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Ex-técnico de Ashe revela dramas que enfrenta
27/11/2018 às 18h27

John Powless em ação em 2017.

Foto: Gustavo Werneck

Porto Alegre (RS) - Um dos maiores ícones do tênis mundial e número 1 do mundo da categoria 85 anos, o americano John Powless retorna a Porto Alegre onde estreia nesta quarta-feira na 33ª edição do Seniors Internacional de Tênis - Copa Yone Borba Dias -, na Associação Leopoldina Juvenil. Ele revelou dois dramas que vem superando com a ajuda do esporte: um câncer e uma chuva torrencial que em agosto destruiu a academia que mantém há 40 anos em Madison, Winsconsin, nos EUA.

Powless tem grande peso para o tênis americano e mundial. Ele foi responsável por revelar Arthur Ashe, campeão do US Open, Wimbledon e Aberto da Austrália e símbolo na luta contra o racismo e causas sociais. Morto por conta de AIDS em 1993, Ashe chegou a homenagear Powless durante discursos em uma universidade americana semanas antes de falecer. John ainda deu o primeiro emprego em sua academia para Nick Bolletieri que hoje tem o maior empreendimento de tênis do mundo em Bradenton , na Flórida.

Atual campeão do Seniors Internacional de Porto Alegre, Powless falou sobre os dramas de sua vida que o tênis vem ajudando a curar. Há quatro anos, jogando em Antália, na Turquia, sentiu-se mal, teve que desistir e foi levado a um hospital em Viena, na Áustria, por Johannes Muehlemburg, companheiro do circuito seniors. Ali, foi diagnosticado com câncer de cólon, no intestino.

"Tive muita sorte que havia uma especialista lá, eles conseguiram retirar o câncer, me puseram numa quimioterapia, para evitar que ele voltasse. Disseram que eu teria algo como 18 meses de vida e já vivi quatro anos desde que descobri e me sinto bem. O tênis me dá energia. O que eles inserem no teu corpo faz mal, muitas pessoas perdem o cabelo, sobrancelha. Várias coisas aconteceram comigo por conta do tratamento. Não posso dizer que estou lutando para vencer, mas lutando para não deixarem me vencer, me manter ativo. Meu corpo ativo vai ajudar bastante, talvez nem sempre, mas na maioria das vezes", aponta Powless, que na próxima semana, quando voltar para casa, terá uma nova bateria de quimioterapia.

"Os últimos exames de imagem mostraram que o câncer estava estável e espero que o próximo exame mostre o mesmo. A quimioterapia deixa seu corpo tonto. Se eu não tivesse ativo com o tênis talvez estivesse para baixo e me sentindo doente, mas com o tênis mantenho meu equilíbrio. Quando fiz minha primeira sessão de quimio o médico me disse para descansar alguns dias e fui para a quadra no sol. Quando saía da quimio, ficava com um aparelho para fora do meu corpo carregando por dois dias, hoje não mais, mas jogava mesmo assim."

Powless joga tênis desde pequeno. Aos 86 anos, ele deixa a doença de lado, a cura com o esporte e quer que sua história sirva de exemplo. "Espero que com minha história e luta com a ajuda do tênis, eu inspire as pessoas. Nós estamos no mundo para ajudar outras pessoas, se eu conseguir ajudar, me sinto muito bem. Estou curtindo estar ativo e com os amigos, honrado de poder viajar, encontrar amigos e fazer novas amizades. Vou jogar enquanto estiver vivo. Quero voltar a Porto Alegre ano que vem e mais ao Brasil, adoro o Brasil."

Além do câncer, Powless vive outro drama pessoal. Em agosto, uma forte chuva destruiu sua academia que está há 40 anos em Madison. Nem mesmo as oito quadras cobertas escaparam. Ele e mais cinco pessoas, entre elas uma criança, ficaram presos até a madrugada por conta da pressão da água no lado de fora. A inundação destruiu toda a estrutura de vestiários, bar, restaurante, lounge. O prejuízo foi em torno dos US$ 500 mil. A seguradora, que pagou fielmente desde que inaugurou a academia, não deu um centavo para a reconstrução, que deve estar concluída no fim de janeiro de 2019.

"A pressão da água estava tão forte que ficamos trancados lá dentro pois a pressão era tanta que não dava para abrir a porta para sair. Às 2 da manhã é que conseguimos sair. Havia 21 carros estacionados que foram destruídos pela enxurrada. Nossa academia tem 1,4 mil metros quadrados na parte central com vestiários, o lounge, o restaurante, o check in, a loja, ficou tudo destruído. Eles começaram a recuperar as quadras no fim de setembro e agora no fim de novembro conseguimos jogar tênis de novo. Vai levar até o fim de janeiro para recuperar tudo, foi um desastre completo. O prejuízo total gira em torno dos US$ 500 mil (quase R$ 2 milhões). Só para limpar o estrago nas primeiras semanas foram US$ 100 mil (R$ 370 mil), havia uma polegada e meia de lama na quadra de saibro. A seguradora que pago desde que inaugurei a academia não pagou nada, meus advogados aconselharam que teria altos custos e não seria garantia que ganharia no tribunal com uma ação. Tive que pedir empréstimo a bancos e vou pagar em até 20 anos."

Para ajudar nos custos, Sandra Mcdonald, sócia da academia de Powless, abriu uma vaquinha virtual chamada Rally for Powless (https://www.gofundme.com/rally-for-powless) que já arrecadou mais de US$ 35 mil. "As pessoas são tão boas. A Sandra estava no dia do acontecimento, ela viajou para Pequim, na China, e de lá começou essa vaquinha, conseguiu US$ 35 mil. Mas a parte boa é que várias pessoas ajudaram do fundo do coração, não importa com quanto. Até mesmo pessoas do Brasil enviaram dinheiro. O poder da internet é que ajudou nessa vaquinha, jogadores seniors do Brasil enviaram emails, tive ajuda de Porto Alegre, Brasília, Rio de Janeiro, Santos, fiquei emocionado, caíram lágrimas dos meus olhos. Eu gostaria de dar algo de volta, fazer clínicas para crianças, sem cobrar nada e dizer obrigado a todas essas pessoas. Tivemos ajuda também da Argentina, México, África do Sul, de alguns países da Europa. A Associação Seniors masculina e feminina dos Estados Unidos cada uma doou US$ 1 mil."

Powless ainda terá mais cerca de US$ 15 mil de apoio de um evento que a própria Sandra organiza para o dia 9 de dezembro. Será a exibição de seu documentário Gold Balls em um teatro em Madison. O duplista americano Rajeev Ram, um dos melhores do mundo e que disputou o ATP World Finals, em Londres, se dispôs a comparecer e enviar ajuda financeira. No momento, porém, Nick Bolletieri ainda não se manifestou para qualquer apoio, revelou Powless. "Não recebi ajuda do Bolletieri a quem dei o primeiro emprego de sua vida. Mas também não sou uma pessoa que vai atrás e fica pedindo, não sou de fazer isso. Ano passado estive em um evento com a mãe do Andy Murray (Judy) e com o Nick, ele me cumprimentou normal. Vez ou outra nos encontramos em alguns eventos. Mas não sou aquele cara de perguntar, pedir dinheiro, não gosto de dizer isso."

Powless estreia nesta quarta-feira em Porto Alegre contra o australiano Adrian Alle, terceiro do mundo. Alle venceu seu primeiro jogo contra o brasileiro Nilo Moreira nesta terça-feira por 6/3,2/0 e desistência. A disputa promete ser apertada, mas John vê rivalidade saudável. "Conheço ele muito bem. Alle, nesse estágio da carreira, é mais diversão, quando somos jovens é que tem aquela rivalidade. Somos amigos de longa data, sentamos à mesa, conversamos, combinamos de sair para jantar juntos. Fizemos boas partidas, nosso recorde é meio a meio. O nível da categoria está alto, pois o Nilo Moreira o havia derrotado no Chile. Mas aqui a recompensa é a amizade."

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