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'Nunca tive problemas com a imprensa', diz Osaka
13/07/2021 às 18h19

Japonesa propõe mudanças no modelo de entrevistas adotado nos torneios

Foto: USTA

Nova York (EUA) - Em mais um passo rumo ao seu retorno às competições e compromissos extra-quadra, Naomi Osaka publicou um artigo na revista norte-americana Time, em que reitera suas posições a respeito da obrigatoriedade das entrevistas coletivas nos torneios. A atual número 2 do mundo reforça que nunca teve problemas com os profissionais de imprensa, mas que o formato adotado pelo circuito precisa de mudanças.

Depois de anunciar que não daria entrevistas durante Roland Garros, Osaka abandonou a disputa do Grand Slam francês, antes de atuar pela segunda rodada, por complicações relacionadas à sua saúde mental. A japonesa de 23 anos também não atuou durante a temporada de grama e desistiu de jogar em Wimbledon. Seu retorno às competições está previsto para os Jogos Olímpicos de Tóquio. As competições do tênis no Japão serão entre 24 de julho e 1º de agosto.

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"Nas últimas semanas, minha jornada tomou um caminho inesperado, mas que me ensinou muito e me ajudou a crescer. Aprendi algumas lições importantes: você nunca pode agradar a todos; o mundo está tão dividido agora que questões que são tão óbvias para mim, como usar uma máscara em uma pandemia ou ajoelhar-se para mostrar apoio ao antirracismo, são ferozmente contestadas. Então, quando disse que precisava perder as coletivas de imprensa do Aberto da França para cuidar de mim mentalmente, deveria estar preparada para o que se desenrolou", escreveu Osaka.

"O problema nunca foi a imprensa, mas sim com o formato tradicional das entrevistas coletivas. Vou repetir: eu amo a imprensa, sempre gostei de um relacionamento incrível com a mídia e já dei inúmeras entrevistas mais detalhadas e individuais. Mas não amo as entrevistas coletivas", explicou a vencedora de quatro títulos de Grand Slam. "Com exceção às superestrelas, que estão por no circuito há muito mais tempo do que eu (Novak, Roger, Rafa e Serena), penso que dediquei mais tempo à imprensa do que muitos outros jogadores nos últimos anos. Sempre tento responder com sinceridade e de coração. Eu nunca tive media-training. A meu ver, a confiança e o respeito do atleta para com a imprensa são recíprocos".

'Não estou falando em nome de outros tenistas', diz Osaka
"No entanto, na minha opinião (e não estou falando em nome dos outros tenistas), o formato de entrevistas coletivas em si está desgastado e carece muito de uma atualização. Acredito que podemos torná-lo melhor, mais interessante e mais agradável para os dois lados", argumentou a ex-líder do ranking. "Após reflexão, me parece que a maioria dos jornalistas que cobrem o circuito não concorda. Para a maioria deles, a tradicional entrevista coletiva é sagrada e não deve ser questionada. Uma de suas principais preocupações era que eu pudesse abrir um precedente perigoso, mas que eu saiba, ninguém no tênis deixou de dar uma entrevista coletiva desde então. A intenção nunca foi inspirar revolta, mas sim olhar criticamente nosso local de trabalho e perguntar se podemos fazer melhor".

Japonesa se defende de críticas e propõe mudanças
Osaka também se defendeu das críticas, ao lembrar de sua assiduidade nos compromissos extra-quadra. A japonesa também afirma que a imprensa e a organização de Roland Garros não acreditaram nela e a fizeram expor demais sua vida pessoal. "Os atletas são humanos. O tênis é uma profissão privilegiada e, claro, temos compromissos fora da quadra. Mas não consigo imaginar outra profissão em que um registro de frequência consistente fosse examinado de forma tão severa. Eu só faltei a uma entrevista coletiva em meus sete anos no circuito".

"Senti muita pressão para revelar meus sintomas, francamente, porque a imprensa e o torneio não acreditaram em mim. Não desejo isso a ninguém e espero que possamos decretar medidas para proteger os atletas, especialmente os mais frágeis. Também não quero ter que explicar de forma minuciosa o meu histórico médico pessoal nunca mais. Por isso, peço à imprensa algum nível de privacidade e empatia na próxima vez que nos encontrarmos", explica a vencedora de sete títulos no circuito.

A japonesa propõe que os tenistas tenham direito a uma maior flexibilidade no cumprimento de compromissos com a imprensa, sem ter que expor detalhes de suas informações médicas. "Pode haver momentos para qualquer um de nós em que estamos lidando com problemas pessoais. Cada um de nós, como humanos, está passando por algo em algum nível. Tenho inúmeras sugestões para oferecer, mas minha sugestão nº 1 seria permitir um pequeno número de 'dias de licença médica' por ano, em que você é dispensado de seus compromissos com a imprensa sem ter que revelar suas razões pessoais. Acredito que isso colocaria o esporte em linha com o resto da sociedade".

Apoio de grandes estrelas e de pessoas comuns
A tenista de 23 anos também agradeceu às mensagens de apoio que recebeu de atletas de diferentes modalidades, personalidades, e também de pessoas anônimas, mas que também sofriam dos mesmos problemas que ela. "Ficou evidente para mim que literalmente todo mundo sofre de problemas relacionados à saúde mental ou conhece alguém que sofre. O número de mensagens que recebi de um grande número de pessoas confirma isso. Acho que podemos concordar quase universalmente que cada um de nós é um ser humano e está sujeito a sentimentos e emoções".

"Quero agradecer a todos que me apoiaram. São muitos para citar, mas quero começar com minha família e amigos, que têm sido incríveis. Não há nada mais importante do que esses relacionamentos. Também quero agradecer a todos aqueles que são públicos que apoiaram, incentivaram e ofereceram palavras tão amáveis: Michelle Obama, Michael Phelps, Steph Curry, Novak Djokovic, Meghan Markle, para citar alguns. Além disso, sou eternamente grata a todos os meus parceiros. Embora não esteja surpresa, ao escolher propositalmente patrocinadores que são liberais, empáticos e progressistas. Sou extremamente grata. Michael Phelps me disse que, ao falar sobre isso, posso estar salvando uma vida. Se isso for verdade, então valeu a pena".

"Acreditem ou não, sou naturalmente introvertida e não cortejo os holofotes. Sempre tento me esforçar para defender o que acredito ser certo, mas isso geralmente acarreta grande ansiedade. Eu me sinto desconfortável em ser a porta-voz ou o rosto da saúde mental de um atleta. Isso ainda é muito novo para mim e não tenho todas as respostas. Espero que as pessoas possam se relacionar e entender que está tudo bem falar sobre isso. Existem pessoas que podem ajudar e geralmente há luz no fim de qualquer túnel".

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