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Sell busca caminho alternativo na equipe de Osaka
20/03/2020 às 10h29

O brasileiro Karue Sell (segundo, da direita para a esquerda) foi contratado para trabalhar com Osaka e seu experiente treinador Wim Fissette

Foto: Reprodução/Instagram
por Mário Sérgio Cruz

A equipe de uma das principais jogadoras do mundo ganhou o reforço de um brasileiro para esta temporada. Ex-número 1 do ranking e vencedora de dois Grand Slam, a japonesa Naomi Osaka trouxe o ex-jogador profissional Karue Sell, catarinense de 26 anos, para exercer a função de rebatedor na equipe capitaneada pelo experiente técnico belga Wim Fissette. O brasileiro já havia feito esse trabalho anteriormente, com o time norte-americano da Fed Cup.

Sell chegou a se destacar no circuito juvenil entre 2010 e 2011, mas se mudou muito jovem para os Estados Unidos, atuando durante quatro temporadas no tênis universitário norte-americano. Em 2017, tentou retomar a carreira profissional e conquistou três títulos de nível future, alcançando o 371º lugar do ranking de simples da ATP. Há quase um ano, o catarinense deixou de disputar competições e vinha dando aulas de tênis em Los Angeles. O convite para integrar o grupo de trabalho da japonesa veio no final da última temporada.

"O agente dela me ligou e conversamos um pouco. Começamos a fazer um teste, fizemos duas ou três semanas de treinos antes da Austrália. Deu liga", disse Sell, em entrevista ao TenisBrasil sobre o trabalho com a atual número 10 do mundo. "Foi uma oportunidade boa. Não só pelo trabalho e pelo nome dela, mas porque o treinador dela é um cara que já ganhou vários Grand Slam como técnico e, então, é uma oportunidade de aprender bastante", comentou sobre a chance de trabalhar com Fissette, ex-treinador de Kim Clijsters, Victoria Azarenka, Angelique Kerber e Simona Halep.

O ex-jogador profissional avalia que a escolha é positiva para os tenistas que não conseguem se manter financeiramente nos torneios menores. "Eu sempre fui um cara muito realista. Acho que tem muita gente que gosta de viver de sonho, de que vai ficar jogando até quando dá como 400 ou 500 do mundo. Eu não queria isso. Então acho que essa é uma opção boa. Você consegue trabalhar com pessoas que jogam tênis em alto nível".

Sell também comentou sobre o momento atual do circuito, paralisado até junho por conta do risco de transmissão do novo coronavírus. "Não estou muito surpreso. Quando eles falaram que iria ser seis semanas de pausa a partir de Indian Wells, eu já achava que seria muito pouco", afirmou. "Todos os meus amigos que jogam no circuito profissional não sabem o que fazer".

 
 
 
 
 
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Confira a entrevista com Karue Sell.

Como você recebeu essa notícia da paralisação do circuito, primeiro até 27 de abril e agora até 7 de junho? Considerou justo o congelamento dos rankings atuais?
Eu não estou muito surpreso. Quando eles falaram que iriam parar por ser seis semanas a partir de Indian Wells, eu já achava que seria muito pouco. Então, na minha cabeça, eu já achava que não teria a temporada de saibro. Quando eu estava em Indian Wells com o time da Naomi, a gente já estava esperando que isso ia acontecer.

O ranking eu acho que teria que ser congelado. Não vejo muito o que mais pode ser feito. Ninguém pode jogar torneio. O certo é fazer o que fizeram, de não ter torneio. Lógico que para algumas pessoas ajuda, tipo o Federer agora que não perde os pontos dele de Miami até Roland Garros e tudo mais. Agora, como eles vão fazer depois, eu não sei. Mas não tem por que a gente jogar.

Quem mais se prejudica nessa pausa no circuito e com o congelamento do ranking seria a turma imediatamente abaixo do top 50 e do top 100?
Acho que quem acaba se beneficiando é quem tinha que defender bastante ponto agora. Mas se tinha alguém quase quebrando o top 50 ou o top 100 vai dar uma freada. Às vezes, você ainda tem que defender pontos quando voltar o circuito e acaba caindo no ranking. Não pensei muito sobre isso, mas não deve ter uma solução que faria todo mundo feliz. Agora, os Grand Slam estão de birra um com o outro. E vai ser uma loucura. Vai ser uma temporada engraçada. Você joga o US Open e, uma semana depois, joga Roland Garros. É uma situação muito complicada.

Você agora trabalha como rebatedor na equipe da Naomi Osaka. É uma função que você também já teve com as jogadoras americanas da Fed Cup. Como surgiu a oportunidade?
Eu estava aqui em Los Angeles, depois de ter parado de jogar em abril. Comecei a dar aulas, estava com uma rotina legal de trabalho, e jogando um torneio aqui ou ali. E algumas pessoas me ligaram falando: 'A Naomi vai se mudar para Los Angeles. Você teria interesse?' e eu falei: 'Olha, tenho o meu negócio aqui, não estou realmente procurando, mas a gente pode dar um try out', e isso foi antes da temporada da Ásia, onde ela ganhou dois torneios [em Osaka e Pequim].

Depois da temporada da Ásia, o agente dela me ligou e conversamos um pouco. E começamos a fazer um teste. Fizemos duas ou três semanas de treinos antes da Austrália. Ela treina ali na UCLA, onde eu também fiz faculdade, e deu tudo certo. Deu liga. Foi uma oportunidade boa. Não só pelo trabalho e pelo nome dela, mas porque o treinador dela é um cara que já ganhou vários Grand Slam como técnico e, então, é uma oportunidade de aprender bastante. Nesse trabalho que estou fazendo para virar treinador, não sei se no circuito profissional ou de tênis universitário aqui nos Estados Unidos, acho que adiciona bastante para a minha carreira.

Como é o trabalho de hitting-partner? Consegue simular um pouco dos estilos de jogo das adversárias?
Eu sempre joguei mais plano e sem muito topspin. Então minha bola é meio que perfeita pra ela. E, sim, a gente também varia bastante. Tem dias que sou mais ofensivo, tem dias mais defensivo. Sempre misturando bastante o ritmo.

Você considera essa um opção de entrar na equipe de jogadores top como um caminho alternativo para os jogadores que não estão conseguindo se manter financeiramente no circuito?
Eu acho uma opção boa. Afinal, o motivo de eu não estar mais jogando é financeiro. Eu não conseguia me manter no circuito do jeito que deveria ser feito, podendo ter um treinador e tudo mais. Não que seja impossível viver sem, mas eu não tinha como viajar. Ou então, viajava por duas semanas para depois já precisava voltar para dar aula. Fica meio difícil. Hoje você tem que estar entre os 200 do mundo para começar a fazer algum dinheiro.

Depois que eu me machuquei, comecei a dar mais aulas e fiquei independente aqui. Achei isso mais importante para mim. Dando aulas aqui eu estava bem tranquilo, não estava tendo que me preocupar. Se eu trabalhasse várias horas por dia aqui, eu poderia ganhar até mais do que trabalhando com a Naomi, mas ela é uma ganhadora de Grand Slam e uma oportunidade boa para o meu currículo.

No fim das contas, eu sempre fui um cara muito realista. Acho que tem muita gente que gosta de viver de sonho, de que vai ficar jogando até quando dá como 400 ou 500 do mundo. E para mim, não valia a pena. Eu não queria isso. Então acho que essa é uma opção boa. Você consegue viajar, assistir tênis de alto nível e trabalhar com pessoas que jogam tênis em alto nível.

Além desse trabalho com a Osaka, você tem alguma outra forma de se manter? Dar aulas, treinos? Vi no Instagram que tem uns trabalhos com fotografia também. Considera voltar a jogar torneios?
Além do trabalho com ela, eu tenho alguns clientes aqui em Los Angeles que eu dou aula. Geralmente eu treino com ela só pela manhã, então tenho outros alunos aqui que eu dou bastante aula. Mas é mais isso. O negócio da fotografia também é só um hobby, não é nada que eu faça profissionalmente ainda.

Eu também comecei a fazer um site junto com outro brasileiro que jogou no universitário, o Guilherme Hadlich, chamado MyTennisHQ. A gente faz artigos sobre tênis, mas não é tanto sobre notícias. É um projeto legal, em inglês, em que damos instruções on-line pelo YouTube e escrevemos artigos. Então, a gente começou isso há seis meses.

Como está sua situação no momento, tanto com relação ao isolamento para evitar o contágio pelo coronavírus quanto com relação ao processo de imigração para os Estados Unidos?
Agora está meio estranho. A gente estava em Indian Wells até sexta-feira passada. Mas eu voltei para Los Angeles. No final de semana estava meio caótico, com as pessoas comprando muitas coisas achando que tudo iria fechar. No momento, dá para viver aqui em Los Angeles. Eles fecharam os restaurantes. Você até pode pedir delivery ou ligar e vir buscar, mas não pode sentar para comer, e os supermercados ainda estão bem cheios. Mas você tem que ser bem cauteloso, porque se todo mundo continuar saindo como se nada estivesse acontecendo vai ser problemático. Se a gente conseguir ficar umas duas semanas totalmente desligado, talvez consiga parar esse vírus.

Quanto à imigração. Eu tenho mais uns três anos de visto, então não estou tão preocupado. Estando aqui dentro, é tranquilo. Mas o circuito está bem louco. Ninguém está treinando. Todos os meus amigos que jogam no circuito profissional não sabem o que fazer. Vão treinar para que? Não tem torneio. Então está meio esquisito.

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Suzana Silva