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Para Guga, cenário atual possibilita massificação
12/12/2020 às 08h15

Guga afirma que 'faltou fazer o dever de casa' nos tempos em que ele foi tri em Roland Garros e número 1

Foto: Fotojump
por Mário Sérgio Cruz

Florianópolis (SC) - Vinte anos depois de ter alcançado o topo do ranking da ATP, Gustavo Kuerten acredita que o cenário do tênis brasileiro na atualidade é mais promissor do que o encontrado no auge de sua carreira profissional. Guga afirma que "faltou fazer o dever de casa" nos tempos em que ele foi tricampeão de Roland Garros e número 1 do mundo, mas que hoje, mesmo sem resultados desse tamanho, há uma possibilidade maior de massificar o esporte pelo país em busca de grandes resultados no futuro.

"Confesso que na hora que a gente ganha o torneio vem a sensação de alegria e felicidade, mas aos poucos vem a pretensão do que vem pela frente e de como será o próximo ano. A mentalidade do tenista funciona mais ou menos assim. Agora eu vejo que aquela conquista foi um divisor de águas por completo. Mexeu com o país inteiro. Pessoas de diferentes regiões do país e de diferentes classes sociais começaram a jogar tênis. Mas obviamente, mesmo com essa euforia, o dever de casa ficou faltando", disse Guga, em seu recente depoimento à imprensa, nas comemorações do aniversário de sua conquista no ranking.

"Agora nós torcemos com toda força para que aconteça metade disso, ou 20%. Tudo o que vier é lucro. De tão impactante que foi aquele momento grandioso. O tênis estava na casa das pessoas e fazia parte da vida do Brasil inteiro. Hoje, eu vejo que a estrutura e as peças estão melhor montadas e adaptadas para a gente ter um resultado", avaliou o catarinense, hoje com 44 anos.

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"Depois daquela euforia do ápice, que a turma do circuito chamava de Guga Mania, uma paixão que envolveu o Brasil inteiro, o tênis foi ladeira abaixo desde aquela transição no final da carreira até a hora de parar. E agora ele começa a se reerguer com alguns agentes, em que os principais são responsáveis o Marcelão Melo e o Bruninho Soares. Ainda temos o Bellucci, a Bia, o Thiago Monteiro e agora o Thiago Wild. Com alguns lampejos, essas peças deixam o tênis de pé e dão sustentação".

"Ou seja, todo aquele esforço ainda está de pé. Mas precisamos do básico e de outras peças mais fundamentais para transformar a realidade do nosso tênis. A prática ainda está nos estágios iniciais, no ponto de partida. Precisamos dar condições melhores para os professores e profissionais do ramo e experiências mais agradáveis para as crianças. Nisso, eu acho que a gente avançou", comenta o tricampeão de Roland Garros, destacando a importância da realização de torneios no país e do trabalho de capacitação de professores de tênis.

"Os próprios torneios, com o Rio Open, têm um peso extraordinários. A gente também está fazendo um papel muito bacana na Escola Guga, de ter o tênis espalhado no Brasil inteiro, dando essa capacitação e melhores condições para quem trabalha no dia a dia. E a própria Confederação tem feito um dever de casa bem adequado, no sentido de lapidar um pouco as peças. Então seria o momento de um novo acontecimento. Acredito que agora nós estaríamos prontos para receber toda a motivação que o tênis recebeu naquela época para otimizar isso e transformar em resultado".

Mais gente merece reconhecimento, diz Guga
Guga também acredita para que o tênis seja popularizado, diferentes personalidades do esporte merecem o devido reconhecimento. "É necessário que a gente traga valor para novos personagens para ter um tênis estruturado. Independente de um atleta ser o número 1 do mundo não é a garantia de resultado e de uma transformação no esporte", afirma. "A gente precisa incentivar a trajetória do tênis e os outros personagens. É essencial e obrigatório relembrar as pessoas que não estiveram apenas ao meu lado, mas também ao redor, nessa rede de conexões entre um e outro e que me ajudaram a alcançar todo esse sucesso".

"Me dá muita satisfação relembrar todo mundo que esteve por lá como o Bocão, o Marcos Hocevar, o [Carlos] Kirmayr... Quando a gente era criança e jogava pingue-pongue e montava chave. Cada um escolhia o nome de um nomes dos profissionais que tinham na época, como o Givaldo Barbosa ou Cassio Mota... que a gente via nas revistas, a Tênis e a Match Point, e assim criava o imaginário. Eram os profissionais que a gente via jogando aqui", comenta o ex-líder do ranking. 

"Lembro que eu fui ver uma final profissional em Santos do Ivan Kley contra o Jaime Oncins, e logo o Jaime se transformou no meu ídolo, porque ele era brasileiro e foi para as Olimpíadas. Depois ganhou torneio em Bolonha, e quando fui para Roland Garros da primeira vez, ele estava lá ganhando do Lendl. Se eu for aprofundando um pouco mais, tem pelo menos 100 pessoas entre jogadores, amigos e treinadores, que de alguma me traziam a crença de que aquele caminho poderia dar certo. E isso vale demais ser compartilhado. Que os pais entendam a importância desses momentos e das pessoas que compartilham essa trajetória. Ninguém vai fazer nada sozinho".

Perguntado se ele considera que seus feitos não foram tão reconhecidos, Guga nega. Ele diz até que o carinho que recebe do público foi até acima do esperado. "Foi valorizado vezes mil. A maneira como as pessoas me reverenciam às vezes até extrapola. Eles acham o máximo. É isso só acontece aqui no Brasil", afirma. "As pessoas me tratam com um carinho único. Preciso ser eternamente grato. São pessoas que eu não conheço, não sei onde moram, mas eles me recebem com muita familiaridade. Eu lembro bem quando era jogador de comentar com a minha mãe: 'É muito legal ver o pessoal na farmácia, e no açougue falando de tênis de uma forma bem singela e real'. Essas são recompensas que eu não poderia imaginar. É o presente mais bonito que o tênis me trouxe".

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