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Pandemia leva o tênis brasileiro a um novo 'boom'
19/01/2021 às 20h03
José Nilton Dalcim

Uma das quatro atividades com menor risco de contaminação pelo coronavírus segundo estudos internacionais, o tênis acabou surpreendido por um novo 'boom' desde que a pandemia atingiu o Brasil e a exigência de mínimo contato social se impôs para conter a Covid-19.

Praticado ao ar livre, com duas ou quatro pessoas espalhadas numa quadra de 260 metros quadrados, bater bola, jogar ou treinar se traduziram em motivante atividade física, possibilidade de gerar vitamina D, interação com amigos e parceiros e também alívio do estresse que o isolamento inevitavelmente causa.

O resultado disso desde que clubes e academias foram reautorizados a permitir aulas e locações foi uma explosão, gerada não apenas por novos interessados em aprender raquetadas, mas principalmente para os que já gostavam do esporte e decidiram trocar o perigoso aperto das salas de ginástica e musculação por muito mais horas em quadra.

Rio expande, BH sente falta de quadra
O fenômeno se espalha por todo o país. Gabriel Viena, especializado em treino infantil no Rio de Janeiro, sentiu um aumento de 50% na reserva de horas e hoje encara uma fila de espera inusitada, enquanto Fabio Sampaio viu o tênis social avançar 60% na Academia do Recreio. Em Niterói, os experientes professores Aporé de Paula e José Nunes relatam crescimento na mesma proporção. "Não necessariamente surgiram mais jogadores, porém muitas vezes dobraram as aulas de um mesmo aluno, o que também é fruto do home-office", avalia Nunes.

Em Minas o quadro é ainda mais animador. "Belo Horizonte está bombando, não se tem horários nas academias, faltam quadras", atesta André Lima, treinador e coordenador de comunicação da Federação local. "Os tenistas mais antigos ficaram insatisfeitos ao ver as quadras de seu condomínio invadidas por novos praticantes e foram para as quadras alugadas, o que já fez o faturamento alavancar em 25 a 40%, e isso sem reajuste nos valores pré-pandemia".

Cautelosa, a Federação Mineira congelou seu calendário em 2020 e não realizou eventos, o que provocou uma avalanche de inscrições pelos torneios do interior. "Houve lugares que estavam acostumados a ter 90 participantes e de repente encararam 234 inscritos, ficaram gigantescos".

Reformas e base
Eduardo Gordilho, que preside a Federação Bahiana e dirige uma construtora de quadras, se surpreendeu com o movimento. "Construímos e reformamos muitas quadras, acabamos tendo um excelente segundo semestre. O condômino passou a frequentar mais as quadras e exigiram melhorias nos equipamentos do edifício". Um dos clubes mais conhecidos do país, o Bahiano de Tênis abriu cinco novas turmas para iniciantes e a escolinha de 5 a 8 anos nunca esteve tão cheia. A tradicional academia Winner aproveitou o momento para investir e cobriu quatro de suas cinco quadras. "É a hora certa para fazer as pessoas ficarem apaixonadas pelo tênis, fidelizar o praticante, embora a prioridade no Brasil seja ampliar a base e focar nas escolinhas", opina Ary Godoi.

O trabalho didático com a garotada é justamente o foco da Escola Guga, uma franquia de método de ensino bancada pelo tricampeão de Roland Garros em diversos Estados, que também comemorou avanços mesmo com o longo período de incertezas gerado pela paralisação do mercado. "O primeiro sucesso foi manter o padrão habitual e assim atingimos 71% de retenção de nossos alunos durante a pandemia", contabiliza Bruno Raupp Vieira, diretor do Grupo Guga. "Ao final de 2020, atingimos a meta de 4.000 alunos no país e ainda iniciamos trabalho em sete novas unidades".

Mesmo com problemas graves durante a primeira onda da pandemia, o tênis paranaense também sentiu o aumento de praticantes. "Ficamos 67 dias parados e tivemos de recorrer a uma liminar para reativar as aulas. Depois foram mais 15 dias fechados, mas ainda assim retomamos ao volume normal rapidamente, já que a demanda no Londrina Country Club sempre foi expressiva", conta Zé Guilherme. "O crescimento hoje é de 15 a 20%".

Academias em bairros nobres
Maior polo do tênis nacional, São Paulo viu ressurgir até mesmo quadras de aluguel em locais nobres, algo que havia sofrido duro revés ao longo das últimas duas décadas devido à exploração imobiliária selvagem na cidade. A elegante Espaço Arena (foto acima) foi erguida no Morumbi, o hotel Transamérica poucos quilômetros à frente reativou o tênis e pipocaram pequenas academias de duas ou três quadras em vários pontos da Grande São Paulo. Todos também perceberam que era decisivo dividir o espaço com o beach tennis, modalidade que vive crescimento vertiginoso e ocupa muito menos espaço.

"Tivemos muita procura de pessoas vindas de outros esportes, pela segurança e distanciamento que o tênis proporciona", explica Gabriela Freitas, gerente de marketing da rede Play Tennis. "O faturamento do grupo aumentou na casa de 30% após a pandemia, e o beach tennis ajudou muito nisso. E já abrimos duas novas unidades em bairros diferentes da cidade, chegando perto da casa de 40 quadras de tênis".

Numa escala de a 1 a 8 sobre o risco de infecção pelo coronavírus, o tênis só perde para "abrir o correio" e está no nível 2, mesmo patamar de "acampar", "receber delivery" ou "abastecer o tanque". Entre os esportes, fica à frente até mesmo do golfe e de caminhar/correr em pequenos grupos. Ainda assim, os médicos sugerem só tirar a máscara quando entrar em quadra, manter distanciamento mínimo de 1,5m do professor e parceiros de treino, não usar vestiários coletivos e higienizar as mãos assim que acabar a prática.

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