Notícias | Dia a dia
Especial: O desafio de ser mãe de tenista
10/05/2020 às 08h00

Maria Nice Pereira tem três filhos diretamente ligados ao tênis, inclusive Teliana Pereira

Foto: Miriam Jeske/Heusi Action
por Mário Sérgio Cruz

A rotina de tenista profissional exige ficar longe da família na maioria das datas comemorativas. Em meio às tantas viagens e competições internacionais, são raras as ocasiões em que é possível estar perto de casa em dias especiais no calendário. Entretanto, o ano de 2020 é atípico, por conta da pandemia da Covid-19 e do risco de transmissão do novo coronavírus. Com a paralisação do circuito e as recomendações de isolamento social, muitos tenistas brasileiros terão a oportunidade de recordar a infância e passar o Dia das Mães em casa neste domingo.

Para marcar esta data, o TenisBrasil ouviu depoimentos das mães de alguns personagens do tênis brasileiro. Entre os temas abordados, estão o desafio de ter um atleta profissional na família, a distância durante a maior parte da carreira, além do papel de pais e mães no circuito e o relacionamento com os respectivos treinadores dos filhos.

Três tenistas na família
Maria Nice Pereira é uma das mães mais simbólicas do tênis brasileiro. Três dos sete filhos estão diretamente envolvidos com o esporte. Teliana e José Pereira tornaram-se jogadores profissionais, enquanto Renato é técnico e administra a própria academia. "Fiquei feliz com a vontade deles e falei que trabalhando se chega aonde se quer".

A família Pereira é natural do sertão pernambucano, mas migrou para o Sul do país quando o pai, José, foi trabalhar na construção civil. Uma das oportunidades para o pai de Teliana foi na academia de Didier Rayon, em Curitiba, construindo quadras de tênis. Foi lá em que os filhos tiveram o primeiro contato com a modalidade.

Atualmente, toda a família vive na capital paranaense e, mesmo que cada um de sua casa, esta será uma chance rara de passar o Dia das Mães com maior proximidade. "Como eles viajam muito, dificilmente passamos um Dia das Mães juntos! Apesar da situação do corona, pelo menos esse ano estaremos todos juntos, mesmo que pelo celular".

Um dos momentos mais especiais de Maria Nice no tênis foi acompanhar de perto o título de Teliana no WTA de Florianópolis em 2015. "Foi uma felicidade muito grande, mas eu já esperava!", afirmou. "Sempre falei pra ela que trabalhando sério, alcançaria os objetivos".

 
 
 
 
 
Ver essa foto no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por Teliana Pereira (@telianapereira) em

Um raro dia das mães
O dia das mães também será especial para Paula Meligeni, que tem dois filhos no circuito profissional. Carolina e Felipe Meligeni Alves saíram de casa muito jovens e irão comemorar a data na cidade paulista de Campinas. "Eu não lembro quando foi a última vez que a gente passou o dia das mães juntos", afirmou a mãe dos tenistas. Carol está com 24 anos, enquanto Felipe tem 22. "Desde que eles saíram para o circuito, na maioria das vezes a gente comemora virtualmente, com um recado, uma mensagem, ou um telefonema. Mas pessoalmente é uma das poucas vezes, infelizmente por conta do problema que estamos vivendo".

"O calendário deles é muito corrido, o Felipe não mora mais aqui em Campinas, ele vive em Barcelona. A Carol morava na Argentina e voltou há pouco tempo para o Brasil - está treinando em Santos, com Caio Silva", explicou. "Eles saíram de casa muito cedo, o Felipe com 16 anos e a Carol com 15, e foram treinar fora do país, no Uruguai. A Carol ficou quatro anos lá, fazendo essa parte de transição. E o Felipe também foi para lá em busca de mais bagagem para os torneios".

Na mesma situação está Laís Scaff Haddad, mãe da paulistana Beatriz Haddad Maia. Há uma década ela não passava o Dia das Mães ao lado da filha de 23 anos. "Desde o juvenil, a Bia viaja de 27 a 30 semanas por ano. E nessa época ela estaria fazendo a gira europeia, desde abril até julho em Wimbledon. Então são dez anos sem passarmos juntas o Dia das Mães, além dos aniversários dela (30 de maio), do pai (8 de junho) e da irmã (4 de julho)", comentou. "Mas a gente acostumou com isso, já que ela viaja para competir desde os 11 anos. E hoje, a internet nos aproxima muito!"

 
 
 
 
 
Ver essa foto no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por Carolina Meligeni Alves (@carolmeli) em

O papel de mãe no circuito e a relação com os técnicos
Embora tenha bastante vivência trabalhando com o tênis, Paula Meligeni destaca que é importante que os pais não invadam o espaço do treinador e que é preciso separar as duas funções. "A função do pai e da mãe é ser pai e mãe, enquanto o treinador faz o trabalho dele. É a única forma disso caminhar de maneira saudável", afirma. "Falo isso  pelo fato de a gente ter passado muita coisa com o Fernando e ter tido o exemplo dentro de casa", comentou a irmã do ex-jogador profissional Fernando Meligeni.

"Como mãe e como pai, o que a gente pode dar a eles é todo o suporte e encorajamento que pudermos para que eles saibam que é um caminho muito duro, e que exige abrir mão de muita coisa, mas que vale muito a pena. Tudo aquilo que a gente pode dar, a gente fez", acrescentou a mãe dos dois tenistas. "Desde ajuda para poder treinar e viajar, o colo quando perde, a alegria quando ganha. Então o papel do pai e da mãe é dar o suporte ou a dura quando a gente vê que alguma coisa não está no caminho, desde que a gente não invada o papel do treinador. Mesmo trabalhando com esporte, a gente não mistura".

"O teu filho tem que olhar para você e ver você como parceiro, como uma pessoa que ele confia. Ele não pode olhar para você com olhar de cobrança 'A minha mãe está investindo X e eu preciso dar tudo por causa disso' A gente não está fazendo isso porque quer alguma coisa em troca", complementou Paula.

 
 
 
 
 
Ver essa foto no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por biahaddadmaia (@biahaddadmaia) em

Professora de tênis e com experiência trabalhando ao lado de crianças e jovens, Laís Haddad compartilha dessa opinião. "Acredito que pais e técnicos tenham que trabalhar de forma harmoniosa, respeitando o papel de cada um, para que a criança se sinta segura, acolhida e tranquila nesse início de vida competitiva. Sem cobranças de ranking ou resultados".

"A Bia passou por diversos treinadores e eu ainda encontro alguns deles nos eventos ou torneios de FPT e da CBT", comentou, sobre a decisão da filha de se tornar uma jogadora profissional. "Na minha opinião, quando ela treinou com a equipe do Larri Passos, dos 14 aos 19 anos, foi onde ela conheceu o verdadeiro ambiente profissional e entendeu os caminhos que um atleta precisaria percorrer pra atingir seus objetivos. A carreira dela foi consequência de todo um trabalho de formação, dedicação e resultados e fluiu à medida que ela foi conquistando seu espaço". 

Em tempos de isolamento em casa, seria natural que Bia se beneficiasse do fato de ter por perto alguém que trabalha com o esporte, mas sua mãe garante que aprende muito mais com a disciplina da filha do que o contrário. "Acho que a Bia ajuda mais a mim do que eu a ela", afirmou. "Ela sabe administrar e aproveitar muito bem o seu tempo e tem sido muito disciplinada na quarentena. Logo cedo ela faz sua meditação, e em seguida faz um treino físico, a soltura, e mantém sempre sua equipe atualizada. Acho que isso é uma coisa que o esporte ensina!" 

Mãe e avó
Outra mãe de tenista poderá passar essa data ao lado do filho é Maísa, mãe do mineiro Bruno Soares. "Há bastante tempo não passamos esse dia juntos, e vamos passar agora porque estamos num momento de exceção", disse a mãe do veterano jogador de 38 anos. Bruno tem mais um irmão e uma irmã e todos sempre receberam apoio da família. "Aqui na nossa casa sempre prevaleceu o seguinte: Primeiro, o foco nos estudos. E depois, apoio incondicional para o que cada um quisesse fazer".

Bruno Soares também já tem filhos. O mais velho é Noah, que nasceu no início de 2015, enquanto a caçula Maya completará dois anos em junho. É muito cedo para saber se eles seguirão os passos do pai, mas Maísa se sente apta a ser uma boa avó de tenista: "Totalmente preparada! E vou ser a avó mais coruja do mundo!"

Comentários
Loja - livros
Suzana Silva