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'Especial Goat': lista de façanhas qualifica Federer
15/05/2020 às 08h08

Roger Federer possui a mais extensa lista de títulos, recordes e façanhas no tênis profissional

Foto: Arquivo
Marcos Bulcao *
Especial para TenisBrasil

Este é o último artigo da série de quatro textos analíticos sobre os maiores vencedores do tênis profissional masculino em busca de argumentos para definir afinal quem é o Melhor de Todos os Tempos.


Para muitos fãs de tênis, Roger Federer é indiscutivelmente o maior de todos os tempos. Com o recorde de 20 títulos de Grand Slam, seis triunfos no ATP Finals, bem como o maior reinado como número 1 do mundo, suas conquistas falam por si só. Mas nos últimos anos a pretensão do suíço de ser nomeado o 'Goat' tem sofrido um intenso ataque de seus dois grandes rivais, Rafael Nadal e Novak Djokovic, que, centímetro a centímetro, vêm se aproximando dele.

De fato, parece haver pouco a separar os três homens agora, com Nadal apenas um título de Slam atrás de Federer e com Djokovic em posição privilegiada para superar suas 310 semanas como líder do ranking quando o tênis retornar após a pandemia. Nem tampouco Pete Sampras, vencedor de 14 Slam, deve ser esquecido.

Mas e os méritos de Federer? A posição dele ainda é inatacável ou seu estatuto como maior de todos os tempos tornou-se perigosamente frágil? Como fizemos antes, cabe responder à pergunta crucial: o que Federer tem de único em seu currículo que o credencia a 'Goat'?

Federer tem o reinado mais longo como número 1
Ninguém permaneceu no topo do ranking por mais tempo do que Roger Federer. Na verdade, não apenas o suíço passou mais tempo na liderança – seus rivais mais próximos, Sampras e Djokovic, têm 24 e 28 semanas atrás, respectivamente –, mas ele também ocupou o primeiro lugar por mais semanas consecutivas do que qualquer outro jogador antes dele. Entre 2 de fevereiro de 2004, quando substituiu Andy Roddick, e 17 de agosto de 2008, ao ser destronado por Nadal, o suíço passou 237 semanas ininterruptas na ponta.

Esse é um recorde que nenhum outro jogador chegou perto de igualar. A maior sequência de Djokovic é de 122 semanas, com Sampras mais atrás com 102 semanas. Já Nadal nunca conseguiu liderar o ranking por mais do que 56 semanas consecutivas. Mesmo Jimmy Connors, segundo colocado na lista com sequência de 160 semanas, está mais de um ano atrás.

Além disso, Federer também tem, de longe, o maior período entre sua primeira e última passagem como número 1 mundial, com quase 14 anos e meio separando sua primeira e última aparições no topo. A marca de Nadal, embora impressionante, fica bem aquém, com 11,5 anos.

Federer é apenas o segundo homem a ganhar 100 títulos
O legado de um tenista é determinado principalmente pelos títulos conquistados, e pode-se dizer que Federer fez isso melhor do que qualquer outro jogador. É verdade, Jimmy Connors tem em sua coleção seis títulos a mais do que Federer possui atualmente, mas não devemos esquecer que uma proporção muito maior dos títulos de Federer veio nos grandes palcos. Connors ganhou oito Slam, três campeonatos de fim de ano e 17 Masters, o que é bastante pálido em comparação com os 20 Grand Slam de Federer, 28 títulos de Masters e seis vitórias no ATP Finals.

Federer tem o melhor desempenho de pico de todos os tempos
Já foi muito comum ouvir que Bjorn Borg – apesar de Sampras ter mais títulos de Grand Slam – deveria ser considerado o maior de todos os tempos porque ninguém tinha conquistado tanto quanto ele num período tão curto. De fato, antes de seu 26º aniversário, Borg havia vencido 11 Slam, dois ATP Finals e 15 Masters em um total de 64 títulos. Ele também ganhou incríveis 89,8% das partidas de Slam que disputou. Até hoje, ninguém conquistou tanto nessa idade ou chegou perto de igualar essa porcentagem de vitórias.

Mas quando se examina uma métrica como desempenho de pico (a chamada 'peak performance'), idade definitivamente não é a melhor referência. Especialmente considerando que os jogadores começam suas carreiras e, mais importante, amadurecem seu jogo em diferentes idades, é mais útil escolher um intervalo fixo para comparar seus melhores anos. Para colocar essa ideia em prática, vamos ver como os cinco melhores candidatos a 'Goat' - Federer, Djokovic, Nadal, Sampras e Borg - se saem quando apenas um período de cinco anos de suas carreiras está sob escrutínio.

Como podemos ver acima, nos melhores cinco anos de sua carreira, Federer superou todos os seus rivais mais próximos, com Borg rebaixado para o quinto lugar de acordo com esta métrica. Djokovic reivindica o segundo lugar atrás de Federer, com três Slam atrás e menos tempo também como 1 mundial, mas com vantagem em grandes títulos conquistados. Sampras até lidera em semanas e términos como 1 ao longo dos cinco anos, mas está muito atrás de Federer e Djokovic em número de grandes títulos conquistados, enquanto Nadal tem um desempenho surpreendentemente ruim, embora termine por pouco à frente de Borg.

Significativamente, se a análise for estendida a um período de oito anos, o tempo que Borg levou para acumular todas suas principais conquistas, o resultado ainda é o mesmo, com Federer saindo por cima.

No seu melhor período de oito anos, Federer conseguiu vencer nada menos que 16 de seus 20 títulos de Grand Slam, além de cinco ATP Finals e 16 Masters. Aqui como acima, não pode haver qualquer dúvida sobre quem obteve o melhor desempenho de pico. De fato, a única mudança notável é que Nadal amplia sua vantagem sobre Borg, superando o sueco em quase todas as métricas.

Domínio de Federer nos Slam vai muito além do seu recorde de títulos
Embora seja a métrica mais usual, títulos conquistados não deveriam, no entanto, ser a única referência para julgar a carreira de um jogador. É claro que o número de grandes títulos que cada jogador conquistou, particularmente Slam, deve ter um peso considerável no debate sobre o maior de todos os tempos, mas também vale a pena olhar para seu desempenho nos maiores palcos de forma mais ampla. Os resultados são certamente interessantes.

Enquanto até mesmo o fã mais casual sabe que Federer é o atual recordista de títulos de Grand Slam, talvez seja menos conhecido que ele detém a liderança em quase todas as métricas de sucesso nos quatro maiores torneios, como ilustra a tabela abaixo.

Federer pode ter vencido apenas um Slam a mais que seu rival mais próximo, Nadal, mas seu domínio se amplia enormemente quando examinamos as demais categorias. De fato, além de um título, o suíço tem a mais que o espanhol: quatro finais, 13 semifinais e 16 quartas. Padrão semelhante se observa na vantagem que possui sobre Djokovic, somando a mais que o sérvio três títulos, cinco finais, nove semifinais e 11 quartas. Federer também supera ambos em partidas vencidas, com 87 e 75 vitórias a mais do que Nadal e Djokovic, respectivamente.

Podemos adicionar uma camada extra de análise examinando quantos pontos essas lendas acumularam apenas nos Grand Slam. Federer totalizou até agora aproximadamente 70.300 pontos. Isso lhe dá uma vantagem de incríveis 13.000 pontos sobre Djokovic em segundo lugar e o deixa apenas 1.000 pontos atrás dos totais combinados de Sampras e Borg. É também impressionante notar que Federer fez mais semifinais, quartas e venceu mais partidas do que o sueco e o americano juntos.

Nem a consistência de Federer deve ser negligenciada. O suíço tem as duas melhores marcas de finais consecutivas de Slam: dez finais seguidas entre 2005 e 2008 e oito finais consecutivas entre 2008 e 2010. Federer tem ainda o recorde absoluto de 23 semifinais consecutivas entre 2004 e 2010 e 36 quartas entre 2004 e 2013. Essas marcas são tão impressionantes que uma vez perguntado sobre qual o feito de Federer que mais admirava, Nadal respondeu: “A série de 23 semifinais consecutivas de Grand Slam. São quase seis anos jogando todos os quatro Slam, sem uma única contusão, sem um dia ruim. Acho que ninguém conseguirá repetir isso”. De fato, entre os muitos recordes de Federer, esses são talvez os que mais provavelmente resistirão ao teste do tempo.

Federer tem alguns esqueletos em seu armário
Mesmo o espetacular currículo de Federer não existe sem algumas falhas. Ele não foi capaz, por exemplo, de vencer em Monte Carlo e Roma, deixando assim incompleta sua coleção de grandes títulos. Entretanto, o ponto talvez mais prejudicial no seu caso como 'Goat' é seu histórico negativo nos confrontos contra Nadal e Djokovic. Muitos têm argumentado que o suíço não pode ser considerado o maior de todos os tempos quando seus grandes rivais o derrotaram mais vezes do que foram derrotados. Mas será que confronto direto deveria ter alguma relevância neste debate?

Por exemplo, Nikolay Davydenko terminou sua carreira com um recorde de vitórias (6-5) sobre Nadal e Roddick venceu Djokovic em três de seus cinco encontros, mas ninguém consideraria Davydenko e Roddick como jogadores superiores. Afinal, ao tentar decidir quem é o jogador mais talentoso em uma determinada superfície ou no geral, devemos olhar para os seus históricos de confronto direto ou, em vez disso, para os títulos que eles ganharam?

O que na verdade nos diz que Nadal é melhor jogador no saibro do que Federer não é exatamente seu maior número de vitórias na superfície, são seus muitos títulos a mais. Da mesma forma, não é necessário avaliar seus confrontos para perceber que Federer é um jogador mais talentoso na grama e nas quadras duras. Nadal tem impressionantes sete títulos de Grand Slam longe de seu saibro preferido, mas isso não chega perto dos 19 de Federer. A rivalidade de Federer com Djokovic está mais próxima, com o sérvio mantendo uma vantagem de 28-24 em seus confrontos e Federer com uma vantagem de três em Grand Slam. Mas será que Djokovic ou Nadal não trocariam sua vantagem no confronto direto com Federer por mais títulos de Slam?

Isso não quer dizer que esse histórico negativo contra Nadal e Djokovic não seja uma falha no currículo de Federer. Certamente é. Entretanto, cabe salientar que o real significado desse histórico não está exatamente nos números de vitórias/derrotas, mas nos troféus que foram vencidos ou perdidos como decorrência desses encontros. Para Federer, certamente há poucas derrotas mais dolorosas do que as dez finais de Grand Slam que perdeu para Nadal e Djokovic ou triunfos mais doces do que as quatro que ele ganhou. Porque no final o que realmente conta não é contra quem se acumulou vitórias ou derrotas, é o que se conquistou ao final de cada torneio.

Conclusões
Comparar jogadores de diferentes gerações é sempre um desafio. Escolher a métrica ou o quadro de referência certos é primordial para alcançar um veredito justo. Nesta série de artigos, vimos que um caso forte poderia ser montado para cada um dessas grandes lendas: Sampras, Djokovic, Nadal e Federer. O que nos guiou o tempo todo foi a pergunta-chave: o que cada um deles tem de único em seus respectivos currículos que os credenciam ao título de maior de todos os tempos?

No caso de Federer, há muitas dessas conquistas únicas. De fato, pode-se argumentar que, dentre todos, Federer é o que menos depende de seus recordes mais conhecidos, tão grande e diversificada é sua lista de façanhas, embora seu currículo, como o dos outros, não seja sem falhas. Mas não seria isso - possuir a mais diversa e multifacetada lista de conquistas entre todos os jogadores - o bastante para ele reinvindicar o título de maior de todos os tempos?

Veja a análise sobre o candidato Rafael Nadal

Veja a análise sobre o candidato Novak Djokovic

Veja a análise sobre o candidato Pete Sampras

* Marcos Bulcao, 48 anos, é filósofo e aventureiro, escritor e empreendedor, não necessariamente nessa ordem. Louco por tênis e estatísticas, está sempre pensando em maneiras de resolver o debate sobre quem é o GOAT. Tem seis livros publicados, cinco acadêmicos e seu favorito: O Filósofo Peregrino: de Londres a Roma a Pé. Mora atualmente no Canadá, onde ensina filosofia e gere uma empresa de investimentos automatizados em bolsa de valores.

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