Notícias | Dia a dia | Guga 20 anos
Há 20 anos, Guga fazia jogo perfeito para ser o nº 1
03/12/2020 às 08h10

Guga considera a atuação na final em Lisboa como a mais perfeita de sua vida

Foto: Arquivo
por Mário Sérgio Cruz

A saga de Gustavo Kuerten na Masters Cup de Lisboa chegou ao ápice em 3 de dezembro de 2000, data que se tornaria histórica para o tênis brasileiro. Naquele dia, Guga venceu o norte-americano Andre Agassi por triplo 6/4 no jogo que encerrava o torneio e a temporada do circuito da ATP. Com isso, conquistava um título inédito em sua carreira aos 24 anos e, de quebra, alcançava a liderança do ranking mundial.

O jogo serviu como uma revanche para Guga, que havia perdido para Agassi no início daquela semana, ainda pela fase de grupos da competição disputada no Pavilhão Atlântico de Lisboa. O catarinense vinha sofrendo com problemas físicos, especialmente nas costas, e cogitou até mesmo desistir do torneio. No entanto, conseguiu se recuperar para conquistar quatro vitórias em dias seguidos. Ainda na primeira fase do torneio, bateu Magnus Norman e Yevgeny Kafelnikov. Depois, na semifinal, buscou uma grande virada contra Pete Sampras antes de reencontrar Agassi na capital portuguesa.  

'Foi a partida mais perfeita da minha vida', vibra Guga
Guga classifica a atuação na partida com Agassi como a melhor de sua vitoriosa carreira profissional, que conta com três conquistas em Roland Garros, 20 títulos de ATP e 43 semanas como número 1 do mundo. "Foi a partida mais perfeita da minha vida. Parecia que eu estava jogando um treino com o Larri na academia, com total tranquilidade. Eu estava sereno do início ao fim, já comecei quebrando o saque dele e acertando pancada para tudo quanto é lado", disse em depoimento a jornalistas na última terça-feira.

+ Guga quase desistiu, mas foi 'movido pela esperança'
+ Guga recebe homenagens de ídolos do esporte brasileiro

Com um jogo muito bem adaptado às rápidas condições do torneio, disputado em quadra dura e coberta, Guga atuou de forma agressiva e buscava a rápida definição dos pontos. Ele também foi preciso no saque, especialmente nos pontos mais importantes, ao disparar 19 aces na final e salvar todos os sete break points que enfrentou na partida com 2h06 de duração. O brasileiro criou nove oportunidades de quebra e aproveitou três, uma em cada set.

"Eu enfrentei alguns break points e ele só conseguiu responder o saque uma vez. Nos outros, foi praticamente definido sem ele ter chances. Quando ele via, o ponto já tinha acabado", relata Guga, citando que a situação também deu a ele uma vantagem psicológica na partida. "Isso dá um poder mental e uma confiança inabalável. E do outro lado vai dando frustração e desespero. Ele deve ter pensado: 'De novo esse cara?', ao ponto de no terceiro set da final ele até virar de lado numa hora que não era para virar, de tão incomodado que estava com a situação. Na hora H, quando precisava, eu acertava o saque em cima da linha. Dava cada pancada que o cara não tinha chance".

Ainda sobre o ponto de vista estratégico, ele traçou uma tática perfeita para o penúltimo ponto da partida e que foi determinante para sua vitória. Guga subiu à rede no backhand de Agassi e apostou em uma bola profunda, fugindo um pouco de suas características para chegar ao match point. "Na hora daquele ponto marcante do 5/4, que praticamente definiu o campeonato, eu precisei atacar e subir à rede. Saí das minhas características que era ficar no fundo, essa era a base do meu jogo, e ir lá para cima para botar a cara na rede e ganhar o ponto. Nessas quadras mais rápidas, eu comecei a entender que eu tinha a capacidade de ser mais agressivo. Precisava assumir os riscos e também lidar com alguns erros, que são comuns nesse nível".

Ainda jovem, Guga não acreditava no feito
Na entrevista coletiva, feita logo após a partida de 20 anos atrás, o ainda jovem Gustavo Kuerten não acreditava no tamanho de sua façanha. "É estranho. Como eu disse outros dias, sabe, não acreditava que pudesse fazer isso. Eu nem pensava sobre isso, na verdade, porque já tinha muitas coisas com que me preocupar. Eu só fiz isso e não sei como".

"Se alguém me dissesse no início do torneio: 'Para ser o nº 1, você precisa vencer Kafelnikov, depois Sampras, depois Agassi', eu diria: 'Ah! Sem chance'. Agora, de alguma forma, as coisas começam a se encaixar. Realmente é algo que você sempre pensa que está longe. E quando você consegue, ainda demora um pouco para perceber".

Agassi era um ídolo na adolescência do brasileiro
Em sua autobiografia Guga, um brasileiro (Sextante, 2014), Guga revelava sua idolatria por Agassi, quando ainda sonhava em se tornar um tenista profissional. "Apesar de ser o nosso nono confronto, eu ainda achava estranho enfrentar o Agassi, meu ídolo na passagem da infância para a adolescência. Aos 13 anos, numa viagem aos Estados Unidos, pedi à minha mãe que comprasse uma camisa dele de presente para mim. Custava 50 dólares, uma fortuna. Se não fosse do Agassi, seria feia. Mas como era, me parecia magnífica. Cresci com aquela camisa, sonhando um dia jogar tão bem quanto ele".

A mãe número 1 do mundo
Outro momento marcante daquele 3 de dezembro foi o carinhoso abraço na mãe, Alice Kuerten, durante a cerimônia de premiação. "Além de ser o dia mais feliz da minha vida, é a primeira vez que eu vou falar em português e todo mundo vai me entender", disse Guga. "Hoje eu sou número 1 do mundo, mas ela sempre vai ser a mãe número 1 do mundo para mim. Eu quero dar um beijo na minha mãe", acrescentou, enquanto caminhava até as arquibancadas para cumprimentar a mãe.

Em seu recente depoimento, Guga lembra que a mãe foi fundamental para que ele não desistisse do torneio depois de ter sofrido com as dores nas costas na partida de estreia. "A minha mãe foi a peça extraordinária nesse momento. Ela ficou comigo no quarto até 5h ou 6h da manhã, quando eu consegui dormir. Eu estava com tantas coisas todas na cabeça, e ela lá me dando carinho, amor e afeto. É a melhor solução que tem na vida. Foi aquilo que me trouxe de volta".

Segundo o ídolo do tênis brasileiro, o momento de muita emoção só foi possível por ele poder discursar em sua língua materna, pela primeira vez em eventos dessa magnitude. "Fez total diferença para mim. É outra experiência poder falar nosso idioma e falar daquela forma. Só assim, eu tive a liberdade de ir lá e abraçar a minha mãe. E assim eu me senti realmente em casa".

Especial: 20 anos do Número 1
Em comemoração aos 20 anos da chegada de Gustavo Kuerten ao topo do ranking da ATP, TenisBrasil recorda toda a campanha na Masters Cup de 2000 nos mesmos dias em que cada partida aconteceu até o título no dia 3 de dezembro e sua confirmação como número 1 do mundo no dia seguinte. Também estão previstos depoimentos do ídolo do tênis brasileiro sobre um dos momentos mais marcantes de sua vitoriosa carreira.

Relembre a trajetória de Guga no torneio
+ Há 20 anos, Guga vencia Sampras e chegava à final
+ Guga 20 anos: Segunda vitória e vaga na semifinal
+ Há 20 anos, Guga vencia a primeira na Masters Cup
+ Histórica campanha de Guga começava há 20 anos

Comentários