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Wozniacki se despede após uma década em alto nível
24/01/2020 às 00h55

Wozniacki ganhou títulos em onze anos seguidos e terminou onze temporadas no top 20 do ranking mundial

Foto: Divulgação
por Mário Sérgio Cruz

Acostumada a lutar por títulos e pelas primeiras posições do ranking, Caroline Wozniacki encerra sua carreira profissional nesta sexta-feira, depois de terminar sua participação no Australian Open. A dinamarquesa perdeu para a tunisiana Ons Jabeur, número 78 do ranking, por 7/5, 3/6 e 7/5 pela terceira rodada da competição. Foi em Melbourne que Wozniacki conquistou seu único título de Grand Slam em 2018. A jogadora de 29 anos e ex-número 1 do mundo teve uma trajetória profissional marcada por sua consistência no alto nível e pela vitoriosa parceria com o pai e treinador, Piotr.

Wozniacki venceu 30 títulos no circuito da WTA e passou onze temporadas seguidas ganhando ao menos um torneio. Essa sequência, iniciada em 2008, foi quebrada apenas na última temporada, quando seus melhores resultados foram o vice-campeonato em Charleston e a semifinal de Pequim. A dinamarquesa também terminou onze temporadas consecutivas no top 20 do ranking mundial, entre 2008 e 2018. Ela aparece atualmente na 36ª colocação e vinha de um bom resultado em Auckland, onde foi semifinalista de simples e vice-campeã de duplas, jogando ao lado de Serena Williams.

Na Dinamarca, enfrentava meninos e mulheres adultas
A família de Wozniacki é de origem polonesa. Piotr nunca jogou tênis profissionalmente e fez carreira no futebol, esporte que motivou sua mudança para Odense, na Dinamarca, cidade onde a tenista nasceu em 11 julho de 1990. A mãe, Anna, também foi atleta profissional e fez parte da seleção nacional de vôlei na Polônia. Até por conta da origem estrangeira, ela é chamada de "Karolina" por seus pais.

Treinando com Piotr desde os sete anos, Wozniacki foi introduzida ao esporte batendo bola diariamente contra o paredão, em sessões de três ou até quatro horas, o que ajuda a explicar sua consistência defensiva e a predileção por pontos mais longos. Em uma família de atletas, suas primeiras competições foram contra o irmão, Patrick, quatro anos mais velho e que mais tarde optaria pelo futebol. Em seu país, Wozniacki foi se acostumando a jogar contra meninos, contra meninas mais velhas e até com mulheres adultas. Assim, venceu o campeonato nacional feminino da Dinamarca com apenas 14 anos.

Melhores resultados foram ao lado do pai
Acompanhada pelo comitê olímpico de seu país desde os onze anos, Wozniacki chamou atenção de Sven Groeneveld, técnico do programa de desenvolvimento de talentos da Adidas, em 2006, pouco depois de ser campeã juvenil de Wimbledon. Groeneveld foi apenas um dos grandes técnicos com breves passagens pela carreira da dinamarquesa.

 
 
 
 
 
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Enjoying these moments on court with my dad! Lots of great memories throughout my career! ❤️ Swipe right! #bestcoach #bestdad

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Embora já tenha trabalhado com muitos treinadores renomados, os maiores feitos da carreira de Wozniacki foram na parceria com o pai, que estava ao seu lado em 28 conquistas no circuito. Já estiveram com a dinamarquesa, o espanhol Ricardo Sanchez, os suecos Thomas Johansson e Thomas Hogstedt, o compatriota Michael Mortensen, a espanhola e ex-número 1 do mundo Arantxa Sanchez, o tcheco David Kotyza e a italiana Francesca Schiavone. Todos tiveram colaborações breves, permanecendo por poucos torneios no cargo. Títulos vieram apenas com Johansson e Hogstedt, em New Haven-2012 e Luxemburgo-2013. 

Número 1 veio antes do título de Grand Slam
Com apenas 18 anos, em maio de 2009, Wozniacki já aparecia no top 10 do ranking da WTA. Naquele ano, disputou também sua primeira final de Grand Slam no US Open, mas foi superada por Kim Clijsters. A dinamarquesa assumiria a liderança do ranking no dia 11 de outubro de 2010. Ela perderia o lugar para Clijsters por uma semana em fevereiro do ano seguinte, mas rapidamente retomou a posição e lá permaneceu até janeiro de 2012.

Os melhores anos de Wozniacki foram 2010 e 2011, com seis títulos em cada temporada. Já em 2014, alcançou outra final de US Open, mas viu Serena Williams levantar a taça. E apesar da consistência no alto nível, a dinamarquesa conviveu com críticas por ter sido número 1 do mundo sem um título de Grand Slam e por seu estilo de jogo defensivo e cada vez menos usual em um circuito dominado por jogadoras mais agressivas e com maior potência nos golpes.

O roteiro das derrotas costumava ser parecido, com um começo de partida dominante, seguido pela melhora e a redução no número de erros das adversárias. As viradas eram concretizadas nos momentos em que a falta de agressividade de Wozniacki custava a perda de pontos importantes em momentos decisivos.

A volta ao topo do ranking só aconteceria em janeiro de 2018, após a conquista de seu único troféu de Grand Slam. Na campanha em Melbourne, salvou dois match points contra a croata Jana Fett durante a segunda rodada e derrotou a romena Simona Halep na final. Em três passagens pela liderança, Wozniacki acumula 71 semanas como número 1 do mundo. Com isso, a dinamarquesa é a nona jogadora entre as que passaram mais tempo no topo do ranking, ficando à frente de nomes como Venus Williams (11), Kim Clijsters (20), Maria Sharapova (21), Angelique Kerber (34) ou Simona Halep (64).

Wozniacki, aliás, possui o recorde com o maior intervalo de tempo entre duas passagens pela liderança. Foram exatos seis anos entre 29 de janeiro de 2012 e  29 de janeiro de 2018.

Mais de 600 vitórias e 4ª maior premiação na história
Com 635 vitórias na carreira, Wozniacki é a 16ª jogadora que mais venceu na história. Ela tem três triunfos a mais que a argentina Gabriela Sabatini, nome mais próximo da lista. Entre as atletas em atividade, apenas sete mulheres estão com mais de 600 vitórias na carreira, as irmãs Venus e Serena Williams, a as russas Maria Sharapova e Svetlana Kuznetsova, a alemã Angelique Kerber e a australiana Samantha Stosur.

Atuando em uma época em que as premiações dos torneios são cada vez mais altas, Wozniacki é a quarta jogadora com maior premiação acumulada na história do tênis feminino profissional. Ela conseguiu mais de US$ 35,2 milhões ao longo de sua vitoriosa carreira. A recordista é Serena Williams, com US$ 92,5 milhões, seguida pela irmã Venus Williams e por Maria Sharapova entre as atletas de maior sucesso financeiro no esporte. 

Amizades com as jogadoras, mas nem tanto com os árbitros
Wozniacki se tornou muito amiga de jogadoras da mesma faixa etária como Victoria Azarenka, Agnieszka Radwanska e Angelique Kerber, que a conhecem desde os tempos do circuito juvenil. Também se tornou muito próxima de Serena Williams, quase dez anos mais velha, quando a norte-americana passou por um grave problema de saúde em 2011 e sofria com uma embolia pulmonar.

Ex-integrante do Conselho das Jogadoras, tinha bom trânsito no circuito e com os profissionais de imprensa. Ela se dizia contrária às obrigatoriedades no calendário que a WTA determinava para suas maiores estrelas. Também criticou publicamente quando Maria Sharapova retornou de suspensão por doping em 2017 e recebia convites para os torneios e escalações para as quadras principais. Ela também já reclamou do comportamento do público em Miami

Seu relacionamento mais áspero era com os árbitros das partidas. Em muitos casos, contestava marcações de caráter interpretativo e acabava sendo desrespeitosa com os oficiais. Seu pai, Piotr, chegou a ser expulso de uma partida em Doha. Por tais atitudes, também era acusada de fazer isso de propósito para desestabilizar as oponentes.

Dinamarquesa sofria com artrite e já cogitava parar
No fim de 2018, Wozniacki revelou ter sido diagnosticada com artrite reumatoide. Ela já sabia do problema desde agosto do mesmo ano, mas preferiu falar sobre o assunto apenas depois de encerrar sua temporada no WTA Finals. Mesmo reduzindo seu calendário de competições e a rotina de treinos, conseguiu ainda um título expressivo em Pequim. Foram seis vitórias seguidas em sets diretos na capital chinesa para conquistar seu último troféu e mil pontos no ranking.

Mas já se falava em uma possível aposentadoria precoce para Wozniacki ainda em 2016, quando ela tinha apenas 26 anos e vivia seu pior momento. Uma lesão no tornozelo direito durante um treino a tirou de quadra durante toda a temporada de saibro. Na volta, maus resultados e uma lesão no punho a derrubaram para o 74º lugar do ranking. Uma improvável campanha até a semifinal do US Open deu a confiança necessária para voltar a ter bons resultados e voltar a lutar pelas primeiras posições.

Disposta a voltar a ser protagonista, Wozniacki trouxe o rebatedor Sascha Bajin, que já trabalhou com Serena Williams e Victoria Azarenka, e fez uma grande temporada em 2017. Foram 60 vitórias no ano e oito finais, com títulos em Tóquio e no WTA Finals, que fizeram saltar do 19º para o terceiro lugar do ranking. Bajin deixaria a equipe no fim daquele ano para começar o vitorioso trabalho como técnico da japonesa Naomi Osaka. Já em 2018, conquistou seu primeiro Grand Slam na Austrália e venceu mais dois títulos, terminando o ano no terceiro lugar do ranking.

Na temporada de 2019, foram poucas alegrias, com 20 vitórias e 15 derrotas. Treinando com Schiavone durante os torneios no saibro, alcançou uma final em Charleston, mas perdeu para a norte-americana Madison Keys. Já no segundo semestre, destaque apenas para o último torneio do ano. Quando tentava defender o título em Pequim, a dinamarquesa venceu quatro jogos e só parou em Naomi Osaka na semifinal.

Em meio às dúvidas se continuaria no circuito em 2020, anunciou em dezembro que iria se despedir dos fãs justamente no palco de sua maior conquista. A última vitória da carreria foi conquistada na quarta-feira, em uma grande partida diante da ucraniana Dayana Yastremska, número 21 do mundo. Wozniacki venceu aquele jogo por duplo 7/5. Antes disso, estreou no US Open derrotando a norte-americana Kristie Ahn por 6/3 e 6/1. 

"Fico feliz por ter vencido minha primeira partida aqui", disse Wozniacki após a sobre Ahn. "É sempre complicado, especialmente sabendo que é o meu último torneio. Há muitas emoções, mas tentei deixar tudo sob controle e penso que fiz isso muito bem hoje. Estou realmente tentando aproveitar cada momento. Você nunca sabe quando vai acabar. Ainda faltam duas semanas. Mas a cada partida que eu fizer, vou dar tudo o que tenho, porque pode ser a última".

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