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Koch elege melhores jogos da incrível carreira
09/04/2020 às 11h33
José Nilton Dalcim

O canhoto gaúcho Thomaz Koch viveu a transição do tênis amador para o profissional. Sua carreira teve notáveis feitos, desde ainda muito jovem, quando ganhou o Orange Bowl juvenil meses antes de ser quadrifinalista do US Open, ainda com 18 anos. Jogador clássico, com voleios perfeitos e mortais, obteve sucesso em todos os pisos, tendo alcançado as quartas de final também de Wimbledon e de Roland Garros.

Oficialmente, a ATP contabiliza 181 vitórias e 151 derrotas na carreira profissional, ou seja, a partir de maio de 1968, com dois títulos e outras três finais de ATP. Herói da Copa Davis brasileira e tendo o 24º lugar como melhor ranking da Era Aberta - em listas amadoras, figurou entre os top 15 por várias temporadas -, derrotou gigantes como Bjorn Borg, Jimmy Connors, Guillermo Vilas, Roy Emerson, Arthur Ashe, Manoel Santana, Adriano Panatta e Tony Roche, tendo levado Rod Laver ao quinto set do US Open de 1968.

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Nesta série especial de TenisBrasil. é o próprio Koch quem elege e conta detalhes de suas maiores vitórias:

Vitória sobre Emerson (1963)

Eu tinha apenas 17 anos e derrotei o australiano Roy Emerson, que então era número 1 do mundo, em Caracas, um torneio sobre quadra sintética. A importância dessa vitória é que me encheu de confiança e abriu caminho para entrar em outros campeonatos, já que naquela época você dependia de convite. Ganhei por 6/4 no terceiro set e quando saquei para a vitória, com 5/4, o braço estava muito preso. Por tudo que envolvia, acho que foi meu maior jogo. Eu já havia derrotado o Ronald Barnes e perdi na final em quatro sets para o Manolo Santana.

Derrota amarga na Davis (1966)

Apesar de ter perdido, foi um momento marcante. O Brasil havia ganhado dos Estados Unidos e estava na final mundial de 1966 - o que equivaleria hoje à semi - e tivemos de ir até a Índia. Chegar lá já foi uma epopeia, porque a Confederação não tinha dinheiro e só decidiu na última hora e assim chegamos quatro dias antes. Com 1 a 1 na sexta, sofremos uma dura derrota na dupla, que era um ponto que eu e o Edison Mandarino sempre contávamos. No domingo, Mandarino empatou. Se eu vencesse o Ramanathan Krishnan, o Brasil enfrentaria a Austrália na final da Davis. Com 2 sets a 1 para mim, o jogo parou por falta de luz. Aí eu abri 4/1 no quarto set e tive break-point, mas minha passada tocou na fita e deu tempo para ele reagir. Ainda assim, fiz 5/3, 30-15 sacando. O braço pesou, o saque ficou curto e ele me quebrou de volta. Daí em diante, não lembro de mais nada, o momento foi embora.

* Ramesh Krishnan (IND) v. Thomaz Koch (BRA), 3/6 6/4 10/12 7/5 6/2

Quartas do US Open (1963)

Entrar no meu primeiro US Open, aos 18 anos, já foi uma aventura. Estava na Holanda e nem sonharia em ir a Nova York, mas os organizadores fretaram um avião e aí eu arrisquei. Era 1963, fiquei em casa de família. Mas ainda precisava entrar na chave. Contei que havia vencido o Roy Emerson pouco antes em Caracas e ganhado Gstaad, porém eles nem acreditaram em mim, já que naquela época os resultados demoravam muito para ser conhecidos. Por fim, me incluíram e logo na estreia venci o titular do time canadense da Davis, e acho que viram que eu não era tão ruim assim. Em seguida, tirei o Istvan Gulyas, finalista de Roland Garros daquele ano, e também o Jim Scott, que havia acabado de ser convocado para a Davis. Estava nas quartas e todo mundo de olho em mim. Enfrentei Chuck McKinley, campeão de Wimbledon semanas antes sem perder set. Quando entramos, a grama estava meio úmida e escorregadia, mas os organizadores avisaram que não iam deixar usar sapato de prego porque rasgava o piso. Saí perdendo, virei para 2 sets a 1 e veio o intervalo de 10 minutos (regra da época). Na volta, McKinley entrou com sapato de prego e a justificativa é que a USTA não queria que ele se machucasse por causa da Davis em seguida. E eu? Bem, me disseram para eu me virar... No quarto set, tive dois match-points no saque dele. No quinto, fiz 3/1 e saque. Ele teve break-point, eu fiz um voleio na linha e o juiz cantou fora. Até o público vaiou, incrível. O fato é que, se ele perde, não haveria americano na semi, porque o Ronald Barnes havia tirado o Dennis Ralston. No final perdi. O campeão daquele ano foi o mexicano Rafael Osuña, que poucos anos depois morreu num acidente de avião.

* Chuck McKinley (EUA) v. Thomaz Koch (BRA), 6/4 4/6 4/6 8/6 6/4

Vingança contra Borg (1975)

No primeiro WCT que houve aqui em São Paulo, eu tive dois match-points na semifinal contra o Bjorn Borg. Eu nem estava bem treinado, porque ajudava a organização a arrumar patrocinador e o torneio custava US$ 50 mil só de taxa. Lembro que nesse jogo, houve até cambista na porta do Ibirapuera. Num dos match-points, ele deu uma passada cheia de topspin, que tocou na fita e me encobriu. Mas veio a vingança. No ano seguinte, na casa dele, com saibro e bola muito lentos, ou seja tudo a favor dele, ganhei rapidinho em dois sets. Acho que joguei muito naquele dia. Borg já era um deus na Suécia, ocupava o quinto lugar do ranking e um mês antes havia sido bicampeão de Roland Garros.

* Thomaz Koch (BRA) v. Bjorn Borg (SUE), 6/3 e 6/2

Título em cima de Ashe (1971)

Teve de tudo nessa decisão de Washington. Eu já tinha enfrentado Arthur Ashe duas vezes. Perdi nas oitavas do US Open de 1965 e ganhei na semi do Pan de 1967, onde ganharia depois a medalha de ouro. Antes mesmo de entrar em quadra para a final, briguei com o diretor do torneio, porque precisava que o jogo fosse em melhor de três sets para não perder o avião, já que tinha de jogar a Copa Davis na semana seguinte em São Paulo. Ganhei os dois primeiros e deveria ter acabado, mas Ashe reagiu e levou para o quinto. Foi muito tenso e eu nem pude tomar banho. Fui escoltado por batedores até o aeroporto, onde o avião estava me esperando. Levei é claro a maior vaia ao entrar.

* Thomaz Koch (BRA) v. Arthur Ashe (EUA), 7/5 9/7 4/6 2/6 6/4

Façanhas em Barcelona (1966)

Essa passagem por Barcelona rendeu muita história. O Brasil jogava a Copa Davis pela zona europeia para podermos aproveitar a passagem aerea. Tiramos a Dinamarca e encaramos a Espanha em Barcelona, onde Manolo Santana nunca havia perdido. Saímos perdendo de 2 a 0 e parecia impossível virar. Mas aí ganhamos a dupla e eu acabei aproveitando que o Manolo estava com o ombro meio ruim e venci em três sets. O jogo decisivo era do Edison Mandarino, que foi interrompido por falta de luz no 5/5 do quinto set. Foi um drama e tentaram subornar o Mandarino à noite no hotel (ele já morava na Espanha e sua mulher era de lá). Mas ele foi aí e classificou o Brasil. E no dia seguinte, já começou o tradicional Conde de Godó. Eu sinceramente estava tão empolgado com a Davis que nem sentia direito as coisas. Nas quartas contra o Fred Stolle, com duas finais de Slam nas costas, fiz 6/2 e 6/1, nos cumprimentamos e tudo, mas aí vem o diretor avisar que o jogo seria em melhor de cinco sets! Ganhei logo no terceiro. Superei Cliff Drydale na semi e o Niki Pilic na final.

* Thomaz Koch (BRA) v. Manolo Santana (ESP), 7/5 6/2 6/1

Menção honrosa

Não posso deixar de mencionar a 'bicicleta' que dei em Eddie Dibbs na Suécia, segunda rodada, em 1974. Dibbs era 20 do ranking e queridindo do Nick Bollettieri. Foi uma das minhas maiores partidas. Venci o Ilie Nastase por 6/2, 6/0 e 6/0 em Wimbledon no começo da carreira dele e tive uma vitória incrível sobre o Charles Passarell nas oitavas de Wimbledon de 1967.

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