Notícias | Dia a dia
'Especial Goat': seria Sampras ainda o melhor?
12/05/2020 às 08h36

Seis vezes número 1 ao fim de temporadas, Sampras foi o mais dominante de todos os tenistas

Foto: Arquivo
Marcos Bulcao *
Especial para TenisBrasil

Iniciamos aqui uma série de quatro textos analíticos sobre os maiores vencedores do tênis profissional masculino em busca de argumentos para definir afinal quem é o Melhor de Todos os Tempos.

Pode parecer ultrajante para muitos sequer sugerir que Pete Sampras ainda seja o maior de todos os tempos. Afinal, seus 14 títulos de Slam o colocam agora como apenas o quarto colocado da lista, atrás do fantástico trio de Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic. E talvez mais importante ainda, enquanto os três jogadores que dominaram esta geração ganharam pelo menos uma vez cada um dos quatro Grand Slams, Sampras nunca nem mesmo chegou à final no Aberto da França.

Então, sim, à primeira vista, isso pode soar como a maior das heresias. De fato, se olharmos apenas para os números totais de grandes títulos, a candidatura de Sampras teria de ser descartada. Mas comparar conquistas entre diferentes gerações requer uma abordagem mais matizada, que envolve mais do que simplesmente contar títulos. Em vez disso, como fizemos antes com Nadal e Djokovic, a pergunta chave é: o que Sampras tem de único em seu currículo que o credencia ao título de maior de todos os tempos?

Sampras terminou o ano como nº 1 seis vezes seguidas
Esta conquista sem precedentes de Sampras é muitas vezes subvalorizada, em grande parte porque o debate em torno do maior de todos os tempos normalmente tende a se concentrar em títulos de Grand Slam conquistados. Mas isso faz sentido? Pode-se por exemplo argumentar que é bem mais difícil se tornar 1 do mundo do que ganhar um Grand Slam. Os números certamente mostram isso. Desde a introdução do ranking computadorizado em 1973, 54 jogadores ganharam um Grand Slam, mas apenas 26 alcançaram o topo do ranking.

Além disso, enquanto 25 jogadores foram campeões de Grand Slam sem nunca chegar ao topo do ranking, apenas um jogador – Marcelo Rios – já se tornou líder do ranking sem nunca ganhar um dos quatro maiores torneios. E se você ainda não está convencido de que chegar ao primeiro lugar do ranking é mais difícil do que ganhar um Grand Slam então pergunte a Guillermo Vilas. O argentino venceu quatro Slams, dois em 1977, mas nunca chegou lá. Mark Edmondson, por sua vez, venceu o Aberto da Austrália de 1986, mas sequer entrou no top 10.

Isso não deveria ser uma surpresa
Para ganhar um Grand Slam, um jogador só precisa encontrar seu melhor tênis por um período relativamente curto de tempo, nunca mais do que duas semanas. Para atingir e manter a ponta, no entanto, ele precisa de bem mais do que isso. Tem de sustentar seu nível de excelência e ser o melhor entre seus pares não apenas por duas semanas, mas um ano inteiro. Parece então que Sampras, que detém o incrível recorde de seis términos consecutivos como 1, pode não estar recebendo o reconhecimento que merece por esse extraordinário feito.

Sampras é o jogador mais dominante de todos os tempos
Comparar jogadores de diferentes gerações é sempre um desafio. A maneira óbvia de fazer isso é comparar suas conquistas em termos de números de títulos conquistados, anos encerrados como 1 e assim por diante. Mas há duas maneiras diferentes de comparar esses números. A maneira usual é simplesmente comparar números totais, por exemplo, Federer ganhou 20 Grand Slams e Sampras 14, logo Federer é o jogador mais bem sucedido.

A segunda maneira, e talvez mais útil, é situar esses números em seu contexto adequado. O importante aqui é definir um quadro de referência, o que pode ser feito a partir da seguinte pergunta: quão dominante é/foi um determinado jogador em sua própria geração? Ou seja, quão bem sucedido foi um jogador comparado com seus principais rivais durante a própria carreira do jogador?

Para ver essa ideia na prática, vamos comparar as conquistas de oito das maiores lendas de todos os tempos – Jimmy Connors, Bjorn Borg, John McEnroe, Ivan Lendl, bem como Sampras, Federer, Nadal e Djokovic – ao longo do período em que cada jogador figurou no top 10.

Connors no top 10: 1973-1988
Vamos começar com Connors. 1973 foi o primeiro ano em que ele terminou no top 10; 1988 foi o último. Vamos ver como ele se saiu em comparação com o que seus principais rivais conseguiram durante esse período. Nos seus anos como top 10, Connors obteve cinco términos consecutivos como nº 1 e 268 semanas no topo do ranking, sem mencionar seus oito títulos de Grand Slam em um total de 26 grandes títulos. No entanto, por mais notáveis que sejam essas conquistas, Connors não supera claramente seus principais rivais durante esse período, tendo vencido menos Slam do que Borg (11) e menos grandes títulos do que Borg (28), McEnroe (29) e Lendl (29).

Borg no top 10: 1974-1981
E o famoso sueco, Bjorn Borg? Ele também não foi tão dominante. É verdade que ele ganhou 11 títulos de Grand Slam de 1974 a 1981, mais do que ninguém nesse período, mas isso não se traduziu em domínio no ranking, já que ele terminou como 1 apenas duas vezes, contra cinco de Connors.

McEnroe no top 10: 1978-1989
McEnroe teve uma sequência de quatro anos incríveis entre 1981 e 1984, quando ele claramente dominou o mundo do tênis. Mas sua supremacia durou pouco, com Lendl tendo igualado alguns de seus feitos (quatro anos encerrados como 1 e sete Grand Slams) e superado outras marcas, notadamente semanas na liderança e grandes títulos nesse período.

Lendl no top10: 1980-1992
Durante seus anos como top 10, com 270 semanas e quatro términos de temporada como 1, além de oito Slam em um total de 35 grandes títulos, ninguém teve um desempenho melhor do que Lendl. No entanto, com McEnroe também tendo quatro términos como 1 e seis Slams durante este período, o domínio de Lendl dificilmente pode ser considerado inigualável.

A era do Big 3
Vamos pular Sampras por enquanto e saltar diretamente para o trio de Federer, Nadal e Djokovic. Como suas carreiras praticamente se sobrepõem, podemos simplificar e ter uma mesma tabela para os três.

Quando olhamos para esses números absolutamente extraordinários, ficamos tentados a dizer que estamos diante dos três melhores tenistas de todos os tempos. Mas é importante notar que, embora eles tenham coletivamente dominado o campo, nenhum deles foi capaz de dominar completamente os outros, tão próximas são suas respectivas marcas.

Sampras no top 10: 1990-2002
Por último, Pete Sampras. A impressionante coleção do americano inclui 286 semanas e seis términos de temporada na ponta, 14 títulos de Grand Slam em um total de 30 grandes títulos. Mas o que é ainda mais impressionante é ver o quanto mais ele conquistou em relação a seus contemporâneos. Por exemplo, Andre Agassi – seu rival mais próximo – conseguiu vencer apenas metade dos Grand Slams no período, enquanto os outros grandes vencedores estão ainda mais atrás: Jim Courier (quatro), Stefan Edberg (três), Guga Kuerten (três) e Lleyton Hewitt (dois).

E seu domínio no ranking mundial é ainda mais assombroso. Sampras encerrou a temporada seis vezes como 1, com Hewitt e Edberg, com dois términos cada um, seus únicos rivais nessa métrica. Sua soberania em semanas lideradas não é menos impressionante. Enquanto Sampras acumulou 286 semanas no topo do ranking, ninguém nesse período conseguiu mais do que as 87 de Agassi. A tabela abaixo revela o quão dominante o grande americano foi em sua época.

Podemos ver que, com a notável exceção dos títulos de Masters, onde Agassi tem a vantagem, Sampras não só lidera todas as grandes categorias, mas o faz com uma margem muito confortável.

Conclusões
Este incrível desempenho em relação a seus pares enquanto ele era top 10 nos dá uma dimensão totalmente nova para as conquistas de Sampras e pode muito bem redesenhar o quadro em termos da discussão sobre quem é o Goat, o maior jogador de todos os tempos.

Federer, Nadal e Djokovic, todos podem ter mais títulos em termos absolutos do que Sampras, não há como negar isso. No entanto, também é verdade que eles tiveram que dividir o bolo por três, nenhum deles tendo sido capaz de ser declarado – sem hesitação ou grandes polêmicas – o melhor. Em contraste, o domínio de Sampras em sua própria época foi incontestável. De fato, nesse quesito, suas conquistas são incomparáveis durante toda a Era Aberta.

Então, se você acha que o critério definidor do Goat diz respeito sobretudo ao domínio inconteste sobre seus pares, sua procura terminou: o Goat responde pelo nome Pete Sampras.

Amanhã, a análise sobre o candidato Novak Djokovic

Marcos Bulcao, 48 anos, é filósofo e aventureiro, escritor e empreendedor, não necessariamente nessa ordem. Louco por tênis e estatísticas, está sempre pensando em maneiras de resolver o debate sobre quem é o GOAT. Tem seis livros publicados, cinco acadêmicos e seu favorito: O Filósofo Peregrino: de Londres a Roma a Pé. Mora atualmente no Canadá, onde ensina filosofia e gere uma empresa de investimentos automatizados em bolsa de valores.

Comentários
Loja - livros
Suzana Silva