

O que me chamou a atenção, e muito, foi sua postura. Em tese, ele já estava de férias, assim, seria de se imaginar que participar de uma exibição fosse como uma brincadeira para um tenista profissional. Eu não poderia estar mais enganado. Já ouviu histórias de jogadores de futebol, ou mesmos outros esportes, que participa de um jogo com amigos e se dá mal? Com Federer, a história é diferente.

Pois eu vi, com os meus próprios olhos, como o Roger tinha uma rotina absurda de aquecimento. Quem acha que ele não transpira é porque nunca esteve ao lado dele. E tem mais. Depois da “exibição”, ele ainda tinha uma rotina de fisioterapia de duas horas.

Quando eu conto essa história para os meus pacientes, a primeira resposta é de que o Roger faz isso porque depende do corpo, é profissional e necessita se prevenir contra lesões. Tudo isso é verdadeiro, mas eu já tive a oportunidade de trabalhar com vários atletas profissionais e mesmo durante a temporada, mesmo valendo, a maioria passa longe da postura do Federer...

O Roger não faz isso só porque depende do corpo para a sua profissão, mas ele faz isso porque é extremamente profissional e sabe o quanto essa rotina pré e pós (treino e jogo) é muito importante para a sua longevidade no esporte de alto rendimento. Não só seguir jogando, mas seguir em altíssimo nível.

Então, se ele pensa na longevidade, no desempenho e na qualidade de vida, por que nós, simples mortais, que somos apaixonados pelo tênis, não poderíamos fazer também? Fica a reflexão.

Entretanto, tudo tem um começo, um meio e um fim. Não há como esperar a mesma resposta do nosso corpo perante a uma agressão importante, concorda?

O nosso corpo perde a capacidade de se recuperar ao longo dos anos e cada vez mais ficamos com um déficit por conta disso. Dependendo de cada um, de sua experiência, sofremos mais ou menos.

É fundamental dormir bem - a importância do sono está sendo cada vez mais estudada. É fundamental nos alimentarmos bem. É muito importante treinar corretamente. E talvez esse ponto seja um dos mais importantes quando se fala de esporte amador, pois se preparar adequadamente envolve um treino elaborado com um bom profissional, que ofereça as ferramentas para o seu desenvolvimento físico e técnico.

Voltando ao Federer, acredito que ele possa ganhar mais jogos, títulos, porém, a cada ano se tornará mais difícil, pois os jovens, mesmo com menos experiência e habilidade técnica e tática, uma hora ganham no físico.

Acredito que podemos praticar qualquer modalidade esportiva, principalmente a que você mais gosta, mas é muito importante que você se prepare para que haja um equilíbrio entre sobrecarga e prazer. No caso do Federer, acredito que seja esse o combustível, o prazer em performar. Resta saber até quando essa paixão vai superar as dores e o cansaço.

Não deve ser nada fácil decidir qual a hora de diminuir, parar ou até mesmo trocar de atividade física, mas temos que ter o bom senso e aceitar que podemos ter algo mais prazeroso e que nos faça bem. Vamos seguir acompanhando esse processo em relação ao Federer, curtindo ao máximo o tempo que ele nos der para apreciar seu jogo e desejar o melhor para sua vida pessoal e profissional, independentemente do caminho que ele siga no futuro.

* Ricardo Takahashi é diretor do Centro Taka Fisioterapia Especializada, em São Paulo, que trabalha com programas de avaliação, treinamento e prevenção específico para esportes com raquete, em que o atleta amador é direcionado para trabalhos que diminuem o risco de lesões e busca melhoria de performance. O site oficial é takafisioterapiaespecializada.com

 

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