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Beach tennis mostra caminhos e gera alerta ao tênis
28/10/2020 às 08h32
Por Marcelo Meyer*

Um dinâmico esporte está chamando a atenção e demonstrando ser um fenômeno de crescimento e sucesso no Brasil: o beach tennis. Inicialmente esta modalidade era praticada apenas em algumas praias do país, mas agora clubes, academias, hotéis e condomínios passaram a construir quadras para os antigos e novos praticantes.

Para quem ainda não conhece, a quadra é de areia e a rede fica no alto, muito semelhante ao vôlei de praia. O esporte é praticado preferencialmente em duplas e as raquetes pequenas são de madeira ou material similar e mais sofisticado. Outro detalhe: o silêncio é quase proibido e na maioria das vezes joga-se com música ao lado das quadras.

Quais os segredos desse sucesso? O beach tennis é muito fácil de jogar; os equipamentos são relativamente baratos comparados ao tênis; pode-se jogar descalço, de short e camiseta, ou simplesmente calção de banho e sem camisa. É um esporte para todas as idades e o envolvimento social dos praticantes é enorme, com torneios geralmente promovidos com festas, comidas e brindes.

Não acredito que o tênis perderá o brilho, a beleza, a tradição, o glamour e o encanto dos grandes torneios. Além disso, os tenistas brasileiros, nos últimos anos, vêm conquistando em jogos de duplas resultados surpreendentes no cenário internacional.

Na modalidade de simples, já não posso dizer o mesmo. Desde os tempos de Guga Kuerten, há quase 20 anos, não tivemos nenhum jogador entre os 20 melhores do ranking mundial.

Para formarmos novos jogadores de alta performance, o que mais necessitamos é de quantidade muito maior de crianças jogando para aumentar a chance de descobrirmos novos talentos. Também precisamos investir em estrutura para formar estes promissores jogadores.

O que realmente preocupa? Estou vendo no momento uma quantidade enorme de jogadores de tênis migrando para o beach tennis, que também cresce muito em novos participantes. Clubes muito tradicionais em São Paulo e outros Estados estão transformando algumas quadras de tênis em locais para o beach tennis. Até aí tudo perfeito.

Como consequência mais imediata, o atual fenômeno poderá afetar principalmente os fabricantes de material e prestadores de serviços para o tênis, como pisos de quadra, acessórios, raquetes, encordoamento e professores.

Por outro lado, um novo mercado emergente está se abrindo e crescendo para esta nova modalidade.

O que fazer?
- O jogo de tênis precisa ser ensinado e apresentado de uma maneira mais simples, divertida e lúdica para as crianças.
- O adulto, jogador amador, precisa ser mais valorizado, com bons torneios, viagens em grupos para jogar e assistir a torneios internacionais, como já fazem alguns poucos promotores.
- A parte social entre os praticantes precisa ser mais valorizada e promovida.

Na verdade, eu ainda poderia fazer uma lista imensa de sugestões para incrementar e satisfazer o tenista amador, que na verdade é quem sustenta o tênis como negócio.

Em uma rápida pesquisa dos tenistas brasileiros que alcançaram uma colocação no ranking mundial entre os 200 melhores do mundo nos últimos anos, 90% do total aprenderam a jogar tênis quando criança, levados pelos pais, tios ou algum amigo envolvido com o esporte.

Portanto, se o tênis está neste momento perdendo uma grande fatia de mercado de praticantes, a consequência poderá ser que, num futuro próximo, um número menor de crianças começará a jogar tênis. Isto, sem dúvida, diminuiria a demanda de praticantes jovens no esporte.

Por outro lado, se o beach tennis continuar crescendo no Brasil e em vários outros países, quem sabe, com o tempo, poderá se tornar um esporte olímpico, a exemplo do skate e do surfe.

Repetindo, o tênis nunca perderá o brilho e o reinado, porém é sempre bom estar atento.

* Marcelo Meyer é paulista, ex-jogador profissional, e fundador de algumas das principais academias de tênis no Brasil. Foi treinador de Fernando Meligeni, Andrea Vieira e Cássio Motta, entre outros. Comentarista por vários anos de torneios de tênis pela TV Record e TV Bandeirantes.

Este artigo foi publicado originalmente no UOL

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