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Telles investe no universitário e mira o profissional
23/11/2017 às 08h00

Leonardo Telles está no terceiro ano do universitário nos EUA

Foto: Nelson Toledo/Fotojump
Felipe Priante

Convidado da organização para a disputa do IS Open, future de US$ 15 mil disputado nesta semana no Clube Paineiras do Morumby, o paulista Leonardo Civita-Telles não é dos jogadores mais conhecidos no país, já que há dois anos e meio vive em Austin, onde concilia os estudos na Universidade do Texas com o tênis universitário. Aos 22 anos, ele ainda tem um ano e meio pela frente no curso de finanças, mas já projeta a transição para o profissional.

"No meu último ano eu vou tentar mesclar bastante os torneios profissionais, para tentar fazer uma transição mais tranquila entre o universitário e o circuito", disse o paulista em entrevista para o TenisBrasil. Atualmente sem ranking, Telles tem como melhor colocação na ATP a 1036ª alcançada em setembro de 2015, sendo que o desempenho mais destacado em futures foram duas semifinais.

Em seu retorno aos torneios profissionais em mais de um ano, o paulista não se deu bem e acabou eliminado logo na estreia no Paineiras, superado pelo pernambucano José Pereira. No tênis universitário, ele ajudou sua equipe a chegar nas quartas de final do último torneio nacional e aparece na 86ª posição no ranking individual.

Telles também falou um pouco sobre as particularidades da competição universitária norte-americana, descreveu um pouco como é o seu dia a dia e contou algumas curiosidades, como a regra que permite que a torcida se manifeste em qualquer momento no meio dos pontos, e histórias do período que está estudando e jogando lá no Texas.

Confira como foi o bate-papo com o paulista:

Como surgiu essa ideia de ir jogar no tênis universitário norte-americano? Foi algo que você já vislumbrava antes ou simplesmente foi uma oportunidade que pintou?

Eu gostava muito da ideia de ir, mas nunca, até a hora de decidir ir, eu estava seguro que queria ir para o universitário. Sempre achei que podia ser uma possibilidade, um caminho a seguir, mas só foi algo que eu vi mesmo quando sentei com meus treinadores e minha família e defini que era o melhor caminho para mim.

O que você colocou na balança na hora de definir ir para o universitário o arriscar entrar no circuito?

Foram duas coisas de mais peso que eu coloquei. Primeiro é que a média entre os jogadores melhores do mundo está aumentando, cada vez eles estão chegando lá mais velhos e isso foi uma das coisas. Também coloquei em conjunto ver que cada vez mais há jogadores saídos do 'college' entrando no top 100. A segunda é ver muitos jogadores que tentaram e acabaram não conseguindo e eu gostaria de ter um plano B, por isso decidi que ir para os Estados Unidos era uma boa ideia.

Você está cursando o que lá?

Estou estudando finanças com uma especialização em investimentos bancários e estou gostando.

Como é feito o esquema lá para que os atletas conciliem os estudos com os treinos e os jogos?

Não posso dizer por todas universidades, por cada uma tem um esquema diferente. A que eu estou tem uma equipe por trás que te ajuda a distribuir melhor o seu tempo e dá ajuda quando precisa. É muito puxado, às vezes a escola vai melhor que o tênis e outras o tênis melhor que o acadêmico.

Como é o seu dia a dia?

Eu começo o dia ás 8h da manhã com aula, de segunda a quinta. Tenho dois períodos de treino, um individual e outro com grupo, além da preparação física. Começo meu dia às 8h e só termino às 19, é bem puxado. E depois disso ainda tenho que fazer alguma coisa para os estudos.

Quais as principais dificuldades que você enfrentou chegando lá?

A primeira foi não ter podido jogar no meu primeiro ano, pois tinha excedido o número de torneios profissionais que eu joguei antes da ir para a faculdade. Afetou muito o meu tênis não poder disputar os jogos por um ano.

Como funciona as competições no universitário norte-americano?

A temporada é dividida em duas. De agosto a dezembro acontecem os torneios individuais, que às vezes duram uma semana inteira e você acaba perdendo a semana de aulas. De janeiro a maio acontece a disputa entre equipes e estes jogos são sempre nos finais de semana.

Você já tem um planejamento de carreira para o futuro?

Tenho mais três semestres e pretendo sair jogando depois de concluir o curso, pois sempre foi um sonho meu. No meu último ano eu vou tentar mesclar bastante os torneios profissionais, para tentar fazer uma transição mais tranquila entre o universitário e o circuito.

Tem algum jogador saído do universitário no qual você espelha para trilhar o caminho depois como profissional no circuito?

O que eu mais ouvi quando tomei a decisão de ir para a universidade é que são muito poucos os que saem de lá para jogar. Minha maneira de encarar isso é: "Quantas delas foram para lá com a mentalidade e o foco de fazer quatro anos e sair jogando?"...acho que diminui o número. Não tenho alguém para me espelhar, quero traçar o meu caminho.

Um dos seus sobrenomes é Civita, uma família muito famosa (que fundou o Grupo Abril). Qual o seu parentesco com os que comandam a editora?

Nunca me perguntaram sobre isso, você é o primeiro. A família Civita é muito grande e eu, minha mãe e meu avô somos uma pequena parte da família. Tenho muito orgulho pelo que meus familiares construíram, mas isso não influencia em nada para mim.

Como foi para você jogar esta semana no Brasil? Aproveitou as férias para voltar para cá?

Na verdade eu não estou de férias, mas surgiu a oportunidade de jogar aqui em São Paulo, poder ficar em casa, ver meus familiares e meus amigos e jogar no clube em que treinei antes de ir para a faculdade. Achei que era uma oportunidade incrível, que não podia perder. Recebi o convite da organização e sou muito grato por isso. Conversei com meus professores e treinadores e assim encaixei o torneio no meu calendário.

Seus resultados em duplas lá nos EUA são muito bons e hoje em dia o Brasil está muito bem nesta modalidade. Você pensa em ter na dupla um plano B?

É uma coisa que está longe, já passou pela minha cabeça sim, mas no momento eu não acredito que vá seguir por este caminho. Mesmo que eu tenha ido bem nas duplas, até melhor do que em simples neste semestre, meu foco é todo em simples e não posso dizer muita coisa além disso.

Quais são as principais diferenças entre o tênis universitário e o que é jogado no circuito?

Antes de eu ir para o tênis universitário eu pensava que não ia ser muito forte, que teria alguns jogadores bons, mas o nível não seria igual aos futures, por exemplo. Acabou que eu fui para lá e vejo que é muito mais forte do que eu pensava.

Você sente a diferença de enfrentar jogadores mais velhos nos futures ou nem tanto assim?

Existe essa ideia de que os jogadores mais velhos e mais experientes podem enrolar os mais novos, mas o tênis universitário ensina muito. São regras diferentes e você aprende a lidar com a pressão nos confrontos. Lá você ganha um amadurecimento igual ao dos futures, é algo diferente, mas que acaba se equilibrando.

Essa questão de gritos e torcida, é como se fosse uma mini Copa Davis? Você lembra de algum momento que tenha te marcado?

Com certeza. Você pega uns jogos lá e tem muita pressão, muita gente vendo, muita gente esperando seu resultado. Lá tem de tudo. Na minha região eles aprovaram, dois semestres atrás, uma regra em que você podia gritar a qualquer momento do jogo. Você podia lançar a bola para sacar e alguém berrar, ou mesmo no meio do ponto e ninguém podia fazer nada. Isso foi uma experiência bem diferente, você está jogando e tem alguém gritando no alambrado. Às vezes tem gente falando coisas pessoais, ou que você vai fazer uma dupla falta. Honestamente eu adoro isso, está sendo uma experiência incrível, que está me preparando para o circuito profissional de uma maneira que muitas situações que eu vou encarar vão parecer pequenas.

Foi estanho para você quando jogou pela primeira vez com essas regras?

No meu primeiro semestre em que pude jogar, em um dos nossos primeiros confrontos, que são melhor de sete pontos, ficou 3 a 3 e eu era o último na quadra. Quando isso acontece, você tem toda a torcida adversária olhando só o seu jogo, todos os jogadores do outro time olhando o seu jogo e os seus companheiros de time também. Essa foi uma experiência marcante, pois é uma pressão que não se sente jogando na ITF.

E qual foi o resultado final desse jogo?

Salvei três match-points e ganhei (risos). Acabei ganhado com 6/3 no terceiro set, se não me engano.

Você é um cara que acompanha bastante o circuito, que vê todos os jogos?

Não acompanho muito, de ver todos os torneios e saber como estão indo. Mas vejo as notícias, que ganhou aonde. O meu dia é muito corrido e às vezes você acaba esquecendo dos torneios que estão acontecendo. O jogador que eu mais sigo é o Federer, ele sempre foi um jogador em que meu espelhei.

Aqui no Brasil se joga principalmente no saibro, mas lá nos EUA o domínio é de quadras duras. Qual a sua preferência?

Eu joguei minha vida inteira no saibro, até ir para os Estados Unidos. Dos torneios que disputei antes de ir para lá, poucos foram em quadra dura. Posso dizer que meu jogo foi moldado para o saibro, mas eu adoro jogar em quadra rápida, gosto muito do estilo de jogo neste piso, que é mais ofensivo, com menos espaço para quem fica muito atrás e para quem fica tentando enrolar. É um jogo muito mais direto e isso eu adoro no tênis.

Como você se definiria como jogador?

O tênis mudou muito e eu antes de ir para a faculdade podia me descrever como um jogador consistente e que jogava mais na defesa do que no ataque. O que eu mais trabalho nos meus treinos é em tentar ser agressivo o máximo de tempo possível e é nisso que eu vejo o futuro do tênis.

Qual sua opinião para as regras que foram testadas no Next Gen Finals?

No universitário eles mudaram a regra do "let" porque muitos jogos não têm árbitros e muitos aces os caras chamavam "let", aí virava uma guerra. Para a ATP eu acho que não deveria tirar, pois você tem árbitros, sensores e todas essas coisas e por isso deve se manter como está. Tirar a vantagem também deve ficar como está, é uma mudança muito grande para o tênis e não vale a pena.

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