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Os mistérios do tênis: o verdadeiro 'inventor'
17/04/2020 às 19h08

Reprodução da final de Wimbledon disputada em 1881 entre William Renchaw e Herbert Lawford

Foto: Reprodução
José Nilton Dalcim *

A maciça maioria dos livros sobre história do esporte ainda credita ao major Walter Wingfield o estabelecimento da base do tênis moderno, numa mistura de tênis real e de badminton, que teria visto em suas viagens à Índia e em livros da Grécia Antiga. Mas esse é um erro que finalmente está corrigido.

Depois da fase áurea do jeu de paume pela Europa e da grande popularidade do tênis real entre os nobres da Inglaterra, o esporte perdeu impulso e quase desapareceu. A Revolução Francesa de 1789 e as invasões de Napoleão Bonaparte praticamente extinguiram o jogo. Para piorar, os monarcas britânicos do século 18 eram muito pouco simpatizantes de atividades físicas tão intensas.

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Por muito tempo, os ingleses vitorianos tentavam adaptar o “tênis real” para o ar livre, já que a aristocracia queria entreter seus convidados nos gramados do quintal de casa ao invés de viajar longas distâncias para a prática nos castelos. Em 1767, um jogo chamado “field tennis” foi disputado num campo de boliche, em Battersea. Mas havia um problema: a bola, feita de lã e couro, não saltava o bastante num piso de grama. Formas similares de jogo “outdoor” foram tentadas e aparecem em ilustrações datadas de 1837.

Pouco depois, em 1858, um cavalheiro de Birmingham chamado Thomas Harry Gem construiu uma quadra ao ar livre em sua casa em Edgbsaton, com uma mistura do "tênis real" com a pelota, e utilizou uma bola de borracha para disputar uma partida contra seu amigo espanhol João Batista Perera.

Foi um sucesso e assim nascia a base do que chamamos hoje de tênis. Gravura datada de 1860 mostra a Rainha Vitória dando o “saque inicial” de uma partida no Parque de Wimbledon. Dois anos depois, Gem, Perera e um grupo de amigos fundaram o primeiro clube de “lawn tennis”, o Leamington Club, que usava o gramado do hotel Manor House. O termo “lawn tennis”, por sua vez, teria sido dado por um político chamado Arthur Balfour com a finalidade de diferenciar do "real tennis".

A borracha vulcanizada, inventada por Charles Goodyear, em 1850, propiciou a revolução fundamental para que surgisse o esporte, já que o material permitiu enfim a produção de bolas macias o suficiente para não danificar a grama, mas ao mesmo tempo elásticas para quicar alto. E o melhor: também eram muito duráveis.

O “lawn tennis” era mais simples do que o “tênis real” em todos os sentidos. Precisava apenas de um piso gramado e liso, algo comum numa época em que o críquete era a distração mais popular de verão. O “tênis real”, até então totalment voltado aos aristocratas e disputado sobre base de pedra dura dentro de longos corredores dos castelos, agora era acessível à Inglaterra Vitoriana, e não foi preciso muito tempo para que tomasse o lugar do críquete. Tudo o que se exigia do praticante eram etiqueta e comportamento educado.

E aí entra em cena Wingfield
Percebendo um movimento em direção ao novo esporte, o major Walter Clopton Wingfield, oficial da Armada Britânica e membro da guarda da Rainha Vitória, mostrou-se ligeiro. Patenteou em 1869 o “sphairistiké” (nome grego para “bola e taco”). Para negar que a ideia havia sido tirada das tentativas anteriores, Wingfield dizia ter se inspirado em livros sobre a Grécia Antiga, onde havia um jogo de mesmo nome em que os praticantes arremessavam uma bola de couro por cima de um obstáculo. E indicava até a existência da estátua de Ariston de Carystius, que teria sido um jogador importante.

Em 1873, o Major escreveu um livro com a definição do “sphairistiké” e teria feito sua primeira apresentação pública na festa de Natal realizada em Nantclwyd. Por fim, a 23 de fevereiro de 1874, usando o fato de integrar uma das mais antigas e distintas famílias britânicas, pediu patente de uma “nova e melhorada quadra para jogar o antigo jogo de tênis” e o direito foi concedido rapidamente, em 24 de julho.

Ao longo de décadas, isso garantiu a Wingfield a distinção de 'inventor' do tênis moderno. Na verdade, ele teve dois méritos inegáveis: o primeiro foi um trabalho intenso de divulgação do esporte e o outro, a criação de uma caixa de madeira, composta de raquetes, bolas, rede e livreto de instruções, que facilitou a expansão do tênis por clubes, cidades e países com grande rapidez. A caixa de Wingfield foi quem levou o tênis aos EUA, ainda em 1874.

A quadra imaginada pelo Major tinha o formato de uma ampulheta (ou seja, mais estreita junto à rede) e o ponto só poderia ser vencido pelo sacador. O saque teria de ser dado além da linha (ao invés de dentro do quadrado, como hoje). Tudo isso caiu por terra em maio de 1875, quando o Marylebone Cricket Club determinou a quadra retangular, a área de saque, a altura da rede e ainda padronizou as regras, a maioria delas intactas até hoje e utilizadas para o primeiro torneio de Wimbledon, em 1877.

Enfim, o reconhecimento
Em abril deste ano, uma placa em homenagem a Ghem e Perera foi colocada no Leamington Club, marcando enfim o reconhecimento de que eles foram os efetivos precursores do tênis moderno.

Apaixonados por esporte, Ghem era escriturário mas se destacou também como autor de ficções, enquanto Perera tinha comércio de produtos importados. O primeiro faleceu em 1881 e acredita-se que Perera tenha morrido em 1889.

* Com trechos extraídos do livro "Entenda o Tênis", do próprio autor

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Suzana Silva