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Bellucci: 'Nos últimos anos, estou pagando para jogar'
27/03/2020 às 08h12

Premiações dos torneios menores não cobrem os gastos de Bellucci no circuito

Foto: Fotojump
por Mário Sérgio Cruz

Depois de passar a maior parte da carreira na elite do circuito e com a oportunidade de disputar os principais torneios do mundo, Thomaz Bellucci vive uma realidade muito diferente daquela que merecidamente se acostumou. O ex-número 21 do ranking e vencedor de quatro títulos de ATP sente na pele a dura rotina dos torneios menores. Atualmente apenas no 289º lugar do ranking aos 32 anos, Bellucci não esconde que está "pagando para jogar".

"Nos últimos anos eu tenho pagado para jogar. É muito difícil você conseguir acabar o ano com saldo positivo jogando challenger", disse Bellucci, em entrevista a TenisBrasil. "Por mais que eu tenha parceiros e patrocinadores que me ajudem, é difícil cobrir todos os gastos. Principalmente se você viaja com treinador, preparador físico e fisioterapeuta, que é o meu caso. Eu raramente viajo sozinho, sempre levo minha equipe e isso tem um custo muito alto".

Queda significativa no faturamento
Em sua carreira profissional, Bellucci acumulou uma premiação de US$ 5,34 milhões. E entre 2009 e 2017, sempre conseguiu mais de US$ 300 mil em premiações de torneios por temporada. O destaque fica para o ano de 2015, quando ele recebeu US$ 731 mil por seu desempenho nas competições de simples, e mais US$ 49 mil pelos resultados nas duplas.

A segunda melhor temporada foi a de 2011, impulsionada pela semifinal do Masters 1000 de Madri. Naquele ano, o paulista de Tietê ganhou US$ 639 mil só nas competições de simples.  E até mesmo em 2013, ano em que sofreu com uma lesão no músculo abdominal, ele acumulou cerca de US$ 255 mil em simples e mais US$ 65 mil nas duplas.

A situação mudou drasticamente desde a suspensão por cinco meses imposta pela Federação Internacional de Tênis (ITF) depois de testar positivo para a substância proibida hidroclorotiazida em exame antidoping realizado em 2017 e que encerrou precocemente sua temporada. De volta ao circuito no início de 2018, Bellucci ganhou cerca de US$ 110 mil premiações naquele ano. Já na temporada seguinte, acumulou US$ 67 mil, sendo que US$ 34,5 mil vieram dos torneios de duplas. Em 2020, com cinco torneios disputados, só ganhou US$ 5.370.

Circuito parado e adiamento das Olimpíadas
Bellucci também comentou sobre o momento atual do circuito, com as competições paralisadas até 7 de junho por conta da pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. "Acho que aconteceu tudo muito rápido e me pegou de surpresa", conta o canhoto paulista. "Mas acho que foi uma medida sensata da ATP. Tomara que a gente consiga jogar o quanto antes, com tudo normalizado e com essa epidemia já controlada".

Com três Olimpíadas no currículo e uma boa campanha até as quartas de final nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, Bellucci não coloca a participação em Tóquio como uma de suas metas. Mas o adiamento dos Jogos para 2021 renova suas chances de classificação. "Acho que disputar as Olimpíadas já não é mais um objetivo para mim. Mesmo porque eu já joguei três vezes e consegui uma boa campanha", lembrou. "Se eu conseguir me classificar de novo, é lógico que vou ficar muito feliz, mas não está entre os meus maiores objetivos hoje em dia".

Confira a entrevista com Thomaz Bellucci.

Como você recebeu a notícia dos cancelamentos dos torneios e da suspensão do circuito?
Acho que aconteceu tudo muito rápido e me pegou de surpresa. Provavelmente não só a mim, mas a todos os jogadores. Foi uma coisa de uma hora para outra. Eu começaria um torneio numa segunda-feira mas, na quinta ou na sexta-feira anterior eles cancelaram todo o circuito. Então pegou todo mundo meio desprevenido.

Mas acho que foi uma medida sensata da ATP. Talvez seja a primeira vez que tenha acontecido isso no circuito e vamos ver como que vai ser. Tomara que a gente consiga jogar o quanto antes, com tudo normalizado e com essa epidemia já controlada. Para o esporte e para o tênis é uma perda gigante. A gente já vai completar quase um mês sem torneios. E tomara que isso seja resolvido da melhor maneira possível e o mais rápido possível.

Você está atualmente em São Paulo ou fora do Brasil? Consegue manter alguma rotina de treinos mesmo em casa?
Eu estou em São Paulo agora e vinha treinando para o challenger de Olímpia. Duas semanas antes, eu iria jogar um torneio em Madri, que foi cancelado em decorrência do coronavírus. Na época achei meio estranho e meio precipitada a decisão, mas acho que tudo foi acontecendo muito rápido e, três dias antes de eu viajar para Olímpia, cancelaram esse torneio também.

Depois disso eu continuei treinando na primeira semana, mas desde que a ATP informou que o circuito só voltaria em junho, eu tenho feito mais parte física e jogado bem pouco. Mesmo porque vão ser quase três meses sem torneios. Ficar três meses só treinando na quadra é um pouco cansativo, mas o mais importante agora é manter a parte física e isso eu tenho tentado fazer, na medida do possível, dentro de casa. Estou fazendo alguns exercícios que meu preparador físico me passa e fora isso não tem muito o que fazer.

Depois de ter um início de temporada muito difícil, você conseguiu uma boa semana em Cleveland e foi semifinalista. O quanto essa parada pode prejudicar o ritmo que você ganhou lá?
Antes de parar o circuito, eu estava em um momento bom. Eu tinha feito uma semi em Cleveland, que foi um torneio difícil. Eu ganhei bons jogos e estava voltando a jogar em um nível melhor. É difícil ficar tanto tempo sem jogar. Mas ao mesmo tempo que é difícil para mim, também é difícil para todos os jogadores.

Eu não sei como vai ficar a questão do ranking. Provavelmente eu vou ter que jogar torneios menores. Tinha alguns pontos para defender nesses meses, mas acontece. Tem coisas que não dá para controlar. Eu venho jogando bem e é uma pena ter parado o circuito agora, mas tomara que eu consiga voltar a jogar naquele ritmo de Cleveland o mais rápido possível e consiga encontrar um caminho de volta para as vitórias. Isso é o mais importante. Eu estava me sentindo bem dentro de quadra. Então, quando voltar a jogar, vou tentar recomeçar de onde eu parei e tentar evoluir.

Na maior parte de sua carreira, você conseguia acumular uma premiação de pelo menos US$ 300 mil por temporada, mas nos últimos anos caiu bastante. Foram US$ 110 mil em 2018, 67 mil no ano passado (somando simples e duplas) e pouco mais de 5 mil nesse começo de ano. Como está sendo para se manter financeiramente no circuito?
Realmente, os últimos três anos foram anos difíceis. Tanto financeiramente, quanto profissionalmente e mentalmente. Acho que foi um desafio para mim passar tantos momentos difíceis, tanto dentro da quadra quanto fora, como naquele momento que acabei ficando quatro meses sem jogar. São coisas que machucam muito mais do que uma perda financeira.

Nos últimos anos eu tenho, na verdade, pagado para jogar. É muito difícil você conseguir acabar o ano com saldo positivo jogando challenger. Principalmente se você viaja com treinador, preparador físico e fisioterapeuta, que é o meu caso. Eu raramente viajo sozinho, sempre viajo com a minha equipe e isso tem um custo muito alto. Por mais que eu tenha parceiros e patrocinadores que me ajudem, é difícil cobrir todos os gastos. Já que nos últimos dois anos, principalmente, eu não consegui quase nada de prize money comparado ao que eu gasto. Na verdade, você acaba gastando o que ganhou nos outros anos.

Mas como em qualquer negócio, você às vezes passa por momentos de dificuldade e momentos de crise, e precisa saber passar por isso. Eu sei que esse investimento vai valer a pena e que eu posso jogar bem ainda. Acredito que seja apenas uma fase difícil.

Com o adiamento das Olimpíadas, e tendo um ano pela frente, a classificação para Tóquio passa a ser uma meta para você?
Acredito que não. Acho que disputar as Olimpíadas já não é mais um objetivo para mim. Mesmo porque eu já joguei três vezes. E numa delas eu consegui fazer uma boa campanha, que foi aqui no Rio. Então, para mim, esse objetivo já foi alcançado. A principal meta hoje em dia é voltar a jogar bem e voltar ao top 100. As minhas chances de classificar para as Olimpíadas eram muito pequenas este ano. Talvez agora que foi adiado, vou ter mais um ano para somar pontos. Se eu conseguir me classificar de novo, é lógico que vou ficar muito feliz, mas não está entre os meus maiores objetivos hoje em dia.

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